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Relacionamento

2 em Autoestima/ Destaque/ Relacionamento no dia 21.07.2020

Sobre a idealização de relacionamentos (im) perfeitos

Não sei se já falei sobre isso em algum dos textos que escrevi para o site, mas nunca tive um relacionamento romântico duradouro. Acredito que, de uma forma ou de outra, isso faz com que eu tenda a romantizar e idealizar relacionamentos alheios. E digo isso especialmente sobre aqueles que vejo pelo recorte de uma rede social.

Muitas vezes é difícil não se render diante do encantamento causado por aqueles casais midiáticos ou que expõem diariamente seus amores “perfeitos”.

Feeds repletos de poses bonitas e legendas românticas. E mesmo sabendo que a perfeição somente existe naquilo que idealizamos e, portanto, um casal perfeito não pode ser real. Meio óbvio, inclusive.

ilustra: christopher monro

Não sei se é o meu romantismo pulsante (que tanto tento conter, mas ô bichinho resistente!) mas o fato é que mesmo que racionalmente eu saiba disso, é impossível não me deixar encantar por essas demonstrações públicas. Acho que ser consumidora voraz de filmes e séries de romance faz com que eu queira acreditar que esse amor idealizado existe na vida real. Como uma forma de tentar provar que eu mesma terei a chance de vivencia-lo um dia. 

Mas aí vem a realidade, que segue um script bem diferente.

Há alguns dias, como um soco no estômago, fui confrontada com uma história que tem me feito refletir. Acredito que muitas de vocês leram os relatos recentes que duas atrizes deram para a revista Cláudia sobre relacionamentos abusivos que viveram. São textos fortíssimos e que, aviso para quem não leu, são repletos de gatilhos.

Como acompanhei as duas atrizes por um certo período, não foi difícil perceber que as duas se referiam ao mesmo homem, um ex-namorado em comum. Um ator daqueles que vendem um pacote completo de “bom moço” e que facilmente compramos.

Eu comprei parcelado. Seguia o cara e uma das ex-namoradas no Instagram e tinha como um ideal de casal perfeito. Beleza, sintonia e romantismo exalavam em cada postagem e entrevista para televisão. Lamentei quando terminaram. “Poxa.. difícil acreditar no amor…até casais perfeitos terminando”.

Olha a armadilha do imaginário da perfeição pegando sua presa fácil.

Desde que li os desabafos dessas duas mulheres incríveis me peguei pensando nisso. Esses casais realmente são bons em vender uma ideia de perfeição ou eu que acredito facilmente? Como uma projeção daquilo que gostaria de vivenciar? 

Enquanto eu, de um lado da tela, sonhava em viver a vida desse ex-casal de famosos, do outro lado, a mulher só desejava se ver livre de todos os pesadelos reais em formas de abusos físicos, emocionais e psicológicos.

Quantas mulheres estão em relacionamentos completamente abusivos e são vistas por terceiros como grandes sortudas por terem conquistado o homem dos sonhos?

Porque, afinal, somos sempre nós as que, para a sociedade, devemos agradecer por ter o “santo” ao lado. Como o pedestal da perfeição foi bem moldado para eles e como se sentem confortáveis no altar construído pelo patriarcado. De lá não saem, de lá ninguém os tiram. Ops… Não mais! 

É tão importante que cada uma de nós mulheres não apenas desmitifique relacionamentos como, principalmente, se sinta segura para contar sua história. Ao fazermos isso, esses homens podem até não sofrer as consequências que merecem, mas, sem dúvidas, desse altar de bons moços serão retirados. E nós nos libertamos não apenas de relações que aprisionam como também desse complexo de Cinderela que só tem seu final feliz se tiver seu príncipe encantado.  

Que nossa felicidade não seja mais projetada com base em relacionamentos alheios que sequer sabemos a realidade por trás, e que, acima de tudo, não dependamos de outro para ter o nosso happy ending. Que não esqueçamos que não há relação mais perfeita do que aquela que construímos com nós mesmas. E essa ninguém destrói! 

4 em Autoestima/ Destaque/ Relacionamento no dia 12.06.2020

Team Solteira

Como diz bell hooks no texto Vivendo o Amor, “a arte de amar e a prática de amar começam com a nossa capacidade de nos conhece e afirmar.” Dito isso, Dia dos namorados e você pensou que eu vim aqui falar sobre ser solteira?

