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#paposobremulheres

1 em #paposobremulheres/ Comportamento/ Sem categoria no dia 23.09.2019

Pop Plus, pertencimento e uma troca sobre roupas plus size!

Olá! Me chamo Renata Brasil e fui convidada pelas meninas para dar dicas de lojas plus size aqui no blog. De início, fiquei pensando o que eu tinha de especial para fazer isso. Sim, sempre com aquela tendência de achar que não somos boas o suficiente, não é mesmo? E concluí que meu “credenciamento” vinha exatamente do que eu não tenho de especial. 

Assim como muitas de vocês, sou gorda desde a puberdade. Trabalho com contracheque mensal e sempre amei moda. Sei como é sair de lojas chorando porque nada entra. Sei como é se sentir obrigada a comprar a roupa que cabe por falta de opção. Como é querer uma peça específica e não encontrar.

Por isso, eu vim hoje trazer uma boa notícia. Estive na última edição do Pop Plus, o maior bazar de moda plus size da América Latina. E fiquei completamente surpresa com o tamanho do evento e a variedade de opções.

foto: insta @popplusbr

A intenção aqui não é indicar o Pop Plus em si, porque sei que muita gente não tem a possibilidade de frequentar por mil motivos. Mas se você tiver essa oportunidade, vá a algum, esse ou outro, sendo gorda ou sendo magra. Nada substitui a sensação de ver mulheres empoderadas e fora do padrão por todos os lados! Todas lindas, simpáticas, bem vestidas. Um clima gostoso de amizade e, principalmente, de PERTENCIMENTO! Quantas amizades eu já fiz, quanto conhecimento já troquei. 

Os eventos no Pop Plus são tão legais que, entre compras e conversas, dessa vez eu passei um total de oito horas do final de semana lá dentro. Fui sábado, não aguentei, e voltei no domingo. Esses bazares não contam só com moda; contam também com atrações. Pessoas gordas dançando, fazendo pole dance, apresentando rodas de conversa sobre situações que você e eu passamos.

Além dos debates, tem shows de dança, DJ, exposições e muito mais!

Voltando à variedade, no Pop Plus eu vi coisas difíceis de encontrar até mesmo em tamanho regular. Pijamas fofos que parecem diretamente saídos de fotos do Pinterest. Meias ¾ de lurex ou oncinha. Marca que trabalha somente com materiais biodegradáveis e consegue produzir todo tipo de peça. Enfim, uma infinidade de novidades. Fora aqueles itens difíceis para nós gordas especificamente, como anéis para dedos mais grossos, sapatos mais largos, cintos de tamanho maior, lingeries sensuais, biquinis, moda fitness. Tudo de muito bom gosto e com preços acessíveis. 

Aliás, encontrei desde tecidos nobres e recortes inusitados, até roupas mais básicas e baratas.

Muita coisa masculina também. Streetwear, acompanhando tendências como o tie dye, que está por todos os lados nas coleções de primavera-verão. Fiquei pensando no início desses bazares, que eu frequento há anos. Lembro quando, mesmo diante de várias marcas reunidas, tudo me parecia muito igual. Tecidos baratos, como viscolycra e poliéster. Peças mal modeladas, estampas com uma temática muito infantil ou senhoril. Tudo que fugia um pouco dessas tendências já se tornava muito mais caro. Que mudança! E sabem qual é a melhor parte? Muitas dessas marcas têm todos os tamanhos, para todas as pessoas. Claro, naturalmente esse é o ideal, que cheguemos ao ponto de não precisar mais discriminar nichos de moda.

Eu não pretendo afirmar aqui que está fácil.

Que agora qualquer hora que a gente quiser um mero short jeans basta correr no shopping mais próximo. Estamos muito distantes dessa realidade, mas a boa notícia é que a evolução da moda plus size é um caminho sem volta. Felizmente, esse é um ramo que vem em constante crescimento já há alguns anos, ignorando crises econômicas. Como disse uma amiga muito querida, atura ou surta!

Então eu vim trazer dicas, porque sei que, apesar do crescimento, às vezes é difícil saber procurar. Quais peças vocês têm dificuldades de encontrar? O que vocês gostariam de saber?

7 em #paposobremulheres/ Comportamento no dia 10.04.2019

Os desafios de ser mulher e agente penitenciário

Dezesseis horas de um domingo, eu ali de cócoras intercalando os soluços do choro e a risada nervosa. O varal no chão e a roupa toda enlameada. Depois de um dia inteiro pra por tudo em ordem, meu varal não deu conta, rompeu. O serviço, justo o que menos gosto de fazer, todo perdido. 

