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5 em #paposobremulheres/ Comportamento/ Destaque no dia 03.04.2019

Nunca me imaginei sendo policial. Talvez eu que não me conhecesse bem

ilustração: Ju Ali

1. Os motivos que precederam o concurso para policial civial

Comecei a estudar pra concurso meses após ter concluído a faculdade de direito. Motivos financeiros me fizeram abrir mão do meu sonho – na época, Procuradoria da Fazenda Nacional – e começar a fazer qualquer prova que aparecesse. Inclusive para a Segurança Pública. Resumindo bastante, essas foram as circunstâncias que me levaram a fazer prova para a Polícia Civil.

Não tenho familiares na polícia. Nunca sonhei em ser policial. Não tive influência alguma para fazer esse concurso. E, para coroar, essa é uma profissão bem complicada em vários aspectos.

Primeiro porque ser identificada como policial é condição suficiente para você ser morta (se for mulher, de quebra, talvez estuprada). Ainda que você esteja legitimamente desempenhando a sua função. Além disso, a profissão em si já te coloca num risco bastante superior ao de quem trabalha num escritório ou tribunal.

Em segundo lugar, por ser mulher, ter 1,52 de altura, aparência nerd e cara de novinha. Eu não me encaixava no padrão da mulher policial, muito menos no padrão policial.

Quando descobri que havia sido aprovada, houve choque pessoal, familiar, de amigos, de relacionamento. Todos preocupadíssimos com a minha vida. E eu, preocupadíssima com o que Deus queria me ensinar direcionando meu destino para uma profissão em que NUNCA havia me imaginado e para a qual eu acreditava não ter aptidão alguma.

Flexão? Não fazia nem cinco. Corrida? Até a esquina de casa me cansava. Arma? Nunca havia visto uma. Machismo? Achava que sabia do que se tratava.

Superando minhas próprias expectativas e a de todos ao meu redor, passei na prova física, no teste psicotécnico, nos exames médicos. Sobrevivi aos longos meses de treinamento policial, que consistia em aulas teóricas e práticas à respeito da atividade que eu estava prestes a desempenhar.

2. O treinamento

Minha primeira ideia foi querer fugir da sala de aula, com quase cinquenta pessoas com as quais não tinha nenhuma identificação. Não preciso mencionar que a maioria era do sexo masculino. Ouvia pessoas contando suas histórias, narrando uma vida de sonhos em função de ser policial. Pessoas com familiares na Instituição. Algumas bradavam que ser policial demandava vocação, pois não é uma profissão para qualquer pessoa.

E aquilo me irritava. Respondi mais de uma vez que, apesar de nunca ter sonhado estar ali, seria uma policial tão boa quanto os que sonharam a vida toda com isso. Demorou para aceitar que eu estava naquele lugar por algum motivo e me entregar à missão que eu nem sabia qual era.

Eu chamava atenção por ser pequena, magrinha, usar óculos de proporções desnecessárias e ter cara de boba. Virava chacota, era usada como exemplos e via através do olhar dos meus instrutores o quanto eles achavam que eu não pertencia àquele lugar.

Vi amigas chorando, querendo desistir, seja pela pressão a que éramos submetidas, seja pelos constrangimentos pelos quais passávamos. Instrutores que se valiam de contatos físicos desnecessários. Brincadeiras absurdas com conotações sexuais. “Mas são apenas brincadeiras”, eu ouvia dos colegas, “fica tranquila”.

Fiquei entre os primeiros colocados do treinamento policial. Isso significa que eu obtive notas altas em tiro, tática operacional, defesa pessoal, não apenas na parte teórica. E aguardei minha tão sonhada primeira lotação. Como o concurso é estadual, eu poderia cair em qualquer local dentro destes limites. E foi com muita felicidade que descobri que iria iniciar meu trabalho numa Delegacia de Atendimento à Mulher. A DEAM.

3. A primeira lotação

Foram muitos desafios de uma vez só. Eu tinha pânico de dirigir e fui lotada a 65km de distância de casa. Eu tinha medo do trajeto, medo de ser pega com arma e distintivo no carro. Medo de morrer. A todo momento.

Minha delegacia ficava localizada em um município extremamente perigoso, cujo acesso se dava por vias perigosíssimas também.

