2 em Comportamento/ crônicas no dia 22.03.2016

Crônicas da Jô: a arte do desencontro

Era um dia como outro qualquer, acordei cedo, mas atrasada. Olhei no espelho e achei que dava para o cabelo enganar, no maior estilo “bagunçado quase cool”. Resolvi fazer meu café, tomei banho, me vesti e passei quase nada de maquiagem. Ia com o blazer na mão, mas algo me disse pra vestir o meu look completo.

Peguei minha bolsa, abri o aplicativo de taxi, chamei o elevador e enquanto eu esperava na calçada o taxista chegar, o impensado aconteceu: Ele passou, na minha frente, do outro lado da rua. De repente, o tempo parou!

Durante meses esperei o momento em que nossos caminhos se cruzariam despretensiosamente pelas ruas do bairro, isso nunca aconteceu. Já havia desistido dessa possibilidade, afinal, já fazia tanto tempo. Não adiantava forçar um encontro quando só os desencontros pareciam possíveis para nós dois. Foram tantas vezes que saí – linda, diga-se de passagem – achando que o encontraria, mas isso nunca aconteceu.

saudade

Quanta ironia reencontrá-lo nesse dia. Mal sabia ele que em sua última investida eu estava saindo com outra pessoa e por isso fui distante, por mais que as borboletas na minha barriga quisessem me convencer do contrário.

Nós já tínhamos tentado do jeitinho tradicional e não rolou. Passamos para encontros casuais, que de uma hora pra outra se tornaram ocasionais. As mensagens já não chegavam mais, ele deu pouco sinal, eu dei menos ainda. Para mim, sempre parecia que em algum momento iria soar o alarme “você está se envolvendo demais” e ele iria sair correndo (de novo). Por algum tempo acreditei que nunca mais o veria na vida.

Como poderia prever minha reação? Pernas trêmulas, cara de choque e coração palpitando. Ele seguia a passos largos na direção para o seu apartamento. Entre ele passar e o meu taxi chegar, calculei que eu tinha pouco tempo.

Eu tinha poucos segundos, no máximo 1 minuto se eu tivesse alguma sorte, para chamar sua atenção ou perdê-lo de vista até Deus sabe quando. Meu instinto acabou falando mais alto e gritei seu nome. Não sabia se ria, sorria ou falava sem muita simpatia, mas não tive muito tempo para pensar sobre nada disso. Aliás, eu nem pensei, só agi. Nessas horas eu tenho certeza que todo mundo deveria ter momentos impulsivos pelo menos uma vez na vida.

Ele virou e sorriu. Eu gelei. Esperou a oportunidade perfeita e atravessou a rua. Nessa hora, eu tinha certeza que aquela mudança de calçada demorou uns 10 minutos, quando na verdade não se passou nem 1 minuto. Eram tantos carros, coisas de quem mora em uma rua de passagem.

Como sempre, ele estava ali cheio de charme, simpático e carinhoso. Enquanto ele notava meu cabelo mudado, minha cor de saúde e meu look mais arrumado que o normal, eu ficava pensando em tudo que eu queria falar para ele naqueles segundos que me restavam antes do meu taxi chegar.

Amenidades. passamos meu tão sonhado encontro falando de amenidades. Ele notou meu bronzeado, eu contei que saí de férias. Ele comentou que se mudou e eu fingi que havia esquecido. Meu taxi finalmente chegou.

Um abraço de despedida e quando estava entrando incrédula no taxi… ele perguntou algo. Ele queria saber quando eu voltava e queria que eu avisasse isso para ele. Não respondi direito, até porque teoricamente meu coração continuava ocupado e eu não sou o tipo de garota que consegue dar conta de vários relacionamentos de uma vez só.

Eu não acredito em acasos, tinha absoluta certeza que aquele encontro, depois de tantos desencontros, queria me dizer algo. Era um sinal, agora bastava eu descobrir do que. 

Nós dois já havíamos sido a dupla perfeita, mas também já havíamos nos frustrado. Não consegui pensar com calma durante o trajeto até o aeroporto. Eu não estava entendendo o que o universo queria me dizer. Depois de seiscentos desencontros lá estávamos nós, nos cruzando as 8:00 da manhã de um dia qualquer. Eu embarcando para São Paulo, ele voltando do trabalho.

a-vida-e-a-arte-do-encontro-embora-haja-tanto

Passei o dia trabalhando e tentando distrair meus pensamentos, até que na hora do check in da volta, estranhamente me peguei pensando se ele ia ou não aparecer. Que diferença iria fazer? Eu não iria sair com ele, existia outra pessoa, mas para minha surpresa, me sentia livre. Era como se, naquele segundo, tudo que aconteceu naquela manhã fizesse sentido.

Era meu coração dizendo que era hora de ser livre outra vez! Aquele encontro havia acontecido com o intuito de me mostrar o que eu não queria ver. Esperei tanto esse encontro, imaginei tanto esse momento e, por fim, quando aconteceu, não tinha nada a ver com ele. Só comigo. Foi um sinal pra mim.

Que irônico esse tal de destino. Quando eu poderia imaginar? Era como se naquele dia, naquela quinta-feira, ele tivesse deixado de ser um aspirante a príncipe encantado. No fim, não importava se ele ia ou não aparecer, o que precisava entender era como eu me sentia.

Para ser totalmente franca, quando estava voltando para casa à noite, eu até me peguei pensando se ele iria ou não aparecer. Mas isso já não importava tanto, o que importava é que nos nossos encontros e desencontros, eu acabei me encontrando. De novo.

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Joana Cannabrava
Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.

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2 Comentários

  • RESPONDER
    Ana
    22.03.2016 às 17:40

    Joana, que delícia de texto!!
    Parabéns!

  • RESPONDER
    Julia Rosa
    22.03.2016 às 18:51

    Meninaaaas! Como estou amando estas crônicas!
    Já sou leitora assídua, fico mais encantada a cada vez que encontro uma nova por aqui (além das atualizações de vcs né!).. Engraçado como a gente se encontra pelo menos um pouquinho na historia de outras pessoas e como no fundinho temos tantas emoções em comum!

    Uma ótima semana pra vocês! Beijinhoss

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