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0 em Sem categoria no dia 21.02.2019

Isso é o que aconteceu quando eu fui entrevistada enquanto estava grávida

Eu não sei de quê outra forma eu poderia começar essa história a não ser pea parte engraçada: eu comecei a procurar por um cargo senior em uma agência de publicidade quando estava grávida de 6 meses e meio.

Eu recebi uma proposta de emprego quando estava grávida de 8 meses e um contrato formal duas semanas depois do parto da minha segunda filha. Eu não comecei meu novo e maior emprego até que eu tivesse curtido 5 meses com minha bebê deliciosa.

Eu não estou compartilhando isso para me gabar. Eu estou compartilhando porque toda mulher que ouviu minha história olhou pra mim, com os olhos arregalados, e pediu para saber cada detalhe. E então implorou para que eu contasse para outras mulheres.

Porque, infelizmente, é um conto bem incomum, né?

Nossas normas sociais parecem com isso: uma mulher descobre que está grávida e permanece na sua posição, quer ela goste dela ou não. Ela permanece por causa da licença maternidade e plano de saúde. Porque ela tem medo de ser rejeitada. Porque ela se sente cansada e não consegue lidar. Por muitas razões, a mobilidade profissional de mulheres pode ser muito limitada durante a gravidez. Aliás, apenas a gravidez dura 10 meses, e combine isso com o tempo que está tentando engravidar, mais o período pós parto. De repente, 2 anos se passaram. Levando em conta que a média de tempo que mulheres de 25 a 34 anos ficam em um emprego é de apenas 2.8 anos, esse período de movimentação limitada é significante. E isso porque estamos falando apenas de um filho.

Eu não tentei remar contra essa maré conscientemente. O que aconteceu é que eu estava na fila para a história padrão. Aos 3 meses de gravidez, eu me vi pronta para fazer uma mudança profissional, mas percebi que meu timing foi bem errado. Impossível, até. Eu amei minha última experiência e pessoas que trabalhei, mas senti que tinha crescido tudo que era possível no meu cargo e na companhia. Eu estava pronta para meu próximo desafio. Mas procurar emprego leva tempo, e eu seria muito sortuda se achasse uma oportunidade até os 6 meses. Quem me contrataria depois disso?

Como muitas mulheres grávidas, eu internamente encolhi meus ombros e aceitei meu destino. Eu ficaria ali, eu falei para mim mesma. Usaria esse tempo para descobrir qual seria meu próximo passo, tiraria minha licença maternidade e começaria as entrevistas quando eu voltasse a ser “empregável” (em outras palavras, depois que o bebê nascesse).

Mas eu estava impaciente. E comecei a responder mensagens de recrutadores, só por curiosidade. Ou pelo menos era isso que eu falava pr mim mesma. Essas ligações geralmente iam bem, mas quando eu eventualmente falava que estava grávida – porque eu sou honesta assim – o script mudava para um rápido e comum final.

“Ah, parabéns! Você é a terceira mulher que eu falei esse mês que está grávida. Deve ter alguma coisa no ar. Ok, vamos nos falar depois do bebê nascer”.

Essas recrutadoras eram mulheres. E eu nem fiquem ofendida. Tudo que eu fiz foi reforçar essa ideia que eu realmente estava presa nesse momento. Mais uma vez eu encolhi meus ombros e me convenci que era o melhor. Isso me forçaria a relaxar, ganhar tempo e realmente ter uma decisão pensada sobre meus próximos passos.

Enquanto eu estava no processo, eu acabei conversando com colegas do passada que eu sempre gostei e admirei, pedi para tomarmos um café. Depois de uma dessas reuniões, com um homem que eu trabalhei mas não encontrava há mais de uma década, eu fiquei particularmente interessada e empolgada. Ele agora era presidente de uma agência de publicidade e eu me peguei pensando que essa agência tinha muito do que eu procurava. Eu sabia que ele tinha ficado interessado na minha experiência também. Nós saímos do café com a ideia de voltarmos a nos falar depois que o bebê nascesse e quando eu tivesse pronta.