Há cinco anos casada, eu então com 23 anos, pela primeira vez me perguntava se minha vida se resumiria àquilo. Findo o ensino médio há mais de cinco anos, nem cogitava mais a possibilidade de voltar a estudar. Em uma cidade de 8 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte, casar e ter um trabalho no maior comercio local (um supermercado) era considerado o auge do sucesso de uma mulher.

Dias depois, numa conversa sobre insatisfação no trabalho, uma amiga mencionou sobre o concurso para Agente Penitenciário.

>>>>>> Veja também: Eu nunca me imaginei sendo policial civil. Vai ver eu não me conhecia tão bem. <<<<<<

De cara achei um descabimento. Eu nem sabia o que era um “Agente Penitenciário”. Fui pesquisar, fiquei encantada por as histórias de pessoas que mudaram suas vidas ao conseguirem entrar em um cargo público. Sobre a função, não existia muitas informações. E as que tinham falavam de morte, reféns, rebelião. Adivinhem a qual fato eu dei importância?

Sou de veneta. Fiz a inscrição. Baixei todo material da internet, sem saber se era atualizado, e imprimi umas 500 folhas. Em casa, não foi dada importância à nova “invenção”, não era muito provável que isso fosse pra frente. Cinco mil inscritas. Fiquei na 234ª posição. Quatro anos depois (pois é, demorou!) e mais quatro fases. Testes Físicos, Psicoteste, Investigação social e Curso de Formação. Fui nomeada.

Em 2013 saiu a convocação para o curso de formação. A família, tão carente de informação quanto eu, não colocava muita fé. Pedi demissão do trabalho e fui pra capital. Cheguei lá com uma blusinha de oncinha rosa. Exatamente da cor que minhas bochechas ficavam no decorrer das aulas quando alguém me perguntava o que estava fazendo ali. Nem eu mesma sabia.

Um mundo novo, cheio de leis, golpes de defesa pessoal, sprays de pimenta foi aberto a mim. E toda uma lição sobre o que são as cadeias.

Os problemas são estruturais. Dos Prédios? Também. Mas, principalmente da sociedade.

Doenças infectocontagiosas, doenças mentais. Analfabetismo, falta de ética. Lentidão do judiciário, inversão de valores da sociedade, machismo, crescimento do crime organizado. A maldade do ser humano. Se cada um desses problemas fossem atacados na fonte, nossas cadeias seriam menos habitadas. Mas não são. Todos esses fatores são amontoados atrás de grades.

E nós lá, no meio de tudo isso, de roupa preta e armados de muito jogo de cintura.

Ao agente penitenciário é dada missão de resguardar-lhes a integridade física e a obediência das leis. Além de todas as demais rotinas de conferência, alimentação, medicação, visitas sociais. 

A capacidade de dialogar é a maior arma do agente penitenciário. Um bom agente tem que saber falar. Seja com um familiar, com um preso, com um advogado, com um juiz, com um médico. Cada público desse tem uma demanda pro agente. A logística de uma cadeia é muito complexa. Impossível traduzir em um único texto. Uma ação básica, alimentação por exemplo, requer um rito próprio e ainda varia de unidade para unidade.

Em um determinado momento fui designada para trabalhar numa unidade feminina.

Sabe o presidio da série “The Orange is new Black”? pois é! Não tem nada a ver com aquilo.

>>>>>> Leia também: Presos que menstruam, de Nana Queiroz <<<<<<

As internas, como denominamos, gostam de contar suas histórias. Umas entram no crime por amor, outras estavam no lugar errado na hora errada, outras fizeram justiça com as próprias mãos. Tem presa que mandou matar o marido e contou, sorrindo, como preparou o café da manhã no dia que antecedeu o fato. Teve outra que contou como matou a amante do marido dela, com três tiros, na porta de casa. Pow, Pow, Pow. Ela repetia triunfante. Tem estelionatária, assaltante, traficante. Tem interna que foi presa porque não pagou pensão alimentícia, e tem também gente que não fez nada. Não é incomum que as famílias não as procure. E a solidão passa a piorar o que já é ruim. Tem sim uma energia pesada, tem também muita injustiça.

A vaidade, com ajuda da criatividade, dribla a escassez.

