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Autoconhecimento

1 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 24.07.2020

Muitas versões de mim

“(…) eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu.” (Lewis Caroll)

Eu sou poeta, escritora amadora nas horas vagas e, no meio da pandemia, tenho me reunido em coletivos de escrita. Um dos desafios dos últimos dias foi escrever sobre tretas do passado. O texto ou ficava fofo demais, romântico demais, ou direto demais. Não tinha cara de treta.

Qual é a cara de treta, você sabe? 

Acabei falando de uma situação muito incômoda que foi um envolvimento com um cara de esquerda que cantou minhas amigas. Quem nunca teve esse tipo na vida? Que você admira pelo discurso, mas na prática é um zé?  Na época, foi uma mistura de decepção com incredulidade. A poesia ficou ótima, mas carrega em si certo ressentimento. E fui me debruçar sobre aquele sentimento, afinal autoconhecimento não é uma jornada fácil. 

Me deparei com uma mágoa que achei estar resolvida.

O primeiro sentimento foi me sentir trouxa. Aí pesquisei o que significa ser trouxa e percebi que não fui. Fui apenas uma versão de mim. Recém saída de um casamento longo, vulnerável, inábil. E aí me peguei pensando naquela versão. Quanto tempo ela durou. Aparentemente forte, mas lá no fundo, inexperiente e frágil: 

A jornada que me trouxe aqui não começou lá na separação.

É impossível olhar para mim e não perceber quantas já fui e quantas ainda posso me tornar. Perceber quem fui, antes e depois do abandono paterno na infância; da morte da minha mãe na juventude; do nascimento da minha filha na idade adulta, da minha separação na maturidade; e quantas ainda poderei ser. 

Já fui dura, conservadora, tímida, sonhadora, sempre escritora. Jà fui confusa, engravidei, tive todas as dúvidas de mulher, mãe, trabalhadora. E com certeza, em boa parte da trajetória, falhei. Enfrentei muitos medos, eu sobrevivi. E se você me perguntar qual versão prefiro, digo que é essa que vos escreve, neste momento, bebendo suco de Kiwi. 

Sou cada pedacinho de tudo que já vivi.

Sou mistura constante do que aprendi. O futuro ainda virá e sei que vou conseguir. Pois, existe uma força ancestral das mulheres que vieram antes de mim e das tantas versões que construí. Você já se perguntou quantas versões de você te trouxeram até aqui? 


“Cada tic tac é um segundo da vida que passa, foge, e não se repete. E há nele tanta intensidade, tanto interesse, que o problema é só sabê-lo viver. Que cada um o resolva como puder.”

1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque/ Saúde no dia 16.07.2020

O corpo carente

Esse corpo não está carente de likes ou comentários. Tampouco de aprovação coletiva nas redes sociais. Mas não se engane, há muita falta aqui.

Esse corpo não está completo em sua essência. Há carência. De coisas que antes “tinha a percepção de que era garantido”.

Hábitos que não valorizava tanto quanto deveria. Esse corpo sente na pele a escassez de sol, de movimentos de rotina e de atividades ao ar livre. Caminhadas na natureza ou mesmo nadar. Esse é um corpo sedento por exercícios que dão prazer, caminhadas longas e movimentos naturais de uma rotina muito agitada de alguém que ama andar.

Se eu for honesta, eu não gabaritei a “quarentena”, nem de longe. E se teve uma coisa que ainda não consegui, foi organizar um jeito coerente e sustentável de me exercitar em casa. Mas me conheço bem. São 33 anos habitando esse corpo, com direito a muitos conflitos.

Por mais falta que isso faça pra mim como um todo, inclusive pra saúde física e mental, a falta que tenho não é só essa.

O que vai saciar esse corpo no futuro é a liberdade de me movimentar livremente. De valorizar cada caminhada de 7 minutos no sol até o escritório. De me alongar, me mexer e andar no pôr do sol. Viajar para subir montanhas, nadar em cachoeiras, mergulhar no mar e conhecer o mundo a pé, em longas jornadas por onde quer que eu vá.

Esse corpo está carente de se alimentar da vida que há lá fora. Da alegria que só o sol dá. Esse corpo promete a mim e eu prometo a ele que jamais vamos nos esquecer da importância de suas funções. Vou me levar a lugares incríveis com ele, vou cuidar dele pra realizar feitos que ainda nem planejei. Vou ser parceira dele e ele será meu parceiro.

Juntos, vamos ser movimentos mil, mas por agora só me comprometo em buscar mais frestas de sol e movimentos possíveis. Prazeres viáveis e cuidados simples.

Quero honrar mais e amar mais esse corpo que muda a cada dia. Que ressente essa experiencia até com dores, mas que seguirá comigo sendo morada da minha alma e me levando onde quero ir. Ele tem faltas claras, eu sei, mas ainda não tenho como suprí-las. São muitas emoções sentidas na pele. Mas me prometo levar comigo lições que ainda nem concluí. Não será em vão.

1 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 10.07.2020

Está adiado para amanhã. Mas e hoje?

Foi de repente que o mundo mudou. Fui colocada para dentro de casa, como se minha mãe me chamasse de volta depois de passar o dia fazendo travessuras. Não sou mais a criança de outrora, mas sinto medo e insegurança. Como se voltasse aos tempos de infância em que nada tínhamos a não ser nós mesmas (no caso eu, minha mãe e minha irmã). Me vi em reflexão.

Como lidar com meus próprios sentimentos amplificados? Meus medos?

Medo de sair na rua, medo de não sair. Medo de encontrar a família, medo de nunca mais conseguir seguir. Como lidar com tudo que aflora nestes tempos de agora? Como reconhecer minha potência com tantas coisas para dar conta? Para entender? Como transformar sentimentos de solidão em solitude?

Fico pensando se em um país com tantas desigualdades, as pessoas se dão conta do quanto muitas vezes estão sozinhas. Falo isso no sentido de luta por direitos. De sororidade real, de redes de apoio. Sim, porque antes da pandemia estávamos aprendendo como era importante oferecer ajuda a quem mora sozinho, ao idoso, à mãe solo. E agora? Agora aquela euforia do início acabou. Como ficam essas questões?

“ Ainda tenho a angústia e a sede
A solidão, a gripe e a dor.” (Vanessa da Mata, Bolsa de Grife)

Como criar conexões virtuais, se estávamos engatinhando nas conexões reais? Está adiado para um certo amanhã: o café com os amigos, o bar, o abraço. O que temos agora é potencial virtual, que necessita de um esforço ainda maior de todos os lados da equação. Perguntar se dormiu bem, como tem se sentido. Procurar fazer chamadas de áudio e vídeo para escutar e rir são bons caminhos para começarmos. Aprendi a enviar sacolas com alimentos, a oferecer ajuda, um bolo deixado na portaria, um pão, um gesto e aliviar a solidão.

“Afetos extraordinários deveriam ser diários para fazer a revolução” – Carla Pepe