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0 em Autoestima/ Destaque/ maternidade no dia 10.09.2019

Livros infantis que estimulam a autoestima nas crianças

Outro dia levei para o instagram um questionamento que surgiu sobre cabelo bom x cabelo ruim. Mencionei o documentário “Good Hair”, do Chris Rock, que foi criado depois que a filha deles – na época com menos de 10 anos – veio perguntar por quê ela não tinha cabelo bom. Conversa vai, conversa vem, algumas leituras sobre o assunto foram indicadas.

E eu comecei a pensar em outros títulos de livros infantis que ajudam na construção da autonomia, empatia e autoestima nas crianças.

Perguntei no grupo do Papo Sobre Autoestima e hoje eu venho aqui dividir as dicas recebidas.Se você quiser montar uma pequena biblioteca com diversidade e histórias inclusivas para seus filhos, anota aí essas dicas:

1 – O cabelo de Lelê, de Valéria Belém

Esse livro fala de um jeito bem gostoso e ritmado a história de Lelê ao encontrar a história sobre seus cabelos. E como ela passa do não gostar a amar o que vê. Ideal para crianças com cabelos cacheados e crespos.

2 – Meu crespo é de rainha, de bell hooks

Ainda nessa linha sobre cabelos crespos, esse livro é indicado para crianças a partir de 3 anos de idade. bell hooks é feminista, ativista social, artisa e autora de muitos títulos importantes. Nesse livro, ela enaltece a beleza negra, exalta penteados e textura dos crespos e é pensado para incentivar a expressão da individualidade. Uma forma gostosa de criar união através dos cabelos.

3 – Amoras, de Emicida

Joana deu esse livro para o Arthur, mas ele virou muito mais o meu xodó que o dele. É normal que a identificação com ele não aconteça de imediato, afinal, meu filho é um menino branco – e esse livro é feito para que meninas negras se reconheçam. Mas mesmo assim, é muito bacana contar essa história para ele e vê-lo absorvendo – de forma muito básica, claro – a ideia de que se identificar e se valorizar nas coisas mais simples é algo lindo de se ler.

4 – Coisa de Menino e Coisa de Menina, de Pri Ferrari

Esse eu comprei porque achei a mensagem muito bacana. É uma desconstrução de masculinidade tóxica na versão be-a-bá. Em poucas páginas, passamos as mensagens que meninos podem chorar, podem dançar, podem abraçar, cuidar e serem o que quiserem. Existe a versão para meninas também.

5 – Sinto o que Sinto: e a incrível história de Asta e Jaser, de Lázaro Ramos

Esse eu não conheço, mas foi super indicado. Então, trago aqui a sinopse: “Este livro tem como protagonista o personagem Dan, já conhecido entre os fãs do Mundo Bita, e discute temas importantes para crianças e adultos – sentimentos, ancestralidade, pertencimento, diversidade cultural, aceitação e respeito às diferenças.”

6 – A parte que falta, de Shel Silverstein

Se você só lembra desse livro por causa da Jout Jout, vem cá, estamos juntas. Teve uma época que Arthur viciou no “livro da bolinha”, passei umas 3 semanas seguidas lendo ele toda noite. E toda noite lembrava dela lendo. Mas a verdade é que, Jout Jout à parte, ele é um livro muito bacana que tem como lição a ideia de que a felicidade não está nos outros, e sim em nós mesmas. Vale a pena.

7 – O monstro das cores, de Anna Llenas

Também não conheço, mas foi indicado e eu fiquei curiosa para ter comigo. Vou passar a sinopse: “O monstro das cores não sabe o que se passa com ele. Fez uma bagunça com suas emoções e agora precisa desembolar tudo. Será capaz de pôr em ordem a alegria, a tristeza, a raiva, o medo e a calma? A história estimula as crianças a identificar as diferentes emoções que sentem, como alegria, tristeza, raiva, medo e calma, através de cores.”