Eu entrava e saía do local de trabalho rezando para que a minha vida fosse poupada, porque eu só queria trabalhar. Eu tinha muito, muito medo de morrer. Repito isso pois é o que passava pela minha cabeça a todo momento. Até que meu emocional se estabilizou a ponto de eu conseguir olhar ao meu redor e notar a realidade na qual estava inserida. E foi aí que tudo começou a fazer sentido.

Sempre tive acesso às situações de vulnerabilidade pela televisão, mas nunca na minha frente, na forma de vítima de violência doméstica e familiar.

Através do meu trabalho, pude atender mulheres com feridas no corpo e no coração. Violentadas das formas mais graves e cruéis. Atendi bebês, crianças, adolescentes. Pessoas cuja condição de vida poderia facilmente se encaixar no conceito de miserabilidade.

Quando eu voltava pra casa contando dos meus atendimentos, as pessoas se chocavam. “Mas como você aguenta lidar com essa energia pesada, com tanto caso complicado?” É que a vontade de fazer uma investigação de qualidade, associada à um atendimento acolhedor era o que predominava em mim. Foi um verdadeiro privilégio ter sido para as mulheres o que eu gostaria que tivessem sido pra mim, caso a vítima fosse eu.

Eu era a única policial feminina em uma delegacia de atendimento à mulher. Sim, soa errado. Mas a Instituição é defasada. A gente trabalha com pouco. Pouco pessoal, pouco material… tudo.

Fazer o meu trabalho da melhor forma possível e proporcionando acolhimento emocional para as mulheres tão fragilizadas fez com que eu entendesse a minha missão.

Eu não me imaginava mais fazendo algo diferente daquilo, para o desespero dos meus familiares e amigos. Eu demorei muito tempo para conseguir aceitar isso.

4. O machismo na instituição

Dentro de uma delegacia, você vai acabar convivendo com muitos homens. Uma convivência bastante diferente de um trabalho em regime de expediente, 8h/dia, caso você fique no plantão. Eram 24 horas, trabalhando, almoçando, jantando, dormindo em ambientes compartilhados.

A intimidade se acentua quando há uma convivência tão intensa. E, acima de tudo, quando seu trabalho te insere em situações de risco acima das comuns. Isso faz com que as pessoas muitas vezes confundam as coisas. E colocá-las no lugar delas pode soar xiliquento da sua parte perante os demais colegas, que sempre acham que tudo não é “nada demais”. Pode até mesmo gerar uma indisposição tamanha no ambiente de trabalho a ponto da convivência ficar insustentável.

Ouvia que “polícia não tem sexo”, tentando passar a ideia de que não éramos enxergadas com apelo sexual. Mas quando eu ia com uma roupa mais larga, ouvia piadas a respeito. “Assim ninguém vai te comer”. Já me senti acuada, constrangida. Eu, que sempre tive o pulso tão firme em diversas situações, já me vi inerte diante de absurdos que vivi. Não respondi, não reagi e deixei passar. Me arrependo, pois sei que a omissão faz com que a falta de respeito se enraíze ainda mais.

5. Conclusões

Antes de entrar pra esse concurso, eu tinha uma imagem deturpada da Polícia. Aquela imagem que associa corrupção, truculência, agressividade.
Como foi incrível quebrar a cara e perceber que a instituição está LOTADA de gente do bem, disposta a trabalhar e a servir a sociedade.

Fiz grandes amigos, cresci como pessoa e como profissional. Sou mais preparada para a vida, mais empática, mais forte. E minha visão da Polícia mudou tanto que fiz questão de tentar mostrar o lado bom da moeda para todos amigos e familiares. Acho que tenho conseguido.

Sei que sou uma voz em um milhão, mas mulheres, acreditem que vocês encontrarão atendimento policial de qualidade. Não posso garantir que terão o atendimento dos sonhos, mas me cabe pedir que não deixem de denunciar por medo do que irão encontrar na delegacia. Existe muita gente boa lá dentro.

Hoje em dia, seleciono bastante as pessoas que sabem da minha profissão. Lamento muito que isso tenha que ser feito, mas é para o bem da minha própria segurança. Tenho um orgulho enorme de estar onde estou, fazendo o que faço, e se fosse seguro, falaria para todos. Eventualmente acabo me identificando para o bem da informação, como no presente caso.

