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Comportamento

0 em Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 25.04.2019

O aniversário do Joca e a primeira noite longe do meu filho neuroatípico

Fim de semana passado foi aniversário de um amigo do meu filho Teodoro, o Joca. Ele convidou todo mundo da classe para passar o fim de semana em uma fazenda há uma hora e meia de São Paulo. Brincadeiras mil planejadíssimas, piscina, diversão total.

Para crianças neurotipicas, isso é sensacional.

As mães se preocupam, no máximo, se os filhos vão tomar um tombo ou se vão ficar com saudade de casa. Se vão se meter em alguma
briga ou fazer alguma besteira. Mas eu não. Passei a semana anterior em pânico.

Especialmente porque, sim, Teodoro quis muito ir. Ele é animado e otimista. Independente. E ele também é neuroatípico. Mais especificamente, ele tem TEA (Transtorno do Espectro Autista). O que significa que as minhas preocupações vão bem além de uma treta com o coleguinha.

Eu sou controladora e ansiosa. Ser mãe de um filho neuroatípico me traz vários desafios. Me engano a todo tempo com a ilusão de que posso protegê-lo da vida e lido muito mal com o que não posso prever. 

Será que ele vai se desorganizar e brigar com todo mundo? Será que as crianças vão isolá-lo se ele for agressivo? Será que ele vai se sentir sozinho e excluído? Será que vai conseguir dormir á noite? Será que as mães que ficarão lá cuidando da galera vão me odiar eternamente porque deixei esse “problema” nas costas já sobrecarregadas delas? Será que elas terão, com ele, a paciência que ele merece?

Passei o sábado com todos nessa linda fazenda. Mas, a noite, tive que ir embora. Até tentei – confesso – convencer Teodoro a ir embora comigo. Sutilmente, meio sem deixá-lo perceber. Mas nada.

Teo insistiu em ficar, “sim mamãe, vou dormir com meus amigos”.

E dormiram todos juntos.

Voltei para São Paulo preocupadíssima, mas voltei. O sábado tinha sido bom, ele foi bem, as crianças foram incríveis e as mães, indescritivelmente doces. Mesmo assim, acordei de uma em uma hora durante a madrugada.

A verdade é que ele dormiu bem, porém teve problemas. Ele gritou. Ele se desorganizou. Ele me ligou arrependido dizendo que queria ter voltado. Ele ligou de novo, dizendo que agora não estava mais arrependido. Ele brigou com o amiguinho. Depois ficou de bem com o amiguinho. E sabe o que aconteceu, no fim das contas?

Ele foi acolhido, por todos e todas. Pelas crianças e pelas mães. Elas me ligaram, me acalmaram, e acalmaram ele. Teodoro ficou bem, se divertiu e Teodoro FAZ PARTE.

Como é difícil explicar o que significa estar no meio de pessoas que não tratam um neuroatípico como um trampo ou como algo que veio para atrapalhar. Como foi linda – e rara – a naturalidade daquelas pessoas. Como é bom saber que existe, sim, compreensão e aceitação. Nem que seja por um fim de semana, por um momento de felicidade.

Que Teodoro possa, no futuro, viver em um mundo onde as
pessoas saibam conviver. Não apenas conviver com o diferente.
Conviver, ponto. Quem sabe conviver, convive com qualquer
pessoa e com todas as pessoas.

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0 em Comportamento/ maternidade no dia 23.04.2019

Sobre tentar se enturmar com as mães da escola

Em dois meses eu completo 3 anos morando em Nova York. Mas posso dizer que meu grande passo só aconteceu mesmo há uns 3 meses, quando eu comecei a tentar me enturmar com as mães da escola.

Eu achei que seria fácil. Lembro que uma amiga minha, que botou a filha na escolinha mais ou menos na mesma época que eu, se enturmou super fácil. Todo dia ela tinha coisa para fazer na casa das outras mães. Eu achei que seria igual.

Bem…Arthur entrou na escolinha com 1 ano e meio. Ele está com 3 anos e 4 meses, então faz as contas. Foram basicamente 2 anos inteiros sendo uma pessoa simpática, que ri, fala oi, mas que não dava nenhuma chance de aproximação.

Toda vez que eu tentava, eu sentia certa dificuldade para entender boa parte do que elas estavam falando. Sentia mais dificuldade ainda de seguir a conversa. Não só por causa da língua, mas também porque muitas vezes elas estavam falando de coisas que eu não sabia dar opinião. Quando ele foi para essa nova escolinha, tive outra dificuldade. As mães da escola já se conheciam do ano anterior, então todas já se falavam e sabiam coisas umas das outras. Por causa disso tudo, toda vez saía meio frustrada, e muito cansada, na maior parte das vezes.

