Não existe uma pessoa na face dessa Terra que tenha planejado um cenário maravilhoso e pleno para os filhos hipotéticos e, quando se deparou com a realidade, resolveu fazer um remanejamento de percurso. O famoso “não cospe para cima que o cuspe cai na testa”. Pois bem, sou bem mãe com a testa cuspida, como a maioria aqui, tenho certeza.
Um dos meus maiores exemplos de cuspes na testa tem a ver com dormir na cama. Na gravidez eu estava certa que ele iria usar o quarto dele desde o dia 01. Não comprei moisés, berço portátil e muito menos cogitei cama compartilhada. Sim, eu acordava diversas vezes durante a noite para amamentar, mas era questão de honra ter a cama só para a gente.
Isso deu certo por exatos 2 anos, quando a criança que dormia com uma facilidade que deixava todo mundo de queixo caído, começou a acordar todo dia de madrugada e ir para a nossa cama. Na primeira noite, a questão de honra ainda estava lá, então fomos tentar botá-lo de volta em sua cama. Depois de uma hora e meia de berros, choros e resistência, ele dormiu. Ou melhor, fingiu, pois 15 minutos depois lá estava ele se aninhando no meio da gente novamente. Com mais três horas de sono até o despertador tocar e muito, muito sono, vocês acham mesmo que a honra ainda estava lá? Acho que ela pulou do 16o. andar, e nunca mais voltou. Foi assim que, desde então, toda madrugada somos acordados com portas batendo, passinhos, cama afundada e um Arthur no meio da gente.
Outra saliva que se alojou em cima dos olhos foi em relação a brinquedos. Tive - e ainda tenho - o maior cuidado na seleção de brinquedos que dei/dou para ele. Enquanto ele não tinha poder de decisão, evitei dar carrinhos, super heróis ou outros brinquedos voltados especificamente para meninos. Também evitei coisas voltadas para meninas (que obviamente, graças ao machismo, sempre são brinquedos para cuidar de uma casa, né?). Preferi apostar em brinquedos mais educativos, brinquedos musicais, livros, sem uma definição de gênero específica.
também comprei um carrinho de bebê, que ele amou do dia que ganhou até hoje, que é usado para transportar de bichos de pelúcia a instrumentos musicais.
Na escola, tem de tudo. Desde cozinha e berço cheio de bonecas de todas as cores até blocos, veículos, animais e afins.
Até que ele começou a se interessar por carrinhos, trens, ônibus, motos e todos os meios de transporte basicamente. Ele quer montar trens, pegar o caminhão de bombeiros e brincar de carrinho. Eu, que pensei que conseguiria moldar seus interesses e ensiná-lo a soltar a imaginação com brinquedos de todos os tipos, me vi no meio de uma loja com todo tipo de opção junta e misturada (não eram essas que tem um lado para meninos com heróis, transportes e bolas e um lado todo rosa com brinquedos para meninas) na sessão de meios de transporte e ele sem saber o que escolher - porque provavelmente queria todos, já que em casa não tinha nenhum para contar história.
Quase perto dos 2 anos ele passou por uma fase de personagens de desenhos. Moana, Mickey e Trolls, mais especificamente, esse último ele ganhou dos avós uma coleção de praticamente todas as cores, inclusive a princesa Poppy, uma das personagens favoritas dele mas também uma das mais difíceis de comprar, pois a vendedora quis convencer minha mãe até o fim da compra que esse era um presente para meninas.
Agora ele está super interessado nos Super Heróis. E dinossauros. E vamos ver qual vai ser o próximo interesse.
Nem todo cuspe que cai na testa é bom. Eu não me orgulho de falar que cedi minha cama, pelo menos da madrugada em diante. Não tem nada a ver com “vai acostumar mal”, mas continuo achando que delimitar o espaço do quarto do casal é essencial para que os dois não se olhem no fim do dia e não se reconheçam como companheiros, apenas como pais da criança que está ali no meio. Eu ainda tenho problemas para aceitar essa nova disposição que criamos, mas estávamos ficando tão cansados e sem energia que ficar mais ou menos em paz com essa decisão foi a maneira que encontrei para aceitar essa situação temporária.
Mas fiquei bem feliz e orgulhosa de ter ficado com a testa cuspida na situação dos brinquedos, porque entendi que meu papel como mãe é justamente mostrar as opções e estimular o que ele gosta, sem impor minhas vontades ou idealizações em cima dele e deixá-lo ser livre para fazer as escolhas que fazem sentido para a sua faixa etária.
Tenho certeza que cada vez mais a testa vai se tornando um lugar pequeno para abrigar tanta saliva, mas e daí?



1 Comentário
Monique
28.02.2018 às 10:53Meus post preferidos do blog são os seus sobre maternidade. Não sou mãe ainda, mas me identifico muito com sua forma de pensar sobre o assunto e já vou me inspirando pra quando chegar minha hora.
Obrigada por compartilhar!