Também. Poderia lembrar aqui que existem muitas mulheres que gostam da vida de solteira, gostam de ser solteiras, de viver só. Não falo só, sem família ou amigos. É só, sem todas as questões de um relacionamento. Elas são mulheres fantásticas como todas as outras. Não são amarguradas ou decepcionadas como gostam de rotular. Mas não é sobre isso que eu queria falar.

Hoje é dia dos namorados. Eu to solteira, mas gostaria de falar do desejo de amar e ser amada.

ilustra: Marylou Faure

Eu desejo amar e ser amada novamente. Viver um relacionamento repleto de reciprocidade. Café da manhã e um pouco de malícia e sensualidade. Receber flores sem ter feito nada, assim, por pura espontaneidade. Quero, sim, andar de mãos dadas na beira da praia. Conversar por horas a fio, dedilhar minhas mãos no seu corpo nu e faze-lo arrepiar como sentindo frio. E sorrir das coisas mais banais. 

Já ouvi de homens e de mulheres que sou difícil demais, independente, inteligente, formada demais.

Me sinto numa entrevista de emprego onde meu currículo é sempre competente demais para o cargo simples de namorada. Ah, faltou indisponível, já ouvi também. Será que eu deveria ficar sentada na rede, lendo um livro, esperando o amor? Já falei para várias pessoas que desejo um relacionamento, sou solteira e tals. Acho que elas têm medo de me apresentar um amigo e eu acabe com o coitado do rapaz. 

Ah esqueci: tem gorda demais.

Porque já houveram os caras que queriam me transformar em seus projetos de antes e depois. Ou queriam algo escondido, assim que ninguém pode saber. Além disso, sou mãe. Todos os passos que dou, avaliados meticulosamente por uma sociedade que não perdoa uma mãe que deseja namorar. 

Mas não vim aqui tecer teses, vim aqui dizer estou no Team solteira porque ainda não encontrei o tal amor que todos dizem que quando parar de procurar, ele vai chegar.

Estou aqui, esperando. Acreditando na possibilidade de novamente amar em par. Não é fácil aguardar, como se fosse uma fila a qual você nem sabe qual é a sua posição. Mas enquanto aguardo, vou estudando, me conhecendo, vivendo, me afetando. Porque sigo acreditando que o amor é revolucionário.

2 em Autoestima/ Relacionamento no dia 05.03.2020

“Eu terminei meu relacionamento depois de ver Guilherme e Gabi no BBB”

Eu assisto BBB e amo. Mas esse foi além de puro entretenimento para mim. Acompanhei milhares de debates sobre o relacionamento entre Guilherme e Gabi era ou não abusivo. E enquanto eu acompanhava, foi me batendo uma angústia que me deixou anestesiada por dias, sem saber como botar em palavras. Até que finalmente eu consegui organizar minhas ideias. E quis vir aqui, mesmo que de forma anônima, falar um pouco sobre esse tipo de abuso que não segue os padrões do que reconhecemos como o relacionamento abusivo clássico. 

Por quê? Porque eu me vi na Gabi. E eu terminei um relacionamento justamente por causa disso.

Enquanto acompanhava as discussões sobre Guilherme e Gabi, consegui perceber com clareza o que estava acontecendo comigo. Há 2 anos, eu estava em um namoro considerado perfeito. Quem via de fora, achava que eu tinha tirado a sorte grande. “Que príncipe! Como ele te trata bem! Nossa, ele faz tudo por você, né?”

De fato, eu tenho muita coisa positiva para falar dele. Um homem educado, solícito, atento às necessidades das pessoas, respeitador (e não estou falando em relação à mim somente). O tipo de pessoa que a gente olha e consegue enxergar um coração enorme. E eu me sentia de fato muito sortuda por ter arrumado alguém assim. 

Até que veio nossa primeira briga. Briga boba, dessas que a rotina puxada traz nas nossas vidas. Aquela que não é culpa de ninguém, foi só um momento de explosão de duas pessoas que tiveram um dia cheio. Desentendimento, desses que acontecem em qualquer relacionamento. Seria uma briga trivial e facilmente esquecida, mas se transformou em um marco para mim pois, logo depois de aparentemente termos nos resolvido, ele pisou na bola em alguma coisa do trabalho. E veio colocar a culpa em mim. “Tá vendo? Você veio discutir comigo, a gente brigou e eu errei uma coisa importante aqui.” Pedi desculpas, afinal, realmente foi uma explosão minha – seguida de uma total falta de entendimento dele – que fez a briga escalonar.

ilustra: @mari.ilustra

Na época eu não tinha achado nada demais. Não via nenhum traço de relacionamento abusivo. Afinal, como uma pessoa tão legal podia ser abusiva?

