Browsing Tag

#paposobremulheres

1 em #paposobremulheres/ Comportamento/ feminismo no dia 25.03.2018

Papo Sobre Mulheres: Pelo meu direito de não ser a guerreira que todos esperam

Semana passada tivemos o dia Internacional da Mulher e pela primeira vez não quis responder às inúmeras mensagens recebidas. Não por falta de educação mas por puro cansaço! Foram tantas as falas de “guerreira” que me deu exaustão de tanto lutar.

Perdoem-me se pareço contrária a todo esse movimento revolucionário feminino, mas quero ter o direito (e a consciência tranquila) para não guerrear tanto. Vou dar meus motivos e proponho uma reflexão junto com uma viagem ao tempo…passado.

Primeiramente quero deixar bem explícito que sou super a favor de todos os movimentos que venham trazer poderes às mulheres. Acontece que estou na luta há bastante tempo e às vezes, sem querer ser pessimista, sinto bem no fundo do meu coração que estamos lutando tanto e os resultados não aparecem!

Vou explicar….

Se visitarmos o tempo passado, o temido “antigamente”, das nossas mães e avós e até de mim mesma, que tenho 52 anos de idade, conseguimos observar mudanças marcantes e importantes, que dizem respeito à liberdade das nossas escolhas, dos nossos corpos, das nossas profissões e por aí vai. Dizem que as grandes mudanças só acontecem após grandes batalhas e é exatamente nesse gancho que entro!

leila-gravano

Sou de uma geração do silêncio, de regras, controle, observação. Sou da época que não podia sequer repetir um pedaço de bolo sem antes a autorização de um responsável. E lutei muito pra mudar conquistar essas “pequenas grandes” mudanças . Lutei por depilar minhas pernas e sobrancelhas antes dos 15 anos (acreditem, é real). Lutei pra brincar carnaval junto com outros adultos. Lutei pra que meu primeiro relacionamento amoroso com um rapaz 7 anos mais velho do que eu fosse aceito pelos meus pais. Depois lutei para poder chegar em casa depois das 23 horas. Lutei para conseguir assinatura dos meus pais para casar antes dos 21. E lutei para me adaptar à’po0 vida de casada cheia de afazeres e responsabilidades longe da minha cidade e sem qualquer contato tecnológico. Lutei no desemprego do meu companheiro para que ele não se sentisse inferiorizado. Lutei pra superar o fim de um relacionamento após 23 anos. Lutei pra segurar a barra emocional da transição de um filha criança para a adolescência.

Todas nós temos nossas lutas!
Todas nós enfrentamos batalhas externas e internas.

Por isso, agora, quero me dar o direito de largar um pouco a lança. Deixar a armadura guardada e me permitir ser cuidada. Paparicada. Respeitada.

Vivemos novos tempos e novas batalhas. Mas dispenso o título de GUERREIRA (que me deu arrepios). Hoje esse título não me cabe mais. A menos que seja pra atuar num filme da Marvel.

0 em #paposobremulheres/ Comportamento/ maternidade no dia 24.03.2018

Papo Sobre Mulheres: Estou grávida e me deixe sentir

Não existe nada tão polêmico como a gestação. Ao meu ver, acredito que seja exatamente porque estou grávida que ouça mais opiniões agora sobre o assunto gravidez do que qualquer outra coisa – e provável que quando meu bebe nasça, eu diga que o assunto mais polêmico é a maternidade e assim por diante. Acredito que não seria tão polemico se todas as pessoas considerassem que apesar de mulheres, somos todas únicas com nossa experiências, historias, características e percepções.

Fato é que algumas de nós estamos inundadas de felicidade ao mesmo tempo que se encontram numa mistura de sentimentos e sensações. Para muitas mulheres será o primeiro encontro com sua própria sombra e muitas vezes isso é assustador.  Para outras, é um processo maravilhoso. A gestação é um momento em que muitas mulheres pela primeira vez vão descobrir inúmeros fenômenos em seu próprio corpo e, em meio a inúmeras tarefas físicas e emocionais, terão que descobrir e decidir o que farão com isso. E acredito que não seria tão polemico se todas as pessoas considerassem que, apesar de mulheres, somos todas únicas com nossa experiências, historias, características e percepções.

