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Autoestima

2 em Autoestima/ Destaque no dia 17.03.2020

Em tempos de isolamento, repense seus memes e encare sua gordofobia

Eu, aqui em NY, já estou dentro de casa desde semana passada. Porém, desde o começo dessa semana, tenho recebido uma infinidade de piadinhas gordofóbicas em relação a essa necessidade de isolamento, que tem se mostrado cada vez mais necessária para quem pode ficar em casa.

Tem influenciadores alterando digitalmente suas imagens para parecer que ganharam uns quilos a mais. Tem meme dando opções do que vai acontecer depois dessas semanas de isolamento, onde obviamente engordar é a primeira opção. Tem atriz dizendo para seus milhares de seguidores que vai sair dessa alcoolatra, fumante ou gorda (como se ser gorda fosse tão ruim quanto terminar viciada em algo que faz mal à saúde). E tem a famigerada imagem da mulher olhando a geladeira, antes e depois do coronavirus.

Quem ainda não recebeu essa “piada” no whatsapp?

Eu já cheguei em um ponto onde simplesmente não aguento mais essas piadinhas. A gente debate esse assunto milhares de vezes. Se você digitar a palavra gordofobia aqui, vai ver uma infinidade de discussões sobre o assunto. E hoje, volto aqui, correndo o risco de estar repetindo tudo o que já foi falado. Mas vendo tanta piadinha irresponsável sendo feita, não vejo outra alternativa, do que tentar abrir novamente a discussão.

Ficar em casa não é sinônimo de comer exageradamente.

Camilla Estima já falou nesse post sobre um exercício que ela fez com sua turma onde, juntos e em pouco tempo, eles chegaram a 52 motivos para comer. Motivos que não estavam relacionados com fome, e sim com emoções. E para mim, esse tipo de ideia de que ficar em casa significa comer mais só significa que tem muita gente por aí não sabendo lidar com os próprios sentimentos. Não sabendo lidar com tédio, com angústia, com medo, com impaciência, com a falta de controle e até mesmo com o tempo livre.

A solução para essas questões não é comer. Por mais gostoso e reconfortante que usar a comida como muleta possa ser em algum momento, precisamos debater o problema. E parar de gerar piadas preconceituosas que só estigmatizam as pessoas gordas.

Gordofobia? Sim!

Eu sei que pra muita gente que nunca sofreu de transtornos alimentares ou gordofobia, essas “brincadeirinhas” parecem bobeira. “Ah, é só algo para desestressar”, “só uma piadinha”. No entanto não é inofensivo quando ofende um grupo que já fica facilmente à margem. Não é inofensivo quando você faz piada com o corpo alheio. Isso porque não falei sobre demonizar a comida, gerando culpa em uma relação que deveria ser mais saudável e mais leve. Normaliza uma vida inconsciente com relação à fome x saciedade. Ao compartilhar essas imagens como piada, estamos reforçando a ideia de que corpos gordos podem ser motivos de riso. Ou pior, que ficar gorda é uma fatalidade que pode ser comparada com alcoolismo ou vício em cigarro.

Onde isso é aceitável, gente? Se isso não é gordofobia, eu não sei mais o que é.

É por causa de piadinhas ditas inofensivas que muitas mulheres passam a vida odiando o próprio corpo. Procurando milagres que não existem para ter um corpo tido como perfeito. Adoecendo pelas consequências dessa obsessão social pela magreza dos corpos femininos. Ao entrar e sair de dietas mais malucas, nosso corpo sente. E em alguns casos adoecem com transtornos alimentares, que é uma das doenças psiquiátricas que mais matam mulheres.

Estamos em um momento em que muita gente está reaprendendo a viver em comunidade. Estamos debatendo sobre a possibilidade de não sair de casa para poupar quem não tem essa escolha. Se todos esses movimentos de olhar para os outros estão acontecendo, piadas sobre ficar gorda ainda estarem rolando é uma hipocrisia.

