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Saúde

3 em Destaque/ Saúde no dia 26.03.2019

Sobrevivemos à depressão. E dessa vez, foi preciso uma vila

Conheci o Marco no dia do aniversário dele. Ele estava fazendo 27 anos, eu tinha 24. O ano era 2001. 

De lá para cá eu e Marco namoramos, casamos, tivemos um filho. Nos separamos, eu casei de novo, ele namorou e desanamorou várias vezes. Tive uma filha, ele é o padrinho. Na verdade, quando faço a conta hoje, percebo que a gente chegou em um ponto em que passamos mais tempo convivendo como melhores amigos do que como casal. 

Sim, somos melhores amigos. Considero o Marco como um irmão. Aquele tipo de pessoa que eu posso falar mal, mas se alguém xingar, eu bato. Aquele tipo de pessoa que já chegou em um nível de intimidade que dá pra dormir na mesma cama e não existir nem um mínimo de atração física. Irmão. 

O Marco tem depressão desde sempre. Depressão de verdade, não tô falando de melancolia. De “ai que pessoa pra baixo, vê sempre o copo meio vazio”.

ilustração que eu fiz dos dois

Tô falando de depressão = doença.

Passamos por vários altos e baixos durante esses anos todos. Eu levei Marco no seu primeiro psiquiatra e no seu primeiro terapeuta. Fui a primeira pessoa que disse pra ele “você tem uma doença”. E assim fomos vivendo, e assim fomos criando o filho maravilhoso que temos juntos, o Teodoro. 

Em 2017 o Marco começou a namorar a Dani. Uma mulher com cara de criança, tom de voz suave, fala baixo e devagar. Parece frágil, assim, na aparência. Quando bati o olho levei um susto. Perguntei “ô Marco, desde quando você sai com menininha?”

Mas ela não era menininha não, era só a cara que enganava. Tem uma filha adolescente que cria sozinha. É batalhadora. Tudo que a voz tem de suave e a aparência de frágil, a Dani tem de forte por dentro. A criatura é uma rocha, bicho. 

Pois bem em 2018, poucos meses depois que os dois estavam namorando, o Marco cai na pior crise de depressão de toda a sua vida.

Não queria comer. Não queria sair da cama. Não queria atender o telefone. Não queria nada. 

Eu não sei explicar pra vocês a aflição que é passar por isso, aqui, do lado de cá. Do lado de quem ama e cuida de alguém que se sente assim. Quantas vezes eu pensei “É hoje. É hoje que eu vou ter que explicar para o meu filho autista de dez anos que o pai dele morreu por escolha própria.”. Quantas vezes eu imaginei a vida da gente sem o Marco.

Eu falava com a Dani quase todo dia, ela passando pela mesma angústia. A gente fez de tudo, meu povo. Falamos com médico. Falamos com Marco. Pensamos em alternativa. A Dani ia lá arrancar ele da cama, dar banho. Escrevia bilhetinho. Que mulher. 

A história é longa, complexa. Mas a verdade é que a gente deu a mão. Eu e a Dani primeiro. O Fernando, meu marido, também, muito. E a Roberta, irmã do Marco, veio também. A gente se uniu. E o resultado você vê no vídeo que quero compartilhar com todo mundo aqui embaixo. 

Ontem, quando Marco postou o vídeo (eu não sabia que eles tinham gravado), liguei pra ele e disse “chorei tanto, Marco”.

Ele riu. Ficou surpreso. Não entendeu tão bem a minha emoção. 

Marco. Quem venceu foi você. Só você. A sua coragem. Eu falei de todo mundo, menos de ti. Mas a vitória é toda e só sua. Eu choro porque meu filho não vai mais ficar sem pai. Eu choro porque você segue presente. Eu choro porque a Dani existe e te ama tanto.  Eu choro de alívio. 

Eu choro com o coração cheio de amor, porque a vida vale a pena.

Se você precisa de apoio psicológico – ou conhece alguém que precise – esse link tem uma lista enorme com endereços e locais por todo o Brasil.