8 – “Princesas escalam montanhas?” e “Ninjas cuidam do jardim”?, de Rafaela Carvalho

A Rafaela tem um perfil no instagram maravilhoso chamado @a.maternidade e ela também e autora de livros. Esses dois são infantis e eu diria que são complementares. Ambos foram criados para desconstruirmos a ideia de que meninas têm um jeito definido e meninos idem. E pensados para que a gente estimule nossos filhos a se apaixonarem por quem são.

9 – Tudo bem ser diferente, de Todd Parr

Não conhecia também, mas foi indicado e adorei a proposta. Trago para cá a sinopse para ver se vocês curtem também: “Este livro trabalha com as diferenças de cada um de maneira divertida, simples e completa, alcançado o universo infantil e trabalhando com assuntos que deixam os adultos de cabelos em pé, como adoção, separação de pais, deficiências físicas, preconceitos raciais, entre outros.”

10 – “Não me toca, seu boboca”, de Andrea Viviana Taubman

É claro que a gente queria viver num mundo onde violência sexual não deveria ser abordada com crianças. Mas infelizmente não é bem isso que acontece. E poder trazer esse assunto à tona de uma forma lúdica e linguagem simples é importante. Esse livro mostra à todas as crianças o que é a situação de violência sexual e o que fazer para evitá-la. Vale a pena ter.

11 – Histórias de ninar para garotas rebeldes, de Elena Favilli

Eu não tenho, mas conheço muita gente mesmo que tem. E que lê para filhas e filhos. Vou deixar aqui a breve descrição do livro: “Em Histórias de ninar para garotas rebeldes, tudo o que podemos sentir é esperança e entusiasmo pelo mundo que estamos construindo. Um mundo onde gênero não defina quão alto você pode sonhar nem quão longe você pode ir.”

12 – Contos para garotos que sonham em mudar o mundo, de G.L. Marvel

Não conhecia, mas trago aqui porque também foi bem indicado. “O que Albert Einstein, Beethoven, Ayrton Senna, Leonardo da Vinci e Martin Luther King tinham em comum? Todos foram jovens que não sabiam o que o futuro lhes reservava – assim como é para muitos de nós. Mas esses jovens cresceram e se tornaram verdadeiros modelos, inspirando crianças do mundo todo.”

Você tem algum livro para indicar? Conta aqui!

0 em Autoestima/ Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 09.07.2019

A barriga grande e o nascimento do juízo de valor

Arthur está em uma fase de comparações. É comparando que ele sabe o que está perto ou longe. O que é alto ou baixo. O que é grande ou pequeno. E isso acaba refletindo como ele se enxerga e enxerga as coisas ao seu redor.

É fofo demais de se ver, não nego. E por causa disso, deixo ele muito livre para falar sobre suas percepções. É nessas horas que ele fala coisas como: “mamãe, seu peito é grande” ou “meu pé é pequenininho”.

E é nessas horas também que ele diz: “que barriga grande a sua”.

É impressionante ver como isso incomoda os adultos. Não importa o peso na balança, o constrangimento fica explícito na cara das pessoas que ouvem essa frase de uma criança. As vezes nem foi a pessoa que recebeu a frase. Gente que tá perto, mas tem essa crença super construída dentro de si nem disfarça. E foi nessa situação que aconteceu uma conversa interessante, que me mostrou como acontece o início da associação de peso x beleza.

Vou transcrever o diálogo aqui sem tirar nem por, porque acho que é uma forma mais eficiente de fazer com que meu ponto seja entendido.

“Arthur acabou de dizer que a barriga de X é grande. Tá vendo como, mesmo sem nem ensinar, já tá na cabeça que é feio?”

“Mas que horas ele disse que é feio?”

“Ué, ele acabou de falar que X tinha a barriga grande. E isso é feio.”

“Mas isso é você que tá dizendo, não ele. Ele não acha nem feio nem bonito. Mas se você continuar repetindo isso perto dele, ele vai começar a achar que ter barriga grande é feio. E depois sou eu que vai ter que se virar para tirar isso da cabeça dele. Se é que eu vou conseguir. Então, por gentileza, bora prestar atenção nas mensagens que estamos passando perto dele.”