Se você tem medo da sua relação com a comida, procure um psicólogo especializado para te atender remotamente. Ou até mesmo uma nutricionista comportamental. Não faça bullying com grupos já tão discriminados.

0 em Comportamento/ Destaque/ Saúde no dia 11.03.2020

O que fazer para não surtar nas redes sociais

Outro dia fiz um post no grupo do Papo Sobre Autoestima no Facebook dizendo que estava exausta. Recentemente eu entro em redes sociais que são mais para debates do que compartilhamento de imagens e o esforço para não surtar é grande. A sensação que eu tenho quando vejo minha timeline é que entrei em uma sala barulhenta, onde todo mundo está gritando e apontando os dedos para cara dos outros.

Eu amo redes sociais. Amo um textão. Amo usar para aprender. Mas mesmo tentando enganar os algoritmos, a impressão que me dá é que todos os assuntos estão inflamados. Do Big Brother à matéria do Fantástico, passando por política (que sempre está inflamada) e corona vírus.

Quis saber se mais gente estava com essa mesma sensação. E também quis saber o que as pessoas estavam fazendo para não surtar diante desse cenário.

Algumas das respostas que recebi foram bem interessantes. Quis trazer pra cá, caso alguém esteja à procura de não surtar, assim como eu.

Luna: “Hoje eu me mantenho atualizada, organizo minha opinião e não olho pro que os outros dizem. Só comento sobre coisas polêmicas pessoalmente, ou em um grupo de amigas que sei que terei opiniões bem embasadas e boas discussões, fora isso, escolho me ausentar.”

Karine: “O que eu to fazendo pra não surtar é falar de Love is Blind, The Circle, um pouco de BBB”

Taiza: “Eu de tempos em tempos deixo de lado. Depois, volto. Me faz bem porque eu sou bem viciada em redes sociais, então é importante dar uma descansada de vez em quando. Não parece mas a quantidade de informação (e de gente sem noção) cansa muito.”

Mayara: “Tem dias quero me desligo, é necessário se não minha ansiedade aumenta. Não acesso Instagram e Facebook e WhatsApp. Quem quiser falar comigo urgente liga.”

Ester: “ACHO que mais do que nunca aqueles princípios de moral x ética, mito da caverna, certo e errado, estão em pauta. E tem duas ondas: a onda da informação e dados, temos MUITAS informações sobre QUALQUER coisa. E a onda do palanque/arena virtual, onde TODOS temos voz. Redes sociais trouxe essa democracia da informação, da externalização, mas não acompanhou a nossa capacidade de adquirir responsabilidade e inteligencia (emocional, até) pra lidar com esse tanto de conteúdo. O @contente.vc fez um post hoje inteligentíssimo sobre a nossa capacidade de lidar com informações. NÃO DAMOS CONTA. É muita informação, é inteligencia artificial filtrando o que chega pra nós, é difícil pra caramba!”

Gabi: “Eu de verdade tenho tentado me informar o mínimo possível, então venho seguindo conteúdo mais leves, ver séries e filmes leves pra não me sobrecarregar. Foi a forma que eu encontrei, embora as vezes pense que não é a mais certa. Porém preciso pensar mais no que fazer do meu dia a dia pra mudar ainda que o micro do que acompanhar o macro e não conseguir gerenciar nada.”

Marina: “Tenho usado as redes cada vez menos e escolhido compartilhar mais das coisas que me fazem bem, do que as que me fazem mal. O mesmo para comentar, para ir atrás de notícias e tal. Sei que a informação é importante, mas não preciso estar informada a todo o tempo sobre tudo, acho que podemos nos dar esse “luxo” de vez em quando. Como se escolhêssemos mesmo nossas batalhas. Me sinto em conflito, mas ainda bem que cada vez menos, porque gostaria de produzir mais, mas ao mesmo tempo não fazer tudo por conteúdo. Tento manter um equilíbrio e tem dado certo por aqui…”

