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19 em Comportamento/ crônicas no dia 05.04.2016

Crônicas da Jô: carta à Joana de 2002

Minha cara Joana,

Hoje é dia 07 de abril de 2002 e você deve estar atrasada para seu padrinho te levar para o colégio. Trate de melhorar nisso, coitado, ele não tem nenhuma obrigação de te dar essa carona diária e você não trata essa gentileza com o devido respeito, você sempre atrasa. O que você não sabe ainda é que você irá se tornar uma das pessoas mais pontuais. Você vai estar sempre pronta antes, sempre esperando e nem mesmo vai lembrar que era a primeira a atrasar quando o assunto era ir para o colégio.

Falando em colégio, sabe essas amigas que você está fazendo agora? Elas vão continuar sendo suas melhores pelos próximos 15 anos. Você até pode já estar sentindo que será assim, mas não custa te contar algo tão gostoso. Serão muitos anos de boas amizades.

Hoje você não sabe, talvez eu nem devesse dizer, mas em alguns anos você vai descobrir que seus problemas nos infindáveis cursinhos de inglês, suas infinitas aulas particulares de português e suas péssimas notas em redação eram eventos conectados. Não é à toa que você tinha problemas com a interpretação de texto e tamanha dificuldade com as leituras da escola. Em 2010 você vai ser diagnosticada com um problema chamado dislexia, que ninguém percebeu, mas não foi por mal, pois é leve. Seus pais farão tudo que podem para te ajudar nisso, vai ser mais fácil levar o colégio com eles por perto, pode ter certeza. Tudo isso vai parecer limitante no início, mas você vai resolver essa questão de uma forma que te pareceria impossível.

Você vai querer estudar comunicação, o que faz todo sentido dado que você tem muita aptidão para relações públicas e questões que envolvem o universo de marketing. Se eu quisesse interferir no objetivo final diria: “vá, Jô, se inscreva no vestibular certo, antecipe sua independência profissional”. No entanto, não farei isso, você precisa ser exatamente quem é agora para ser exatamente quem você é hoje - e eu AMO ser a sua versão 2.9 ano 2016!

Se eu não quero que você mude suas escolhas, por que eu estou escrevendo? Porque estou fazendo essa carta viajar no tempo? Simples, eu não quero que você sofra mais do que o necessário, que você confie em você e que você saiba que vai dar tudo certo. O design gráfico vai te ensinar a projetar, vai despertar uma paixão pela história da arte e vai te dar a sua sócia. Aceite sua colocação no ENEM, vá para a PUC e o resto vai acontecer naturalmente.

A única coisa que eu quero te dizer é: o mundo é o que você pensa que é. Os antigos havaianos falavam disso e eles sabiam o que estavam dizendo. Enquanto você escolher ser insegura com a sua aparência, alimentar uma baixa autoestima e ser apenas uma adolescente que vê 3.000 problemas no seu corpo e cabelo, nada de bom vai acontecer para você se sentir uma mulher bonita e bem resolvida. Seu sonho é ser magra, mas você não vai ser tão feliz assim quando alcançar seu objetivo, pode ter certeza. Pelo menos não enquanto você fizer loucuras pelos motivos errados.

Anota isso, é muito importante: o segredo não é ser como os outros querem… O segredo está em aprender a se amar, a cuidar de você e acreditar que dá sim para melhorar TUDO à sua volta, autoestima, hábitos, roupas, cabelo e maquiagem.

Ah, e você não vai acreditar quando eu te disser isso, mas MUITA GENTE vai amar seu cabelo e você ainda receberá muitos elogios por causa dele. Pode parecer impossível aí em 2002, mas pode ter certeza que todos os cuidados que você terá com ele serão recompensados.

Relaxa, não fica presa no seu primeiro beijo. Você vai ficar com todos os caras que você sonhar quando for adulta. Inclusive, em poucos dias esse bobão de quem você gosta vai te roubar um beijo numa festa. Ah, ele ainda vai babar por você no futuro e você vai chegar à conclusão que vocês não têm nada a ver.

Engraçada a vida, né? Você pode até chorar ouvindo “How you remind me” enquanto canta no chuveiro, pode até sofrer toda vez que o Justin Timberlake cantar “Gone” (aliás, o N’Sync vai acabar, se prepare), mas essas serão boas memórias.

