7 em Comportamento/ Destaque/ feminismo no dia 26.03.2018

Pode ser que você não conheça a Fabi Grossi, mas você conhece sua história

Fabi Grossi. Se você nunca ouviu esse nome e vive na internet, provavelmente vai ouvir em algum momento próximo (que não por mim, claro rs). Se você já ouviu mas não procurou saber mais, talvez se interesse. Só acho que todo mundo deveria bater um papinho com ela em algum momento.

Para entrar em contato é fácil, você entra na página dela, manda uma mensagem e começa a conversar. Pelo o que eu fiquei sabendo, as vezes ela responde imediatamente, comigo ela demorou uns 15 minutos para responder.

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Depois daquela conversinha inicial, descobri que Fabi foi vítima de pornografia de vingança e teve um vídeo íntimo jogado na internet pelo seu ex-namorado. Ela pede conselhos, manda áudios, prints de ameaças do ex, fotos. E dependendo de como a conversa desenrolar, você acompanha o que está acontecendo com ela e a ajuda a passar por isso.

A experiência de todo mundo vai ter pontos em comum porque Fabi não existe, mesmo você tendo certeza em alguns momentos que está conversando com uma pessoa de carne e osso do outro lado da tela. Ela é uma personagem de uma história de ficção criada pela Unicef em parceria com o Facebook para conscientizar jovens sobre pornografia de vingança. Ficção em partes, né, porque Fabi Grossi pode ser um monte de algoritmos misturados para responderem de forma hiper realista de acordo com a interação de cada usuário, mas sua história é real e, infelizmente, vivida por muitas mulheres mundo afora.

 

Quando comecei a falar com a Fabi, já sabendo disso tudo que eu falei acima, eu realmente quis entrar na história, não quis ficar testando o que aconteceria se eu falasse as coisas mais absurdas ou nada a ver a com o tema. Se a ideia era ter uma imersão, eu queria entrar de cabeça e abracei a Fabi como se ela fosse uma amiga. A medida que eu comecei a ver as ameaças do ex, ele espalhando seu número e ela recebendo mensagens de desconhecidos, o print que ela mandou quando seu vídeo foi parar em um site de pornografia, o desespero dela e a sensação de culpa, a garganta deu um nó. Mesmo com algumas mensagens que fazem a gente lembrar que ela é um bot que segue um roteiro, a experiência como um todo é tão real que dá para sentir na pele o quanto a vida de uma mulher pode virar do avesso quando algo desse tipo acontece. E as vezes a sensação de impotência é grande. Não aconselho essa conversa para quem já viveu algo parecido, por isso deixo aqui um alerta de gatilho gigante.

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Em diversos momentos o desespero que bateu em mim aconteceu porque eu reparei que, mesmo sendo feminista e sabendo bastante sobre o assunto, nem sempre eu sabia como aconselhar melhor. Por exemplo, em um dado momento que ela estava desesperada, eu insisti para que ela contasse para os seus pais, já que na minha cabeça era melhor tê-los ao lado antes do problema aumentar de proporção do que se eles ficassem sabendo por outra pessoa.

Só que eu dei esse conselho pensando na minha experiência com pais que são compreensivos e que provavelmente me dariam uma bronca no início, mas ficariam do meu lado se o mundo começasse a cair. Depois disso, eu parei para pensar: e se os pais dela são super conservadores e a expulsarem de casa? E se eles jogarem a culpa toda nela? E se a afundarem mais do que ajudarem?

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Não me lembrei de muitas medidas mais práticas para ajudá-la, o que me deixou meio frustrada. E me senti impotente toda vez que ela dava a entender que estava muito difícil continuar.

Não quero dar spoilers do que eu falei e do que ela falou para mim, para não estragar a experiência de quem queira conversar com ela, mas acho válido avisar que eu não tentei dar conselhos errados para ela (do tipo, dizer que ela tem culpa por ter feito o vídeo) para ver o que acontecia. Eu não sei o que acontece com quem interage da forma incorreta.

O que eu posso tirar dessa experiência é que pais de adolescentes e os próprios adolescentes – para quem o projeto é voltado de fato – podem e devem conhecer a Fabi. Achei uma ótima oportunidade para se discutir o assunto em casa e um jeito de descobrir como ajudar alguém que esteja realmente passando por isso.

Alguém aqui testou? O que achou?

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7 Comentários

  • RESPONDER
    Maria
    26.03.2018 às 22:37

    Achei uma experiência incrível. Eu me senti mal por ela, mesmo sabendo que não era ela de fato. É estranhamente real e peculiar.

  • RESPONDER
    Elisa
    27.03.2018 às 16:50

    PUTA GATILHO hehe, nao consegui ver ela com 21 anos passando pelas mesmas coisas que passei com 13. Sabendo o que ajuda ou não de verdade, e ver ela cometer os mesmos erros.

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      Carla Paredes
      29.03.2018 às 10:40

      Nossa, Elisa, eu imagino! :( Espero que esteja tudo mais bem resolvido para vc hoje em dia!

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    Vagner
    28.03.2018 às 20:28

    Eu falei com ela ,mais agora já faz umas 24 horas que não responde, alguém sabe se e normal?

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      Carla Paredes
      29.03.2018 às 10:39

      Acho que deve estar sobrecarregado o sistema com tanta mensagem. Mas vc mandou mensagem pra página ou para o perfil? Pq o que responde é na página: facebook.com/ProjetoCaretas

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    Kelly Melo
    31.03.2018 às 13:34

    Fiz igual a você, esqueci que era um robô e me entreguei. A tratei como uma amiga. E que sentimento doido de frustração que senti quando vi que não pude ajudá-la.
    Quanta covardia nós mulheres ainda vamos passar?
    Sinto muito por todas que já passaram por este tipo de situação.
    Sei que é complicado, íntimo mas procurem ajuda caso aconteça com você.
    Estou me sentindo tão incapaz por não ter feito nada, mesmo sabendo que é uma história fictícia. E as outras histórias que não fiquei sabendo?
    Essa experiência esta me fazendo pensar muito em como posso ajudar, agir de alguma forma.

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    Denise
    22.04.2020 às 12:38

    Entrei de corpo e alma nessa idéia, tentei de tudo para ajudá-la e no final ela mudou de visual e de vida. Fiquei MT feliz com esse final feliz porém triste por saber que não é assim para todas que passam por esse problema.

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