Luiza: “Eu, como jornalista, já fui uma pessoa totalmente sedenta por informações e todas as opiniões possíveis sobre alguma situação polêmica e entrar em parafuso considerando tudo. Desde as últimas eleições, eu decidi me preservar um pouco, mas como trabalho com isso, não posso me ausentar de nenhuma informação nem de redes sociais. E o que funcionou, para mim, foi: eu aceitar que 1) eu não tenho que ter opinião sobre tudo no mundo, até porque tem coisas que só admirar sua complexidade e camadas já mostram que ser categórica é burrice; 2) As pessoas expõem suas opiniões apenas por expor, na maioria das vezes, elas não querem debater, considerar ou repensar nada; então só nos gera um gasto de energia na gente que tem consideração por essas coisas, sabe, então infelizmente, ter pena dessa mesquinhez de pensamento e deixar pra lá tb tem me ajudado. Eu gosto de pensar que o mundo é isso mesmo porque a gente enquanto pessoa e sociedade é isso aí. É complexo, cabe o raso e o profundo e nós não podemos carregar o peso de todo esse caos sozinhas, sabe. Eu procuro agora sobre essas conversas, conversar mais pessoalmente que pela internet e com pessoas que eu tenho segurança de opinar, falar (nem sempre que tenham a mesma opinião que eu, mas que eu posso me expressar, sabe), e de vez em qd desligar mesmo botar um filme bem frufru, fazer alguma atividade bem aleatória como desenhar ou escrever. É isso, se não a gente surta mesmo.”

Você também tem se sentido assim? Quais as estratégias você usa para se manter sã?

2 em Autoestima/ Relacionamento no dia 05.03.2020

“Eu terminei meu relacionamento depois de ver Guilherme e Gabi no BBB”

Eu assisto BBB e amo. Mas esse foi além de puro entretenimento para mim. Acompanhei milhares de debates sobre o relacionamento entre Guilherme e Gabi era ou não abusivo. E enquanto eu acompanhava, foi me batendo uma angústia que me deixou anestesiada por dias, sem saber como botar em palavras. Até que finalmente eu consegui organizar minhas ideias. E quis vir aqui, mesmo que de forma anônima, falar um pouco sobre esse tipo de abuso que não segue os padrões do que reconhecemos como o relacionamento abusivo clássico. 

Por quê? Porque eu me vi na Gabi. E eu terminei um relacionamento justamente por causa disso.

Enquanto acompanhava as discussões sobre Guilherme e Gabi, consegui perceber com clareza o que estava acontecendo comigo. Há 2 anos, eu estava em um namoro considerado perfeito. Quem via de fora, achava que eu tinha tirado a sorte grande. “Que príncipe! Como ele te trata bem! Nossa, ele faz tudo por você, né?”

De fato, eu tenho muita coisa positiva para falar dele. Um homem educado, solícito, atento às necessidades das pessoas, respeitador (e não estou falando em relação à mim somente). O tipo de pessoa que a gente olha e consegue enxergar um coração enorme. E eu me sentia de fato muito sortuda por ter arrumado alguém assim. 

Até que veio nossa primeira briga. Briga boba, dessas que a rotina puxada traz nas nossas vidas. Aquela que não é culpa de ninguém, foi só um momento de explosão de duas pessoas que tiveram um dia cheio. Desentendimento, desses que acontecem em qualquer relacionamento. Seria uma briga trivial e facilmente esquecida, mas se transformou em um marco para mim pois, logo depois de aparentemente termos nos resolvido, ele pisou na bola em alguma coisa do trabalho. E veio colocar a culpa em mim. “Tá vendo? Você veio discutir comigo, a gente brigou e eu errei uma coisa importante aqui.” Pedi desculpas, afinal, realmente foi uma explosão minha – seguida de uma total falta de entendimento dele – que fez a briga escalonar.

ilustra: @mari.ilustra

Na época eu não tinha achado nada demais. Não via nenhum traço de relacionamento abusivo. Afinal, como uma pessoa tão legal podia ser abusiva?

Mas pode.