Veja também:

0 em Autoestima/ Destaque/ Saúde no dia 12.03.2019

Gordofobia médica, ou “mal me olhou e disse que eu precisava emagrecer”

Você já ouviu falar de gordofobia médica? Então vou mostrar algumas frases:

-“Eu estava com uma dor de ouvido e enquanto fazia a receita de antibiótico a otorrino disse que eu deveria tomar cuidado com o meu peso”

“Fui à emergência por causa de uma dor de cabeça e o médico perguntou se eu já tinha cogitado bariátrica”

“Não dormia direito há semanas, estava chorando por tudo e fui ao psiquiatra. Ele falou que deprimido devia estar meu marido por ser casado com uma mulher gorda e descuidada”

Veja toda a conversa

Tais relatos têm chegado de forma cada vez mais frequente. Gosto de pensar que é porque finalmente as pessoas percebem o absurdo que representam. Mas também tenho um lado menos positivo, e penso que talvez só esteja sendo falado porque tal fenômeno é crescente. Lembro que ouvia à exaustão durante a faculdade que o preceito primordial da medicina é o “primum non nocere” – “antes de tudo, não fazer mal”. E me pergunto em que ponto da carreira esse ensinamento é pulverizado da prática de alguns colegas. 

Queria muito que essas frases fossem invenção para iniciar um texto, mas todas elas me foram relatadas em atendimentos e ilustram o fenômeno da gordofobia médica. E infelizmente, ele é mais comum do que deveria.

“Mas obesidade é doença!”, gritam logo os “preocupados com a saúde”. Ora, e em que universo defender que um paciente seja acolhido, respeitado e orientado, independente de suas características físicas, significa fazer apologia à obesidade?

É dever de todo médico identificar e propor soluções para eventuais agravos de saúde. Também é dever investigar desde condições de higiene e moradia a hábitos de vida.

Em nosso modelo atual de sociedade, principalmente em centros urbanos, é bastante comum que se passe mais tempo no trabalho e no trânsito do que em casa. Não temos tempo ou qualidade de sono adequado. Nem sempre se consegue tirar férias com medo de perder o emprego. Não sobra tempo ou energia para dedicar-se a atividades prazerosas e divertidas. E as pessoas estão tão estressadas que acabam usando quantidades exageradas de álcool ou outras substâncias. Isso sem falar de não conseguir se exercitar porque falta grana para a academia ou sobra medo de sofrer alguma violência ao fazer uma caminhada no quarteirão. Optamos entre ir ao mercado e preparar refeições balanceadas ou ver o filho acordado.

Poderia falar de mais várias questões atuais, mas vou ficar apenas com essas. Todas as situações citadas trazem risco à integridade física e mental e muitas vezes passam batidas.

Por que estar acima do peso necessariamente ganha o protagonismo de risco à saúde? Taí, gordofobia médica.

Sim, é necessário que se mantenha a seriedade em não desmerecer o impacto da obesidade sobre a mortalidade cardiovascular e o aumento de risco de diversos tipos de câncer. Também precisamos ficar atentos à limitação a diversas atividades cotidianas e mesmo sobre a expectativa de vida.

Porém, engrossar o coro terrorista se mostra inefetivo. Prova disso são os índices altíssimos e crescentes de sobrepeso e obesidade em todas as faixas etárias.

E não só isso. Também afasta uma população cada vez mais numerosa dos serviços de saúde.

Após sofrer gordofobia médica, proferida por profissionais que deveriam trazer conforto e alívio, é comum que a pessoa gorda não busque mais ajuda a não ser em caso de extrema necessidade. A determinação de que toda e qualquer queixa se deva ao sobrepeso também pode deixar passar sintomas e sinais clínicos, inviabilizando um diagnóstico preciso e tratamento adequado.

>>> Veja também: Na balança: o medo da obesidade adoece a sociedade <<<

Também é nossa obrigação orientar que a obesidade tem caráter crônico, e seu manejo exigirá responsabilidade, tempo, persistência, tolerância a frustrações e reorganização de rotina. Além do desenvolvimento de uma nova relação com a alimentação e o autocuidado como um todo.

É essencial desencorajar a busca por soluções fáceis e imediatas. Essas, muito frequentemente, se mostrarão ainda mais agressivas ao organismo que o sobrepeso inicial. Entram aqui as dietas restritivas radicais, exercícios físicos extenuantes sem supervisão, “fórmulas” com compostos altamente suspeitos e de uso não-regulamentado e comportamentos de risco para transtornos alimentares.

Há inúmeras formas de se promover saúde e evitar doenças graves. Humilhar um ser humano jamais será uma delas.

2 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Saúde no dia 31.01.2019

Quer mudar sua relação com seu corpo?

