Preciso começar a semana falando desses 2 livros que impactaram meus últimos meses, até eu terminar a última linha. Se você é do time que fica impactada, fascinada e ao mesmo tempo com o medo de O Conto da Aia (Handmaid’s Tale), provavelmente você vai gostar desses livros de Octavia Butler. Tanto Parábola do Semeador quanto Parábola dos Talentos têm todos (e até mais) os ingredientes que encontramos na história de Margaret Atwood. Ao meu ver, as duas autoras beberam de fontes muito próximas para construir suas narrativas.

Ambos os livros se passam em um futuro distópico (assustadoramente próximo) e tratam de assuntos como direitos das mulheres em um cenário de fundamentalismo religioso. Porém, vou parar por aqui nas comparações, porque acho que são dois clássicos que merecem ser lidos. Não é “ou um ou outro”. Leia os dois e deixe a sua cabeça explodir!
Mas preciso fazer um parágrafo só para enaltecer Octavia Butler.
Vou começar dizendo que acho uma injustiça que seus livros só tenham começado a serem traduzidos para o português ano passado. Provavelmente para pegar carona no sucesso que Handmaid’s Tale se tornou. Octavia Butler é conhecida aqui nos Estados Unidos como a rainha da ficção científica. Quase todos os seus livros são premiados nessa categoria e sua carreira recebe prêmios até hoje, mesmo 13 anos depois de sua morte.
A Parábola do Semeador é um livro de 1993, e a Parábola dos Talentos é de 1998. Teoricamente era para ser uma trilogia, mas seu último livro nunca foi terminado. Nessa duologia, Octavia Butler claramente se inspirou em questões debatidas na época, como Aquecimento Global, violência nas grandes cidades, envio de sondas para Marte, etc. Além disso, claramente sua experiência como mulher negra ajudou a construir discussões enredos com diversidade, abordando até mesmo questões como imigração e preconceito.
A série se passa entre 2024 e 2035 (o primeiro livro vai de 2024 a 2027, o segundo termina em 2035) e conta a história de Lauren Olamina, uma adolescente negra de 15 anos, vivendo em um mundo pós (?) apocalíptico. Mas não pensem em ET’s ou zumbis, o apocalipse foi causado por nós, humanos. Esse gênero é chamado de “mundane science fiction” (ficção científica mundana). É um subgênero onde a história se passa na Terra, sem explorar o universo ou contatos com extraterrestres, quase sempre com recursos que existem na nossa realidade.
Como deu pra ver, essa foi uma série que me fez ir atrás de muita informação que eu desconhecia. Nem todo livro me traz tanta curiosidade, e eu amo quando isso acontece! Obrigada, Octavia Butler. <3
Nessa série, lemos os diários de Lauren a medida que o tempo vai passando. E acompanhamos toda a sua saga em uma sociedade totalmente destruída por questões ambientais, guerras, escassez, drogas. Nos deparamos com novas formas de escravidão, com o perigo de ser mulher e as possibilidades de silenciamento. O livro é inegavelmente político.
E também fala sobre o surgimento de uma nova religião. Lauren cria a Semente da Terra, um livro baseado em suas vivências e reflexões sobre religiões. Ali, ela assume que mudanças são inevitáveis e, por isso, precisamos ser maleáveis e adaptáveis. É a partir desses seus ensinamentos que Lauren vai criando uma comunidade, mas não vou falar mais nada.

Ah, também vemos um candidato fascista e religioso subir ao poder, cujo lema da campanha, pasmem: “make America great again”. Nesse ponto, vamos ser justas e lembrar que essa frase não é do Trump. É do Reagan, nos anos 80. Ou seja, Octavia não inventou essa frase, mas quem diria que em 2018, mais de 30 anos depois, teríamos um presidente se elegendo com esse slogan novamente?


Além dessa visão de mundo completamente conectada de Octavia E. Butler, existem outras questões que ela traz no livro e são totalmente atuais. Por exemplo, epidemias de doenças como sarampo, malária, dengue. O nível do mar subindo, aquecimento global, cidades costeiras desaparecendo, o surgimento de máscaras de realidade virtual…
Enfim, eu to aqui me atendo à detalhes que não são spoilers, mas que mostram um pouco do que você pode encontrar nesse livro.
Mas já adianto que não é uma leitura fácil, bonitinha. Ao contrário, caem tantas fichas das nossas responsabilidades dentro do sistema que é impossível não ficar pensativa. Impossível não se tornar mais questionadora. Mais alerta.
É uma leitura impactante, mas ao mesmo tempo achei extremamente necessária. Então, se você está procurando algo nesse estilo pra ler, vou parar por aqui com esse textão que já bateu recordes e terminar falando: leia! E depois me conta o que achou. ;)








