0 em #paposobremulheres/ Autoestima/ Comportamento/ Saúde no dia 26.03.2018

Papo Sobre Mulheres: A coragem de ser uma mulher vulnerável

A verdade é que todas somos. Assim como os homens também são. Todos vestimos uma armadura para autoproteção. Hoje te convido a se despir dessa armadura, acolher a pessoa vulnerável que você é e a ler este texto com o seu coração. Se você está predisposta a me julgar ou ao autojulgamento, nem leia. Pare agora. Este texto é sobre autorespeito, carinho e amor, mas é também sobre ódio e autorejeição, por isso pode doer.

Começou muito cedo. Eu odiava minhas curvas, meu quadril largo, meus braços grossos, minha estrutura grande e então, aos 12 anos, passei a tentar NÃO comer. A única coisa que eu desejava era ser magra, “seca”. Sonhava em ver meus ossos aparecendo sob a pele. Sabe aquele corpo que parece que vai quebrar de tão esquelético? É assim que eu queria ser – e essa obsessão me perseguiu por mais de 20 anos. A minha relação com a alimentação era um inferno. A comida controlava minha vida, meus pensamentos, minhas ações. Sempre que eu engordava, ficava com vergonha das pessoas, cancelava compromissos, mentia que estava doente para não ir para a escola ou trabalhar. Na minha mente doente, junto com a minha “gordura” vinha o sentimento de fracasso, de inferioridade. Era uma sensação de inadequação, de vergonha.

Para conseguir ser magra, já fiz tudo o que você pode imaginar. Tomei remédios para perder peso durante 16 anos, fiz todas as dietas que existem, fiquei quase dois anos sem comer carboidratos, fiz 3 lipoaspirações. Nada resolveu. Cheguei a perder 13 quilos e mesmo assim, ainda queria perder mais 10 quilos. Era uma obsessão.
Há dois anos procurei ajuda médica, fui diagnosticada com transtorno alimentar e ainda estou em tratamento com psicanalista e nutricionista. Estou aprendendo a comer com calma, atenção e prazer.

O que eu aprendi nesses dois anos, e gostaria que todas as mulheres aprendessem, é que a comida NÃO é a nossa pior inimiga. Quando você realmente entender isso, vai passar a degustar, a saborear os alimentos. Isso é comer com tranquilidade e prazer. Comer exageradamente ou compulsivamente para preencher vazios ou aliviar sofrimentos não é aproveitar a comida, não é prazer.

Para nós, humanos, a comida é muito mais do que uma necessidade básica de sobrevivência. Quando a mãe amamenta seu bebê, não está transmitindo só o alimento: está transmitindo amor, proteção, prazer, afeto, carinho, cuidado. É por isso que buscamos conforto na comida. Ela é capaz de nos dar, sim, um alívio imediato, mas precisamos entender que uma barra de chocolate propicia uma sensação de prazer, mas não elimina a fonte do problema. No momento em que aprendemos a enfrentar nossos fantasmas, a aceitar que somos SIM vulneráveis muitas vezes, a acolher as nossas dores e respeitar nossos sentimentos, a comida deixa de ser uma muleta para aliviar sofrimentos.

Mas, infelizmente, ainda estamos muito no início deste processo. As meninas e mulheres ainda estão muito aprisionadas na aparência, e isso tem relação direta com problemas alimentares.

Estamos vivendo como se o nosso corpo fosse um ser estranho, um inimigo. Sentimos o corpo como se ele fosse uma foto, um molde de massinha que podemos moldar e retocar até ficar perfeito. Usamos facetune, photoshop, filtros, cirurgias, remédios, ficamos sem comer. Esquecemos totalmente que somos humanas, que nascemos com uma estrutura óssea e muscular diferente da dos outros e que cada corpo tem um formato único. Nós esquecemos tudo isso. Mas podemos e vamos mudar!

O nosso corpo NÃO está errado. O seu corpo NÃO está errado.

Por que vamos continuar permitindo que a indústria da beleza, das dietas, da moda, as revistas, as blogueiras, as redes sociais, a televisão e o cinema digam como o nosso corpo deve ser? Danem-se todos vocês que transformam as mulheres em objetos padronizados. Danem-se também os sites e perfis de fofoca no Instagram, que publicam todos os dias este tipo de coisa: “Fulana exibe corpo perfeito”, “Fulana exibe quilinhos a mais”, “Fulana exibe celulite”, “Que lacre esse corpo”, “Pisa menos”, “Um corpo é um corpo”… e milhares de frases idiotas para enfatizar que existe o “tipo de corpo que é lacre” e o “tipo de corpo que é vergonha”. Quase sempre são mulheres julgando mulheres.

Quem disse que certos corpos estão certos e outros errados? Quem disse que devemos sentir vergonha do nosso corpo? Não existe corpo certo, nem errado. Errado é você adoecer para tentar transformar o seu corpo em uma fotografia perfeita. Seu corpo é humano, não é uma foto, não é uma tela, não é molde de massinha.

Tente, aos poucos, mudar o que você pensa e sente sobre o seu corpo. Olhe-se no espelho como uma criança que está se vendo pela primeira vez, sem julgamentos, sem preconceitos. Ninguém nasce odiando o próprio corpo. Alguém nos ensina a não gostar dele. Mas veja, se aprendemos a odiar, também podemos aprender a amar! Talvez você encontre alguma resistência, mas não desista! Não é possível mudar de uma hora para outra algo que foi estabelecido há tantos anos.

Comece a transformar os pensamentos negativos sobre você e seu corpo em respeito, amor e autocompaixão. Precisamos acabar o hábito de pensar, sentir e falar coisas ruins a nosso respeito. Isso não muda apenas a maneira como você trata o seu corpo e como você se alimenta – muda também a maneira como vive a sua vida.

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