12 em Comportamento/ Reflexões no dia 20.04.2016

Sobre ser bela, recatada e do lar

A essa altura do campeonato, acho que todo mundo já está sabendo e discutindo sobre a matéria de uma revista falando sobre a mulher do vice presidente Michel Temer. Não vou botar o link porque não estou afim de dar mais acessos para essa publicação, mas para quem não leu ou não sabe do que se trata, a capa estampa Marcela Temer com a seguinte frase: Bela, recatada e do lar. E durante várias linhas, a jornalista tenta nos convencer que ela é a mulher perfeita e Michel Temer é um sortudo por ter uma parceira que vive para cuidar da casa e do filho, usa vestidos na altura dos joelhos e é muito mais nova do que ele.

13001292_597623723744631_543260754400420114_nAcho que nunca contei para vocês, mas um dos primeiros medos que surgiram com a ida para a Nova York foi a visão de que eu teria que ser “do lar”. Claro que ficarei em casa, como eu já fico desde que me mudei para SP e adotei o home office como alternativa de trabalho, mas a possibilidade de eu não conseguir mais trabalhar direito porque terei que focar na “profissão esposa” me deixava de cabelo em pé, e a imagem de ser aquela mãe que deixa a casa um brinco enquanto cuida do filho, do cachorro e da comida enquanto o marido não chega em casa me apavorava.

Não julgo quem se achou no papel de dona de casa, largou tudo para cuidar dos filhos e hoje vive feliz fazendo isso. Não julgo quem vai no cabeleireiro, na esteticista, malha o dia inteiro e tem vida de artista. Não julgo quem prefere ser recatada. Não julgo mulheres novas que resolveram se casar com homens mais velhos. Mas julgo muito ver uma revista com visibilidade voltar no tempo e querer vender que esse é o papel perfeito para uma mulher. Julgo mais ainda ao saber que foi uma jornalista que assinou o texto.

GIF-angry-bitch-please-Christina-Hendricks-disapproval-disdain-judging-judging-you-Mad-Men-GIFComo uma amiga minha bem disse, “acho que cada mulher escolhe qual papel quer empenhar na vida. Se ela quer ser recatada e do lar, ninguém tem nada a ver com isso. Acho até que hoje em dia precisa de coragem para assumir que não vê problema algum em ser “apenas” mãe e “apenas” do lar. O problema é pensarem que ela é modelo único de esposa para todos os homens que querem se sentir sortudos. Meu problema é colocar ela num pedestal e as mulheres que não são iguais a ela, indignas de aplausos.”

Enquanto fui me auto analisando e tentando desvendar o motivo desse meu pavor, acabei descobrindo que esse medo em assumir esse papel de “mãe/do lar” era exatamente por causa dessa imagem de Stepford Wife que a tal revista resolveu pintar a mulher do vice presidente. Mas depois me toquei que não é porque terei que desempenhar essa função por algum tempo  – porque filho cresce, daqui a pouco está na escolinha e eu terei algum tempo para trabalhar/estudar e voltar a fazer o que eu fazia antes – que terei que me tornar uma mulher-acessório.

Ah, e acabei me tocando que não é porque nos Estados Unidos eu muito provavelmente não contarei com o suporte que eu tenho aqui de diarista duas vezes na semana e babá de segunda a sexta que isso automaticamente quer dizer que eu terei que fazer tudo sozinha. Comecei a conversar com gente que mora lá há algum tempo e passei a seguir algumas blogueiras nova iorquinas com filhos para saber como era mais ou menos a rotina delas e descobri que os maridos sempre ajudam, e que exatamente pelo fato do serviço doméstico ser muito caro, o casal passou a ter a consciência que precisavam fazer tudo para que a casa não ficasse uma zona. Claro que as amigas brasileiras admitiram que não foi da noite para o dia convencer os maridos a cooperarem e desconstruírem o pensamento de uma cultura que estava presente desde que eles nasceram, mas que eventualmente os ponteiros se ajustaram e tudo ficou mais fácil. Óbvio que eu ficarei com uma parte maior disso tudo, mas só de ver que a responsabilidade não necessariamente precisa ficar toda comigo, eu me acalmei um pouco.

bela-recatada-do-larVoltando ao assunto, só sei que estou amando ver as amigas e as pessoas que estão usando a #belarecatadaedolar para destruir essa ideia de que mulheres com outros comportamentos não são aceitáveis ou bem vistas. Quem sabe um dia a gente consiga chegar em um tempo onde todas seremos belas (independente do peso, idade ou tipo de cabelo), bem resolvidas (isso é, se quisermos ser recatadas ou devassas, é um problema nosso e só nosso) e com a profissão que nós escolhermos, seja ela “do lar” ou “do mundo”.

Ah, e em tempo, acho que sortudo é o casal que tem como parceiro alguém que o respeite, ame e seja companheiro, independente da beleza, do comportamento ou da profissão, não é mesmo?

Beijos!

