Depois daquele texto da Jô e o meu sobre o bela, recatada e do lar, a May pediu um espacinho aqui no blog para falar da sua história com o feminismo. Bem, a May já é de casa, nem precisaria ter pedido! rs
Outro dia estava sentada em uma roda de amigos do meu irmão, todos mais velhos que eu, na faixa dos 35, 40 anos de idade. Estávamos falando de tudo um pouco, até que um deles comentou que achava um pouco exagerado esse negócio de feminismo. Olha, eu não me vejo como uma ultra mega feminista, pois conheço meninas que atuam muito mais na causa e têm um conhecimento infinitamente mais amplo que o meu, mas eu quase dei escândalo. Quase, porque parei e pensei antes de perder a razão. Então decidi ser direta e fazer uma pergunta muito simples para todos: “você já teve ou tem medo de sair na rua usando uma bermuda curta ou uma regata?”. Como eu já imaginava, a resposta foi um uníssono “não”.
Foi aí que eu contei para eles que quando eu saio para passear com o Oscar (meu cachorro) de noite eu vou de calça, esteja 28 ou 18 graus lá fora. Contei para eles que isso, aliás, foi orientação da minha mãe, com medo de que se eu usasse uma saia ou short para dar uma volta a pé no quarteirão, poderia chamar uma atenção negativa dos homens. Caso você que está lendo esse texto não saiba, alguns seres humanos acham que se uma menina/mulher usa saia curta, ela está dando autorização para passarem a mão nela (e fazerem coisas piores).
Um dos amigos do meu irmão estava com cara de pensativo, como se uma ficha tivesse acabado de cair. Aí eu decidi continuar e contar para eles sobre a menina que semana retrasada postou no Facebook uma foto da saia suja de sêmen depois que um homem ficou se esfregando nela durante a viagem num vagão de metrô lotado. Também contei que quando eu saio para beber, não desgrudo do meu copo, porque tenho medo que alguém coloque algo lá para me dopar. Contei que quando entro num táxi ou num Uber, eu sempre fico apreensiva pois é um homem dirigindo e eu não sei se ele vai tentar algo contra mim.
Todos eles ficaram em silêncio, pois perceberam que não importa a minha cor, a minha condição social ou a minha idade. Eles perceberam que todo dia, uma menina/mulher sofre pelo simples fato de ter peitos, bunda e vagina. Me senti bem depois dessa conversa, pois apesar de ter falado de assuntos pesados, acho que passei o recado de maneira muito simples e direta para os homens que estavam lá.
Mas pessoal, isso é só um dos problemas. Tem outros inúmeros fatores que fazem com que o feminismo seja imensamente importante no nosso dia-a-dia, vide os padrões que a sociedade insiste em impor para uma mulher. Algumas pessoas ainda acham que “bela, recatada e do lar” é modelo único de esposa para todos os homens que querem se sentir sortudos. Vejam bem, primeiro que eu acho que cada mulher escolhe qual papel quer desempenhar na vida, segundo que sortudo é o cara que eu escolher para estar ao meu lado.
Se eu quiser ser magra, gorda, despeitada, siliconada, gostosa, flácida, marombada, homossexual, mãe, solteira, casada, rainha da balada, dona de casa, advogada, socialite, blogueira, viajante, desempregada, dependente, independente… o que você tem a ver com isso?
Galera, estamos em 2016! Está na hora de quebrar ideais, de acabar com preconceitos, de esquecer essa ideia de que as mulheres só vão ser felizes ou bem-sucedidas se seguirem um certo caminho. Cada uma tem que escolher seu estilo de vida, cada uma tem que ter a liberdade para fazer o que quiser, como bem entender. A mulher pode e tem que ser o que ela quiser ser, não apenas hoje, mas todos os dias.
Eu tenho que ter a liberdade e a tranquilidade de ir passear com o meu cachorro vestida da maneira que eu quiser. Tenho que sair de noite sem ter medo do que pode acontecer comigo porque eu sou mulher. Tenho que exercer a minha profissão sem ter medo de ser considerada fútil ou fracassada. Tenho que cuidar do meu corpo se eu bem entender, não porque a sociedade olha feio para quem tem celulite ou gorduras a mais. Mas não é tão simples assim, não é mesmo?
E aí? Dane-se o feminismo agora?


6 Comentários
Angélica
02.05.2016 às 13:18Mayara, obrigado por escrever tao bem sobre esse assunto! Parabéns por mais um incrivel texto!
May
04.05.2016 às 11:36Obrigada você por estar sempre aqui lendo <3
Monique
02.05.2016 às 16:33Mayara, um dos melhores textos que já li sobre o assunto. Muito objetiva e clara a maneira que você escreveu. Espero que a gente consiga mudar o mundo para as próximas gerações. Quando ando de transporte público vou com medo do início ao fim do trajeto justamente por estas razões que você listou. Quando sei que vou precisar pegar um metrô, obrigatoriamente uso calça neste dia e olha que eu tenho oportunidade de pegar um taxi, ir de carro ou pedir para alguém me buscar, ou seja, tenho outras opções, fico pensando em quem não tem. Não é justo termos que viver assim, sempre apreensivas e sempre tendo que antever os riscos que as nossas roupas e condutas podem nos provocar.
May
04.05.2016 às 11:38Monique, confesso que estava apreensiva quando escrevi, pois, como disse, não sou das mais conhecidas no assunto. Mas acho que consegui passar algo básico em todas nós: medo. Realmente não é justo ter receio de colocar uma blusa decotada ou uma saia.
Bruna
03.05.2016 às 10:33Texto maravilhoso! Empatia é uma coisa linda, né? Se colocar no lugar no outro muda toda a perspectiva da coisa.
Percebi que muitos homens ainda acham que mulheres não são assediadas o tempo todo, por isso é muito importante expormos o que passamos no dia a dia. Eu vivi uma situação de assédio há pouco tempo e abri isso para alguns homens próximos, eles ficaram horrorizados ao “descobrirem” que abusos são reais, não são apenas histórias de internet.
Devemos nos unir por um mundo onde seja possível fazer coisas banais sem sentir medo ♥
May
04.05.2016 às 11:39Corações, muuuitos corações para você <3