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Autoconhecimento

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Convidadas/ Destaque no dia 21.10.2020

Minhas sombras me libertam

“Somente quando temos coragem suficiente de explorar nossa escuridão, descobrimos o poder infinito da nossa própria luz” (Brene Brown – Livro A coragem de ser imperfeito) 

O que vivo como mulher me faz pensar em como sou filha, mãe, tia, irmã, amiga, trabalhadora. Sou luz, sombra, virtude, vícios, monstro, poesia, adrenalina. Em geral, só queremos postar as fotos bonitas, lembrar dos bons momentos, dos sorrisos, das conversas sobre as boas coisas. Pensar em nossas vacilações, carências, erros, medos, o fundo do poço dói. Mas é aprendizado, tanto quanto os momentos felizes.

Aprendi em cada dor que tive, em cada desamparo, em cada fome, nas partidas, nas lágrimas.

Não é preciso alguém ir embora ou morrer para partir. Já vivi o adeus de alguém que estava ao meu lado, de amigos que amava, de gente que me excluiu, que não me acolheu. Mas eu também aprendi com minhas monstruosidades, minhas sombras, minhas ansiedades, até mesmo com os momentos em que não escutei o que me diziam, os que gritei minhas verdades (seriam elas verdades?).


É preciso elaborar meu brilho e o espaço obscuro em mim, equilibrar as forças e entender que sou a soma de todas as coisas, completa e não perfeita. Ufa, que bom isso! Às vezes, a realidade é opressiva, mas também libertadora. Como pode ser isso? Como podemos viver uma experiência opressiva e libertadora? Quando percebi que estou viva, me amo, reconheço o que de pior há em mim e sigo inteira, me sinto livre.

Como assim livre?

Livre de tantas gaiolas, de tantas prisões que eu e a sociedade colocam. Ao mesmo tempo que sou oprimida como mulher, como mãe, como trabalhadora, me liberto porque enxergo as barras que me prendem. Elas perdem a força quando não as temo mais. Morri ano passado, esse ano não morro mais, já dizia um profeta. E assim sigo um pouco mais em paz.

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 01.10.2020

Por quê mulheres têm tanto medo de envelhecer?

Recentemente Madonna postou um posicionamento polêmico em suas redes sociais. Nos comentários, muitas pessoas apontando que não acreditavam que Madonna tinha virado uma “velha maluca”. Mulheres mais velhas que ousam mostrar seus corpos em revistas ou redes sociais são vistas como doidas, que perderam a noção do ridículo. Se uma mulher mais velha ousa rebater uma pessoa mais jovem, ela é invisibilizada porque reclamar é “coisa de velha” mesmo. E desses exemplos que demos, pelo menos 2 deles você só vê acontecendo com mulheres.

Não é de se espantar que mulheres têm medo de envelhecer.

Ou de mostrar os sinais da idade. Juliana Ali já falou algumas vezes sobre etarismo aqui, como esse texto, ou esse aqui. E resolvemos nos unir novamente para falar sobre isso.

Mas dá pra gente tentar mudar esse quadro. Repensar a forma que tratamos as mulheres mais velhas. Que enxergamos elas. Que nos referimos à elas. Porque bater um papo sobre autoestima também é falar sobre esse assunto.

E como a melhor forma de mudarmos nossas percepções é ouvir, ver e seguir mulheres mais velhas, indicamos algumas pra vocês: @avosdarazao @donadirceferreira (que inclusive foi inspiração pra última ilustração) e @voizaurademari. Não podemos deixar de indicar também o trabalho da @lu.mich, que tem muitas conversas sobre aceitação, feminismo e padrões de beleza.

3 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque/ Saúde no dia 21.08.2020

Gordofobia médica na gravidez

Neste mês, celebrou-se o dia da gestante e muitas fotos lindas de mulheres grávidas correram as redes sociais. Uma potência de vida em cada foto, em cada história. Minha experiência com a gestação, foi um pouco diferente.

Em um país que tem as mais altas taxas de cesáreas do mundo (55% dos nascimentos), precisamos conversar sobre violência obstétrica, fato que acontece há décadas na América latina. O que está muito presente entre as gestantes é a falta de informação e o medo de perguntar sobre o parto e sobre tudo que ele envolve.

A violência obstétrica atinge 25% das mulheres do país, seja na hora do parto, seja no pré-natal. Dessas, 62,8% são negras. Não há pesquisas sobre mulheres gordas. Mas basta conversar com várias ou ler relatos nas redes sociais para entender o drama. 

Enquanto boa parte das mulheres tem uma gestação acolhida, a mulher gorda é sempre vista com certa desconfiança: “como ela pode estar grávida?” “Será que está grávida ou gorda?”. Quem a assiste muitas vezes não sabe explicar que ela irá demorar pra sentir o bebê, para que a barriga apareça e que ela pode, sim, ter um filho de parto normal ou natural.

A cesariana entra como salvação e saber médico. Nada é conversado com a paciente. Falo isso por experiência própria: internei, fiquei horas esperando a cesárea de emergência e ninguém (da equipe médica) conversou comigo sobre tudo que viria a seguir. Detalhe: eu nunca havia passado por uma cirurgia na minha vida e informei isso a minha obstetra.

É importante relatar que a pessoa que eu era, não sou hoje. Hoje entendo que boa parte dos traumas que tenho em relação à cirurgias e a não desejar outro filho vieram dessa experiência. Me curo todos os dias ao fazer as pazes com esse corpo que me trouxe até aqui. Tive minha saúde mental completamente ignorada e parecia que somente meu corpo era enxergado. Peraí: meu corpo, não. Minha gordura e meu IMC. E até hoje isso não mudou.

Fico sempre pensando, quando a medicina se tornará efetivamente humana? Quando serei olhada para além do corpo? E serei realmente escutada? 

Hoje vejo como tudo aquilo impactou minha experiência como gestante e no meu puerpério. Poderia ter sido um período muito mais rico e repleto de aprendizados, no entanto, essas não são as minhas memórias. Lembro do sofrimento, do medo, da angústia e das pressões, inclusive em perder peso. E creio que se conversarmos com muitas mulheres gordas, teremos relatos parecidos. E eu sou grata ao meu privilégio de ter uma irmã enfermeira. Isso fez toda diferença durante o período. 

Face a tudo isso, é cada vez mais fundamental que possamos criar espaços de escuta e compartilhamento de saberes para o enfrentamento de questões relacionadas ao tema. Ter macas e equipamentos ideais faz a diferença. Entender os estigmas construídos sobre o corpo feminino também. Valorizando, assim, o acesso à saúde de todo cidadão de forma igualitária e equânime. Somos plurais, assim como é plural a nossa forma de cuidar da saúde. 

“A nossa potência está na pluralidade de ser quem somos e construir caminhos singulares para re-existir.” (Carla Pepe)