Quanto mais eu converso com as pessoas, mais eu vejo dois extremos: pessoas preocupadas com a representatividade da mulher negra no combate ao racismo e pessoas que acham que não existe “tanto” racismo no Brasil, que isso tudo tá um pouco exagerado. Claro, sem falar na turma que é racista de forma consciente e assumida, mas essa galera graças a Deus não está no meu convívio diário, hoje isso seria um problema pra mim.
Nessa situação me peguei numa crise. Como fazer um post para ajudar a turma que não tem consciência do privilégio branco a entender os problemas de preconceito racial que enfrentamos na sociedade? Esse não é um post para roubar o lugar de fala de ninguém, esse é um post meu, de branca pra branca, pra gente falar sobre os motivos pelos quais eu, que ainda estou engatinhando no assunto, acho que são fundamentais para propor uma desconstrução que nos ajude a enxergar a importância dessa luta por representatividade que as mulheres negras estão fazendo.
A nossa cultura é nova se comparada ao resto do mundo, ela também é viva e por isso acredito sim que devemos buscar entender os motivos pelos quais devemos retirar expressões e conceitos racistas da nossa rotina.
Joana, como você entendeu que você tinha esse privilégio branco?
No dia em que li um comentário numa foto de Maraisa Fidelis, do blog Beleza Interior. Questionaram a Mara se a bolsa Gucci dela era original. Pode parecer idiota ou elitista pra você, mas pra mim não foi. Eu, naquele dia, enxerguei que em anos de blog nunca haviam feito tal pergunta pra mim. Nunca questionaram uma bolsa minha ou da Carla, que assim como as da Mara, são originais. Nunca tivemos que dar satisfação sobre isso para ninguém.
Quando fui indignada falar com Maraisa, ela me disse outra coisa que pesou: “Joana, já te perguntaram se você fez faculdade?” Nunca! Pronto, quando eu vi Mara já estava enfiada na minha vida e na minha casa, fazendo a família inteira repensar. Explicou pra minha mãe que o termo mulata não era bacana, afinal vem da história em que negros tinham seu preço equiparado ao das mulas no mercado da escravidão. Depois explicou com cuidado que o uso da palavra denegrir é complicado porque significa rebaixar essa pessoa a um negro, como se fosse uma raça inferior. Mudar não é simples, mas estamos aqui pra aprender, não é mesmo?
Uma vez uma amiga que trabalhou numa grande revista me contou que poucas capas eram de mulheres negras porque elas vendem menos. Nossa, mas como que a gente aumenta a representatividade pra fazer vender mais e ajustar esses padrões excludentes de beleza, então? Bancando a ideia. Graças à desconstrução diária que estamos vivendo, as revistas estão começando a semear essa plantinha, mas precisa de mais. Mais representatividade. Nosso papel? É comprar a revista, endossar, dar lugar de fala.
@taisdeverdade posta muitas capas de mulheres negras! Sempre!
Uma vez um amigo me disse que não achava a mulher negra bonita, por questão de gosto, não por racismo. Eu apenas estranhava esse argumento, afinal, como vou discutir com uma pessoa sobre sua preferência, algo tão pessoal? Até entender que até o nosso gosto, algo que acreditamos ser genuinamente nosso e sem interferências externas, é reflexo da nossa cultura e do que somos ensinados. O padrão de beleza está mudando e nós estamos lutando para isso, mas não podemos esquecer que por muitos anos ele foi totalmente eurocêntrico, pessoas loiras, magras e do olho claro. No Brasil isso é um pouco mais flexível, mas ainda falamos de mulheres brancas e magras, e que muitas vezes pintam o cabelo. Infelizmente acredito que não é questão de gosto quando esse é o público de maior rejeição dos aplicativos de encontro NO MUNDO, segundo uma palestra recente do SXSW. As mulheres negras são as com menos crushs ou matches e isso não é uma coincidência. É questão de pré conceito, de conceito tão enraizado que a gente sequer enxerga de forma verdadeira. Seria questão de gosto se todas as belezas tivessem o mesmo peso, o que não é verdade.