O fato de conhecer muitas mães brasileiras – e já falei de algumas aqui – fez com que eu me isolasse constantemente. Muitas vezes sem perceber, e sem intenção. É muito fácil você se manter na zona de conforto quando está insegura.

Só que, no caso das mães brasileiras, cada uma mora em um canto. A que eu tinha mais perto de mim, no meu prédio pra ser mais exata, foi morar em outro país. Muitas moram em New Jersey. E eu me vi ficando cada vez mais sozinha. E o isolamento começou a pesar. Somos seres sociais – e sociáveis – no fim das contas.

Via mães passeando juntas com seus carrinhos e crianças pela rua, e sentia inveja. Via mães da escola nos parques enquanto os filhos brincavam, e me enfurnava no celular para tentar me sentir menos sozinha.

O que mudou? Arthur.

Foi ele que puxou pra fora dessa zona de conforto ao fazer amigos. Mateo e Cruz, o nome deles. Eles começaram a pedir playdates nas casas um dos outros, e foi assim que eu passei a conviver mais com as mães deles (no caso do Cruz, inclusive, são duas mães). E assim eu fui me sentindo mais acolhida, mais por dentro das conversas, e mais segura também.

Outro dia eu fui para o parque depois da escola, e lá estavam outras mães da escola. Fiquei impressionada quando me toquei que, enquanto Arthur estava brincando com as meninas, sem nem perceber, eu estava ali, sentada conversando com elas sobre vários assuntos. Alguns que, inclusive, eu puxei. No outro dia, fui para casa de um deles e voltei quase 9 da noite, de tanto que o papo tava bom.

Enturmada. Finalmente.

2 em Autoestima/ Comportamento/ Destaque no dia 15.04.2019

Carreiras, amizades e uma comparação que precisa parar de existir

Eu sei que quando quando falamos em amizade, não deveríamos estar falando em dinheiro. Nem em carreiras. E isso até é verdade quando ainda não somos adultos e responsáveis pela nossa vida. Mas é só a gente crescer que percebemos que nosso grupo de amigos fica bem variado.

Passamos a conviver com pessoas que escolheram carreiras mais rentáveis, com o povo que vive com jobs e freelas aqui e ali (oi!) e com os que não chegaram a se formar por diversas circunstâncias. E aí, enquanto uns têm uma grana sobrando e vivem vidas mais extravagantes, outros estão ali, pedindo pra fazer programas baratos para não gastar muita grana.

Foto: Brooke Lark

Com isso, é fácil cair na comparação. Ou então, pior. É fácil se enrolar só para poder acompanhar a turma.

Você acha que às vezes está passando dos limites do seu cartão de crédito apenas para desejar pertencer a um grupo? Ou então você fica se sentindo mal porque não consegue acompanhar seus amigos? Tem algumas coisas que quero te convidar a refletir comigo:

Carreiras não são feitas do dia pra noite

Salvo exceções, carreiras levam tempo. A gente começa sempre de baix, muitas vezes num estágio, outras em uma posição junior. E leva tempo até que a sonhada promoção ou aumento apareçam. Ou que a gente se sinta preparada para oportunidades que paguem melhor. Além disso, mudanças completas na carreira podem fazer parte de sua vida profissional. Concentre-se no aumento de qualificação e nas chances de aumentar seu poder aquisitivo. Por isso, não se ressinta da sua amiga que ganha bem na casa causa ganha ou na consulta médica.

Seu trabalho tem valor

Nem todas as carreiras são bem pagas. Então, se você não escolheu seu emprego pelo dinheiro, o que despertou sua vontade de viver disso?

Talvez você tenha a sorte de trabalhar em um campo com o qual realmente se preocupa, onde realmente sente que pode fazer a diferença. Talvez seja porque você valoriza um equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Talvez seja importante estar fora do escritório no horário todos os dias. Talvez seus talentos simplesmente estejam em áreas que são mais subjetivas e que o valor seja difícil de mensurar.

Seja qual for o seu papel, lembre-se das razões pelas quais você escolheu e do valor que ele traz para sua vida. O fato de você não estar fazendo isso não torna seu trabalho menos importante ou valioso.

Deixe o ressentimento e inveja de lado

É muito inerente do ser humano sentir inveja. Mas é nosso dever prestar atenção e controlar para que isso não tenha vez na nossa vida.

É muito fácil invejar aquela amiga que consegue ter e fazer todas as coisas que desejamos e que talvez trabalhe um pouco menos que nós. Mas cair nessa armadilha da comparação não nos leva a lugar algum. Exceto a uma amizade abalada.

Lembre-se que amigos apoiam uns aos outros e que poder ficar feliz pelos outros é uma habilidade fantástica. Tenho certeza que esse tipo de atitude vai refletir também no seu trabalho e na sua forma de encarar as coisas. E a vida vai passar a fazer muito mais sentido.