A conversa seguiu mais um pouco. Foi para lados preocupantes. Onde acabei me tocando que, por mais que eu tivesse tentando blindá-lo desse tipo de associação, a sociedade ainda poderia convencê-lo do contrário. Que em algum momento a mensagem de que pessoas gordas são feias poderia atingi-lo.

Mas eu estou fazendo minha parte. Quero muito que em algum momento, a gente volte para nossas impressões infantis e lembre que ser gordo é apenas uma constatação. Assim como ser magro, alto, baixo. Sem juízo de valor. Vamos continuar juntas.

2 em Autoestima/ Destaque/ maternidade/ Saúde no dia 03.06.2019

Um papo sobre violência obstétrica e parto humanizado

Você já ouviu falar em violência obstétrica? Sabe o que é? Saberia dizer se você foi vítima dessa forma de violência?

A Fundação Perseu Abramo divulgou em 2010 que uma a cada quatro mulheres relatam ter vivido uma situação de violência obstétrica. Além desses relatos, podemos contabilizar mulheres que vivenciaram alguma forma de violência obstétrica, mas não sabem ou não se sentem confortáveis em fazer o relato. Com isso, a estimativa é de que essa estatística seja bem maior. 

Ao longo dos anos, as práticas da equipe de saúde durante o parto foram mudando. Antigamente os partos aconteciam em domicilio e eram assistidos por parteiras tradicionais, freiras, enfermeiras, etc. (Aproveito aqui para indicar a série “Call the Midwife”, que retrata bem esse processo). A mulher ia para o hospital ou o médico era chamado apenas em casos que o parto complicava ou em gestações que apresentavam algum risco. Em geral, os médicos eram chamados para intervir.

Acontece que, com as mudanças sociais ao longo dos anos, as intervenções foram se tornando cômodas e cada vez mais frequentes. Mesmo quando não são necessárias. As mulheres entraram no mercado de trabalho. A maternidade foi dividindo espaço com outras funções. Aprendemos que “tempo é dinheiro” e que dor é sinônimo de sofrimento. A cobrança por imediatismo e alta produtividade tomaram dimensão. E, com isso, a forma tradicional de parir foi perdendo espaço. 

Quando pensamos no parto dentro do contexto social que vivemos hoje, se torna muito difícil para que, tanto a mulher quanto à equipe de saúde, se preparem para toda imprevisibilidade que um trabalho de parto espontâneo e natural propõe. Alguns exemplos de momentos que não temos nenhum controle sobre:

 – Você não sabe quando vai começar:  Pode ser no meio de uma noite de sono tranquila. Durante um passeio no shopping. Na casa da sogra, na madrugada, no trânsito às cinco da tarde, no meio da DR do casal!

Você não sabe quanto tempo vai durar: 3 horas? 12h? 20h?

O trabalho de parto representa para nós, mulheres, um rito de passagem importante. Além disso, é um momento carregado de simbologias, de vulnerabilidade, de sexualidade.

Nos colocamos nuas, expostas, abertas, entregues… A quem?

É um rito que nos coloca em contato com a nossa força e nossa fraqueza. Com o nosso melhor e o nosso pior. Dá medo, insegurança, ansiedade e, ao mesmo tempo, uma força que a gente não sabe de onde vem. Muitas de nós não estamos prontas para entrar em contato com isso. É vida e morte. O quanto de nós vai embora quando o bebê chega? A mulher, a filha, a esposa, a profissional, a amiga. A autonomia, a liberdade, o autocuidado. A mãe que quero ser, será que consigo?

É dentro desse looping de emoções que a responsabilidade das nossas decisões vai parar nas mãos de outra pessoa. Muitas vezes nas mãos da equipe médica. Para você, o seu primeiro parto. Para a equipe, muitas vezes “só mais um”. E é aí, nessa linha tênue, que a violência obstétrica acontece. De um lado, nós, cheias de expectativas, com medo, ansiosas e muitas vezes inseguras frente a uma realidade desconhecida. Do outro, a equipe ensinada a intervir. Com condições de trabalho muitas vezes insalubres, alta demanda de trabalho, medo de assumir um risco desconhecido.