Ótimo, saiba que é possível, libertador e transformador, mas não tem uma receita mágica ou uma única fórmula correta. É um processo profundo e individual, por isso precisamos conversar sobre ele.

Muito é falado hoje em dia sobre aceitação corporal. Os movimentos de #bodypositive e #bodykindness tem aumentado cada vez mais ao redor do mundo. É bonito ver cada vez mais mulheres entendendo a força e a potência que nossas ações podem causar no mundo. É lindo ver mulheres se tornando cada vez mais donas de seus desejos e arcando com a consequência de ser protagonista na sua própria historia e escolhas. Eu como profissional de saúde, formada a quase 2 décadas, presencio este movimento ao longo destes anos e a olhos nus no meu consultório particular, nas redes sociais e em reuniões com outros profissionais da área de saúde.

Eu recebo uma infinidade de mensagens de mulheres me agradecendo por colaborar no processo de aceitação de seus corpos, entendendo que cada uma de nós tem um corpo, um biotipo, uma genética e uma historia que faz com que nossos corpos sejam únicos e incapazes (pelo menos naturalmente) de serem padronizados.Tem dias em que durmo com um sorriso no rosto após ler uma dessas mensagens. Porém, nem só de flores vivem as mudanças…

Recebo também uma infinidade de mensagens de mulheres que já leram livros, já fizeram “Unfollow Terapêutico” (deixar de seguir nas redes conteúdos que lhe fazem se sentir diminuída ou pressionada), mas mesmo assim ainda sofrem.

Joana Cannabrava Ilustrando o texto | Foto Adriana Carolina Iwanczuk

Se você está neste último grupo, este texto é para você:

Como toda grande mudança, alterar seu foco, definir novas prioridades e aprender a lidas com as dúvidas e frustrações leva um tempo que não tem como ser definido. Mas hoje, o desafio que enfrentamos para nos adaptar a mudanças, tanto voluntárias, como involuntárias, é ainda maior.

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, ficou conhecido pela sua teoria que vê o mundo através da metáfora da “liquidez” e “fluidez”. Hoje tudo é temporário, e a modernidade – tal como os líquidos – caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. Todos os campos da vida — o trabalho, a família, o engajamento político, o amor, a amizade e a própria identidade —  são tocados por essa instabilidade, e isso nos causa angústia.

Tememos pelo desemprego, pela violência, pelo terrorismo, e também pelo receio de ficar para trás, de não se encaixar nesse novo mundo que muda em um ritmo hiperveloz. A fluidez impede a possibilidade de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça o estado temporário das relações sociais e auto-imagem. E isso nos leva indiretamente a termos que nos reinventar constantemente!

É neste ponto que eu queria chegar!

Em um mundo onde tudo muda constantemente não há nem fórmula fixa de como se adaptar às mudanças. Por isso esqueça as regras, formas e maneiras de conquistar um olhar mais gentil consigo mesma. Não existe e nunca existirá uma forma pronta, mas sim diversas maneiras de se conquistar esta mudança que depende da sua maneira única de enxergar o mundo, de como sua história, e como ela influenciou positivamente ou não sua relação com seu corpo.

Com a exposição que vivemos nas redes sociais, cada vez que você vê uma mulher expondo seu processo de mudança, não esqueça que ali não é exposto: o choro, as dificuldades, as diversas vezes em que ela se sente bem e daqui 30 minutos tem dúvidas sobre sua auto imagem, as vezes em que fez algo, mesmo com medo, os momentos em que pensou em desistir…

E lembre-se que o trajeto dela, não necessariamente será o seu. Leia, estude, busque ajuda profissional, tente, acredite, mas lembre-se: estamos em constante mudança. Se permita tentar, errar, acertar e fazer de novo.

Ser gentil consigo é também ser gentil com seu processo de mudança.

E isso significa: olhar para si de uma forma mais amável, olhar o processo de outras mulheres e não julgar (mesmo que lhe pareça estranho). Acreditar que não existe tempo ou uma linha final, mas uma constante inquietação que nos leva a ir além. Uma verdadeira autoestima está pautada em um processo individual de autoconhecimento. Sem pontos de partida ou linhas de chegada. Sem receita de bolo ou verdades absolutas. O importante mesmo é o processo ao longo da jornada.

Por mais distante ou difícil, nunca se esqueça: “Mudar não é fácil, mas é possível