Sendo muito justa com ele, todos esses meus cafés para network começaram comigo apontando a barriga e deixando claro que eu estava usando esse tempo para explorar meu próximo passo. Claro que eu não estava procurando fazer algo agora. Eu certamente contribuí para estabeler meus limites, mas ninguém que eu encontrei me encorajou a considerar outras possibilidades.

Depois dessa reunião frutífera, eu voltei para casa e contei para o meu marido, super empolgada. Mas logo em seguida eu fiquei desapontada por não poder agarrar essa oportunidade agora. Eu tentei encolher meus ombros novamente, mas meu desapontamento rapidamente se transformou em aborrecimento. E isso é uma merda. Meu marido não precisaria esperar meses para ir atrás de uma oportunidade só porque a gente está para ter um filho. Por quê eu precisaria?

É nesse momento que minha história tem uma reviravolta incomum.

Ao invés de tentar calar essa voz, eu decidi desafiar o status quo para um comportamento aceitável de uma mulher grávida. E no dia seguinte eu fiz algo que fez todo mundo que me conhece achar que eu estava maluca, incluindo eu. Eu procurei o homem que eu tinha tomado café para falar: “na verdade eu já estou pronta para falar seriamente, se você estiver.”

Foi uma coisa assustadora de fazer. Fez com que eu me abrisse para ser julgada ou rejeitada por alguém que eu queria manter uma boa impressão. Exibir ambição profissional e estar feliz por ter uma filha a caminho, ao mesmo tempo, é uma linha fina para uma mulher andar. A gravidez é um enorme lembrete visual da dicotomia entre trabalho e família, estampado no corpo de uma mulher. Eu sabia muito bem que eu não era a candidata mais desejável no momento. Não como eu seria em outra hora. E eu estava apavorada em mandar esse e-mail.

No momento que eu pressionei “enviar”, eu sabia que eu me sentiria melhor do que se eu tivesse ficado quieta, independente da resposta. Se ele falasse: “Ótimo, agora venha se reunir com umas pessoas”, eu me sentiria confiante por ter perseguido a oportunidade, grávida e tudo. Se ele falasse: “Não estamos interessados em falar contigo até você terminar com essa história de ter bebê”, eu já saberia antes de começar que esse não seria um lugar que eu gostaria de trabalhar. Pelo menos não como uma mãe recém parida.

Sua resposta foi imediata e positiva. Ele marcou uma entrevista com meu chefe atual, com quem eu tive outra conversa interessante e empolgante. Então ele me fez conversar com outras pessoas, que nem piscaram pelo fato de eu estar grávida. Foi ótimo.

Isso não é para falar que foi super fácil ser entrevistada com 6, 7, 8 meses de gravidez. Eu me senti exposta e insegura. Minha ideia de entrevista era outra, e ela não incluía uma bola de basquete na minha barriga, andando por aí em salas de conferência. A gravidez não deixou com que eu pusesse a minha típica armadura, essas que a gente acaba vestindo de um jeito ou outro.

Mas mais uma vez, o que poderia ser assustadoramente vulnerável, se mostrou bem positivo. Foi a primeira vez que eu cheguei em um ponto de “me aceite ou não do jeito que eu sou” um um nível profissional. Não estava escondendo minha bagagem. Que eu tinha outras prioridades fora do trabalho. Que eles estariam contratando uma mãe de duas crianças pequenas e todas as inconveniências que isso pode trazer.

E essa acabou virando uma das experiências mais empoderadas da minha vida profissional. Ser entrevistada enquanto grávida me desafiou a baixar a guarda e ser totalmente eu desde o dia 1. Como uma mulher em publicidade, eu aprendi a criar uma imagem pessoal que é interessante para a indústria – assim como a maior parte das mulheres em tantas outras indústrias também fazem. A maternidade definitivamente não estava inclusa nessa figura. Muitas das mulheres na publicidade que eu trabalhei acabavam saindo da empresa depois de ter filhos, porque muitas sentiam que não tinha um lugar ali, por muitas razões. Se eu queria voltar para uma agência depois de tantos anos mostrando minhas habilidades em outros cantos, e fazendo isso enquanto estava muito grávida, pareceu um absurdo. E fez com que eu encarasse a coisa que mais me deixava insegura nesse campo: minha feminilidade.

