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feminismo

0 em Comportamento/ feminismo no dia 10.03.2020

Por entre flores e lutas, damos as mãos.

Historicamente o 8 de março é representado por flores, presentes, promoções de spa, roupas. Uma cadeia de livrarias até já fez promoções de livros. Nos últimos anos a data vem sendo objeto de luta e de reinvindicações. As mulheres estão cada vez mais conscientes de seu lugar. E perceberam que as flores não se convertem em respeito, dignidade e igualdade.

A data está ligada à narrativa de morte de 130 trabalhadoras em uma fábrica em Nova Iorque que exigiam melhores condições de trabalho. No entanto, durante toda a história, mulheres se colocaram em marcha. Na revolução russa milhares de mulheres pararam suas atividades e marcharam pedindo pão, terra e paz.

Em 2017, esse movimento atingiu seu ápice sob o lema “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”. Por que é tão importante que possamos marchar em luta? Por que não bastam as flores distribuídas? E mais importante, por que igualdade de direitos ainda está longe? Segundo Silvia Frederici, em uma entrevista para a revista Brasil de Fato, afirmou que o crescimento do feminicídio e da pobreza ao redor do mundo estão atrelados aos processos de acumulação do novo capitalismo.

Os dados a seguir são da OMS e da OIT, para que possamos entender porquê nos colocamos em marcha:

·         A cada 11 minutos uma mulher é estuprada;

·         1 em 13 mulheres são assassinadas;

·         1 em cada 3 mulheres já sofreu algum tipo de violência;

·         As mulheres gastam 2,5 mais tempo que os homens nos trabalhos domésticos;

·         800 milhões de mães no mundo tem licença maternidade remunerada/

·         86% das mulheres brasileiras ouvidas por uma pesquisa da Action Aid já sofreram assédio.

Esses dados não serão apagados depois do dia 8 de março. E não deveriam ser expostos apenas nesse dia.

Deixamos de ser meras reprodutoras para também nos tornar trabalhadoras, competindo em um mercado já acirrado e em crise. Em 2020, o 8 de março gritou contra a desigualdade econômica, discriminação sexual, violência racista e feminicídios nos cinco continentes. Mas seja no dia 8 ou no dia 9, em uma semana ou em uma jornada de lutas, as mulheres irão questionar a organização do trabalho e do lar.

Portanto, receber flores está aquém do que precisamos. Suas flores são bem vindas se junto com elas vier sua consciência de estar ao nosso lado na reflexão e na luta. E também nos trabalhos e nas reivindicações e em criarmos uma sociedade mais solidária e afetiva. Estamos juntas?

1 em Autoestima/ Destaque/ feminismo no dia 20.02.2020

O Carnaval e a hotpant

Acho que esse é meu primeiro post para o Papo em tom de desabafo, revolta e tristeza pessoal. Justamente em uma época do ano que eu tanto amo, o Carnaval. Ele está aí e temos visto recentemente muito engajamento das pessoas em montar seus looks e fantasias. Muita purpurina e criatividade. Temas mil.

E também temos visto uma profusão de hotpant. Aquela parte de baixo no meio termo entre um biquíni e um short convencional.

Eu visto 46/48, dependendo da peça e da marca que a fabricou, e a verdade é que eu nunca pude usar hotpants pois simplesmente não encontrava peças do meu tamanho. Sempre fiquei incomodada com isso, pois todas as minhas amigas de corpos típicos ou magras saiam maravilhosas com suas hotpants no carnaval, mas eu não podia. E olha que eu não sou considerada uma mulher gorda maior. Nessas horas fico pensando nas meninas que são maiores que eu, e as dificuldades ainda maiores para encontrar peças como essas em seus tamanhos. Era um misto de raiva e sentimento de exclusão.

No carnaval de 2019 eu finalmente encontrei uma hotpant do meu tamanho. Comprei a minha e saí mega feliz no carnaval. Ouvi diversos comentários de amigas dos corpos mais variados possíveis.

essa foi a primeira hotpant que comprei!

“Nossa mas eu não tenho mesmo coragem de sair assim”.Ouvi de uma amiga magra.

“Ainda bem que você também está de hotpant pois assim não me sinto sozinha”, falou outra. Recebi muitos elogios e também alguns olhares julgadores. Não posso fazer nada a respeito dos olhares. E também amigas com corpos parecidos com o meu dizendo que se sentiam representadas ao me ver no meio do bloco com essa peça.

Agora, no Pré carnaval de 2020, passei por uma situação curiosa.

Eu toco há 5 anos em blocos – minha paixão – e sem dúvida o carnaval muda a gente em corpo e alma. Ele me trouxe uma liberdade comigo mesma que eu nunca havia experimentado. Tocar de hotpant toda purpurinada faz parte desse movimento, e virou um item básico para mim. Semana passada fui para São Paulo tocar com meu bloco de coração e fiquei hospedada na casa de uma amiga carioca, também super carnavalesca.