No último mês, o Ministério da Saúde publicou um despacho que acompanha o Conselho Federal de Medicina. Nele, é dito que o termo “violência obstétrica” não deve ser usado de forma indiscriminada. Deve ser evitado ou até mesmo abolido em documentos públicos.

Esse movimento causou intensas discussões nas redes sociais. Esse despacho tenta mascarar uma realidade presente em grande escala no Brasil. Principalmente nos serviços públicos de saúde, com população de baixa renda. E, sobretudo com mulheres negras (estudos mais recentes apontam que mulheres negras sofrem mais violência obstétrica do que mulheres brancas).   

Um dos aspectos mais marcantes de práticas obstétricas no Brasil é a tendência a acelerar o trabalho de parto, desencadeando um total desrespeito à autonomia das mulheres. Os cuidados obstétricos acabam sendo centrados nas decisões do médico, desrespeitando a dinâmica do corpo feminino. As tentativas de controlar o tempo e reduzir a duração do parto explicam o uso excessivo de intervenções, incluindo cesarianas.

Para exemplificar, a taxa de cesárea no Brasil é a mais alta do mundo. Sendo em média 55% no sistema público de saúde e acima de 90% nos hospitais particulares/convênios. O recomendado pela OMS fica em torno de 10 a 15% de casos em que a cirurgia de fato é indicada. Em São Paulo é possível perceber aumento do número de cirurgias em vésperas de feriados (Natal, Dia de finados, Ano Novo) bem como diminuição aos domingos. O que sugere uma conveniência médica na escolha das datas.   

Esse processo começa no pré-natal, quando as mulheres não são informadas sobre as melhores práticas, os benefícios do parto normal e assistência obstétrica adequada. E continua durante o trabalho de parto. 

Esse tipo de violência é caracterizada pela apropriação o corpo e dos processos reprodutivos das mulheres. Ou seja, de sua saúde sexual e reprodutiva. O que faz com que a gente comece a pensar na violência obstétrica também com a perspectiva de violência de gênero.

As intervenções mais usadas como rotina no Brasil, apesar de não terem evidências médicas para essa prática são: 

  • Episiotomia (corte no períneo): foi observada em mais de 50% das mulheres de baixo risco que passaram por um parto normal. E quase 75% dos nascimentos de primeiro filho(a). No Brasil, a episiotomia é a única cirurgia feita sem o consentimento da mulher e sem que ela seja informada sobre suas indicações e contraindicações. As taxas de episiotomia recomendadas pela OMS estão entre 10 e 30%. 
  • Posição Litotômica (deitada): apesar dos benefícios da posição vertical (em pé/de cócoras) para a mãe e para o bebê, a posição litotômica foi utilizada em 90% das mulheres de baixo risco. Apesar do desconforto para a mãe e da inadequação pelas leis da natureza (lei da gravidade), essa posição facilita a intervenção médica. Por este motivo, é utilizada como rotina. 
  • Gotejamento de ocitocina, “dilatação” e ruptura artificial de membrana amniótica (bolsa): são procedimentos utilizados para acelerar o trabalho de parto. Ambas as intervenções foram realizadas em cerca de 40% das mulheres de baixo risco. Esses procedimentos são dolorosos, causam grande desconforto e, frequentemente, são realizados sem consentimento ou esclarecimento da paciente. O uso desses métodos faz parte do conceito de “gestão ativa de trabalho” para reduzir a duração do trabalho e a taxa de parto cirúrgico. Contrariando essa idéia, os dados estatísticos mostram que as mulheres que se submetem à indução do parto têm maiores taxas de cesariana do que aquelas que experimentam trabalho de parto espontâneo. 
  • Manobra de Kristeller: é realizada com as duas mãos, braços ou o corpo do profissional de saúde, empurrando a barriga da mulher para baixo. Além de essa manobra ter sido desenvolvida sem fundamentação científica, estudos atuais mostram graves complicações resultantes dessa prática. Alguns deles são deslocamento da placenta, trauma das vísceras abdominais e do útero, fraturas de ossos, etc.

