1 em Comportamento/ crônicas no dia 15.11.2016

Um conto de fadas sem o “felizes para sempre”

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Naquele reino era assim: uma princesa não precisava ter um pretendente para governar. Ela precisava reinar sobre sua vida, sozinha ou acompanhada, o casamento era opcional. A verdade é que Sophia era aquele tipo de princesa que dizia ter parado de acreditar no amor, mas no fundo não perdia a esperança de um dia se apaixonar.

Ela sabia que não precisava estar num relacionamento para seguir em seu posto, e isso lhe dava uma certa tranquilidade. Não havia essa obrigação de encontrar um grande amor. Com isso pretendente chegava, ia e voltava, mas nunca que ela se interessava. Tinha príncipe em cavalo raro, comandante de alto escalão do exército da região e também duque com as promessas mais estáveis para uma vida a dois, mas morno de coração. Isso Sophia não queria, não.

A princesa era desajeitada, meio sem ritmo e cheia de vida, adorava dançar, tudo era desculpa para uma festa. No seu aniversário daquele ano resolveu comemorar com um baile de máscaras para todos do reino. Seriam dois dias e duas noites de festa.

Naquela noite ela optou por não pensar em nada. Só queria dançar, sorrir e cantar. Não tinha fada madrinha, ela se arrumou sozinha. Naquela noite ela não era princesa de nada, só era rainha da pista.

Naquele vale, as festas duravam uma eternidade, Sophia queria então aproveitar cada minuto desse tempo de felicidade. Não olhou para o lado, foi direto para a pista e entre uma música e outra ela notou um rapaz que olhava pra ela. Desde a primeira dança eles não se soltaram. Como naquela noite ela não era a princesa, não se deu trabalho de perguntar maiores informações sobre ele.

Se era príncipe, artesão ou folião, não fazia diferença. A eternidade daquela noite proibia que qualquer informação fizesse diferença. Ele falava das coisas de um jeito que ela nunca viu antes, ele não tinha medo de sentir, muito menos de se entregar. Se ele abalou o mundo dela ficou claro que ela abalou o mundo dele também. A intensidade dela costumava dar medo - nele não deu, mas ele ficou remexido pelo efeito que ela causou.

Paixão sempre foi isso, algo que te impede de pensar em outra coisa. Um gostar inocente que faz seu mundo parar de girar e até mesmo a rotação da terra parece diferente de antes. Foi assim que ela se sentiu quando a festa acabou.

Ela precisava voltar para seu castelo. Ele precisava seguir de volta para seu caminho. Antes de se despedirem, ele contou parte dos mistérios da sua vida e foi assim que ela descobriu que ele era aprisionado por um vilão que nem parecia tão perverso, mas era. Ele contou da masmorra, da prisão, dos dragões. Contou sobre a guerra, a tristeza e o alento trazido pela poesia. E foi embora, deixando a cabeça de Sophia cheia de dúvidas, mas uma certeza: Ela precisava tentar salvar aquele rapaz.

Ela tentou voltar para a rotina, para os problemas do seu reino e tudo não fazia mais tanto sentido. Sophia tinha pouco nas mãos, mas não conseguia pensar em outra coisa, por isso juntou sua equipe, homens e mulheres arquitetando um plano de resgate.

Ela se encontrava com ele às escondidas enquanto o plano se formava. O resgate precisava ser perfeito, ela sabia disso. Seus conselheiros reais diziam que o risco era alto, mas ela era rainha de si mesma e decidiu seguir sua intuição.

Acredito que a poção da paixão distorcia um pouco as coisas. Na cabeça dela, era tudo mais simples do que realmente era: Ele venceria batalhas, ela degolaria dragões. Juntos lutariam para conquistar a sua liberdade, construiriam seu castelo e fariam do improvável a maior verdade. Ela não via a tempestade se aproximando, ela só queria viver na imensidão de um mundo onde ele existisse.

Uma bruxa disse ser um encontro de almas, coisa de outras vidas. Já o alquimista fazia uma poção e dizia: Princesa Sophia, você vai precisar enfrentar um exército para levar esse rapaz com você, não sei não.

.As forças externas eram variadas, mas ela não se via na posição de escolher. Não havia dúvida. Qualquer mundo louco com aquele encontro era melhor do que uma solidão no desencontro deles. Ela precisava ao menos tentar.

Nesse caso não era o mocinho que iria salvar a mulher em perigo. Era a mulher decidida que queria resgatar o homem em apuros. Preso na sua própria torre, por suas próprias tormentas e refém das suas crenças limitantes.

Ela vestiu sua armadura e enfrentou tudo e todos. Finalmente, no dia de ir, quando olhou nos olhos dele, não sabia o que fazer. Só ele podia soltar aquelas correntes. Suas chaves não entravam na fechadura, suas ferramentas não cortavam aquele metal tão rígido.

Eles deram tudo de si, pensaram em tudo, tentaram de tudo. No meio da verdadeira guerra, a que acontecia dentro dele, ela precisou colocar tudo em perspectiva.

Ela queria morrer tentando, mas entre o rapaz em apuros e ela mesma, ela precisava se escolher. Ele precisava ser salvo, ela era forte o suficiente, mas por ela, não pelos dois juntos. Ele fazia muita força para se libertar das amarras, mas não conseguia.

Foi então que ela questionou pela primeira vez: seria justo perder seus homens tentando? Seria justo se envenenar pela batalha de outra pessoa? Deveria ela abandonar seu reino? Ela não precisava provar nada para ninguém, só precisava ter coragem de dar um passo para trás.

Foi então a primeira vez que ela vislumbrou a possibilidade de que a princesa não iria salvar o rapaz em perigo no alto da torre. Sophia não iria ganhar o dia, mas voltaria para casa inteira.

Seria um ato de coragem pensar em si mesma, um ato de bravura abrir mão de tal batalha. Não por mal, mas ela acabava tentando impor a ele seu ritmo de luta, quando na verdade cada pessoa precisa encontrar sua própria forma de vencer suas batalhas.

Sophia que era conhecida por ser uma princesa, mas na verdade era uma guerreira. Daquela vez não salvou o dia e nem fez do sapo um príncipe, mas voltou pra casa inteira. Antes de lutar por alguém ela descobriu que precisava lutar por si mesma, acolheu a derrota e se reconstruiu. Uma mulher não é uma donzela que precisa ser salva, e nem sempre precisa salvar os outros, as vezes ela só precisa ser livre para ser ela mesma.

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Joana Cannabrava

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Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.

 

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1 Comentário

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    Fernanda
    22.11.2016 às 14:04

    Parabéns pelo texto.
    Parabéns pelo modo que conduz o blog.
    Parabém pensa sinceridade, pela falta de hipocrisia, pela coragem!
    Parabéns por lutar pela igualdade de gêneros, pelo fortalecimento das mulheres, pela queda dos padrões.
    Não se abata com quantidade de views, pelo número de comentários, ou pela ausência deles.
    Seu texto, assim como seu blog, são ferramentas que mudarão o mundo.
    Você está mudando o mundo.
    E nós também.
    #Força!
    =)

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