Eu me sinto extremamente feliz e agraciada, mas tenho que admitir que a parte mais difícil da minha gestação tem sido as pessoas. Acredito que isso não é algo que aconteça só comigo e suspeito até que seja por isso mesmo que estou escrevendo aqui para vocês (risos).

Independente se você está tendo uma boa gestação ou não, se você está se sentindo bem (ou linda, ou realizada) ou não, se você está enjoando (ou com sono, ou indisposta) é provável que concorde que uma das partes mais chatas e difíceis da sua gestação é lidar com tantos julgamentos sobre você e seu bebê. Ou seja, o que sentimos pode até ser ruim, mas pior que sentir talvez seja o que temos que aturar por conta disso. Sendo assim, resolvi trazer esse tópico para nossa reflexão.

Recentemente percebi o quanto o mundo quer limitar o nosso sentir nessa fase tão cheia de sentimentos, e achei um ótimo exemplo para essa pauta.

catarina-gravidez

Há pouco tempo perdi uma querida amiga de infância que faleceu aos 30 anos por uma doença extremamente agressiva. Mesmo morando em países diferentes, passei 2 meses lutando com ela, em ligações quase que diárias na tentativa de conseguirmos desacelerar o processo, e infelizmente há duas semanas ela se foi. Como médica, e até mesmo pela minha historia pessoal de vida, esse é um cenário que faz parte da minha vivência, mas é impossível dizer que eu não fiquei profundamente triste. Por mais que eu entenda que minha amiga descansou e enfrente isso até de uma maneira leve, eu recebi muitos comentários lindos, alguns somente curiosos e o que mais recebi de pessoas distantes e próximas foi: “você não pode ficar triste porque está gravida” O QUÊ???

O mais curioso é que em nenhum momento passei que estava fragilizada ou desesperada. Aliás, eu não estava pois, como falei, pela minha construção pessoal eu aprendi a lidar bem com situações assim. Mas pera aí, mesmo que eu estivesse desesperada, fragilizada e grávida, acredito que não haveria nada de errado nisso. Quando vejo uma pessoa perder alguém amado tudo o que eu não imagino é que ela vai ficar alegre, esteja ela grávida ou não.

Acho esse exemplo perfeito para ilustrar como as opinões das pessoas podem nos intoxicar. Nós não escolhemos muitas coisas, e certamente sentir é uma delas. Acredito particularmente que até decidimos o que fazemos com o que sentimos, mas não é uma escolha estar alegre ou triste,. A vida é feita de momentos, e sentimentos fazem parte dela. Minha filha provavelmente já sente coisas boas e ruins.

Não adianta eu me podar , isso nasce com a gente, é inerente a todo ser humano. Eu não vou deixar de chorar porque perdi alguém que amo demais para não passar isso para ela (só eu que acho isso algo muito estranho, pra não dizer louco?). Pelo contrario, ao chorar e sentir eu sempre explico que assim será a vida, não importa o quanto eu tente poupá-la, ela vai se machucar as vezes, chorar, ficar triste e não tem nada demais nisso, pois isso faz parte do processo que é viver.

Antes de falarmos qualquer coisa para uma mulher, ainda mais uma mulher gravida, devemos pensar que ela tem uma história pessoal e singular. Acredito que tudo que precisamos é nos sentirmos acolhidas umas pelas outras, pois assim, por mais difícil ou deliciosa que uma gestação seja, certamente ela será mais fácil de ser vivida. Por um mundo com mais sentimento, empatia, sororidade, por gestações livres de julgamentos. To grávida, e dai ?! Me deixa sentir. Me deixa viver!

0 em #paposobremulheres/ Autoestima/ Saúde no dia 22.03.2018

Papo Sobre Mulheres: Existe luz no fim do túnel

Era uma vez uma menina bonita, cheia de amigos, com um emprego bacana num lugar legal, e todos os outros predicativos que as pessoas costumam usar quando querem te consolar e mostrar como a sua vida é boa. Essa menina, mesmo com tantos motivos para ser feliz, tinha depressão. E essa menina era eu.

