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Autoconhecimento

1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 03.03.2020

Feliz ano novo, seja ele sabático ou não.

Eu gostaria de tirar o tal ano sabático. Pegar a mochila e ir andar pelo mundo. Quando mandasse mensagem, eu responderia: “estou rezando com as mulheres na Índia”. Tudo isso poderia ser possível se eu não tivesse uma filha de 11 anos e um trabalho, onde isso está fora de cogitação. 

No entanto, é possível alguns aprendizados aqui mesmo da zona norte do Rio de Janeiro. Mas antes, agora que Carnaval terminou: Feliz Ano Novo!!!

Imagem: Amy Shamblen

Voltando ao assunto, o que posso fazer sem pegar a mochila e ir para Bali?

Posso aprender a dizer não ao que me incomoda. Ao que não combina mais, ao que não tem a ver. A relacionamentos tóxicos ou que não te acrescentam nada. 

Amizades reais aguentam meus surtos e perguntam: “mana o que está acontecendo com você?” Um namorado de verdade não vai criticar meu jeito de ser. Uma família amorosa vai me apoiar em todos os momentos. 

Vou seguir me conhecendo. Aproveitar aquele vinho, cinema, teatro, até aquele chopp no final de tarde sozinha. Amigos e parceiros (as) não são pessoas para preencherem lacunas na minha agenda. O mesmo acontece com filhos, eles crescem e as demandas mudam.

Minha história é única e incomparável. Não a comparo com ninguém. Cada um vive sua história, que tem altos e baixos, sucessos e fracassos. Quando me comparo, esqueço de celebrar minhas virtudes e conquistas. Minha autoestima não pode estar calcada em me sentir melhor do que outro, repense isso. Tenho orgulho de você!

Os outros são espelhos de mim mesma. A forma como os interpreto diz mais sobre mim do que sobre eles. Então, procure se ver com mais complacência e ter mais complacência com os outros. É mais fácil quando vemos o outro como espelho de nós mesmos. O outro nos muda e nós mudamos o outro.

Por fim e não menos importante, vá ao encontro de quem é real e recíproco em sua vida. Pare de insistir em relações vazias e sem troca, sejam elas: familiares, amorosas ou fraternais. 

E, por fim, março, ano que se inicia. Faça diferente. Seja diferente. Você não perde nada em tentar.

Bebam água.
Abracem.
E sejam felizes.

1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 02.03.2020

Diversidade de corpos e ocupação de espaços

Meu carnaval de 2020 começou a mudar em 2019, quando o Rolê de Peso foi fundado. Somos um coletivo de gente gorda que tem o objetivo de normalizar os corpos diversos. Promovemos uma festa de tempos em tempos para termos um lugar seguro e livre de preconceitos, onde a diversidade é a regra e protagonista. Passei a ser mais ativa no rolê em junho / julho de 2019.

O outro cenário: a diversidade de corpos tem sido pauta em alguns espaços, festas, festivais e o carnaval é um deles.

EPISÓDIO 1: SARAU LIBERTÁRIO

Fomos convidados pra um evento – o Sarau Libertário, para falarmos sobre os corpos diversos no carnaval. Fomos bem coloridos e alegres, mas as cadeiras não nos suportavam. Eram cadeirinhas de plástico e começamos a incomodar e a chamar a atenção das pessoas ali, da melhor forma possível. Falávamos para pessoas do carnaval e dali saíram alguns convites. Aceitamos o do bloco Haja Amor – um bloco de música independente, feminista, LGBTQIA+ friendly, e gordoativista.

EPISÓDIO 2: ROLEZINHO SENSACIONAL

Outro debate que nos envolvemos (sem sermos convidados, mas abriram o microfone aí já viram, né!) foi um bate papo promovido pelo Festival Sensacional – um festival maravilhoso que acontece em BH. Dali também saíram vários convites, mas nos sentimos no direito de recusar alguns (por estarmos individualmente envolvidos com outros blocos ou por não concordarmos 100% com uma postura ou outra). Lá eu também conheci a Luiza – que tem o projeto das Tatuagens temporárias “Não é não!”. Foi um grande encontro.

EPISÓDIO 3: START NO CARNAVAL

Na semana anterior ao carnaval eu comecei a acompanhar quando possível a jornada de TRABALHO e luta da Maíra Rodrigues, trabalhadora sócia majoritária da empresa carnaval de BH! Há dois anos ela veio parar no meu feed mas só nos conhecemos em 2019. Ela é instrutora de fitdance e eu sou aluna dela!

EPISÓDIO 4: MAXMILHAS

Na quarta começou a minha odisséia nesse carnaval. A Maxmilhas fica em BH e convidou o Rolê de Peso para falar sobre gordofobia, corpos gordos e o carnaval. Foi incrível e cheio de significado. Estarmos num ambiente corporativo falando com pessoas muito diferentes de nós – estouramos um pouquinho a bolha!

