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resenha de livros

0 em Book do dia/ Comportamento no dia 14.12.2018

#bookdodia: O Ano que Disse Sim, de Shonda Rhimes

Esse ano eu li muitos livros que não apareceram por aqui. Muitos deles foram leituras que eu ainda estou absorvendo. E por mais que eu tenha gostado, não soube fazer uma resenha.

Não foi o caso desse livro que eu ganhei de uma amiga – no melhor estilo “lê e se curtir passa para alguém que vai curtir esse livro também”:

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Eu estava sem nenhuma expectativa quando comecei. Brinco que minha relação com a Shonda Rhimes é de amor e ódio, mas na verdade eu a admiro pra caramba. Eu acompanho praticamente todos os trabalhos dela. De Scandal a Private Practice.

Mas não sei por quê, não me empolguei para comprar o livro de cara. Achava que era algo mais voltado pra autoajuda e eu não sou muito fã desse tipo de leitura. Achei que ia apenas ler um livro que tava todo mundo falando e pronto.

Bem, só sei que não a admiro mais. Hoje eu praticamente a venero.

“O Ano que Disse Sim” é basicamente horas e horas de conversa com a própria Shonda Rhimes. 

Como dá para ver na imagem, eu li em inglês. E achei tão engraçado perceber com toda clareza que cada personagem marcante que Shonda Rhimes já criou veio diretamente de sua essência.

Para quem é fã do trabalho dela, esse livro é um prato cheio. Tinha trecho que eu tinha certeza que quem estava escrevendo era Olivia Pope. A parte que ela conta que Cristina Yang é basicamente uma outra versão sua que ela não viveu, me fez amar mais ainda Grey’s Anatomy.

Ela também fala muito de maternidade – já até falei de um trecho aqui no blog. E uma maternidade super desromantizada. Um momento que me marcou foi quando ela deixou claro que sempre estava em falta com alguma coisa na vida. Que a balança nunca se equilibrou. Se ela estava sendo muito bem sucedida no trabalho, com certeza a Shonda mãe estava em falta. É claro que buscar o equilíbrio é saudável, mas eu tendo a me desestabilizar quando não consigo. E vê-la ali, tão aberta quanto a isso me trouxe uma calma, uma sensação que vai dar tudo certo.

Ela também fala sobre oportunidades, sobre não ter sorte na vida. Sobre poder contar com toda uma equipe para fazer a sua vida girar. Eu já li muitas biografias de pessoas bem sucedidas. Mulheres e homens. E algo sempre me incomodava sem que eu soubesse o quê. Descobri nesse livro também.

Essas pessoas sempre contam sobre seus sucessos, mas dificilmente dedicam um espaço fora da dedicatória ou dos agradecimentos para falar sobre os bastidores.

Sobre quem permitiu que essas pessoas pudessem se dedicar à suas carreiras ou ideias sem a vida desandar. Bem, nem preciso dizer que Shonda Rhimes mais uma vez quebrou a regra desse tipo de livro. Existe um capítulo inteirinho dedicado para sua babá. E ele tira um peso muito grande das costas de todas as mães.

Além disso, ela também fala sobre ser a “primeira diferente” por ser uma mulher negra comandando o horário nobre do principal canal de televisão americana. Ela é a primeira a conseguir esse feito. E estar nessa posição faz com que você não possa errar, não possa cometer erros, não tenha segundas chances. É bacana ver como ela está consciente de tudo que está ao seu redor.

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O único momento que me deixou incomodada foi quando ela falou do corpo. Acho que por ter lido Fome antes, eu problematizei demais a forma que ela se auto depreciou só para justificar o emagrecimento. Até achei estranho, justamente por ela ter tantos trabalhos preocupados com representatividade e empoderamento. Por isso mesmo, achei engraçado ver que ela mesma se questionou sobre suas motivações para emagrecer, e eu achei bacana ela falar sobre isso. Mais uma vez, Shonda Rhimes está completamente consciente de tudo que está ao seu redor.