Ao me vestir, ela falou: “amiga você deveria ir de saia até o bloco”. Para a minha surpresa ela, com toda preocupação de me proteger, sugeriu que eu saísse “vestida” por medo de assédio. Na rua, no taxi ou em qualquer lugar.

Cara, eu já tinha pensado e resolvido a “problemática” de usá-la no bloco. Mas nunca tinha pensado na “problemática” do transitar na rua de hotpant.

Já é uma desconstrução imensa colocarmos nosso corpo à mostra na rua. Temos aprendido e repensado nossa relação com o corpo na praia, por exemplo, mas não em uma praça no centro da cidade. Já é difícil à beça achar a peça para usar, internalizar isso, conseguir vestir e sair de casa. E aí vem “outro obstáculo”, que é o transitar para chegar lá.

Parece o universo te testando em mais uma etapa. “Quer ir mesmo de hotpant? Então toma mais um desafio!”.

Me deu um misto de raiva, indignação (novamente). Me senti violentada por não “poder” sair como quero, na hora que eu quero. De não poder transitar como quero.

Obviamente a culpa não é da minha amiga. Amei seu cuidado e zelo. Também não é culpa da cidade de São Paulo, mas sim do sistema opressor que nos rege. Logo depois aconteceu a história do motorista em Porto Alegre que assediou uma menina de 17 anos. A justificativa? “Ela estava usando um short ‘tipo Anitta’, com uma mini blusa, com as pernas abertas no banco e chamando a atenção”.

A gente tenta se apropriar do nosso corpo, mas logo somos lembradas que esse sistema quer que as mulheres se escondam. Que não possam se expressar como gostariam. E que vivam com medo. E eu não aguento mais isso.

No fim, lá estava eu, no bloco de hotpant. Relembrando a maravilha de ser livre com o próprio corpo. E com mais vontade ainda de levar essa liberdade para novas esferas. Quando dizem que Carnaval é resistência, também tem a ver com isso.

0 em Autoestima/ Destaque/ feminismo/ Relacionamento no dia 30.05.2019

O tal nome de casada

Semana passada rolou um debate super interessante no Papo sobre Autoestima. Ele começou no grupo de Facebook, se estendeu para o Instagram e agora trago para cá. O assunto? O nome de casada. Ou melhor, a escolha de usar ou não o sobrenome do marido ao se casar.

Houve um consenso que trocar todos os documentos era um trabalho enorme. Esse foi o motivo que muita gente não cogitou a troca do nome. Outras quiseram manter seu sobrenome pois fizeram sua carreira profissional em cima dele. Teve quem disse que, na época do casamento, não se questionava sobre isso. Teve gente que trocou para poder tirar o nome do pai que foi ausente, omisso ou até mesmo abusivo. E em alguns casos, os dois mudaram os sobrenomes.

Alguns dos muitos comentários no nosso post do instagram. Vai lá ver, a discussão foi muito bacana, e os relatos, inúmeros.

Quando o assunto é nome de casada, a escolha acaba sendo pessoal e intransferível.

O que não significa que não podemos questionar a tradição. E ver se faz sentido para a gente. Tradicionalmente, o nome de casada de uma mulher era criado ao retirar o sobrenome materno, mantendo o paterno. Por fim, incluía-se o nome do marido. A ideia, assim como a da noiva ser levada ao altar pelo pai, é que ela deixaria de ser propriedade do pai e passaria a ser do marido. E notem que as mulheres saíam total da equação.

Atualmente é possível fazer todo tipo de combinação possível. Inclusive a de não mudar nada. As opções podem ir desde cada um ficar com seu sobrenome ou o marido incluir o da mulher. Pode acontecer de ambos incluírem o sobrenome do outro. Esse último me parece realmente uma solução igualmente justa, mas as mudanças dos documentos continua sendo uma coisa bem chata.

Mas isso parece mexer com as pessoas.

Percebo que muita gente que ainda resiste a pensar sobre essa tradição, ainda tem por trás uma ideia romantizada de família. Como se o fato de ser uma família precisasse ser validado pelo sobrenome. Ou que isso é uma prova de amor. Ou que os filhos precisam ter o mesmo sobrenome que a mãe.

Trocar o nome atualmente é uma decisão feita com base na sua escolha, na sua vontade e no seu sentimento. Mas é importante trazer essa discussão à tona. Em tempos onde falamos tanto sobre liberdade feminina, por que não questionarmos os conceitos antigos por trás de um gesto que só perpetua uma cultura machista? Por quê não trazer um pouco mais de clareza para quem ainda pode fazer essa escolha? Mostrar as opções? Informação nunca é demais, afinal.

Lembrando sempre que, se em algum momento da sua vida você fez essa escolha, isso não te torna menos feminista. E também não é um ataque ou crítica. Se você está segura dos motivos que te levaram até a sua decisão e vive em paz com sua escolha, com certeza vê a importância de poder trazer esse debate e dar à todas as mulheres o que elas deveriam ter desde sempre: clareza para que se faça uma escolha consciente.