São trancinhas, penteados com retalhos, shorts que viram lenços, pasta de dente que vira máscara facial. Os relacionamentos amorosos entre elas, também são mais comuns que nas unidades masculinas. O que, por muitas vezes, geram outros problemas como brigas por ciúmes. Numa cela com várias pessoas – muitas delas sem qualquer limitação moral, ética ou religiosa – até uma piscada de olho pode gerar um problema gigantesco.

A gravidez é outro ponto marcante. Muitas chegam à unidade sem sequer ter feito uma consulta de pré natal. Os exames são providenciados e não é incomum os bebês virem ao mundo já custodiados por nós. Essa é sempre uma experiência que me afeta. A isso não acostumo. Fora a tensão que é a hora do parto, cadeia-maternidade-cadeia entre uma contração e outra.

De início me perguntavam como meu ex-marido me deixava ser agente penitenciário. Nunca soube responder porque nunca achei que fosse competência dele decidir isso.

Mas não nego que ser é uma profissão que lida diretamente com o machismo. Dentro de casa ou dentro da cadeia.

Certa vez, eu, na posição de chefe de equipe, preparei-me pra receber a visita de inspeção de uma juíza. Um capitão da polícia veio antes, pra garantir a segurança. Eu, à frente da equipe, o cumprimentei. Ele apertou a minha mão e passou direto para o único homem – entre várias mulheres – e disse que queria falar com o responsável. Meu colega disse que ele podia falar comigo mesmo. Meio sem graça fui mostrar a unidade.

A sós, ele perguntou meu nome. Respondi: Tamara. Ele: posso te chamar de Tá?. Eu: não, meu nome é Tamara. Ele: posso te chamar de Mara? É que eu sou ruim com nomes. Eu: meu nome é Tamara, e você pode me chamar de Sra Agente.

Em outra ocasião, jogaram pedras no prédio. Fomos fazer uma ronda externa, eu e uma colega ficamos localizadas na lateral da unidade, passaram dois rapazes e ficaram soltando piadinhas. Eu, fardada, com uma espingarda na mão, quase maior que eu, e ainda assim o cara não teve receio de me importunar. É claro que ele teve que pedir desculpas, mas fiquei tão incrédula que não tive reação, e um colega teve que intervir.

O fato mais engraçado é quando me perguntam a profissão.

Quando digo “agente penitenciário”, tem gente que diz: Mas, você não parece uma. Como parece uma agente? Gosto de perguntar. Uma pessoa grossa, corrupta, que não sabe falar? Desarrumada? Minhas colegas são vaidosas, femininas, sabem conversar. A pessoa fica meio sem graça e tenta remendar. “Não é isso…é que você parece ser boa.” E quem disse que agente penitenciário precisa ser ruim? Combater o mal iminente da melhor forma possível, impedir ou adiar um conflito, por meio de atitudes sábias, ou deixar um conflito mais curto pela habilidade e força, não é ser ruim. É ser bom, que é também diferente de ser bonzinho.

Tem gente que diz que não seria agente penitenciário por dinheiro nenhum do mundo. Nunca sei se a pessoa quer dizer que não quer ou que não conseguiria. Sou feliz por estar conseguindo. Nesse ambiente aprendi a me posicionar, a dizer não, a me impor, consegui minha independência e conheci pessoas maravilhosas. Amigas e amigos que levo pra vida, que são exemplos de seres humanos. Pessoas inteligentes, inspiradoras, que cumprem, com muito pouco, com a missão que lhes foi dada.

Pretendo sair, ando lendo sobre pessoas que mudam suas vidas através dos estudos. E quero descobrir novos desafios. Mas sempre serei orgulhosa pela profissão que abriu o leque de possibilidades que tenho hoje.

5 em #paposobremulheres/ Comportamento/ Destaque no dia 03.04.2019

Nunca me imaginei sendo policial. Talvez eu que não me conhecesse bem

ilustração: Ju Ali

1. Os motivos que precederam o concurso para policial civial

Comecei a estudar pra concurso meses após ter concluído a faculdade de direito. Motivos financeiros me fizeram abrir mão do meu sonho – na época, Procuradoria da Fazenda Nacional – e começar a fazer qualquer prova que aparecesse. Inclusive para a Segurança Pública. Resumindo bastante, essas foram as circunstâncias que me levaram a fazer prova para a Polícia Civil.