Aliás, você não sabe disso, mas lembra daquela Adriana que te infernizava na Cultura Inglesa? Pode rir, ela ainda vai ser uma das pessoas mais importantes da sua vida. Você vai ser madrinha de casamento da Juliana, da Nina, da Lica, só não poso dizer da Carol porque aqui no futuro vocês duas ainda não casaram (e isso não é uma coisa ruim, tá?).

O melhor está por vir e quando você entender que a qualidade da sua autoestima vai ditar sua beleza, o céu será o limite. Sem exageros.

Ela vai segurar todas, absolutamente todas as suas barras!

Serão tantos pretendentes que você vai querer escrever um livro de comportamento e relacionamento. Cheio de crônicas e de questões relacionadas à autoestima. Tá achando que é piada? Coitada de você. Se você não passa de 3,5 nas notas de redação, eu só posso te dizer: não desista. O Bruno e o Marcos (você vai conhecer eles em pouco tempo) vão te ensinar o que você precisa para ter lindas notas de redação no vestibular, mas tenta levar algumas coisas pra vida!

Você não pode desistir de estudar português, não pode desistir da gramática e nem mesmo das redações. A Nina tem razão quando te diz que ler vai te ajudar no vocabulário. Você pode ter fugir das palavras na faculdade de design, pode colocar a culpa nelas durante a Coppead, mas o que você não sabe é que elas vão pagar suas viagens pelo mundo, vão pagar suas contas e te farão caminhar para abrir sua própria empresa.

Você, que só queria ter um emprego na moda, vai se ver querendo muito mais. Aliás, relaxa, você vai ter isso também, inclusive vai trabalhar na marca dos seus sonhos e no setor que sempre quis, mas apesar de você ser boa no que faz, vai querer mais da vida.

Se você acreditar mais em você, no seu poder, no seu talento e na sua capacidade, vai chegar em 2016 forte, mas com ou sem essa força, com certeza terá a coragem necessária para mudar e enfrentar as adversidades desse ano, em que eu vivo e sonho em criar novos caminhos pra mim.

Hoje eu me sinto bonita, inteligente, capaz, talentosa, tenho grandes amigas (perdi algumas, mas fiquei com as de melhor energia) e por fim vou mudar minha vida de novo.

Para você, Joana Cannabrava, adolescente, insegura, que fala pelos cotovelos, eu posso te dizer que sua angústia vai passar, o universo vai te completar, vai ficar tudo bem e você vai ter as maiores aventuras pelo mundo. Você já é muito abençoada, só não consegue ver isso ainda.

Se aos 29 escrevo para você com tanto otimismo, aos 45 espero escrever (para quem sou hoje) com muito mais a dizer, mais realizações, paz, amor, viagens e felicidade.

Com o tempo você vai entender que o dinheiro não pode comprar felicidade (mesmo!) e que ser feliz vai ser o mais importante. Até lá, não esqueça: você não é menos do que ninguém, você é linda (aprenda a enxergar isso no espelho, vai ser bom pra você) e deixe tudo aquilo que não cabe na sua vida ir embora. Prender o que não é para ser seu só vai te trazer dor de cabeça.

Beijos

(a do futuro mesmo, mais precisamente a de 05 de abril de 2016)

 

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Joana Cannabrava
Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.

12 em Comportamento/ crônicas/ Relacionamento no dia 29.03.2016

Crônicas da Jô: coração na costureira!

Me peguei costurando meu coração com linha e agulha. A ideia era fazer com que aqueles pedaços partidos se tornassem uma unidade novamente. Sendo bem calculista, a única graça de sofrer pela perda de um amor é saber que virão muitas aventuras quando a poeira baixar. Na hora é difícil ser muito racional e os tais momentos felizes parecem uma realidade distante. Linha vai pra lá, a agulha fura. Linha volta pra cá, a agulha entra. No ritmo dessa costura, alterei meu estado de consciência e viajei no tempo.

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Em fração de segundos tinha me transportado para dezembro. Me peguei revivendo um diálogo que aconteceu no sofá de uma grande amiga. Naquela hora, eu estava morrendo de medo de me apaixonar, mas quem me ouvia acreditava que eu tinha o domínio racional de me entregar ou não. Hoje, não sei se isso estava tão nas minhas mãos quanto na hora fazia parecer. Não sei se queria me enganar ou enganar minhas amigas.