Engraçado como a vida funciona, as vezes.

Aos 8 meses de gravidez, depois de um processo que foi muito positivo, eu recebi uma oferta de trabalho formal para uma posição que eu nunca tinha sonhado em perseguir nos últimos meses.

E sobre licença maternidade? Levando em conta meu timing único e o fato que eu não recebi o contrato e negociei os detalhes finais até meu bebê nascer, eu não podia ter direito à minha licença maternidade no meu novo trabalho. Ao invés disso, eu peguei os 3 meses e meio que eu tinha direito pelo meu trabalho anterior e pelo estado da California.

Meu novo empregador inicialmente quis que eu começasse depois de 3 meses. Mas eu falei para eles que eu seria uma funcionária melhor se eu pudesse começar depois de 5 meses. E as 6 semanas de licença não remunerada que eu eu estava planejando foram pagas com o aumento de salário que eu recebi nessa nova oferta.

Eu sei que eu fui muito sortuda. Para começar, nem toda mulher tem licença maternidade, nem tem um empregador tão flexível com a licença familiar. Porém, eu acho que essa é mais uma razão para que mulheres tomem as rédeas de suas vidas nesse estágio da vida.

E como foi começar um novo trabalho com um novo bebê? Não vou mentir, não foi fácil. Trouxe uma leva nova de vulnerabilidades. Eu consigo entender por quê muitas mulheres preferem continuar com um lugar confortável e conhecido nessa fase da vida. Muitas das pessoas que eu trabalhava nem sabiam que eu tinha um bebê e uma criança de 4 anos em casa, e isso não é algo que eu falo em conversas iniciais. Justamente por eles não me conhecerem ou conhecerem meu trabalho, eu me preocupo em não ser tão afiada quanto eu costumo ser.

Entre tirar o leite duas vezes por dia, filhas ficando doentes, eu ficando doente e balançar as logísticas de viver em uma cidade grande com duas crianças que eu faço questão de ver todo dia e toda noite quando não estou vajando, eu realmente não consegui dar 100% de mim nesse novo trabalho. 9 meses depois, eu ainda não consigo. Mas novamente, isso me forçou a ser mais verdadeira comigo e com meus valores. Eu tive que estabelecer limites mais fortes com o meu tempo e pude aprender que meu trabalho ou reputação não sofreram com isso.

Eu também senti muito respeito e lealdade com meu novo trabalho. Acho que fala muito sobre uma empresa e sua liderança quando eles estendem uma posição senior para uma mulher grávida e ainda esperam quase metade de um ano para que ela comece. Isso ilustra um nível de valor dado às mulheres e mães que é uma ótima indicação da cultura e valores da empresa. Não é de se espantar que essa agência foi a melhor organização que eu já trabalhei quando falo sobre o cuidado com funcionários e a procura por diversidade e inclusão no local de trabalho.

Para quem quer que tenha se inspirado pela minha história feliz, eu termino essa conversa com um conselho de alguém que teve uma boa sorte inesperada.

Companhias, considerem a motivação, a fidelidade e o progresso que vocês podem cultivar com mulheres grávidas. Sejam abertos a trabalhar com elas para terem criatividade nas opções de licença maternidade, bônus, acesso à saúde e outras questões. Eu sei que isso parece ser especialmente desafiador para pequenos negócios ou times pequenos, mas contratar a pessoa certa é valioso a longo prazo.

Recrutadores, não achem que gravidez é um botão de pausa para mulheres ou empresas. Você pode estar machucando os dois lados ao fazer isso. Se mulheres dizem que não estão interessadas em fazer movimentos profissionais por causa da gravidez, pergunte educadamente se isso é realmente verdade ou elas estão apenas assumindo que a companhia não as aceitará. Seja campeãs para suas clientes mulheres nessa fase de suas vidas.

Mulheres, se desafiem a crescer profissionalmente enquanto grávidas. Se você sentir que pode, então pode. Nunca sabemos quais oportunidades podem surgir, e como você conseguirá encaixá-las durante a sua gravidez, licença maternidade e a vida da sua família futuramente.

Texto por Jen Watts Welsh  – matéria original do site Fast Company