Quanto à violência obstétrica relacionada ao tratamento desumano dos profissionais e técnicos, pesquisas recentes assinalam as seguintes recorrências:

  • Tratar uma mulher em trabalho de parto de maneira a fazê-la se sentir inadequada, humilhada, inferiorizada, incapaz. Sentimentos como esses podem ser provocados por meio de falas como: “se não ficar quieta vou te furar todinha”, “na hora de fazer não gritou, né?”; “se gritar não te atendo” etc. Mais exemplos podem ser encontrados através da campanha feita pela Revista Época chamada #partocomrespeito.
  • Impedir ou dificultar que a mulher tenha um acompanhante durante todo o seu parto e trabalho de parto. Esse direito, apesar de ser frequentemente negado, é resguardado pela Lei 11.108, de 07 de abril de 2005. Também chamada Lei do Acompanhante, garante à mulher a presença de um acompanhante de sua livre escolha durante o trabalho de parto, parto e no pós-parto.
  • Exigir que a mulher se submeta a procedimentos desnecessários e, muitas vezes dolorosos, Procedimentos que vão desde raspar os pelos pubianos, até realizar lavagem intestinal e receber exames de toque de vários profissionais diferentes sem seu consentimento prévio, manter-se em posição ginecológica com portas abertas, etc;
  • Discriminar ou ridicularizar a mulher por alguma característica ou condição pessoal. Alguns exemplos são evacuar durante o parto, ser obesa, ter pelos ou estrias. Ter muitos filhos, não ter realizado pré-natal, ter tentado ou realizado aborto, ter tentado parir em casa, ser jovem, etc.

Com a intenção de diminuir os índices de violência obstétrica e de proporcionar mais respeito e acolhimento durante a gestação, parto e pós-parto, desde os anos 70/80 existe uma série de discussões sobre as práticas obstétricas.

Elas são conhecidas hoje como Movimento de Humanização da Assistência ao Parto. O conceito de atenção humanizada é muito amplo. No que diz respeito à humanização do parto e do nascimento, podemos entender que tal conceito envolve um conjunto de conhecimentos, práticas e atitudes que têm como objetivo:

  • A promoção do parto e do nascimento saudáveis; 
  • A prevenção da mortalidade materna e perinatal; 
  • A valorização da capacidade de expressão dos desejos, medos e vontades da mulher diante o processo de parto;
  • Os cuidados imediatos com o recém-nascido;
  • Condutas profissionais benéficas para a mulher e o bebê, que evitem as intervenções desnecessárias de forma a garantir a preservação de sua privacidade e autoestima. 

Além disso, a humanização do nascimento envolve o entendimento de que o parto é um evento que tem a dupla mãe-bebê como protagonista, e não a equipe de saúde.

Essa equipe, que, em um momento de tamanha importância e repleto de significados que é o parto-nascimento, deve se colocar ao lado da mulher e da família em uma posição de quem escuta e apoia. Aproveito para ressaltar aqui que humanização do parto não define via de parto.Ao considerar a humanização relacionada ao parto, alguns cuidados merecem especial consideração:

A mulher e o bebê devem ser os protagonistas:

Toda a estrutura de assistência deve estar voltada a tornar aquela experiência positiva para todos os envolvidos. Isso é, a mulher, o bebê e a família. A equipe deve ocupar-se da saúde emocional e física da mãe, mantendo uma boa comunicação, esclarecendo angústias e questionamentos. Tudo com linguagem acessível e tranquilidade na voz. 

Acolhimento e cuidado:

Os profissionais devem estar preparados para respeitar as diferenças culturais e de crenças que envolvem o período da gravidez, do nascimento e da maternidade. A atenção deve ser sempre individualizada, acatando essas diferenças e, sempre que possível, ir ao encontro dessas expectativas. Os motivos da adoção de qualquer procedimento devem ser esclarecidos à mulher, para que ela entenda a necessidade e a contribuição dessa medida para seu bem-estar e de seu bebê.