Uma outra cena marcante foi quando eu conversei com uma amiga minha – e amiga em comum do casal – sobre uma discussão que tivemos. Na verdade eu nem considerava uma discussão, e sim uma divergência. Sabe, quando duas pessoas não concordam sobre determinado assunto e terminam a conversa concordando em discordar? Pois é. Um belo dia, semanas depois desse episódio, estávamos todos no bar e essa amiga trouxe nossa conversa à tona em uma brincadeira. Na hora vi que ele ficou desconfortável, e não demorou muito para ele pedir a conta para irmos embora. No trajeto de volta para casa tivemos uma briga enorme, porque ele achava inadmissível que eu tivesse exposto nosso relacionamento para os outros. 

Ele nunca me proibiu de nada. Nunca me disse que não deveria usar alguma coisa. Nunca levantou a mão ou o tom de voz. Ameaças? Não que eu tenha percebido. Mas toda vez que um embate surgia, ou algo acontecia, a culpa era minha. Seja porque eu havia deixa-lo estressado, seja porque eu havia trazido um assunto delicado à tona em um momento que ele não podia pensar naquilo (sendo que eu nunca sabia que momento era esse), ou então porque eu só sabia reclamar.

Comecei a me ver como uma mulher chata, reclamona, que só via problemas. Saíamos cada vez menos com os amigos. Eu comecei a me retrair. E eu cheguei em um ponto de sentir medo de conversar sobre meu relacionamento com outras pessoas. Eu sentia que estava traindo sua confiança cada vez que eu pensava em me abrir com alguma amiga.

Quando vi uma imagem da Gabi que está circulando pelo Twitter, mostrando o quanto um relacionamento que te aprisiona pode acabar com você, eu me vi naquela imagem. E foi aí que deu o estalo.

Percebi que não dava mais para continuar ali, naquele relacionamento. Me sentindo culpada de tudo. Me afastando, vivendo cada vez mais calada e sem energia. Entendi que estava vivendo um relacionamento emocionalmente abusivo. E enquanto via a Gabi aos prantos, eu tomei uma decisão e terminei. 

Isso tem menos de uma semana. Ninguém entendeu nada. E essa é a primeira vez que to colocando as ideias no lugar, literalmente. Ainda não acredito que foi assistindo um reality show, naquele momento do meu dia que uso para relaxar, que minha vida deu uma guinada dessas. E confesso que ainda tenho dificuldade de encarar meu relacionamento como abusivo. Acho forte. Estamos vivendo em um tempo de extremos, onde todo mundo é santo ou é monstro. Eu ainda consigo ver todas as características positivas que me fizeram gostar dele em primeiro lugar. Não consigo considerá-lo um monstro.

Ao mesmo tempo consigo reconhecer o quanto eu me anulei, por total falta de entendimento dessas estruturas. Agora entendo também que ele só agia dessas formas porque eu permitia me colocar nesse lugar. E agora que eu entendi, poderia tentar novamente com essas novas informações? Talvez. Mas decidi que não quero. Foram 2 anos nesse esquema emocionalmente exaustivo. Nesse caminho, eu perdi toda a energia que eu sei que será necessária para fazê-lo entender. Escolhi reencontrar meu amor próprio que tinha sido deixado de lado, algo que eu espero, inclusive, que a Gabi ache também. 

E por quê resolvi escrever esse textão, mesmo que de forma anônima? Porque eu queria mostrar para quem está lendo que relacionamento abusivo não tem estereótipo. Queria mostrar que dá para cair em contextos abusivos dentro de um relacionamento. Que aquela pessoa que é tão legal pode, sim, apresentar traços abusivos na forma de se relacionar. 

Por mais que eu tenha optado em não permanecer no meu, ainda acredito que pessoas mudam. Prefiro acreditar que existe gente que quer aprender a enxergar a sua responsabilidade dentro dos relacionamentos. Homens que querem prender a enxergar os traços de machismo que estão ali, sutis mas poderosos. Quanto antes você entender esses sinais, e dependendo da disposição do/da seu/sua parceiro/parceira para repensar comportamentos, pode ser que existam esperanças. E esse relacionamento seja, enfim, saudável.