“O que é uma mulher? Eu lhes asseguro, eu não sei. Não acredito que vocês saibam.” Eu não poderia começar essa conversa de outro jeito. Mato dois coelhos com uma cajadada só: inicio meu texto elegantemente, parafraseando ninguém menos que um mulherão da porra como Virgínia Woolf, e de quebra, já me justifico. Eu não faço ideia do que seja ser mulher! Tudo que eu disser aqui, além de claramente não poder ser usado contra mim nos tribunais, é apenas um relato pessoal de como me tornei mulher.
A missão de tornar-se mulher já é, por natureza, complexa e desafiadora. Transgredir a barreira cultural machista - e muitas vezes misógina - é uma tarefa diária. E mal sabia eu o que vinha pela frente. Tornar-me mulher foi uma construção de autoestima e entendimento. Mas e quando além ser mulher, você se relaciona com mulheres? Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. E é por esse prisma que vou desenvolver essa prosa.
Ser uma mulher lésbica foi por muitas vezes a terapia que eu nunca tive disciplina de fazer. Aprendi sobre meu corpo, meus questionamentos e minhas inseguranças pelas experiências de compartilhamento que vivi. Etiquetar e colocar as mulheres em caixas faria com que eu fizesse o mesmo comigo. E eu nunca coube em uma coisa só. O ser humano, e com o perdão da opinião, a mulher mais ainda, é um conjunto composto por inúmeros adjetivos. E é exatamente isso que torna o indivíduo único. E foi nesse clichê, que entendi: Eu não sou só isso, ou só aquilo. Eu sou vários” issos” e muitos “aquilos”. Me entendi como um ser complexo, apaixonante, admirável e, claro, suscetível à falhas. Isso poderia até soar óbvio, mas foi à partir dessa premissa básica, que tirei o peso de ter que provar qualquer coisa, pra qualquer pessoa.
Me entender e me aceitar como mulher lésbica foi sempre bastante natural. Porém, o ato de me empoderar veio à duros golpes de fora pra dentro. Naturalizei durante toda a minha vida o fato de ser sexualizada, fetichizada e estereotipada. “Ela é sua namorada? Beija aí pra eu ver”. “Isso é falta de homem”. “Se veste igual menina, Gabriela!”. Tudo normal, era o que eu pensava. Afinal de contas, até pouco tempo na minha cabeça, a estranha era eu.
Só aos trinta e um anos, por um episódio infeliz de homofobia, incluindo ameaças virtuais de morte, é que eu fui entender que estava tudo errado. Que estranho mesmo era a intolerância, o preconceito, o machismo. Eu precisava fazer alguma coisa por isso. E assim tem sido. Um processo de questionamento, desconstrução, empoderamento e reconstrução.
Mas nada disso seria possível se eu não tivesse entendido que era preciso me tornar mulher, antes de ser qualquer coisa além de mulher. Seria ainda mais desafiador, se eu não tivesse interiorizado que a beleza está na complexidade e no imperfeito. Aliás, a perfeição é uma utopia sacana que nos enfiam goela abaixo desde cedo. “Perfeição pra mim é coisa de menina fazedora de bordado e tocadora de piano”, dizia Nelson Rodrigues. E eu nem colocar linha naquele buraco miserável da agulha sei fazer. Quando me respeitei, respeitei todas as mulheres. Aceitar a imperfeição é a base da autoestima. E só assim, cuidando da minha base e tornando-a sólida que eu consegui juntar minhas partes e ir à luta.
Sair do armário não é só uma questão de se assumir. E também uma questão de se apropriar de quem você é e contribuir como parte de um grupo que precisa de voz.
No quebra cabeça das desconstruções ainda me falta a peça que defina o que é ser mulher. Mas entre todas as delícias de me tornar mulher, a mais saborosa é sem dúvida a empatia. Porque ter empatia é tentar compreender sentimentos e emoções. É procurar experimentar de forma objetiva e racional o que sente o outro. Empatia é coletividade. Entre mulheres heterossexuais, lésbicas, transexuais, negras, indígenas, pobres, magras, gordas, evangélicas, candomblecistas, veganas, prostitutas… Somos todas mulheres. Complexas, completas, infinitas e que se recusam a caber em uma coisa só. A sororidade é a peça chave, porque mulher não sou eu. Mulher somos todas nós.



4 Comentários
Raquel Catelan Martins Pereira
17.03.2018 às 13:37Que textão
Me identifiquei naquela parte do vestir roupas de meninas
Concordo plenamente com a Gabi
Uma roteirista maravilhosa eu sabia que vinha um grande texto
Ser mulher é uma construção a gente vai se tornando e se entendendo
Queria ver mais textos da Gabi 😁
Tatiana
17.03.2018 às 15:47É elucidador e questionador. Não poderia ter escolhido palavras melhores. Obrigada por esse texto - que chegou ate mim no momento preciso.
Francileide Cunha
17.03.2018 às 17:51Parabéns, lindas palavras, só sua fã. ..
Roberta
17.03.2018 às 20:34Muito bom o texto ! Adorei e compartilhei!