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Autoconhecimento

0 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 10.10.2019

Eu não quero mais reclamar

Vamos ser sinceras? Reclamar é gostoso. É fácil, é muito simples. Você sobe ali no pedestal da reclamação e comenta do seu chefe, da colega de trabalho, da sua celebridade favorita, da sogra. A sensação parece boa na hora. E daí você continua fazendo e fazendo. Até que você se torna uma reclamona profissional sem perceber. 

Em dias ruins e estressantes, é fácil reclamar de qualquer coisa que me incomode. O trânsito, o clima, um amigo. Quer seja em voz alta para quem pode ouvir, ou apenas pensar na minha cabeça.

Reclamar é tão natural para muitos de nós quanto respirar. 

ilustra: Kathryn Honesta

Alguns desabafos são saudáveis para evitar aquele acúmulo de sentimentos. Dividir certas reclamações com amigos pode trazer uma nova perspectiva e até mesmo soluções. Mas reclamar demais pode causar estresse crônico, afetar nossos relacionamentos e até mesmo afetar nossa saúde. Então, o que devemos fazer? Parar de reclamar. Pois é.

Não é fácil, porque reclamar é contagioso e pode até mesmo estreitar laços. Quem aqui já fez uma amiga por detestar as mesmas coisas? Eu já! Mas você pode acabar contaminando um ambiente inteiro sem nem perceber. E ninguém gosta de ficar perto de gente que só reclama, né?

Se você não tem certeza se reclama muito, analise suas falas, suas mensagens. Perceba por quê os assuntos que você tem com seus amigos começam e por quê eles acabam. Veja se o tom das suas falas são mais positivos ou negativos. Pense em quantas coisas você reclama em um dia.

E qual é o oposto de reclamar? Pra mim, seria ser grata.

Embora tenha caído no gosto de todo mundo, a palavra “gratidão” tem um significado muito forte e vai muito além de uma hashtag ou uma modinha de bem estar. 

Gratidão é quando olhamos ao nosso redor e conseguimos observar o que tem de bom nas coisas, na vida e nas pessoas. É a gratidão que nos salva de sermos reclamonas e que também combate as pessoas que reclama ao nosso redor. Experimente mostrar uma perspectiva diferente e otimista para um reclamão. Ele pode até ficar bravo na hora mas a alegria e a gratidão, assim como o hábito de reclamar, também são contagiosos. Como você prefere ser reconhecida?

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 02.10.2019

Por quê você se incomoda quando suas escolhas são questionadas?

“Agora com essa onda de libertar os cachos, aceitar os crespos ou militar contra a gordofobia, parece até que eu não posso mais escolher alisar meu cabelo ou querer emagrecer”.

Esse raciocínio aparece quase TODO SANTO DIA nas nossas redes sociais. No grupo, por direct, as vezes até mesmo por e-mail. E a gente acaba repetindo sempre a mesma coisa: esse debate não é sobre você, é sobre o coletivo. Individualmente – e teóricamente – toda mulher pode ter o cabelo que quiser, no corpo que ela desejar.

No entanto, precisamos questionar essas escolhas que atendem a um único padrão de beleza e perfeição, por mais que a gente opte por elas. Elas nos são vendidas de maneira inofensiva, como gosto ou escolha pessoal. E isso é feito de forma tão natural que nem pensamos direito sobre, por isso gostamos de bater na tecla desse debate por busca de consciência. Ele é importante pra gente parar pra pensar.

ilustra: Nataly Menjivar

Numa sociedade miscigenada que investe tempo, dinheiro e saúde na busca por um único padrão de beleza eurocêntrico, esse debate de escolhas não é tão simples. O contexto coletivo faz pressão no individuo, que buscando ser aceito, pertencer ou até mesmo para conseguir oportunidades de trabalho, acata aquela pressão como certa sem questionar. E nem precisamos falar que, no caso, o indivíduo em questão é do sexo feminino, certo?

Ter consciência desse contexto não obrigatoriamente vai fazer com que mudemos todas as nossas escolhas. Mas nos faz entender de uma vez por todas que a liberdade do outro não deveria nos incomodar.

Por quê será que um discurso que sempre foi oprimido é visto como uma ditadura?