Só que só piora. No #picnicdopapo em Salvador, algo de cortar o coração aconteceu. Na cidade mais negra fora da África, as quase 60 mulheres que foram, me contaram por horas sobre como usam o cabelo como forma de empoderamento, como o feminismo tem ajudado, mas algo que foi repetido diversas vezes acabou comigo. Nunca, em nenhuma outra cidade, eu ouvi relatos de estupro e abuso sexual nessa dinâmica, e todas elas eram negras. Pode soar coincidência, mulheres brancas também são estupradas, mas antes de me chamar de exagerada, procure as estatísticas. Ou melhor, nem procure, eu vou te dar uma delas. O Dossiê Mulher 2015, do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, aponta que 56,8% das vítimas dos estupros registrados no Estado em 2014 eram negras. E 62,2% dos homicídios de mulheres vitimaram pretas (19,3%) e pardas (42,9%). Naquele dia eu descobri que por ser branca tenho menos chance de sofrer um estupro ou uma violência.
Outro momento que me marcou foi o assassinato de Marielle Franco. Quanto vale a vida de uma mulher negra? Nem mesmo uma advertência. Enquanto Marcelo Freixo, que está no maior patamar do privilégio, já sofreu inúmeras ameaças de morte, Marielle foi morta sem nem ter chance de se proteger. Não vou entrar em lados políticos porque extremos não me representam, no entanto independente disso, a vida de Marielle importou pra mim. 46.000 pessoas votaram nela para que ela as representasse. Num país onde as mulheres ocupam 14% do espaço na política, sendo que 4% desses 14 são mulheres negras.
Ilustraçao Camila Rosa
Nesse post, o que eu quero é dizer que não precisamos ter vergonha de enxergarmos atitudes racistas que já tivemos, ou que ainda temos e deixamos passar por ser algo tão enraizado na nossa cultura. Precisamos é ter vergonha de não querer mudar de opinião, de não querer enxergar nossos privilégios e o que podemos fazer com ele. Precisamos mostrar que quando mulheres negras falam sobre questões que parecem improváveis para mulheres brancas, isso não é vitimismo. Precisamos sempre questionar os motivos de pessoas brancas receberem mais empatia quando falam sobre racismo. E lembrar sempre que não existe racismo ao contrário ou racismo reverso, mesmo que você tenha sofrido bullying por ser branco como a neve. É diferente, isso não diminuiu suas chances. Não importa o quanto você ache desagradável ser questionada sobre os seus privilégios, lembre-se disso. Pode ter desconforto, mas não tem preconceito.
Insta da Maraisa Fidelis : @ blzinterior
Pra mim muitas coisas precisam acontecer, mas a representatividade é um caminho que eu tenho visto começar aos poucos mudar o mundo. Mulheres negras PRECISAM se enxergar como representadas, não to aqui nem falando isso com a ideia de apenas aumentar o padrão de beleza não. A coisa é tão séria que esse me parece um problema muito menor, precisamos fazer isso para que as nossas vidas e importâncias tenham o mesmo peso, porque infelizmente hoje no alto do meu privilégio de ser branca, nascida numa família de classe média e comunicadora/ ouvinte, eu acho que estamos muito distantes disso.
Texto Glamour Brasil, vale a pena!
Cabelo crespo: será que é mesmo sua opinião ou questão de gosto? por Maraisa Fidelis.
Também no blog:
Leia também esse texto da Ca aqui no blog sobre o seriado CARA GENTE BRANCA.
Livros que todas nós podemos ler:
Na minha pele: livro do qual Carla falou aqui, do Lazaro Ramos.
Lugar de fala: de uma das pessoas que mais gostamos de acompanhar pra aprender, a Djamila Ribeiro.
Vídeos que eu acho fundamentais que a gente assista:
Um vídeo sobre isso, com a palavra a sensacional Djamila Ribeiro.