EPISÓDIO 5: BLOCO HAJA AMOR

Na quinta foi a nossa participação no Haja Amor – ele não sai em cortejo, se apresenta parado no palco da praça México. Fomos convidados e homenageadas pela ala de dança ao som de Miss Beleza Universal. Abriram o microfone pra gente falar e havia sido um dia bosta. Eu tive uma crise de pânico por um episódio de assédio moral que passei no trabalho. Outra companheira do rolê teve o whatsapp clonado e sofreu um golpe. Mas era necessário, só o close não fazia sentido. São tempos sombrios e difíceis. O bloco foi interrompido antes do fim pela polícia. Outros blocos de luta também sofreram ação truculenta da polícia militar.

EPISÓDIO 5: BODY E MEIA ARRASTÃO!

Pus a bunda pra jogo, mas com um short na pochete, pois nem todo bloco é um Rolê de Peso e tive medo de não estar segura. Mas eu fui feliz com minha roupinha e não me senti mais triste ou menos livre e carnavalesca por ter saído de short no dia seguinte.

EPISÓDIO 6: A SOLIDÃO DAS MÃES E PAIS

Bloco das tias da Iza, com Lu e Raninha.

Outra coisa que experimentei esse ano foi fazer companhia para o marido da minha amiga, que estava com o bebê deles enquanto ela tocava no cortejo do Batiza. Ele estava só. Muita gente passou, mexeu com a Iza, o cumprimentou, mas ninguém quer ser tia no bloco. Ninguém quer beber menos ou andar mais afastada da bagunça pra ser apoio ou só companhia mesmo. Eu e mais duas amigas fomos as tias da Iza e companhias do Felipe. E foi ótimo!

EPISÓDIO 7: A MELHOR SEGUNDA-FEIRA DO ANO

Eu já falei da Maíra aí em cima. Ela é fundadora do bloco Daquele Jeito, que sai toda segunda-feira de carnaval. Ela havia me convidado há algum tempo para abrir o bloco, com uma fala sobre os corpos diversos. O carnaval de BH esteve ameaçado pela truculência, pela isenção de posicionamento, pela politicagem e pela burocracia. Juridicamente, o lado de cá perdeu, mas fomos para as ruas na força do ódio mesmo. Até segunda, tinha bloco que havia cancelado o cortejo sem saber se ia sair – e saiu! A advogada dos blocos é produtora do Daquele Jeito. A Laura foi ovacionada e merecia 100 vezes mais. Uma mulher peitando o poder público, pondo a cara na imprensa.. cheia de coragem… Olê olê olê olá, LaurAA LaurAA era o que se ouvia antes do bloco sair!

Eu aceitei o convite, mas ponderei que a militância daquele momento era o próprio carnaval de rua e a livre ocupação dos espaços públicos. Que estava tudo certo se declinassem o convite. Na concentração do cortejo a Maíra me perguntou se eu ainda estava disponível pois o convite não declinara. Eu estive disponível, tive medo, receio, pensei se a roupa estava boa e pensei na Anelise de 30 anos que chegou no carnaval de BH há 5 anos sem saber da existência da palavra gordofobia, que viu o carnaval passar e pensou que, quando emagrecesse, sairia de biquini! Ano passado eu superei uma parte – tirei a camiseta e saí com o sutiã do biquini. Segunda agora eu estava com hotpant de um biquini meu, um top de academia, meia arrastão.. como as mulheres magras que eu vi no carnaval de 2015. O cortejo cantou 3 músicas e eu fiz a primeira fala: Bom dia, democracia! Os meus registros estão picados, mas eu gostaria de dividir com vocês.. eu, meu barrigão, meu luquinho, minha história, a militância de tantos e o suporte de todas e todos que estão comigo nessa jornada. Obrigada Maíra, Lu, Rani, Margareth,… Só por estarem lá e me serem acolhida! Obrigada Ana Luiza, por ser a representatividade fora da bolha.. você foi fundamental pra esse carnaval. Obrigada, Camilla por dividir a paixão, a alegria e a luta!

EPISÓDIO 8: VIBES E TAL

Foi muita energia diferente na segunda. Não tive energia para outro bloco. Fiquei vendo os stories, conversando com as pessoas.. tentando entender o que era aquilo. Eu, mulher gorda, com muitas inseguranças, parando o carnaval dos outros pra falar de gordofobia e de machismo. Ainda não entendi, mas o episódio 8 foi sobre não sair de casa na terça. Eu precisava descansar, precisava por as ideias no lugar, precisava ouvir e também falar.

Eu vivi um milhão de coisas nesse carnaval, mas algumas certezas se renovaram mim:

  1. Meu corpo é político e não é piada
  2. O carnaval de BH é de luta e precisávamos lembrar disso
  3. Sozinha ninguém vai a lugar nenhum. Carreguei comigo todas as mulheres que eu já ouvi e me ajudaram a construir meus argumentos, as que me dedicam afeto e carinho pois eu preciso disso (canceriana, mores), as minhas companheiras amigas de luta e de vida.