Enfim, foram tantas coisas importantes que eu absorvi nesse livro que acredito que vou continuar falando sobre ele por muito tempo. E foi assim que uma leitura despretensiosa terminou como uma das mais importantes desse ano (e olha que eu li muitos livros bons e impactantes). Como minha amiga falou que era para eu passar pra frente se eu gostasse, aqui está minha indicação.

0 em Book do dia/ Comportamento/ Destaque no dia 06.11.2018

Book do dia: Mamãe & Eu & Mamãe, de Maya Angelou

Eu tenho uma amiga – que inclusive já participou de um book  do dia aqui – que só me dá dica de livro incrível. Livro que faz a gente pensar, que nos bota em contato com outras realidades e gera pensamentos que a gente não teria. Esse é um deles.

Antes de falar mais sobre, peraí que vou jogar a sinopse:

“Último livro publicado pela poeta e ativista, Maya Angelou, Mamãe & Eu & Mamãe descreve seu relacionamento conturbado com a mãe, a empresária Vivian “Lady” Baxter, com quem voltou a morar aos 13 anos, depois de dez sob os cuidados da avó paterna. É a jornada de uma mãe e filha em busca de reconciliação assim como uma reveladora narrativa de amor e cura.”

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Vou começar pelo fim. Eu terminei o livro no metrô, enquanto ia encontrar umas amigas (essa que me indicou estava no meio inclusive). Tava toda arrumada e maquiada e sem a mínima ideia que estava quase terminando a leitura. Aliás, para mim livro bom é esse que chega no final sem você nem perceber.

Pois bem, contextualizei isso tudo porque a maquiagem não era à prova d’água. E eu saí do metrô com a maquiagem um pouco borrada e os olhos cheios de lágrimas. Para quem não gosta de chorar na frente de ninguém – e para quem não costuma chorar muito com livros – eu falhei miseravelmente.

Mas ao contrário do que eu fiz parecer, “Mamãe & Eu & Mamãe” não é um livro triste. Mas é um livro forte. Sobre uma mãe que foi uma mulher incrível em vários aspectos, mas como Maya fala “que não sabia ser mãe de criança, mas foi uma ótima mãe de adultos”. E, acima de tudo, sobre uma filha que soube perdoar todas as lacunas que a mãe deixou abertas. Que foi deixando a raiva ir embora e permitiu-se preencher cada uma delas ao longo de toda a sua vida.

Vivian Baxter foi uma mulher decididamente forte. Soma-se a isso o pano de fundo de boa parte da história, que se dá justamente na época da segregação racial dos Estados Unidos, e você percebe claramente de onde veio Maya Angelou. A influência da mãe no discurso de Maya é clara, e incrível.

Mas o que mais me impressionou foi o quanto ela soube admitir suas escolhas como mãe sem se culpar por isso. O trecho que mais me marcou no livro todo foi justamente essa:

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Esse trecho me impactou de diversas formas.

O primeiro impacto veio de perceber o tamanho da lucidez que essa mulher teve. Entender que seria pior se ela continuasse insistindo na maternidade não deve ter sido fácil. Se o mundo até hoje julga a mulher que decidiu não ter filhos, imagina então a mulher que teve filhos e descobriu que não era uma boa mãe? Eu sei porque quando eu menos esperava, eu estava julgando Vivian Baxter. E esse trecho do livro fez com que eu me botasse no meu lugar novamente.

O segundo acho que muita mãe vai se identificar. Quem nunca se estressou mais do que deveria com o filho? E depois se sentiu completamente culpada e se achando uma péssima mãe por causa disso? Quando ela diz que ela está explicando, não pedindo desculpas, eu fiquei impressionada com a sua força.

O último impacto veio justamente na sua noção de auto responsabilidade. Ela tomou uma decisão muito difícil e ela encarou as consequências dessa sua decisão. Sem jogar culpa em terceiros, sem se fazer de vítima e, novamente, sem pedir desculpas.