Não tenho familiares na polícia. Nunca sonhei em ser policial. Não tive influência alguma para fazer esse concurso. E, para coroar, essa é uma profissão bem complicada em vários aspectos.

Primeiro porque ser identificada como policial é condição suficiente para você ser morta (se for mulher, de quebra, talvez estuprada). Ainda que você esteja legitimamente desempenhando a sua função. Além disso, a profissão em si já te coloca num risco bastante superior ao de quem trabalha num escritório ou tribunal.

Em segundo lugar, por ser mulher, ter 1,52 de altura, aparência nerd e cara de novinha. Eu não me encaixava no padrão da mulher policial, muito menos no padrão policial.

Quando descobri que havia sido aprovada, houve choque pessoal, familiar, de amigos, de relacionamento. Todos preocupadíssimos com a minha vida. E eu, preocupadíssima com o que Deus queria me ensinar direcionando meu destino para uma profissão em que NUNCA havia me imaginado e para a qual eu acreditava não ter aptidão alguma.

Flexão? Não fazia nem cinco. Corrida? Até a esquina de casa me cansava. Arma? Nunca havia visto uma. Machismo? Achava que sabia do que se tratava.

Superando minhas próprias expectativas e a de todos ao meu redor, passei na prova física, no teste psicotécnico, nos exames médicos. Sobrevivi aos longos meses de treinamento policial, que consistia em aulas teóricas e práticas à respeito da atividade que eu estava prestes a desempenhar.

2. O treinamento

Minha primeira ideia foi querer fugir da sala de aula, com quase cinquenta pessoas com as quais não tinha nenhuma identificação. Não preciso mencionar que a maioria era do sexo masculino. Ouvia pessoas contando suas histórias, narrando uma vida de sonhos em função de ser policial. Pessoas com familiares na Instituição. Algumas bradavam que ser policial demandava vocação, pois não é uma profissão para qualquer pessoa.

E aquilo me irritava. Respondi mais de uma vez que, apesar de nunca ter sonhado estar ali, seria uma policial tão boa quanto os que sonharam a vida toda com isso. Demorou para aceitar que eu estava naquele lugar por algum motivo e me entregar à missão que eu nem sabia qual era.

Eu chamava atenção por ser pequena, magrinha, usar óculos de proporções desnecessárias e ter cara de boba. Virava chacota, era usada como exemplos e via através do olhar dos meus instrutores o quanto eles achavam que eu não pertencia àquele lugar.

Vi amigas chorando, querendo desistir, seja pela pressão a que éramos submetidas, seja pelos constrangimentos pelos quais passávamos. Instrutores que se valiam de contatos físicos desnecessários. Brincadeiras absurdas com conotações sexuais. “Mas são apenas brincadeiras”, eu ouvia dos colegas, “fica tranquila”.

Fiquei entre os primeiros colocados do treinamento policial. Isso significa que eu obtive notas altas em tiro, tática operacional, defesa pessoal, não apenas na parte teórica. E aguardei minha tão sonhada primeira lotação. Como o concurso é estadual, eu poderia cair em qualquer local dentro destes limites. E foi com muita felicidade que descobri que iria iniciar meu trabalho numa Delegacia de Atendimento à Mulher. A DEAM.

3. A primeira lotação

Foram muitos desafios de uma vez só. Eu tinha pânico de dirigir e fui lotada a 65km de distância de casa. Eu tinha medo do trajeto, medo de ser pega com arma e distintivo no carro. Medo de morrer. A todo momento.

Minha delegacia ficava localizada em um município extremamente perigoso, cujo acesso se dava por vias perigosíssimas também.

Eu entrava e saía do local de trabalho rezando para que a minha vida fosse poupada, porque eu só queria trabalhar. Eu tinha muito, muito medo de morrer. Repito isso pois é o que passava pela minha cabeça a todo momento. Até que meu emocional se estabilizou a ponto de eu conseguir olhar ao meu redor e notar a realidade na qual estava inserida. E foi aí que tudo começou a fazer sentido.

Sempre tive acesso às situações de vulnerabilidade pela televisão, mas nunca na minha frente, na forma de vítima de violência doméstica e familiar.

Através do meu trabalho, pude atender mulheres com feridas no corpo e no coração. Violentadas das formas mais graves e cruéis. Atendi bebês, crianças, adolescentes. Pessoas cuja condição de vida poderia facilmente se encaixar no conceito de miserabilidade.