O problema, a meu ver, é que não é fácil aceitar que hoje você se sente melhor de cabelo liso ou mais magra porque você foi criada recebendo mensagens que cabelo cacheado é feio. Ou que ser gorda é sinônimo de uma pessoa que não se cuida. A gente descobre que nossos pais podem ter reproduzido discursos racistas inconscientemente, que alguém que amamos ou que confiamos é gordofóbico, que tivemos amizades que nos influenciaram de maneira negativa.

Nós fomos educadas a procurar “defeitos” em nós mesmas. Qualquer coisa que fuja disso já é um ato revolucionário de se libertar da falta de amor próprio tão comum entre nós.

Por que a liberdade do outro incomoda?

A liberdade individual de alguém só causa incômodo quando revela algo de nosso ali. Se passamos a vida gastando nosso tempo e dinheiro em busca da magreza, enxergar que essa não é a única opção pode ser desafiador. Por isso, acredito que o outro ser livre só causa uma reação negativa na gente quando nos faz enxergar que estamos presos em alguma alguma crença limitante que, de tanto que foi repetida, virou verdade.

Vou dar um exemplo pessoal. Apesar de ter aberto mão de viver em função de um corpo magro, sigo escolhendo alisar o meu cabelo. Aos 19 anos eu me divorciei dos meus cachos por pura pressão estética. Já me reconheço assim, gosto do que vejo no espelho e da praticidade que eu estou acostumada a ter. E por mais que me questionem sobre essa escolha, entendo que o debate é sadio e não é sobre mim. Ele é sobre todas nós. Não existe “mais uma opressão” para eu voltar a ser cacheada.

A liberdade das cacheadas não me incomoda, por mais que eu alise. Muito pelo contrário. Justamente por isso eu acho a visibilidade delas fundamental.

Vejo claro como água como foi um gosto construído por uma falta de representatividade ao meu redor. Aprofundando as camadas desse debate enxergo que, mesmo sendo branca, o racismo estrutural é a raiz do preconceito com o cabelo crespo e cacheado, tantas vezes estigmatizado e chamado de “cabelo ruim”. Numa sociedade onde o padrão de beleza é a mulher branca, o cabelo da mulher negra não teria vez mesmo. Precisaria de “um jeitinho”.

Eu imagino que tudo seria diferente se tivesse crescido sob a influência dos movimentos de aceitação capilar. Talvez eu tivesse aprendido a cuidar do meu cabelo, a olhá-lo no espelho e gostar do que via refletido, e talvez minha história seria outra.

ilustra: Ambivalently Yours – “não se olhe através dos olhos de outras pessoas”.

Mas não foi. Hoje vejo que seria simplesmente uma questão de preferência pessoal se, socialmente, um cabelo cacheado e um cabelo liso valessem a mesma coisa. E entender isso me ajudou a enxergar a importância do debate coletivo, independente das minhas escolhas individuais.

Acho que agora que eu já me usei como exemplo, quero nos convidar para ir além. Essa discussão fica mais profunda e mais importante quando entendemos a importância do debate coletivo. Como bem pontuou Adhara Ferrari, que participa do nosso grupo:

Vejo que muita gente se incomoda com movimentos de aceitação por pura projeção pessoal. Isso é, quando não estamos seguras, confortáveis ou até mesmo conscientes dos motivos que nos levaram a certas escolhas, nos incomodamos quando vemos alguém seguindo outro caminho – e feliz com ele. Quando essa pessoa consegue exercer a sua liberdade desprendida de um padrão, ela pode se expressar da maneira que quiser. Ser livre assim nos incomoda quando estamos presos. Por isso, as vezes uma simples pergunta feita em relação à nossa escolha incomoda profundamente.

Acho que agora que eu já me usei como exemplo, quero nos convidar para ir além. Essa discussão fica mais profunda e mais importante quando entendemos a importância do debate coletivo:

Será que quando alguém que te pergunta por quê você se gosta mais magra, ou de cabelos alisados, é de fato um julgamento? Será que quando você houve uma influenciadora pregar o amor próprio, isso é uma imposição?

Eu prefiro encarar tudo como um convite para nos fazer enxergar a estrutura que estamos inseridas. Assim fica mais fácil para achar o equilíbrio. Com um olhar mais flexível e menos julgador nós poderemos nos conhecer melhor, com isso ficaremos mais seguras de quem nós somos e o que o outro pensa sobre nós acaba perdendo a força.