Não foi à toa que eu terminei o livro em lágrimas. Não foi por tristeza, foi por emoção. Termino aqui com esse outro trecho, que também me fez enxergar as coisas por outras perspectivas:

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0 em Book do dia/ Comportamento no dia 03.09.2018

Book do dia: Fome, de Roxane Gay

Sabe livro que vira febre e, do nada, tá todo mundo falando dele e dizendo como ele é incrível e que precisa ser lido? Pois é, esses são meus preferidos. E “Fome” é basicamente a Nanette dos livros, principalmente no nosso meio, onde falamos e ouvimos muito sobre autoestima e, consequentemente, questões corporais e transtornos alimentares.

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Para quem nunca ouviu falar desse livro, a sinopse:

Nesta autobiografia escrita com sinceridade impressionante, a autora best-seller Roxane Gay fala sobre como, após sofrer um abuso sexual aos doze anos, passou a utilizar seu próprio corpo como um esconderijo contra os seus piores medos. Ao comer compulsivamente para afastar os olhares alheios, por anos Roxane guardou sua história apenas para si. Até conceber este livro. Esta não é uma narrativa bem-sucedida de perda de peso. E este também não é um livro que Roxane gostaria de escrever. Entretanto, é uma história que precisa ser contada, e ela o faz com seu estilo contundente e impetuoso, ainda que dotado de um humor mordaz, características que a tornaram uma das vozes mais marcantes de sua geração. “Fome” é um relato ousado, doloroso e arrebatador.”

Fiquem com esse final: “relato ousado, doloroso e arrebatador”. Porque é exatamente isso que ficou para mim quando eu li a última linha e fechei o livro. Não poderia ter sido definido de melhor forma.

Na verdade, eu acho que não tava preparada para tanta sinceridade. Por diversos momentos eu me vi remexendo na cadeira, desconfortável, incomodada por toda sua clareza – e também pela falta de enfeites usados para contar sua história.

A percepção que Roxane tem sobre sua relação com seu corpo e com a sociedade é quase assustadora de tão consciente, por isso a gente consegue entender a ousadia que frequentemente é associada à esse título. Como Roxane ousou falar sobre seu corpo dessa forma? Como ela ousou se mostrar tão vulnerável? Como ela ousou falar sobre as dificuldades reais encontradas em uma pessoa com o grau de obesidade que ela tem?

Aliás, preciso falar sobre essa última pergunta, porque ela foi crucial para eu ter amado tanto o livro. Enquanto eu virava as páginas e acompanhava seu relato visceral, me caiu uma ficha muito chocante. Ali, enquanto Roxane mostrava cada detalhe de si mesma (Tour do corpo? É esse livro!), pude perceber que eu ainda tenho resquícios gordofóbicos quando se trata de alguém tão fora dos padrões que não tem número do IMC ou em loja para encaixá-la.

Fiquei chocada ao descobrir que eu, em diversos momentos, pensava com meus botões que ela precisava emagrecer. Porque a ideia de viver sem se encaixar em nenhum tipo de padrão, na minha cabeça de pessoa que nunca precisou se preocupar com isso, soa muito angustiante. Desesperadora, talvez.

Até que eu entendi que Fome não é um livro feito para a gente dar opiniões. Ele, de fato, como a sinopse falou, é uma história que precisa ser lida – e não retrucada. Só ler, absorver e, acima de tudo, ter empatia. Uma pessoa que está ali, tão vulnerável, não precisa de julgamentos.

Fome não é um livro bonito, inspirador, que vai salvar sua vida ao te apresentar uma resposta infalível ou te ensinar a como se amar mais. Ao contrário, ele é recheado de gatilhos e de verdades dolorosas demais. Ele não te dá respostas mas te dá muito material para pensar e refletir. É o tipo de livro que cada pessoa vai ser tocada de uma forma de acordo com suas vivências, e essa foi a minha.