Empoderamento da mulher para o trabalho de parto e parto:

A mulher deve ser sempre chamada pelo seu primeiro nome, ou por um apelido de sua escolha. Expressões como “mãezinha”, “dona Maria”, “minha filha”, entre outras amplamente divulgadas em entrevistas com mulheres, devem ser evitadas. A equipe deve buscar a todo momento encorajar a gestante para aquele momento. Mostrar que ela é capaz de vivê-lo e validar suas escolhas. Atitudes e palavras agressivas, mesmo que apresentadas de forma sutil, devem ser eliminadas da atenção ao parto. Assim como julgamentos e censura à mulher devem ser evitados.  

Inclusão da mulher na tomada de decisões:

A todo o instante a equipe deve buscar valorizar a mulher e suas sensações. Fortalecer sua dignidade e buscar aumentar sua autoestima. Encorajar sua participação ativa no planejamento do seu parto e no cuidado da sua saúde e de seu bebê. Além de ter clareza de todo o processo, ela deve estar ciente de que seus desejos e opiniões serão considerados e respeitados, desde que não envolva riscos para a ela e para o seu bebê. Caso sua posição gere riscos, esses deverão ser claramente apresentados a mulher pela equipe, baseados no compromisso ético com a verdade. 

Concepção da gravidez e do nascimento como processos saudáveis e fisiológicos:

Indicações atuais da Organização Mundial de Saúde e do Ministério da Saúde envolvem, durante o trabalho de parto, o fornecimento de bebidas, a adoção da posição vertical ou liberdade de movimento e o uso de métodos não-farmacológicos para aliviar a dor (massagem, chuveiro, água morna). Essas técnicas são acessíveis e de baixo custo, podendo ser fornecidas tanto nos serviços de saúde públicos quanto privados.O parto, por sua própria natureza acarreta riscos potenciais para a gestante e seu bebê, independentemente da via de realização. O parto normal com assistência adequada traz inúmeros benefícios para a mãe e o bebê. Ajuda na formação da identidade materna, facilita a recuperação pós-parto, os hormônios favorecem a amamentação e proteção do cérebro do bebê, etc. Nos partos de alto risco, a cirurgia cesariana pode ser muito bem indicada e usada para salvar vidas, porém nos partos de risco habitual, pode representar uma chance até quatro vezes maior de mortalidade ou complicações.

A gravidez é um processo natural do universo feminino.A forma como o parto acontece é considerado uma característica cultural em que os valores sociais são reproduzidos. Assim, não podemos discutir assistência obstétrica sem considerar que vivemos em uma sociedade em que o machismo e o racismo ainda são muito presentes.

A população não é preparada com educação em saúde, ainda existe preconceito com os cuidados em saúde mental, há super valorização da função do médico. Além disso, não podemos nos esquecer da tecnologia, sobretudo da internet. Hoje não precisamos lidar com processos, está tudo à mão. Bastam dois cliques e uma série de informações aparece na nossa frente sem que a gente saiba de onde vêm e a qualidade daquilo que recebemos. 

Com isso, é importante que a gente se informe, que a gente questione as imposições. É válido que a gente busque caminhos que favoreçam nossa autonomia, que a gente lute pelos nossos direitos bem como lutar pelos diretos da mulher que está ao nosso lado, mas que muitas vezes não tem condição para tal.

Violência Obstétrica é real e muito mais freqüente do que a gente possa imaginar. Por vezes é sutil, está nos detalhes… por outras, é escancarada ali, de baixo dos nossos olhos! É violência contra a mulher, ainda pior com mulheres de baixa renda e mulheres negras. 

“Enquanto viver, uma mulher se lembrará de como a fizeram se sentir durante o nascimento de seus filhos” (Anna Verwaal). Que a gente possa, de alguma forma, ser instrumento de uma lembrança de amor e não de dor. 

Links úteis:

Artemis: ONG que luta pela autonomia feminina e prevenção da violência contra a mulher.

Cartilha da defensoria pública de SP com instruções sobre violência obstétrica

Manual de apoio à vítima de violência obstétrica (pela OAB)