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0 em Autoestima/ Destaque/ feminismo no dia 20.02.2020

O Carnaval e a hotpant

Acho que esse é meu primeiro post para o Papo em tom de desabafo, revolta e tristeza pessoal. Justamente em uma época do ano que eu tanto amo, o Carnaval. Ele está aí e temos visto recentemente muito engajamento das pessoas em montar seus looks e fantasias. Muita purpurina e criatividade. Temas mil.

E também temos visto uma profusão de hotpant. Aquela parte de baixo no meio termo entre um biquíni e um short convencional.

Eu visto 46/48, dependendo da peça e da marca que a fabricou, e a verdade é que eu nunca pude usar hotpants pois simplesmente não encontrava peças do meu tamanho. Sempre fiquei incomodada com isso, pois todas as minhas amigas de corpos típicos ou magras saiam maravilhosas com suas hotpants no carnaval, mas eu não podia. E olha que eu não sou considerada uma mulher gorda maior. Nessas horas fico pensando nas meninas que são maiores que eu, e as dificuldades ainda maiores para encontrar peças como essas em seus tamanhos. Era um misto de raiva e sentimento de exclusão.

No carnaval de 2019 eu finalmente encontrei uma hotpant do meu tamanho. Comprei a minha e saí mega feliz no carnaval. Ouvi diversos comentários de amigas dos corpos mais variados possíveis.

essa foi a primeira hotpant que comprei!

“Nossa mas eu não tenho mesmo coragem de sair assim”.Ouvi de uma amiga magra.

“Ainda bem que você também está de hotpant pois assim não me sinto sozinha”, falou outra. Recebi muitos elogios e também alguns olhares julgadores. Não posso fazer nada a respeito dos olhares. E também amigas com corpos parecidos com o meu dizendo que se sentiam representadas ao me ver no meio do bloco com essa peça.

Agora, no Pré carnaval de 2020, passei por uma situação curiosa.

Eu toco há 5 anos em blocos – minha paixão – e sem dúvida o carnaval muda a gente em corpo e alma. Ele me trouxe uma liberdade comigo mesma que eu nunca havia experimentado. Tocar de hotpant toda purpurinada faz parte desse movimento, e virou um item básico para mim. Semana passada fui para São Paulo tocar com meu bloco de coração e fiquei hospedada na casa de uma amiga carioca, também super carnavalesca.

Ao me vestir, ela falou: “amiga você deveria ir de saia até o bloco”. Para a minha surpresa ela, com toda preocupação de me proteger, sugeriu que eu saísse “vestida” por medo de assédio. Na rua, no taxi ou em qualquer lugar.

Cara, eu já tinha pensado e resolvido a “problemática” de usá-la no bloco. Mas nunca tinha pensado na “problemática” do transitar na rua de hotpant.

Já é uma desconstrução imensa colocarmos nosso corpo à mostra na rua. Temos aprendido e repensado nossa relação com o corpo na praia, por exemplo, mas não em uma praça no centro da cidade. Já é difícil à beça achar a peça para usar, internalizar isso, conseguir vestir e sair de casa. E aí vem “outro obstáculo”, que é o transitar para chegar lá.

Parece o universo te testando em mais uma etapa. “Quer ir mesmo de hotpant? Então toma mais um desafio!”.

Me deu um misto de raiva, indignação (novamente). Me senti violentada por não “poder” sair como quero, na hora que eu quero. De não poder transitar como quero.

Obviamente a culpa não é da minha amiga. Amei seu cuidado e zelo. Também não é culpa da cidade de São Paulo, mas sim do sistema opressor que nos rege. Logo depois aconteceu a história do motorista em Porto Alegre que assediou uma menina de 17 anos. A justificativa? “Ela estava usando um short ‘tipo Anitta’, com uma mini blusa, com as pernas abertas no banco e chamando a atenção”.

A gente tenta se apropriar do nosso corpo, mas logo somos lembradas que esse sistema quer que as mulheres se escondam. Que não possam se expressar como gostariam. E que vivam com medo. E eu não aguento mais isso.

No fim, lá estava eu, no bloco de hotpant. Relembrando a maravilha de ser livre com o próprio corpo. E com mais vontade ainda de levar essa liberdade para novas esferas. Quando dizem que Carnaval é resistência, também tem a ver com isso.