Mas além de querer trazer esperança para mulheres, meu relato tem um outro objetivo, esse mais pessoal.

Ele mostra que a vida pode te levar para caminhos inimagináveis e que eles podem ser melhores do que os que você sempre planejou trilhar. Disse lá no início que não entendia o porquê da vida ter direcionando meu destino para uma profissão em que NUNCA havia me imaginado. Sabe a que conclusão cheguei? Eu que não me conhecia o suficiente.

Não existe profissão que eu desempenharia melhor e eu CRIEI aptidão através do amor que eu desenvolvi pela Polícia. Flexão? Faço muitas, sem joelho. Corrida? Com o peso do colete se for preciso. Machismo? Resistindo e lutando contra ele sempre que está dentro do meu alcance.

Espero ter conseguido aquecer o coração de algumas pessoas com a esperança de que as coisas podem mudar para melhor.

0 em Autoestima/ Comportamento/ Destaque no dia 12.12.2018

Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive fazendo churrasco

Não me importo com o cheiro de fumaça no cabelo nem em todas as minhas roupas. Um bom banho, bons produtos de beleza, higiene e uma sacolinha plástica para separar as roupas na mala já resolvem isso rapidinho.

Unhas feitas é um luxo, então faço logo no começo da semana. Sei que no sábado tem evento e o calor, a umidade e as luvas vão estragar tudo. Mas e daí?

Sabe o que eu mais amo no carvão? Além do calor e sabor que ele dá na carne quando está em brasa, é que sai tão facinho das mãos. E a carne, ahhh, essa é o maior amor da minha vida. Não vivo muitos dias sem senti-la nas minhas mãos. Muito menos sem extrair o máximo de suculência dela para explodir de sabor na minha boca no meio de qualquer tarde de terça-feira.

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Eu estudei (muito) na vida. Conquistei todos os certificados e títulos que eu quis, no entanto foi no fogo que eu encontrei sentido para meus dias. Sou apaixonada por moda. Tenho MBA em Marketing pela FGV. Sou especialista em startups e uma empreendedora nata. Mas é no fogo que eu encontrei uma paixão para continuar estudando todos os dias. E é assim que eu tenho a impressão que não preciso mais trabalhar na vida.

Porém, culturalmente, todo homem é um excelente churrasqueiro. E lidar com esse ego é algo extremamente delicado.

Não existe churrasco certo ou errado. Existem técnicas e estilos diferentes e eu comecei a lidar com isso dentro da minha casa. Minha maior referência de churrasco sempre foi o meu pai, antes de Francis Mallmann e Jeferson Finger. Tradicionalmente nos domingos, eu só saía da cama quando o clima de churrasco vinha me buscar.

Quando fui no Bárbaros BBQ (um festival de churrasco que acontece em Americana/SP) pela primeira vez, eu conheci um universo de sabor e maciez que nunca imaginei que pudesse existir em uma carne. E a única coisa que passava pela minha cabeça na hora era: meu pai precisa provar isso!

Comecei a estudar e aprender a fazer essas técnicas sempre em dias de semana, para não afrontar meu pai, o churrasqueiro oficial. Aos poucos notei que ele observava e as usava no nosso churrasco de domingo. O bife foi virando steak, o sal grosso nunca mais saiu do armário, o braseiro é mais forte e ele agora me acorda mais cedo pra perguntar o que vamos fazer com tal carne hoje. Assim, voltamos a ser melhores amigos de novo, unidos pelo fogo.

Escolher encarar o churrasco profissionalmente foi escolher viver em uma atmosfera que em grande parte do tempo é de alegria, amizade, celebração. Hoje eu trabalho com grandes amigos. Amigos que me apresentaram o churrasco e me tornaram churrasqueira, sem me olhar como “café com leite”.

Eu sempre amei desafios, encarei um BBQ Brasil (reality show de churrasco do SBT) e mostrei que eu não só posso fazer churrasco como faço isso sem deixar de ser a Helô, toda vaidosa por essência.

Só que nem tudo são flores quando você é uma mulher nesse mundo de churrasco.

Já estive em evento em que um homem se indignou porque eu, “uma menininha” – como ele dizia – estava assando entre os grandes nomes e ele não. O cara invadiu minha estação, pegou minhas facas e me ameaçou. Já tive situações onde um grande e querido patrocinador meu não me deixou chegar perto da churrasqueira na casa dele.