Achei esse video da Mari Xavier uma aula do racismo que não vemos, por isso trouxe ele pra cá! Acredito que todo mundo deveria ver.


13 Comentários
Thaila Carolina
18.04.2018 às 17:29Difícil você encontrar um texto com tanta representatividade nos dias de hoje. Parabéns! não só pelo texto, mas pela coragem de assumir uma postura. Muita gente prefere não ver, não comentar, enquanto isso as coisas vai tomando grande proporções na sociedade. Sempre é tempo de aprender, de emponderar. E toda mulher tem o direito de usar, e ostentar o que quiser. Cor não é fantasia!
Joana
18.04.2018 às 18:00A consciência é o primeiro passo pra que em algum momento possa haver uma mudança, creio então que devemos realmente propor um despertar de consciência coletivo.
Joci Patrício
18.04.2018 às 17:48Acho o primeiro passo é se reconhecer como racista. Eu sempre enchi a boca pra falar que não era, mas de um tempo pra cá, venho percebendo algumas atitudes, estou me policiando sobre algumas fala, abrindo a cabeça mesmo e enxergando que esse privilégio branco é muito real.
Obrigada pelo texto e por mais uma vez abrir minha cabecinha.
Joana
18.04.2018 às 18:02Eu acho que se usasse essa sua primeira frase espantaria 50% das leitoras, acho que reconhecer o privilégio é o primeiro passo para com a consciência perceber quanto de preconceito enraizado carregamos devido a forma que fomos criados na sociedade. O passado a gente não muda, é um fato, mas o presente e o futuro, estão ai pra gente tentar né? Abrindo a cabeça.
Grazzi
18.04.2018 às 17:56Maravilhoso texto, ameii♥️
Joana
18.04.2018 às 18:02Obrigada
Julia
18.04.2018 às 17:58Obrigada, apenas, obrigada!
<3
Joana
18.04.2018 às 18:02Que bom que gostou.
Camila
19.04.2018 às 11:35Meu Deus, Joana! Que texto importante e absurdamente necessário. Nós somos tão escondidos dentro do nosso próprio mundo que temos dificuldade de ver como que não está dentro dele vive.
Monique
19.04.2018 às 16:45QUE TEXTO MARAVILHOSO.
Além de muito bem escrito, tanto o texto quanto os stories do instagram me levaram a uma reflexão profunda sobre meus privilégios e sobre o lugar dos negros na sociedade.
Vocês precisam continuar falando e abordando o assunto. É utilidade pública. E eu vou divulgar sempre pro máximo de pessoas que eu conseguir.
Parabéns pelo trabalho incrível. Muito orgulho de vocês e do rumo que o blog tomou!
Larize
20.04.2018 às 11:27Olá Joana, muito bom seus comentários, eu vou parda, de família de negros, e sempre tive uma vida financeira muito boa. E me dava privilégios de frequêntar lugares q socialmente não são p negros, e sinceramente qd chegava nos lugares as pessoas já nos olham da cabeça aos pés. Minha mãe é branca e ela percebe isso. Esses dias fiz uma viagem cm meu marido branco tbm, e tds olhavam torto p mim, cm se ali não fosse meu lugar. Isso é muito triste…..e muitas outras situações q nos desagrada demais….eu pensava qd eu era pequena q com o tempo as pessoas iam aceitar mais, mas hj percebe q só piora….
Carolina Vieira
23.04.2018 às 18:47Parabéns!! são poucas as pessoas que têm a coragem de admitir que possuem privilégios. Sempre digo que o caminho é árduo, mas nada que o tempo e a informação não possa mudar!
Thais Goulart
01.05.2018 às 21:44Texto maravilhoso! Falta empatia, falta se colocar no lugar do outro, falta admitir que temos privilégios sim, em sermos brancos, de classe média e por aí vai! Tem gente que não tem noção da realidade, ou por não querer enxergar a realidade ou por falta de vivência mesmo! Parabéns por expor seu ponto de vista!