3 em #paposobremulheres/ Comportamento/ feminismo no dia 21.03.2018

Papo Sobre Mulheres: Me dá a mão?

Eu queria muito escrever sobre relacionamentos, sobre como a gente é tudo gente, que as minas também podem ter medo de relacionamento diante de um prato de ovo mexido, mas comecei a ler “Fome”, livro da Roxane Gay. E travei. E chorei. E minha garganta fechou.

O medo me travou. O medo que todas nós temos de andar na rua. O medo da violência, o medo de receber o cara da tv a cabo em casa ou pedir um carro pelo aplicativo bêbada. Foi esse medo que me treinou para dizer que “não sou uma pessoa carinhosa em público”. Sou uma mina lésbica treinada para não demonstrar afeto na rua. Descobri isso aos quase 40, sendo que namoro minas desde os 16. Foram muitos anos de treino pra isso. Fui descobrir isso um dia em um corredor de uma loja de artigos de esporte, comprando uma legging. Minha namorada me deu um beijo na boca a hora que a gente se encontrou e eu travei. Para ela, que não foi treinada e namorou homens até outro dia, era só mais um dia ordinário. Pra mim, foi o dia que descobri que travo.

Eu travo por medo de ouvir um xingamento, por medo de ouvir uma piadinha, por um medo irracional, mas totalmente baseado nas estatísticas. Travo porque aprendi a me esconder. O livro da Roxane me travou porque o pavor dela fez ela se esconder, e todas as pontas dos fios se conectaram. E toda a aspereza do mundo me abraçou.

A aspereza que me faz ter medo de dar um beijo de oi na minha namorada, que me faz soltar a mão dela na rua quando vem uma turma de caras, o medo de dar um beijo na boca dela quando chego na casa da família, o medo que me faz ver se a porta da rua tá mesmo trancada quando ela dorme na minha casa. Esse medo mora no meu corpo e eu não sabia. Ele tá lá o tempo todo, à espera do menor sinal, para eu reagir e me proteger.

Quando eu comecei a ler o livro uma sensação horrível de pertencimento tomou conta de mim. Queria estar sozinha nesse mundo relatado, mas estamos todas, na única coisa que une todas as mulheres do mundo: o medo. As ricas, as pobres; as brancas, as pretas; as gordas, as magras, as hetero, as lésbicas. Todas as mulheres têm medo.

ilustra: Libby Van Der Ploeg

Se alguém me perguntar: “e como muda isso?”- eu só consigo respirar fundo e dizer “segura minha mão”. Então, hoje, segura a mão de uma mulher, ajuda a diminuir o medo, ajuda uma mina hoje a ter menos medo, pede ajuda pra sentir menos medo.

Me dá a mão?

Gostou? Você pode gostar também desses!

3 Comentários

  • RESPONDER
    Milena
    21.03.2018 às 10:43

    Nossa, muito triste viver com esse constante sentimento de medo, de ser taxada, xingada, julgada e agredida, né…vamos juntas, vamos de mãos dadas!

  • RESPONDER
    ju ali
    21.03.2018 às 14:02

    me dá a mão, cris. toma a minha.

  • RESPONDER
    Barbara
    21.03.2018 às 16:46

    Segura aqui! Vamos todas juntas.

  • Deixe uma resposta