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0 em Comportamento/ crônicas/ feminismo/ Relacionamento no dia 18.01.2019

O feminismo acabou com meu casamento. Será? Acho que não.

Ouvi dia desses que o feminismo acabou com o meu casamento. Logo eu, tão dedicada, tão apaixonada. Mulher que atropelou tudo, inclusive os deliciosos vinte e poucos para formar família. Logo eu, tão fiel, tão mergulhada neste mundo. As vezes, eu confesso, tão afogada que custo a me encontrar nas entrelinhas.

O que meu marido – e a maioria dos homens – não entende é que feminismo não é tentativa de sabotar casamento. É uma busca desesperada de quem realmente somos, sem rótulos ou expectativa alheia.

Demorei exatos trinta anos para descobrir que amor está no olhar admirado. Na segunda-feira chata que recebe pinceladas de cor com um carinho despretensioso. Esse olhar admirado é não apenas pela aparência que você tem, mas sua história para chegar até ali. Cada cicatriz é marca de guerras travadas e vencidas. Nenhuma mudança externa chega aos pés das internas, que aconteceram no decorrer dos anos e das gestações que tive.

Os olhos sendo abertos pouco a pouco. Mulheres incríveis que através de suas histórias nos guiam ao mundo novo de força e coragem em assumir nossa personalidade. Em assumir nossos desejos e sonhos reais, sem levar a opinião de ninguém em conta.

Nasceu nestes últimos anos uma mulher forte, guerreira, bem resolvida, leve, feliz consigo mesma. Uma mulher que sabe o quanto é linda.

Se meu marido não puder se apaixonar novamente por esta mulher incrível, acho sinceramente, que quem deveria mudar é ele.

Não posso retroceder todo este caminho cheio de pedras e sacrifícios que trilhei. Não quero abrir mão de quem por tanto tempo lutei. Não posso abandonar esta mulher incrível que me tornei. Até porque descobri que sou mais apaixonada por ela do que por qualquer outra pessoa no mundo. Talvez seja este o problema. Todo o amor direcionado por anos a uma outra pessoa, agora a base, o farol, tudo isso direcionei para mim mesma. E deve doer ser trocado assim, eu entendo.

Porém não tenho que caber em qualquer lugar apertado. Eu não preciso ficar em uma bolha de aparências pré-moldada para agradar sabe-se-lá-quem.

Como qualquer pessoa livre, não posso me conter nos desejos e sonhos que tenho, só por ser mãe e mulher.

FEMINISMO-CASAMENTO

Desculpa aí, mas como li aqui mesmo no Futi, em um relacionamento escolhi ser a laranja inteira.

0 em crônicas/ maternidade no dia 05.11.2018

Ensinar a se amar é revolucionário. Ensinar a se impor também.

Ser mãe de menina é, ou ter que se acostumar a ouvir todo tipo de frase machista disfarçada em conselho, votos de felicidade e preocupação ou afiar sua língua para dar o repeteco tão julgado e, sinceramente, necessário. E faço mais, ensino a filha a fazer o mesmo!

Dia desses em uma conversa despretensiosa com a professora, ela me contou do dia que Luiza fez um discurso feminista digno de muita passeata por aí. O motivo foi um só: os meninos brincavam de carrinho e ela havia entendido que eles não iriam deixar que ela brincasse também por ser menina:

– Meninas também brincam de carrinho! Minha mãe falou que meninas podem fazer o que quiserem! Não existe “coisa de menina” e “coisa de menino”!   – E lá foi ela batendo o pé participar da brincadeira diante dos olhos curiosos e assustados dos coleguinhas que nada entendiam.

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ensinar-amor-proprio-se-impor

Outro dia, ao ver da janela de casa a luz de um holofote em meio às nuvens, ela me disse:

– Eu acho que é um raio, mamãe.

– Não é não, Lulu. É um holofote.

– Mamãe, você acha que é um holofote, eu acho que é um raio. Eu gosto de rosa, você gosta de azul, lembra? – Disse, me lembrando da vez que a ensinei a respeitar a opinião que diverge da dela.

Bateu um orgulho daqueles.

Nunca me esforcei para moldar a Luiza. Nunca quis que ela se esforçasse ou mesmo almejasse se enquadrar em padrões tão cruéis de beleza e comportamento. Aliado ao gênio forte, tenho em casa uma pimentinha que apesar de ardida, dá cor e sabor a minha vida.