Enquanto o mundo só enxergar beleza em um tipo de corpo o conceito de gosto vai seguir atendendo à demanda do outro, em busca de aceitação e pertencimento externo. Quando deveríamos estar investindo na nossa autoestima, na nossa autoaceitação, só que isso não é fácil.

Se você come de forma leve e se exercita porque realmente gosta e se conecta com esse estilo de vida, as escolhas diferentes do outro não vão te incomodar. Se você alisa o cabelo, mas reconhece o contexto, vai ser mais do que normal você incentivar o debate da aceitação capilar. Ter consciência das próprias decisões de forma coletiva traz uma segurança, nos fortalece e assim, a gente não se incomoda quando temos nossas escolhas questionadas. Nesse contexto, conseguimos ser mais flexíveis e fica mais fácil entendermos que questionar os padrões não é nos questionar.

2 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 26.09.2019

De volta para casa, um texto sobre nadas e tudos

Quem me segue no Instagram já sabe que após um ano morando em Amsterdam, por motivos que talvez virem textão um dia, peguei minhas coisinhas e cruzei o Atlântico de volta para casa. E esse é o principal motivo para eu ter sumido daqui em agosto!

Primeiro pela correria da mudança. E segundo porque voltar para o Brasil foi meio surreal. E se tudo ficou confuso na minha cabeça, não teria a menor possibilidade de colocar o que estava sentindo em palavras.

Acho que foi a primeira vez em muito tempo em que Mayara não sabia o que dizer nem sentir.

Mas agora que estou há mais de um mês me readaptando, as coisas parecem estar mais “normais”. Entre aspas porque eu ainda não tenho um trabalho. Porque fiquei quase 10 dias de repouso em casa por conta de uma caxumba e as roupas que ficaram um ano guardadas no armário não me cabem mais e, bom, não tenho a rotina que eu tinha antes de ir embora. Não ter rotina é algo que me incomoda bastante e não me ajuda a sair do modo “férias”. Sinto que vou voltar para Amsterdam a qualquer momento (ou para o trabalho que eu tinha antes de ir para lá). 

Na real mesmo, parece que Amsterdam aconteceu num universo paralelo, tipo Upside Down de Stranger Things.

Não que não existiu, já passei da sensação de que foi apenas um sonho. Mas é como se existissem duas vidas: minha vida de Amsterdam e minha vida de São Paulo. Muito louca essa sensação, e eu nem to em condições físicas ou mentais de tentar entender tudo de uma vez. To indo aos poucos, sentindo a temperatura da água antes de entrar, um passo de cada vez, suave na nave (insira aqui outro ditado). Mas se alguém ficou um tempo fora, voltou para casa e se identifica com alguma baboseira que escrevi até aqui, por favor me manda um alô. Vamos trocar figurinhas, me ajuda, HELP!

Eu pensei muito e por alguns meses antes de tomar a decisão de voltar. E quando eu finalmente decidi sobre a volta pra casa, decidi também não pensar muito sobre o que isso significaria.

Troquei de trabalho para poder passar mais tempo curtindo Amsterdam e os amigos que fiz lá. Juntei um dinheiro, planejei algumas viagens e foquei nesses momentos, no pré-volta, sem expectativas do que seria ou deixaria de ser. Comi muito, bebi mais ou menos, dancei mais do que imaginava, conheci gente nova aos 45 do segundo tempo, andei de moto pelas ruas de Madri, bebi champagne no pé da Torre Eiffel, agradeci por tudo em Jerusalém, revi amigos que há anos não via. Deixei para me preocupar com o que eu precisasse me preocupar quando chegasse aqui. 

Enfim, gente. Vim aqui falar sobre nadas e tudos. Vim falar sobre ter fechado um ciclo e ter deixado a Holanda com o coração leve, alegre e cheio de gratidão por cada coisinha que pude vivenciar. Dos perrengues ao gramú, porque todos eles fizeram da Mayara quem ela é nesse exato segundo. Ainda não tenho as respostas para tudo e não sei o que vou fazer “para sempre”.  Porque não dá para ter todas as respostas e porque, apesar de ser uma romântica assumida, mais do que nunca entendo que “para sempre” é sim relativo. No final, o importante mesmo é entender o que faz sentido na minha vida agora. E agora, faz muito sentido estar em casa.