Ué, eu sirvo para divulgar mas não para fazer churrasco?

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Já fui muito discriminada por fazer churrasco de shorts, bota, maquiagem. E calei a boca de cada pessoa que viu o meu profissionalismo trabalhando duro, do começo ao fim. Como já se diz há muito tempo, lugar de mulher é onde ela quiser. Eu nunca me preocupei se o que eu ia fazer era pra homem ou pra mulher, como nunca olhei etiqueta de roupa pra ver tamanho. Se me servir e eu amar, eu vou vestir e vou fazer.

E se a maquiagem sair toda por conta do calor, não tem problema. O churrasco deu sentido a tudo o que eu sonhei e estudei na vida, e fica mais rico ainda quando eu recebo o respeito e o carinho das pessoas que vêm falar comigo.

Hoje eu recebo sugestões e perguntas técnicas. Discuto sobre qualidade de carne, raças bovinas, tipos de cortes e técnicas de cocção nos directs de Instagram, que antigamente eram tão vazios. Hoje eu aprendo com todo mundo e ensino um pouquinho também.

Hoje a maior alegria da minha vida é assistir de perto as pessoas conhecerem e se encantarem com um novo mundo do churrasco pelas minhas mãos. E eu passo a maioria das horas do meu dia estudando receitas novas para servi-los melhor a cada dia. Sem deixar de lado minha feminilidade, mesmo estando em um ambiente tão masculino.

3 em #paposobremulheres/ Comportamento/ feminismo no dia 21.03.2018

Papo Sobre Mulheres: Me dá a mão?

Eu queria muito escrever sobre relacionamentos, sobre como a gente é tudo gente, que as minas também podem ter medo de relacionamento diante de um prato de ovo mexido, mas comecei a ler “Fome”, livro da Roxane Gay. E travei. E chorei. E minha garganta fechou. 

O medo me travou. O medo que todas nós temos de andar na rua. O medo da violência, o medo de receber o cara da tv a cabo em casa ou pedir um carro pelo aplicativo bêbada. Foi esse medo que me treinou para dizer que “não sou uma pessoa carinhosa em público”. Sou uma mina lésbica treinada para não demonstrar afeto na rua. Descobri isso aos quase 40, sendo que namoro minas desde os 16. Foram muitos anos de treino pra isso. Fui descobrir isso um dia em um corredor de uma loja de artigos de esporte, comprando uma legging. Minha namorada me deu um beijo na boca a hora que a gente se encontrou e eu travei. Para ela, que não foi treinada e namorou homens até outro dia, era só mais um dia ordinário. Pra mim, foi o dia que descobri que travo.

Eu travo por medo de ouvir um xingamento, por medo de ouvir uma piadinha, por um medo irracional, mas totalmente baseado nas estatísticas. Travo porque aprendi a me esconder. O livro da Roxane me travou porque o pavor dela fez ela se esconder, e todas as pontas dos fios se conectaram. E toda a aspereza do mundo me abraçou. 

A aspereza que me faz ter medo de dar um beijo de oi na minha namorada, que me faz soltar a mão dela na rua quando vem uma turma de caras, o medo de dar um beijo na boca dela quando chego na casa da família, o medo que me faz ver se a porta da rua tá mesmo trancada quando ela dorme na minha casa. Esse medo mora no meu corpo e eu não sabia. Ele tá lá o tempo todo, à espera do menor sinal, para eu reagir e me proteger. 

Quando eu comecei a ler o livro uma sensação horrível de pertencimento tomou conta de mim. Queria estar sozinha nesse mundo relatado, mas estamos todas, na única coisa que une todas as mulheres do mundo: o medo. As ricas, as pobres; as brancas, as pretas; as gordas, as magras, as hetero, as lésbicas. Todas as mulheres têm medo. 

ilustra: Libby Van Der Ploeg

ilustra: Libby Van Der Ploeg

Se alguém me perguntar: “e como muda isso?”- eu só consigo respirar fundo e dizer “segura minha mão”. Então, hoje, segura a mão de uma mulher, ajuda a diminuir o medo, ajuda uma mina hoje a ter menos medo, pede ajuda pra sentir menos medo. 

Me dá a mão?