Depressão é uma palavra complicada, né? Mal surgiu no texto e fica logo aquele climão. Assunto tenso, meio tabu, que a gente não sabe lidar direito. É uma doença complicada e cada vez mais comum, mas que ainda gera uma boa dose de desconforto quando alguém chama pelo nome. Eu sei bem. Durante o período em que eu estive em depressão, achei que nunca mais voltaria a me sentir como uma pessoa normal. Chorava várias vezes por dia (muitas vezes sem saber o motivo), não comia, vivia apática, não conseguia reagir. Mas eu não vim escrever sobre como foi sofrido ter depressão. Eu queria contar que eu tive, e que eu superei. E eu tô muito melhor agora.

Não quero ser mais uma com aquele papo genérico de que tudo vai dar certo, sei que não é por aí. Mas como a minha psicóloga sempre me falou, às vezes a gente precisa ir mesmo lá embaixo no fundo do poço para botar o pezinho e dar impulso para voltar a subir. Isso faz parte do processo. Normalmente a depressão tem um gatilho emocional e por isso é uma coisa tão difícil de entender para quem está de fora.

Saúde mental é tão importante quanto saúde física

Saúde mental é tão importante quanto saúde física

Eu ouvi de pessoas da minha família que era “só tristeza”, para não ficar daquele jeito, para não me entregar. Também ouvi coisas cruéis sobre como eu era fraca e sofria por tudo, só sabia chorar. As pessoas não entendem direito depressão e não falam isso por mal (na maioria das vezes) mas é importante que comecem a entender que não é tão simples. A depressão é um desequilíbrio químico, que tem como resultado a interrupção no fluxo normal de alguns neurotransmissores. Então é uma doença sim, e tomar remédio é ok, assim como a gente toma para gripe ou dor de barriga. O acompanhamento adequado por um psicólogo em quem a gente confie é fundamental. Assim a pessoa consegue identificar os gatilhos emocionais que a levaram até ali e aprende a lidar melhor com algumas questões pessoais. Isso não vai ser rápido, mas é libertador.

Nesse processo de cura você muda. Muda sua atitude em relação aos seus problemas, começa a enfrentar mais algumas situações, entende que precisa desapegar de algumas pessoas, fica mais seletiva, mais forte, aprende a dizer não, começa a enxergar tudo com mais clareza e a tomar decisões mais conscientes para a própria vida. Só que até chegar lá tem chão, tem que ter paciência, pegar na mão do profissional que você escolheu e acreditar no processo. Tem luz no fim do túnel sim, só que nem sempre a gente enxerga essa luz quando tá no comecinho dele.

Até começar a melhorar, eu não tinha ânimo para nada nem ninguém e sentia que estava sendo carregada no fluxo, sem controle sobre a minha própria vida. Mas por incrível que pareça, a dança, que sempre foi uma coisa que eu amei, era aquele pontinho de alegria num emaranhado cinza de dias em que nada fazia sentido nem fazia sentir. Aquela aula de uma horinha me dava um alento, me fazia sentir que eu ainda tava ali. É muito importante manter alguma atividade que te ajude a manter o prumo e não se perder de quem você era antes da doença. Se for uma atividade que libera endorfinas, melhor ainda.

Não é do dia para a noite, mas um belo dia quando você dá por si, você se reconhece de novo no espelho e uma coisa boba te arranca um sorriso, até uma risada, mesmo você achando que isso nem era mais possível. Um sorriso aqui, um pouco mais de apetite ali, uma música que te move, e aos poucos seu corpo e seu emocional vão juntos respondendo ao tratamento. A neblina vai se dissolvendo, a luz no fim do túnel começa a brilhar com mais intensidade e você se sente você de novo. É um renascer de verdade. Pra mim, a ficha caiu o dia que eu acordei e decidi terminar um relacionamento que eu já sabia há muitos meses que não tava bom, que não fazia nem sentido, mas que até aquele momento eu não tinha tido forças para terminar porque sabia que não aguentaria me ver sozinha. Até que esse dia eu tive forças para fazer isso e o término foi o meu divisor de águas. 

Eu sei que algum dia a depressão pode voltar, sei que se acontecer alguma coisa que me desestabilize tanto emocionalmente isso pode voltar a bagunçar a química do meu corpo. Mas se ela voltar, eu já sei que eu consigo vencê-la de novo. Me conheço mais forte, sei quem são as pessoas que mesmo sem saber muito como ajudar foram a minha rede de apoio, e sei que eu brilho ainda mais forte lá do outro lado nesse túnel.