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Autoestima

1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque/ Saúde no dia 22.01.2020

“É possível ser feliz e realizada mesmo com uma grande diferença estética”

Nasci com uma pequena mancha no queixo, como se fosse uma picadinha de inseto. E ao 8 meses de vida, BUMMMMM… uma hemorragia na gengiva tirou a paz da minha família e me levou, pela primeira vez, à uma sala de cirurgia. 

A infância foi tomada por sangramentos rotineiros, principalmente durante as noites. E uma manchinha que começava a tomar volume.

Na adolescência, com muito medo de não dar o meu primeiro beijo, eu quis ser como as outras meninas. Foi então que conheci um cirurgião plástico renomado que me ofereceu o que parecia um milagre: dois pontinhos no queixo e um rosto perfeito.

Um dia depois da internação saí do hospital com 16 pontos que iam do queixo até a orelha. E um hemangioma muito maior. 

Descobri da pior forma possível que meu problema não era estético, e sim de saúde. E que qualquer cirurgia que fizesse poderia me levar à morte. Eu estava ali, na fase mais difícil da vida, cheia de desafios, de insegurança, e precisei tomar uma decisão. Uma decisão difícil, mas que mudaria minha vida.

Eu era imatura, não tinha muitas certezas, mas de uma coisa eu sabia: eu queria viver. E querendo viver foi quando eu desisti de procurar por médicos e resolvi a procurar pela minha felicidade. 

Na verdade, eu já me amava como eu era, eu só precisava dar um gás nesse amor. 

Foi então que parei de usar os cabelos como uma camuflagem e comecei a usar rabo de cavalo. Afinal de contas, eu era linda demais e não precisava esconder nada de ninguém. 

O primeiro beijo, bem, esse eu já tinha dado. E eu tinha certeza que a minha vida seria, como eu quisesse que fosse. 

Aos 18 anos eu já estava noiva e iniciando a faculdade de Ciências Contábeis. Aos 21 anos eu já não estava mais noiva. Trabalhava durante o dia, estudava à noite, e depois das aulas ainda tinha tempo para muitas festas, porque sempre adorei me divertir com os amigos.

O hemangioma continuava a crescer, mas isso não me preocupava. Afinal de contas a questão “estética” já estava muito bem resolvida dentro de mim.

Tanto estava resolvida que fui escolhida para ser a oradora da turma em nossa formatura. E uma vez que eu nunca tive problema em aparecer, pelo contrário, eu adorava um público. 

Faltando poucos dias para a formatura, e para quebrar um pouco do meu brilho, eu tive uma grande hemorragia na gengiva, a maior de todas. E nesse momento eu descobri, que o risco de morte não se dava só em uma cirurgia, eu descobri que eu corria risco a todo instante. 

Mesmo com perigo iminente, eu fiz minha formatura, fiz o meu discurso, fiz o exame de suficiência (para ser efetivamente contadora) e depois fiz uma cirurgia para garantir minha vida. 

Desse procedimento que eu só esperava sair viva, eu saí quase sem hemangioma. Os médicos conseguiram retirar quase todo o volume e em 15 dias eu estava dançando um baile. 

Nesse ponto, minha autoestima que já era alta cresceu ainda mais… porém a alegria durou pouco.

Em um ano eu precisei de uma nova cirurgia depois de uma grande hemorragia externa, durante o banho. Depois dessa operação, o resultado estético não foi dos melhores. 

Eu precisei passar por um enxerto de pele, e muitos pontos, tantos que nem sei contar. A primeira vez que me vi no espelho foi um tremendo susto, mas passado o susto, eu voltei a me amar. 

Eu já era contadora, virei professora universitária. A maioria dos meus alunos era mais velha do que eu. E desde o primeiro contato eu soube que era aquilo que eu amava. Eu soube que compartilhar o que eu sabia, e aprender com o que os seus olhos diziam, era o que me levava à satisfação. 