Obrigada, Papo. Vocês todas estiveram comigo nessa odisseia!

2 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 19.02.2020

Ok, minorias importam pra você… Mas até que ponto?

Queria fazer uma pergunta delicada aqui no blog, mas antes preciso colocar um conceito em perspectiva. Quando falo em minorias, não falo de números absolutos, mas em ocupação de espaços de poder.

Considerando que ainda hoje em dia, o homem hétero branco é a maioria – ainda quase absoluta em alguns setores – de ocupação de espaço. Seja nos altos cargos na carreira, no poder público e privado. Eu queria saber de vocês aqui:

Quais de vocês já se relacionaram afetivamente com alguém que não atende ao requisito de homem hétero branco típico padrão?

Se você respondeu não, significa que você nunca se relacionou com homens negros. Ou com alguém que tenha alguma deficiência, ou até outras mulheres. Ou alguém com alguma questão que o/a transforme em uma minoria de ocupação de espaço.

Bom, esse post não tem a intenção de te julgar, mas sim de causar uma reflexão. Será que é coincidência? Provavelmente não.

ilustra: Mara Drozdova

Pergunto isso porque tenho visto algumas pessoas que INVALIDAM todo e qualquer debate sobre a importância de nos acostumarmos com pessoas diferentes ocupando espaços e dando a elas OPORTUNIDADE de chegar onde quiserem. E nesse caso, EM GERAL noto que são pessoas que falam que não têm preconceito. Mas percebo que elas JAMAIS se relacionariam com uma pessoa fora do esperado, em qualquer que seja a questão do padrão.

E que mal há nisso? Exemplifico. Noto gente que não convive com nenhuma pessoa negra dizer que não é uma questão de racismo, é uma questão social. Mas não há uma pessoa negra no mesmo nível social em seu convívio, então ela nem consegue saber se ela também passa por barreiras só pela cor da pele. Sem uma convivência real ou uma troca de ideias sem muros, não saberemos nunca o que o outro passa.

Sinto que o medo do que os outros irão achar causa um certo desconforto social. As vezes, para as pessoas serem quem são, é preciso ser compensado por algo só por não atender a um padrão. Pessoas que vivem a realidade de julgamento coletivo, de menos oportunidade, acabam tendo que se provar 20x mais. Já pensou ter que lidar o tempo todo com a dificuldade da sociedade aceitar o “diferente”? Cansativo.

A gente fala muito que não tem preconceito, mas o quanto a gente se cerca de gente diversa? O quanto estamos abertas a ouvir sobre outra perspectiva? Quanto espaço a gente abre pra enxergar os humanos todos com o mesmo valor? Essas perguntas levam a uma última, muito dolorida:

Nesse contexto a gente se questiona sobre nosso gosto, interesse e escolhas que parecem automáticas?

Minorias e seus debates não são todas iguais. Cada grupo fala da sua luta. Mas o que me preocupa é o que a maioria faz. Até onde nos propomos a ter empatia, a fazer a diferença ou mesmo a nos preocupar com o que os outros passam?

Quantos casinhos temos com pessoas que vivem em outras bolhas e recortes? Quantas amizades nutrimos com pontos de partida diferentes? Quanto de diversidade e de compreensão a gente procura ter na nossa vida?

Há muita coisa que só quem passa vive, mas quem tá perto aprende. Mas sem estar perto, é fácil dizer que não existe. Sem conviver acaba sendo muito fácil esquecer ou até não se importar, mas até se isentar é escolher.

Vejo muita gente invalidar ou invisibilizar essas lutas dizendo que somos todos humanos.

Somos, claro. Mas isso não nos faz menos capazes de enxergar as nuances e diferenças. Muito pelo contrário, isso faz com que lutemos por mais respeito coletivo. Não é porque nós tivemos oportunidades que devemos silenciar a luta de quem não teve. Não é porque um conseguiu conquistar tudo mesmo na adversidade que podemos romantizar a falta de oportunidade. Não é porque a outra pessoa é diferente de você que ela não pode ser parte da sua felicidade.

Então pare para refletir: Você se relaciona ou se relacionou afetivamente ou mesmo de forma próxima com pessoas que são minoria em ocupação de espaço de poder?

Eu posso dizer que sim e isso me fez aprender muito.

Agora, que fique claro: não sou boa samaritana ou salvadora por isso. Até porque eu mesma tive minhas questões com o sobrepeso das diferenças em algumas situações. Mas vivi, aprendi e aprendo com todas essas experiências que escolhi até aqui. Até mesmo enxergar o preconceito enraizado na sociedade de forma prática me ajudou a enxergar o mundo de uma forma mais consciente. E até hoje me pego caindo em certas questões que meu privilégio de mulher branca, hetero e com uma situação financeira legal me colocam.

Estamos inseridos nesses preconceitos. Querendo ou não, para lutar contra, precisaremos enxerga-los . É sistêmico, mas podemos fazer nossas escolhas conscientes do momento que nos abrimos a escutar.