Ensinei a ser forte, ensinei a não ter medo de se expressar, ensinei a amar todos sem distinguir sexo, cor, religião e tenho treinado seus olhos a verem beleza em todos. Somos diariamente bombardeadas com propagandas exaltando belezas. E elas são quase sempre tão falsas, tão plasticamente tristes e inalcançáveis que vez ou outra abro o Google e lhes mostro mulheres de outros países.

Mulheres de outras culturas, com padrões completamente diferentes de beleza, negras, gordas, ruivas, morenas, de tribos e etnias, da cidade ou do campo, mostro tudo o que há para ser visto e incentivo a enxergarem a beleza em todos, inclusive neles mesmos.

Ensinei que além da beleza a ser vista, não nos resumimos a ela. Temos sonhos, sentimentos que às vezes nem sabemos nomear, coisas que vão muito além da aparência. Há felicidade no simples, no escuro, no silêncio das madrugadas que passamos a sós com nós mesmas e não há melhor companhia, não há maior amor no mundo do que o que temos ou devemos ter por quem somos e este amor salva, nos levanta todos os dias da cama, ensina a recomeçar do zero, não importa quantas vezes venhamos a cair. Nos amar é revolucionário, saber respeitar as opiniões diferentes e saber se impor também. Bem a cara dela, né?

0 em Comportamento/ crônicas no dia 19.10.2018

Comprei uma bicicleta e ganhei muito mais do que esperava

Compramos uma bicicleta. Eu sei que foi na estação mais errada do ano, afinal, faltam uns 2 meses para a temperatura chegar perto do 0 e começar o período de neve, mas isso era algo que a gente ameaçava fazer há algum tempo e sempre desistia. Sem nenhum motivo aparente. Era o tipo de coisa supérflua, “um dia a gente compra”. E esse dia nunca chegava. Até que chegou.

Pegamos um modelo bem básico, nada muito caro ou cheio de novidades. Uma bicicleta que fosse boa o suficiente pra gente sair andando por aí. E compramos uma cadeirinha de criança, já que a cidade permite que esse seja um meio de transporte viável, queremos mais é que o Arthur aproveite com a gente. No mesmo dia eu aluguei uma dessas bicicletas que você paga o dia e vai trocando de meia em meia hora e resolvemos explorar. Atravessamos a ponte, fomos parar lá do outro lado de Manhattan e foi uma experiência deliciosa, típica sensação de felicidade quando você está fazendo algo novo pela primeira vez, sabem?

bicicleta-experiencia

Só que eu queria mais. Desde o dia que trouxemos a bicicleta para casa eu estava pensando na possibilidade de começar a usá-la para levá-lo na escola, que fica há 1,1 km de distância da minha casa e confesso que nem sempre me dá ânimo de andar esse tanto, ida e volta. Só que surgiu um medo. Não foi medinho, não. Medão mesmo. Medo de mãe.

Será que vou conseguir me equilibrar com ele? Será que vamos cair? Será que eu vou conseguir? Enquanto isso, meu marido – que foi a pessoa que estreou a bicicleta no domingo – me dizia as particularidades. “Cuidado que quando ele está na cadeirinha, ele fica muito mais pesado que a bicicleta, então você vai ter que segurar muito mais firme”. E lá tava eu, sofrendo por antecedência. É impressionante o quanto eu sofro antes mesmo de experimentar. Eu penso em tudo que pode dar errado e fico remoendo isso, penando. A minha sorte é que eu já passei da fase de deixar isso me parar, meu novo lema da vida é justamente aquele “tá com medo? vai com medo mesmo” (que tem funcionado para tudo, menos para borboletários, que eu nem me atrevo) e como não deixei que o receio me parasse, hoje eu decidi que seria o dia.

Assim como compramos a bicicleta no meio do outono, escolhi também o dia mais frio da semana para estrear a minha carona pra escola. #bemapropriado Mas eu sei que quando eu boto algo na cabeça, essa é a minha deixa para não dar pra trás. E fui.

Arthur estava empolgadíssimo com a experiência. Enquanto eu pedalava rumo à escola, ouvindo gritinhos empolgados típicos de uma criança que está saindo da rotina e fazendo algo muito empolgante pela primeira vez, eu me deixei contagiar. O vento estava gelado (afinal, as 8:30 da manhã a temperatura era de 3 graus), as minhas mãos ficaram um pouco duras por causa do frio, mas eu não estava sentindo nada disso. Comprei uma bicicleta e veio de brinde felicidade, liberdade, empolgação e aquele tipo de independência que eu senti muitos anos atrás, quando tiraram as minhas rodinhas. Por quê eu demorei tanto?