Sempre fui segura, sempre confiei no meu potencial, e por isso encarei todos os desafios de cabeça erguida. Como encaro os olhares de pena ou de repulsa que recebo. 

Uma alta autoestima, é sabido de todos, é imprescindível para uma vida mais feliz. No meu caso, uma altíssima autoestima era muito mais que isso, para mim: era a garantia da minha vida. 

Depois disso eu passei por mais 14 procedimentos cirúrgicos para me manter viva, e a malformação arteriovenosa (nova nomenclatura científica) que tenho na face, continuou a crescer. Mas ela crescia, e eu também. Ela evoluía e o meu amor próprio, ainda mais. 

E o maior salto, o período em que o meu carinho por mim mesma se potencializou, foi quando, eu resolvi criar um blog chamado “Eu tenho um hemangioma e daí?!?”em 2015. O nome tem a ver com o que eu sempre senti. Eu tenho um hemangioma, sim, mas eu nunca deixei de viver por conta disso. Pelo contrário, ele sempre me deu forças para eu querer fazer o meu melhor, para eu querer viver intensamente a cada dia. 

O intuito do blog era ajudar pais de crianças com problemas semelhantes aos meus. As informações sobre o assunto são muito escassas e, no fim das contas, o blog ajudou muitas pessoas sem nenhum problema aparente.

E ajudou ainda mais, a sua própria criadora. 

É, porque no blog eu abri meu coração, eu contei tudo o que sentia. Fazendo isso, eu só aumentei o meu orgulho pela minha história. 

Depois do blog surgiram os convites para palestras, que hoje já somam mais de 130. Depois da palestra veio a coroação do meu trabalho, com a publicação do livro Entre Ondas de Emoção. Uma obra literária que conta toda a minha história, com uma riqueza incrível de detalhes emocionais.

E hoje, continuo trabalhando como contadora durante os dias. Larguei as salas de aula por conta de um problema nas cordas vocais, mas continuo com minhas palestras e minha missão de mostrar ao mundo que é possível ser feliz e realizada mesmo com um sério problema de saúde e uma grande diferença estética. 

E mais que isso, mostrar que a autoestima é um grande presente. Um presente que não podemos desperdiçar jamais, pois é o presente que nos leva à felicidade. 

0 em Autoestima no dia 16.01.2020

E os corpos femininos sempre no centro da mesa (o texto contém ironia)

Mal o ano começou e já tivemos uma treta formada: Cleo Pires postou uma foto de biquini e foi alvo de vários comentários nas salas das famílias brasileiras que estavam todas se preparando para jantar. Em contraposição, apareceu Bruna Marquezine, magérrima em um vestido branco. Detalhe: tempos atrás ela já havia falado dos seus distúrbios alimentares. Mulheres belíssimas as duas.

E ambas alvo das perseguições aos corpos femininos.

O corpo feminino é objeto histórico de comentários. Está magra demais. Não cansa de tirar fotos pelada. Está gorda e tem uma coragem enorme de se mostrar. Parece um homem de tanto que malha, entre outros.

Corpos femininos são objeto da cirurgia plástica, da arte, da religião, da moda, mercado de consumo. Existem modelos hegemônicos de corpos femininos e corpos que “insistem” em desviar desse padrão. O corpo é o que somos? Com certeza. Mas é também o que nos escapa, o que transcende e que é objetificado e deixa de nos pertencer.

O discurso é o da preocupação com a saúde, mas o que está por trás dessa preocupação? Quantas vezes nos perguntamos à pessoas que mudaram seus corpos como está sua saúde mental? Quantas vezes oferecemos escuta, espaço de elaboração à mulheres que pensam em fazer intervenções? Os cirurgiões alertam sobre as possíveis alterações de sensibilidade em regiões altamente sexuais? E sobre as mudanças nos corpos, caso volte a engordar?

Vejo mulheres lindas (eu considero todas as mulheres lindas) buscando padrões inalcançáveis.