As amigas que me ajudaram a colar cada caquinho meu em cada desamor que aconteceu em minha vida não tinham a menor dúvida: era claro que eu era capaz de tentar mais uma vez. A situação parecia valer a tentativa. Ledo engano? Talvez.

Eis que entre elas surgiu uma voz com a pergunta que me fez revisitiar toda essa cena:

- E qual é o seu maior medo?

Respondi prontamente, sem nem pensar: um coração partido, com todas as frustrações e dores que vêm com ele.

Fez-se um minuto de silêncio.

Ela me respondeu com um tom de voz doce de obviedade impossível de esquecer:

- Para isso existe linha e agulha.

Após me lembrar de tudo isso, voltei para o hoje, para a pessoa que estava em modo de piloto automático fazendo sua costura quando me dei conta do óbvio: meu grande medo era viver exatamente o que eu estou vivendo hoje.

Dói, uma dor quase física, atrapalha minhas horas de sono, minha concentração e faz com que eu demande muito mais das outras pessoas do que em dias normais. No entanto, existe um certo alívio porque dói, mas dói menos do que pensava.

Muitas vezes deixamos de vivenciar certas coisas e escolhas por medo. Pode ser no amor, no trabalho, na família ou mesmo relativo ao seu próprio corpo. Mas costumamos ser mais fortes do que pensamos e em vários momentos nos damos menos crédito do que merecemos. Quem nunca achou que não iria dar conta de algo e quando viu foi lá e fez? Foi assim, que me dei conta que não havia nada a temer.

Eu tinha medo de me sentir frustrada? De não conseguir dormir bem? De sentir um aperto no peito? Uma angústia insuportável no estômago? Justo, mas durante cada segundo dessa costura tive absoluta certeza que o tempo irá colocar cada coisa em seu lugar. A verdade é que minha amiga estava certa, eu consegui lidar com a consequência das minhas escolhas mais uma vez. Assumi meus riscos, vivi, caí mas sobrevivi.

Inclusive, acredito que se eu tivesse escolhido diferente, tudo seria ainda mais difícil. Pior do que um coração partido é aquela sensação do “e se eu tivesse feito diferente”? Eu esgotei todas as possibilidades e por isso não posso me arrepender, ainda que a culpa queira me visitar de vez em quando, eu levo comigo que fiz o meu melhor.

Pode parecer mais confortável lidar com menos riscos e com esse tanto de condicionais, mas para mim não é. “E se” me lembra o final do texto QUASE de Sarah Westphal que infelizmente já foi atribuído tantas vezes a dois Fernandos (Veríssimo ou Pessoa): embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Eu não sou uma mulher de quase!

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Assim, buscando ser corajosa, eu termino os últimos pontos dados nesse coração que por enquanto parece ter receio de pulsar novamente. Quem olha até acredita, até parece que eu não conheço… Ele não engana ninguém, adora viver perigosamente. Mas novas histórias virão para preencher o resto desse caderno em branco. Não tenho dúvidas.

 

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Joana Cannabrava
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2 em Comportamento/ crônicas no dia 22.03.2016

Crônicas da Jô: a arte do desencontro

Era um dia como outro qualquer, acordei cedo, mas atrasada. Olhei no espelho e achei que dava para o cabelo enganar, no maior estilo “bagunçado quase cool”. Resolvi fazer meu café, tomei banho, me vesti e passei quase nada de maquiagem. Ia com o blazer na mão, mas algo me disse pra vestir o meu look completo.

Peguei minha bolsa, abri o aplicativo de taxi, chamei o elevador e enquanto eu esperava na calçada o taxista chegar, o impensado aconteceu: Ele passou, na minha frente, do outro lado da rua. De repente, o tempo parou!

Durante meses esperei o momento em que nossos caminhos se cruzariam despretensiosamente pelas ruas do bairro, isso nunca aconteceu. Já havia desistido dessa possibilidade, afinal, já fazia tanto tempo. Não adiantava forçar um encontro quando só os desencontros pareciam possíveis para nós dois. Foram tantas vezes que saí - linda, diga-se de passagem - achando que o encontraria, mas isso nunca aconteceu.