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12 Comentários

  • RESPONDER
    Mayara
    20.04.2016 às 14:57

    Alá o tapa na cara da sociedade bela, recatada e do lar <3

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    Caroline®
    20.04.2016 às 15:48

    Não é por nada não, mas eu acho que a matéria foi uma enorme ironia. Não me pareceu que a jornalista quis enaltecer as características antiquadas de “Amélia” de Marcela Temer, mas sim, através da descrição detalhista desse anacronismo, criticar a postura dela. Na minha visão, a crítica é a ela, uma mulher jovem, geração Y, com comportamento a la 60’s. O que também é muito errado, pensando nas ideias do feminismo moderno baseadas na sororidade. Se ela quer ser assim, não é da conta de ninguém. Lutamos por escolhas, não por imposições, sejam de que natureza forem. O grande problema da ironia é que ela não é ideal para o meio escrito. Faltam elementos como entonação, expressão corporal, para identificá-la. Corre-se sempre o risco da interpretação ser literal.

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      Carla
      20.04.2016 às 19:14

      Caroline, conheço muitas pessoas que sabem usar da ironia em seus textos como ninguém. Se esse era o intuito da jornalista, ela precisa rever como explorar essa técnica! Eu, li e reli procurando a ironia, na esperança de achar, mas realmente não consegui. Espero que seja uma crítica mesmo, do jeito que vc falou, mas de qualquer forma acho que a discussão que isso tudo gerou é mais do que válida!

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      karine
      24.04.2016 às 12:48

      Caroline, também quando li a reportagem, antes de saber de todo o burburinho, enxerguei muita ironia nas palavras da jornalista. Achei que a reportagem ridicularizava a esposa do Michel Temer. Depois comecei a ver nas redes sociais a revolta das pessoas sobre a matéria. A maioria achando que a reportagem a enaltecia. Achei curioso. Não interpretei assim. Realmente cada um interpreta de um jeito.

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        Carla
        24.04.2016 às 12:56

        Com certeza, Karine! Eu realmente espero que seja ironia, mas acho que não importa o teor, eu curti a discussão que foi levantada a partir da matéria, justamente porque eu nunca consegui ser esse tipo de mulher, eu particularmente não consigo me sentir feliz em ser “do lar”, e uma boa parte disso é porque eu nunca me identifiquei com essa imagem que foi justamente a imagem que pintaram a Marcela!

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    Livia Kerr
    20.04.2016 às 16:24

    Posso estar enganada mas também entendi como a Caroline. Não achei que a jornalista quis elogia-la, mas sim “critica-la” ironicamente. O que estaria tão errado quanto. Ou talvez seja um pré-conceito meu, por ter ambições diferentes da nossa possível futura primeira dama não consegui ler sobre suas características como se fossem pontos positivos.
    Sei lá… rs

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    Marielly Andrade
    21.04.2016 às 13:58

    Carla,
    Que texto maravilhoso! Parabéns!!!! Quero curtir e compartilhar mil vezes!

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    Karol
    22.04.2016 às 0:51

    Oi Carla,
    amo o blog de vocês e não à toa estou aqui mais uma vez lendo rs. Eu achei que a reportagem da Veja foi infeliz no que disse, e até conseguiu chamar atenção quando ninguém mais dá crédito para aquela revista. No entanto, tenho que olhar “para o outro lado”, porque ser bela (de cada forma), recatada e do lar passou a ser uma vergonha.
    Digo isso porque fiz uma escolha de deixar um cargo de advogada em uma empresa, aos 27 anos, com viagens semanais e acesso ao que o luxuoso mundo corporativo pode dar, para ficar em casa. O fiz não para passar o dia olhando para o teto, mas para estudar, mas ainda assim ouvi (e ainda ouço) todo tipo de coisa. A mais comum é “já que você não faz nada, pode me fazer um favor?!” ou “a dondoca tá ocupada?”.
    Um exemplo disso foi um comentário da Jô (que também adoro e acompanho sempre) hoje no FB que dizia “Pra mim, ser bela, recatada e do lar, não é elogio, pra você pode ser, mas no fim não importa!”.
    Poxa, em todos os textos que li, havia uma menção a mulher poder ser o que quiser, mas em nenhum texto que li senti a liberdade de poder ter a vida de “do lar”. Sei que não é a vida que a nossa geração foi preparada para viver, mas será que posso fazer o que quero MESMO?! Incluindo não trabalhar?. Porque em todas as falas me senti julgada.
    Não vou entrar em mérito de beleza e recato, porque isso é realmente muito relativo e pessoal rs.
    Desejo, de coração, que sua vida permaneça bela e feliz onde quer que você vá.
    Muitos beijos, Karol.

    • RESPONDER
      Carla
      24.04.2016 às 22:37

      Oi, Karol! Concordo contigo, no entanto que gostei muito do que minha amiga falou (e eu botei no texto) sobre o fato de que hoje em dia é preciso coragem para assumir que você quer ser “do lar”.