Quando eu voltava pra casa contando dos meus atendimentos, as pessoas se chocavam. “Mas como você aguenta lidar com essa energia pesada, com tanto caso complicado?” É que a vontade de fazer uma investigação de qualidade, associada à um atendimento acolhedor era o que predominava em mim. Foi um verdadeiro privilégio ter sido para as mulheres o que eu gostaria que tivessem sido pra mim, caso a vítima fosse eu.

Eu era a única policial feminina em uma delegacia de atendimento à mulher. Sim, soa errado. Mas a Instituição é defasada. A gente trabalha com pouco. Pouco pessoal, pouco material… tudo.

Fazer o meu trabalho da melhor forma possível e proporcionando acolhimento emocional para as mulheres tão fragilizadas fez com que eu entendesse a minha missão.

Eu não me imaginava mais fazendo algo diferente daquilo, para o desespero dos meus familiares e amigos. Eu demorei muito tempo para conseguir aceitar isso.

4. O machismo na instituição

Dentro de uma delegacia, você vai acabar convivendo com muitos homens. Uma convivência bastante diferente de um trabalho em regime de expediente, 8h/dia, caso você fique no plantão. Eram 24 horas, trabalhando, almoçando, jantando, dormindo em ambientes compartilhados.

A intimidade se acentua quando há uma convivência tão intensa. E, acima de tudo, quando seu trabalho te insere em situações de risco acima das comuns. Isso faz com que as pessoas muitas vezes confundam as coisas. E colocá-las no lugar delas pode soar xiliquento da sua parte perante os demais colegas, que sempre acham que tudo não é “nada demais”. Pode até mesmo gerar uma indisposição tamanha no ambiente de trabalho a ponto da convivência ficar insustentável.

Ouvia que “polícia não tem sexo”, tentando passar a ideia de que não éramos enxergadas com apelo sexual. Mas quando eu ia com uma roupa mais larga, ouvia piadas a respeito. “Assim ninguém vai te comer”. Já me senti acuada, constrangida. Eu, que sempre tive o pulso tão firme em diversas situações, já me vi inerte diante de absurdos que vivi. Não respondi, não reagi e deixei passar. Me arrependo, pois sei que a omissão faz com que a falta de respeito se enraíze ainda mais.

5. Conclusões

Antes de entrar pra esse concurso, eu tinha uma imagem deturpada da Polícia. Aquela imagem que associa corrupção, truculência, agressividade.
Como foi incrível quebrar a cara e perceber que a instituição está LOTADA de gente do bem, disposta a trabalhar e a servir a sociedade.

Fiz grandes amigos, cresci como pessoa e como profissional. Sou mais preparada para a vida, mais empática, mais forte. E minha visão da Polícia mudou tanto que fiz questão de tentar mostrar o lado bom da moeda para todos amigos e familiares. Acho que tenho conseguido.

Sei que sou uma voz em um milhão, mas mulheres, acreditem que vocês encontrarão atendimento policial de qualidade. Não posso garantir que terão o atendimento dos sonhos, mas me cabe pedir que não deixem de denunciar por medo do que irão encontrar na delegacia. Existe muita gente boa lá dentro.

Hoje em dia, seleciono bastante as pessoas que sabem da minha profissão. Lamento muito que isso tenha que ser feito, mas é para o bem da minha própria segurança. Tenho um orgulho enorme de estar onde estou, fazendo o que faço, e se fosse seguro, falaria para todos. Eventualmente acabo me identificando para o bem da informação, como no presente caso.

Mas além de querer trazer esperança para mulheres, meu relato tem um outro objetivo, esse mais pessoal.

Ele mostra que a vida pode te levar para caminhos inimagináveis e que eles podem ser melhores do que os que você sempre planejou trilhar. Disse lá no início que não entendia o porquê da vida ter direcionando meu destino para uma profissão em que NUNCA havia me imaginado. Sabe a que conclusão cheguei? Eu que não me conhecia o suficiente.

Não existe profissão que eu desempenharia melhor e eu CRIEI aptidão através do amor que eu desenvolvi pela Polícia. Flexão? Faço muitas, sem joelho. Corrida? Com o peso do colete se for preciso. Machismo? Resistindo e lutando contra ele sempre que está dentro do meu alcance.

Espero ter conseguido aquecer o coração de algumas pessoas com a esperança de que as coisas podem mudar para melhor.