Mas pode.

Uma outra cena marcante foi quando eu conversei com uma amiga minha – e amiga em comum do casal – sobre uma discussão que tivemos. Na verdade eu nem considerava uma discussão, e sim uma divergência. Sabe, quando duas pessoas não concordam sobre determinado assunto e terminam a conversa concordando em discordar? Pois é. Um belo dia, semanas depois desse episódio, estávamos todos no bar e essa amiga trouxe nossa conversa à tona em uma brincadeira. Na hora vi que ele ficou desconfortável, e não demorou muito para ele pedir a conta para irmos embora. No trajeto de volta para casa tivemos uma briga enorme, porque ele achava inadmissível que eu tivesse exposto nosso relacionamento para os outros. 

Ele nunca me proibiu de nada. Nunca me disse que não deveria usar alguma coisa. Nunca levantou a mão ou o tom de voz. Ameaças? Não que eu tenha percebido. Mas toda vez que um embate surgia, ou algo acontecia, a culpa era minha. Seja porque eu havia deixa-lo estressado, seja porque eu havia trazido um assunto delicado à tona em um momento que ele não podia pensar naquilo (sendo que eu nunca sabia que momento era esse), ou então porque eu só sabia reclamar.

Comecei a me ver como uma mulher chata, reclamona, que só via problemas. Saíamos cada vez menos com os amigos. Eu comecei a me retrair. E eu cheguei em um ponto de sentir medo de conversar sobre meu relacionamento com outras pessoas. Eu sentia que estava traindo sua confiança cada vez que eu pensava em me abrir com alguma amiga.

Quando vi uma imagem da Gabi que está circulando pelo Twitter, mostrando o quanto um relacionamento que te aprisiona pode acabar com você, eu me vi naquela imagem. E foi aí que deu o estalo.

Percebi que não dava mais para continuar ali, naquele relacionamento. Me sentindo culpada de tudo. Me afastando, vivendo cada vez mais calada e sem energia. Entendi que estava vivendo um relacionamento emocionalmente abusivo. E enquanto via a Gabi aos prantos, eu tomei uma decisão e terminei. 

Isso tem menos de uma semana. Ninguém entendeu nada. E essa é a primeira vez que to colocando as ideias no lugar, literalmente. Ainda não acredito que foi assistindo um reality show, naquele momento do meu dia que uso para relaxar, que minha vida deu uma guinada dessas. E confesso que ainda tenho dificuldade de encarar meu relacionamento como abusivo. Acho forte. Estamos vivendo em um tempo de extremos, onde todo mundo é santo ou é monstro. Eu ainda consigo ver todas as características positivas que me fizeram gostar dele em primeiro lugar. Não consigo considerá-lo um monstro.

Ao mesmo tempo consigo reconhecer o quanto eu me anulei, por total falta de entendimento dessas estruturas. Agora entendo também que ele só agia dessas formas porque eu permitia me colocar nesse lugar. E agora que eu entendi, poderia tentar novamente com essas novas informações? Talvez. Mas decidi que não quero. Foram 2 anos nesse esquema emocionalmente exaustivo. Nesse caminho, eu perdi toda a energia que eu sei que será necessária para fazê-lo entender. Escolhi reencontrar meu amor próprio que tinha sido deixado de lado, algo que eu espero, inclusive, que a Gabi ache também. 

E por quê resolvi escrever esse textão, mesmo que de forma anônima? Porque eu queria mostrar para quem está lendo que relacionamento abusivo não tem estereótipo. Queria mostrar que dá para cair em contextos abusivos dentro de um relacionamento. Que aquela pessoa que é tão legal pode, sim, apresentar traços abusivos na forma de se relacionar. 

Por mais que eu tenha optado em não permanecer no meu, ainda acredito que pessoas mudam. Prefiro acreditar que existe gente que quer aprender a enxergar a sua responsabilidade dentro dos relacionamentos. Homens que querem prender a enxergar os traços de machismo que estão ali, sutis mas poderosos. Quanto antes você entender esses sinais, e dependendo da disposição do/da seu/sua parceiro/parceira para repensar comportamentos, pode ser que existam esperanças. E esse relacionamento seja, enfim, saudável.