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Autoestima

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 02.12.2020

Autoconhecimento é uma merda

Olha, preciso dividir uma coisa com vocês: autoconhecimento é uma merda. Calma, não to dizendo que ele não é necessário. Ele é. Irei defendê-lo sempre. O problema é que quando a gente fica sabendo certas coisas sobre nós mesmas, o bicho pega.

Nesses últimos anos de terapia descobri que sou mais controladora do que gostaria de admitir. Que tenho um conformismo que muitas vezes me paralisa. Que muitas coisas que eu levo pra reclamar na, verdade, são causadas pela minha dificuldade de impor limites. Que meus mecanismos de defesa são bem mais teimosos do que eu gostaria. Que eu tenho mais medo da opinião alheia do que eu gostaria de admitir.

ilustra: @tangerine.illustration

As vezes rola um pequeno arrependimento por ter descoberto um traço meu que eu não tinha conhecimento.

Descobrir que você não é o alecrim dourado que você acredita que é pode ser um tapa na cara. Saber que você tem traços na sua personalidade que impactam de forma negativa quem convive contigo machuca. Que você tem parte da responsabilidade em todos os seus relacionamentos. A vida parecia mais simples antes. Sabe, aquela coisa de a ignorância é uma benção. Mas ao mesmo tempo também pode ser uma maldição, porque você passa anos em looping, repetindo os mesmos padrões.

Autoconhecimento é uma merda mas também liberta.

Ô se liberta.

Hoje ficou muito fácil me atentar a esses padrões, e tentar seguir por um outro caminho. Afinal, não adianta querer os mesmos resultados se a gente está sempre fazendo a mesma coisa, né?

Ainda estou caminhando nesse exercício de tentar ser mais leve comigo, me levar menos à sério. Ainda caio em armadilhas de querer agradar todo mundo – e ficando infeliz no meio do caminho. Mas cada vez mais eu prefiro abraçar cada pedacinho que vou descobrindo sobre mim e acolhê-los com o mesmo amor.

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque/ Saúde no dia 28.10.2020

Apologia à obesidade?

Quem nunca já se meteu em alguma conversa sobre body positive e autoaceitação e teve que ouvir argumentos do tipo: “mas isso é glamourizar a obesidade!”? Ou: “isso é fazer apologia à doenças!”? Esse assunto já foi falado por aqui algumas vezes nesses últimos anos (aqui, aqui, aqui) mas parece que o argumento continua em voga.

pergunta feita no stories do nutricionista Ricardo Durante

Bem, já comentamos sobre como é gordofóbico querer pautar o que é um corpo saudável com base no olhômetro. Mas isso vai além. Você já parou para perceber o quanto essa preocupação com a autoaceitação alheia nada mais é que uma estratégia de controle?

Estratégia essa que faz a gente ficar parada sempre no mesmo lugar, isso é, obedientes ao padrão de beleza vigente. E sem desenvolver nenhum pingo de consciência sobre o nosso corpo.

Já recebemos inúmeras mensagens de mulheres que explicam a dificuldade que elas tiveram ao aceitar esses discursos de autoaceitação. E que isso levou a uma permissividade e até mesmo negligência com o próprio corpo. Mas cada mensagem dessas é sobre questões individuais. E debates coletivos não devem ser invisibilizados porque não deram certo com algumas pessoas.

Ao mesmo tempo, a gente entende que é complicado estabelecer nossos próprios limites e criarmos um equilíbrio saudável para a nossa realidade. Fomos criadas uma vida inteira com mensagens gordofóbicas. Aprendendo quais dietas seguir desde muito novas. Lendo e ouvindo em todos os lugares que nossos corpos não eram certos. Tudo isso fez com que a gente se tornasse obediente às regras do jogo (alou Mito da Beleza), e sem nenhuma possibilidade em relação às escolhas que fazemos com nosso corpo. Até pouquíssimo tempo muitas de nós nem sabíamos admirar nossos corpos com as particularidades que eles têm.

E aí, como vamos aprender sobre equilíbrio se ele nunca nos foi ensinado?

Não é à toa que nosso discurso de autoestima e autoaceitação nunca foi fácil de engolir. A gente bate mesmo na tecla de passar por esse processo acompanhada por médicos, nutricionistas comportamentais, terapia. De explorar grupos de apoio (como o nosso, por exemplo, sem nenhuma modéstia rs), caso pagar por esses serviços não seja uma opção.

Seria lindo falar que autoaceitação e amor próprio se constrói apenas seguindo as pessoas certas no instagram ou decorando frase de efeito. Mas sabemos que na prática pouquíssimas pessoas conseguem passar por esse processo sozinhas.

Mas o que podemos falar, para acender uma luzinha de alerta, é para prestar atenção. Se você se sente incomodada com o processo de autoaceitação alheia, isso com certeza diz mais dos seus incômodos, medos e dificuldades do que as tais “apologias” que as pessoas estão fazendo em seus perfis pessoais.

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Convidadas/ Destaque no dia 21.10.2020

Minhas sombras me libertam

“Somente quando temos coragem suficiente de explorar nossa escuridão, descobrimos o poder infinito da nossa própria luz” (Brene Brown – Livro A coragem de ser imperfeito) 

O que vivo como mulher me faz pensar em como sou filha, mãe, tia, irmã, amiga, trabalhadora. Sou luz, sombra, virtude, vícios, monstro, poesia, adrenalina. Em geral, só queremos postar as fotos bonitas, lembrar dos bons momentos, dos sorrisos, das conversas sobre as boas coisas. Pensar em nossas vacilações, carências, erros, medos, o fundo do poço dói. Mas é aprendizado, tanto quanto os momentos felizes.

Aprendi em cada dor que tive, em cada desamparo, em cada fome, nas partidas, nas lágrimas.

Não é preciso alguém ir embora ou morrer para partir. Já vivi o adeus de alguém que estava ao meu lado, de amigos que amava, de gente que me excluiu, que não me acolheu. Mas eu também aprendi com minhas monstruosidades, minhas sombras, minhas ansiedades, até mesmo com os momentos em que não escutei o que me diziam, os que gritei minhas verdades (seriam elas verdades?).


É preciso elaborar meu brilho e o espaço obscuro em mim, equilibrar as forças e entender que sou a soma de todas as coisas, completa e não perfeita. Ufa, que bom isso! Às vezes, a realidade é opressiva, mas também libertadora. Como pode ser isso? Como podemos viver uma experiência opressiva e libertadora? Quando percebi que estou viva, me amo, reconheço o que de pior há em mim e sigo inteira, me sinto livre.

Como assim livre?

Livre de tantas gaiolas, de tantas prisões que eu e a sociedade colocam. Ao mesmo tempo que sou oprimida como mulher, como mãe, como trabalhadora, me liberto porque enxergo as barras que me prendem. Elas perdem a força quando não as temo mais. Morri ano passado, esse ano não morro mais, já dizia um profeta. E assim sigo um pouco mais em paz.