Ontem rolou o Miss Universo, e estava eu assistindo de boas quando vejo cruzar a minha TV a Miss Canadá, Siera Bearchell. Não vou negar que o corpo dela chamou a minha atenção de cara, peitos maiores do que as outras candidatas, curvas e um porte super atlético. Achei linda!
Qual não foi minha surpresa ao ver os comentaristas no intervalo debatendo sobre ela, mas de forma pejorativa! Um comentou que ela estava fora do padrão, e por isso, era feia. Também rolaram alguns comentários bem gordofóbicos dizendo que só pode usar cropped quem não tem uma gordurinha. Ah, e toda hora faziam questão de dizer que ela não tem corpo de miss. Um indivíduo, que não quero citar o nome, chegou a dizer que ela entrou por cotas. Eu fiquei em choque com tamanha grosseria. Cotas??
A Camilla Estima, nossa colunista nutricionista, levantou a questão no nosso grupo e todas as meninas estavam abismadas com a deselegância. Ela fez questão de lembrar como a comparação é tão ruim que faz com que uma mulher magra em um ambiente de corpos excessivamente magros se torne…gorda! O quão louco é isso??
Toda vez que me pego ouvindo que uma mulher do tipo físico da Siera é gorda, eu fico me perguntando seriamente o que a pessoa acha de mim. Aliás, se esse comentário é feito na minha frente, eu pergunto sem pudor e sempre ficam sem graça ao me responder “ah, mas você não é gorda..” Preferia que assumissem a régua que estão medindo logo de uma vez, mas isso dificilmente acontece. Pelo menos consigo pausar esse tipo de comentário e quem sabe faço a pessoa pensar sobre isso? Só acho muito triste eu confirmar em rede nacional e horário nobre que a régua continua sendo tão exclusiva (no sentido de excluir mesmo, não de ser algo único).
Os apresentadores não foram os únicos a deixarem claro que o corpo de Siera não estava dentro dos padrões para miss. Infelizmente ela tem ouvido isso há algum tempo nas redes sociais e também nas entrevistas para a imprensa, que fazem questão de frisar que ela é mais larga que as outras concorrentes. Tanto que recentemente Siera resolveu escrever em seu instagram sobre o assunto, e deu um banho de autoaceitação, virei fã!
Legenda: “Como você se sente sendo tão mais…..larga que as outras candidatas?” Um membro da mídia me fez essa pergunta em uma coletiva de imprensa. Eu fiquei quase sem palavras. Eu pensei “Como eu me sinto por ser eu mesma? Como eu me sinto por estar segura comigo mesma? Como eu me sinto por estar seguindo meu sonho de representar o Canadá no palco do Miss Universo? Como eu me sinto por ser um modelo para tantas meninas jovens que têm dificuldades de achar alguém que representem elas? Como eu me sinto por redefinir beleza?”- Minha resposta: Eu me sinto ótima.
O Miss Universo existe desde 1952 e de lá pra cá, tem sido palco de diversas mudanças de padrões tanto de corpo quanto de cabelo e de moda. Vendo a Miss Canadá chegar até o top 9, eu fiquei pensando que talvez a gente esteja presenciando mais uma dessas mudanças, fiquei esperançosa de verdade. Até me deparar com comentários deselegantes de pessoas que estão ali falando sobre o concurso e de certa forma passando informação para os telespectadores.
Como assim a informação passada é de bullying, body shaming e desmerecimento por ela ser maior, mais larga ou mais curvilínea que as outras concorrentes? Se ela chegou ao ponto que chegou, estava claro que ela tinha corpo de miss e estava dentro dos padrões do concurso, não é mesmo? Por um momento fiquei achando tudo uma vergonha, um retrocesso.
Mas aí parei pra pensar melhor e resolvi olhar por um outro lado. Sei que é pedir muito de um Miss Universo ao desejar que ele traga discussões de empoderamento, amor próprio e autoaceitação, mas sabem que no fim das contas eu fiquei feliz? Feliz de ver uma mulher como a Siera ganhando voz e dando entrevistas contando como a vida dela mudou quando ela parou de tentar se adequar aos padrões. Feliz de ver muita gente questionando a emissora e criticando a postura preconceituosa dos apresentadores. Talvez, quem sabe, essa sementinha já esteja dando frutos?