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Quanta ironia reencontrá-lo nesse dia. Mal sabia ele que em sua última investida eu estava saindo com outra pessoa e por isso fui distante, por mais que as borboletas na minha barriga quisessem me convencer do contrário.

Nós já tínhamos tentado do jeitinho tradicional e não rolou. Passamos para encontros casuais, que de uma hora pra outra se tornaram ocasionais. As mensagens já não chegavam mais, ele deu pouco sinal, eu dei menos ainda. Para mim, sempre parecia que em algum momento iria soar o alarme “você está se envolvendo demais” e ele iria sair correndo (de novo). Por algum tempo acreditei que nunca mais o veria na vida.

Como poderia prever minha reação? Pernas trêmulas, cara de choque e coração palpitando. Ele seguia a passos largos na direção para o seu apartamento. Entre ele passar e o meu taxi chegar, calculei que eu tinha pouco tempo.

Eu tinha poucos segundos, no máximo 1 minuto se eu tivesse alguma sorte, para chamar sua atenção ou perdê-lo de vista até Deus sabe quando. Meu instinto acabou falando mais alto e gritei seu nome. Não sabia se ria, sorria ou falava sem muita simpatia, mas não tive muito tempo para pensar sobre nada disso. Aliás, eu nem pensei, só agi. Nessas horas eu tenho certeza que todo mundo deveria ter momentos impulsivos pelo menos uma vez na vida.

Ele virou e sorriu. Eu gelei. Esperou a oportunidade perfeita e atravessou a rua. Nessa hora, eu tinha certeza que aquela mudança de calçada demorou uns 10 minutos, quando na verdade não se passou nem 1 minuto. Eram tantos carros, coisas de quem mora em uma rua de passagem.

Como sempre, ele estava ali cheio de charme, simpático e carinhoso. Enquanto ele notava meu cabelo mudado, minha cor de saúde e meu look mais arrumado que o normal, eu ficava pensando em tudo que eu queria falar para ele naqueles segundos que me restavam antes do meu taxi chegar.

Amenidades. passamos meu tão sonhado encontro falando de amenidades. Ele notou meu bronzeado, eu contei que saí de férias. Ele comentou que se mudou e eu fingi que havia esquecido. Meu taxi finalmente chegou.

Um abraço de despedida e quando estava entrando incrédula no taxi… ele perguntou algo. Ele queria saber quando eu voltava e queria que eu avisasse isso para ele. Não respondi direito, até porque teoricamente meu coração continuava ocupado e eu não sou o tipo de garota que consegue dar conta de vários relacionamentos de uma vez só.

Eu não acredito em acasos, tinha absoluta certeza que aquele encontro, depois de tantos desencontros, queria me dizer algo. Era um sinal, agora bastava eu descobrir do que.

Nós dois já havíamos sido a dupla perfeita, mas também já havíamos nos frustrado. Não consegui pensar com calma durante o trajeto até o aeroporto. Eu não estava entendendo o que o universo queria me dizer. Depois de seiscentos desencontros lá estávamos nós, nos cruzando as 8:00 da manhã de um dia qualquer. Eu embarcando para São Paulo, ele voltando do trabalho.

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Passei o dia trabalhando e tentando distrair meus pensamentos, até que na hora do check in da volta, estranhamente me peguei pensando se ele ia ou não aparecer. Que diferença iria fazer? Eu não iria sair com ele, existia outra pessoa, mas para minha surpresa, me sentia livre. Era como se, naquele segundo, tudo que aconteceu naquela manhã fizesse sentido.

Era meu coração dizendo que era hora de ser livre outra vez! Aquele encontro havia acontecido com o intuito de me mostrar o que eu não queria ver. Esperei tanto esse encontro, imaginei tanto esse momento e, por fim, quando aconteceu, não tinha nada a ver com ele. Só comigo. Foi um sinal pra mim.

Que irônico esse tal de destino. Quando eu poderia imaginar? Era como se naquele dia, naquela quinta-feira, ele tivesse deixado de ser um aspirante a príncipe encantado. No fim, não importava se ele ia ou não aparecer, o que precisava entender era como eu me sentia.

Para ser totalmente franca, quando estava voltando para casa à noite, eu até me peguei pensando se ele iria ou não aparecer. Mas isso já não importava tanto, o que importava é que nos nossos encontros e desencontros, eu acabei me encontrando. De novo.

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Joana Cannabrava
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