      Como o texto foi muito pessoal, eu falei por mim. Eu não curto essa vida de dona de casa. Nunca conseguiria deixar de ter o blog e de ter meus clientes para viver só em função dos afazeres do lar, não conseguiria ser feliz dessa forma. Mas concordo contigo que, com certeza, essa sensação de que vc precisa ter um trabalho para ter algum valor aconteceu porque as mulheres lutaram para ter espaço no mercado de trabalho. Você viu BBB? A Ana Paula foi super criticada várias vezes dentro do programa porque os outros participantes não achavam que ela merecia o prêmio justamente pelo fato dela nunca ter precisado trabalhar e admitia isso sem problema nenhum.

      Mas ao mesmo tempo vejo que o discurso feminista está mudando e se ajustando para fazer com que todos entendam que a mulher é livre para fazer o que quiser. Só que ainda deve demorar um pouco para que os julgamentos passem.

    • RESPONDER
      Sil
      04.05.2016 às 2:54

      Oi Karol, tudo bem?

      Minha mãe tb escolheu largar a medicina para ficar comigo e com a minha avó. Ela ODEIA trabalho doméstico, não gosta nem de cozinhar, mas fez uma opção e eu não vejo nada de errado nisso. Aliás me permitiu ter uma infância privilegiada com uma mãe super presente.

      Eu só acho que ser Recatada ou Do Lar pq a SOCIEDADE te exige isso errado, afinal ninguém tem que exigir nada de ninguém! E me incomoda ainda mais quando é o homem que exige que a mulher mude depois de casar, aí eu tenho vontade de mandar catar coquinho (vou ser recatada, risos!) afinal o cara casou sabendo quem a mulher era e depois quer que ela vire o que ELE acha ideal.

      Olha, eu tb já ouvi muito nessa vida por não ter um emprego formal e uma vida tradicional. Não vou dizer que sou Do Lar pq eu sou péssima e não tenho paciência, mas é lógico que lavo roupa, estendo, tiro lixo, mas confesso que uso das tecnologias para me ajudar pq sou um desastre até varrendo! Risos!

      O que acho que incomodou não é o fato de uma mulher ser dona de casa ou não trabalhar, mas sim o fato da revista parecer fazer com que lugar de mulher direita é dentro do seu lar e não aproveitando a vida tb quando pode para sair com as amigas, por exemplo. Muita gente não entendeu quando eu coloquei o “do bar”, mas o que eu quis dizer é que independente da minha escolha de profissão, não preciso ficar dentro de casa esperando meu homem com um par de chinelos e um Drink na mão e só sair para ir ao mercado. Nós temos nossas vidas, nossas amigas, nossos programas e já passamos do século onde precisávamos de uma dama nos acompanhando pq íamos ficar mal faladas. Pelo menos foi assim que EU interpretei tudo: que lugar de boa esposa é esperando o marido em casa. E aí, me desculpa mas eu espero pq tô com saudades, não pq tenho alguma obrigação. E tem dias que não espero pq tenho outras coisas para fazer ou encontro com ele, enfim, não sou um bibelô, entende?

      E saiba que você não é a única a ser chamada de “dondoca” e isso me irrita muito, especialmente pq as pessoas não estão no lugar das outras para saber a verdade delas.

      Beijos enormes!

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    Ariana
    24.04.2016 às 15:03

    Pois bem, meu pai disse que o casamento deles teve um contrato e quem cuidou disso pessoalmente foi a mãe dela, no contrato consta desde a mesada até quantas relações ela tem que ter com ele…
    Se realmente isto for verdade, para mim isto aí tem um outro nome…

  • RESPONDER
    Sil
    04.05.2016 às 2:33

    Joan… Como sinto falta de Mad Men… Aliás é um bom exemplo para vermos mulheres belas, algumas recatadas e do lar, outras da pá virada =)

    Eu aqui tenho exemplos de todos os tipos: do lar ou não do lar, por escolha ou não, mas acho que recatada na família tá difícil! O que seria recatada? Termo mais retrógrado…

    Bem, eu ouvi das minhas avós enquanto estava crescendo que podia ser o que quisesse, inclusive Dona de Casa (o que não levo o menor jeito, risos!) mas que eu teria que prometer jamais perder meu tempo e minha beleza areando panela ou lavando roupa na mão se hoje em dia existem máquina de lavar roupa e panelas modernas. Ambas além de cuidar da casa, sustentaram a família tb (uma pq meu avô ficou doente) e diziam que o importante é ser feliz e nunca deixar de ser importar comigo mesma. Afinal, vamos combinar que todo mundo que já cuidou de uma casa aqui sabe que não dá para manter a beleza e as unhas manicuradas de “primeira dama” quando temos que limpar um banheiro. Portanto vamos ser quem quisermos ser mas não vamos desperdiçar nosso tempo com quem amamos e nossas belezas por uma casa de revista, e sim escolher ficar em casa porque é o que realmente gostamos e fazemos com orgulho, mas sem descer do salto ou estragar as unhas! Afinal luvas de borracha e outras modernidades estão aí para que a gente não precise mais se acabar. Vamos aproveitar o que nossas avós e mães não tiveram acesso. ;)

    Beijos!

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