E vejo também todo um tribunal de julgamentos pelas fotos postadas nas redes sociais. Nossos corpos são um lugar pelo qual deveríamos nos comunicar com o outro, e o outro conosco. E quando o outro valoriza padrões de corpos, ele nos comunica. Comunica que somos incompletas, insuficientes e nem a estrela da novela basta, quando ela decide mandar no próprio corpo.

Será que realmente a culpa da nossa baixa auto estima é das redes sociais? Será que é da vida líquida? Ou será que é dessa sensação de insatisfação gerada por padrões alcançados por poucos e a custa de muita saúde mental. Será que responsabilizar as tecnologias não é mais fácil do que olhar para dentro de nós e ver que parte nos cabe na construção de uma sociedade mais afetiva?

Se entendo que meu corpo, público e privado, é um conjunto de signos, produto de representações posso também utilizá-lo como forma de manifestação, um ato político de me conhecer e de dizer quem sou eu.

Muito prazer, mulher em construção, ponto de ebulição, se prepara para segurar essa pressão.

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 15.01.2020

Sobre mudar de ideia – e não fazer ideia!

Desde criança, nos acostumamos com a típica pergunta de que profissão gostaríamos de seguir quando nos tornássemos adultos. Passamos pela adolescência com a exigência social de ter essa resposta na ponta da língua. E, mais do que isso, de dar o primeiro passo para aquilo que a sociedade definiu como “ser alguém na vida”.

Mas, se estamos em constante transformação – e evolução (que assim seja!) – como esperar que uma decisão tomada em uma fase em que temos muito mais perguntas do que respostas seja definitiva?

Somos uma geração acostumada com mudanças acontecendo na velocidade de um clique. As notícias se tornam parte de um passado em um F5, assim como aparelhos se tornam obsoletos a cada atualização de um software. Profissões que não existiam na época dos nossos pais determinam o presente. E o futuro? É o segundo seguinte. Tão imprevisível quanto a década distante.

ilustra: @ilustragabs

Com tantas mudanças, é claro que vamos nos questionar o tempo todo. E tudo bem. Constantemente recebo um longo áudio de alguma amiga dizendo-se perdida por não saber o que quer fazer daqui pra frente. Que os planos traçados e caminhos percorridos até o momento já não fazem tanto sentido mais.

Com isso, vem dois sentimentos destrutivos: a culpa e a ansiedade.

O que é preciso entender é que mudar o rumo, de forma alguma, significa jogar fora tudo o que foi construído até então. Conhecimentos e experiências não são descartáveis. E tudo – absolutamente tudo – é utilizado para nos fortalecer e tornar os próximos passos mais fáceis. 

Um passo dado para trás não é, de fato, um retrocesso. Como em um jogo de tabuleiro, essa pode ser uma estratégia para andar mais casas logo à frente e vencer o jogo da vida. 

O que quero dizer é que tudo bem mudar de ideia. E tudo bem também nem saber que nova ideia é essa ainda.

Ao se dar um tempo e se reconectar consigo mesmo, conexão essa que muitas vezes perdemos com a correria do dia a dia, as respostas chegarão. E, a partir daí, é ir para a prática e colocar os desejos em ação. Sem pressa.

E uma coisa importante é preciso destacar: encerrei o primeiro parágrafo citando o conceito de “ser alguém na vida”. E, veja bem, ele deve ser acompanhado de muitas aspas. Não é o curso que você faz ou a profissão que você tem que define que você é alguém. Em um texto antigo falei sobre não sermos nossa profissão. Fazendo ou não uma faculdade, seguindo o plano inicial ou não, você já é alguém. E isso não é papo de coach, tá?

Se for para nos perdermos e, em seguida, acharmos a vida que desejamos ter a partir de dali, que a vida seja sempre feita disso. E não importa se é em relação ao trabalho, onde vive ou com quem se relaciona. Permita-se mudar de ideia! E tudo bem não fazer ideia ainda de qual seja ela!