7 em Comportamento/ Deu o Que Falar no dia 24.08.2016

O dia que o padrão de beleza eclipsou as Paralímpiadas

Recentemente escrevi aqui para o blog sobre o julgamento instantâneo que todos nós fazemos a respeito das pessoas apenas pela sua aparência. E agora, estarrecida e sem saber o que pensar da campanha de extremo mau gosto da Revista Vogue para apoiar os atletas paralímpicos, me veio esse insight.

Foto postada primeiramente no instagram da revista Vogue com a legenda: #SomosTodosParalímpicos: para atrair visibilidade aos Jogos Paralímpicos e ressaltar a relevância dos paratletas brasileiros no panorama do esporte nacional, @cleopires_oficial e Paulo Vilhena (@vilhenap) aceitaram o convite para serem embaixadores do Comitê Paralímpico Brasileiro e estrelam a campanha Somos Todos Paralímpicos.

Foto postada primeiramente no instagram da revista Vogue com a legenda: #SomosTodosParalímpicos: para atrair visibilidade aos Jogos Paralímpicos e ressaltar a relevância dos paratletas brasileiros no panorama do esporte nacional, @cleopires_oficial e Paulo Vilhena (@vilhenap) aceitaram o convite para serem embaixadores do Comitê Paralímpico Brasileiro e estrelam a campanha Somos Todos Paralímpicos.

Vou reforçar o coro do ÓBVIO, isso é, que os atletas paralímpicos deveriam ter sido as verdadeiras estrelas da campanha e não pessoas famosas sem nenhum tipo de deficiência.

Mas esse é mais um caso que preferem vender a imagem de alguém e não aquilo que a pessoa conquistou. Por que colocar a Cleo Pires e o Paulo Vilhena? Sim, eles são embaixadores das Paralimpíadas, o Comitê Olímpico apoiou a escolha dos dois atores para dar visibilidade aos jogos Paralímpicos e ambos estão ali para darem destaque à causa. Mas as fotos divulgadas são de pessoas famosas conhecidas que servem como modelo a inúmeras campanhas publicitárias que nos convencem de que temos que ser parecidos com eles – o básico padrão de beleza dos tempos atuais, não importa se o Photoshop tirou um braço ou colocou uma prótese.

A outra imagem, em que Cleo Pires está em cima do atleta Renato Leite, é até mais bem resolvida, mas mais uma vez vemos o padrão de beleza sendo o mote quando não deveria. Cleo, linda e uma verdadeira sex symbol, achou que uma boa forma de chamar atenção para as Paralimpíadas era aparecer toda sexy em cima do atleta com a justificativa de que “quando você sensualiza uma história você também a empodera” e também porque “superação é sexy”. Será que não dava para fazer um ensaio fashion com paratletas sem precisar usar o artifício da famosa sensual?

cleo-pires-paralimpiadas

 

Atleta não é pra ser bonito e ter um corpo perfeito (apesar de sabermos que o físico adquirido nada mais é do que uma consequência dos seus treinos e da sua rotina), ele é um profissional que ama seu esporte e dá seu sangue e suor por anos a fio em busca do seu reconhecimento máximo, que é a medalha. Uma pessoa que quer ser reconhecida por suas conquistas, prêmios, tempos atingidos nas provas, títulos. No caso das Paralimpíadas, além de tudo isso, ainda temos as incríveis histórias de superação dessas pessoas.

Por que será que os dois foram escolhidos para serem os rostos dessa campanha? Simplesmente por serem os embaixadores? Por serem famosos? Ou foi o padrão de beleza imposto que definiu que eles são mais comerciais, por mais que não representem a história dos atletas? Vale pensar.

Chega de valorização de imagem, chega de Photoshop (que além de emagrecer ou embranquecer pessoas, agora também tira membros para tentar ilustrar um discurso mal pensado) e vamos prestigiar e nos emocionar com essas pessoas? Esses atletas passam por dificuldades não só em questões de acessibilidade mas também em relação a patrocínios, representatividade e agora, até mesmo visibilidade justamente por quem deveria estar botando-os como protagonistas.

banner-camilla-estima

Gostou? Você pode gostar também desses!

7 Comentários

  • RESPONDER
    Roberta
    24.08.2016 às 21:10

    Brilhante!

  • RESPONDER
    Juliana
    24.08.2016 às 23:07

    Estava no metrô, vendo o facebook pelo celular quando vi o primeiro post sobre essa campanha e eu *jurava* que era peça do Sensacionalista. Depois que eu vi que era “pra valer”, fiquei estarrecida. E o pior é a posição da Vogue de dizer que ouviram as opiniões mas não concordam e vai ficar assim mesmo e ponto. Péssimo. Essa foto da Cléo com o Renato Leite é péssima como peça pra empoderar o atleta, se você olhar rápido só vê a Cléo, o rosto do atleta, e uma coisa escura meio difusa - mostrar direito a prótese pra quê, né?
    Nossa, tudo errado, hoje foi o dia que eu tive que tirar meu chapéu pra Playboy, anunciando a Camille Rodrigues, e a TPM com a Claudia Santos na capa - atletas paralímpicas sendo atletas paralímpicas!

  • RESPONDER
    Renata
    25.08.2016 às 9:53

    Concordo com seu texto. Gostaria de ver os próprios atletas nas campanhas, seja retratando seus esportes, pousando sexy, fazendo campanha de produtos, ensinando como mantem a boa forma ou os lindos cabelos…
    Porém se apenas os próprios atletas nas fotos, ou fazer fotos sem algum atrativo não teria tanta atenção como está tendo agora. Certo ou não, são pessoas famosas que dão mais post para blogs, face, geram mais cliques… Essa polêmica está atraindo atenção, a polêmica faz parte do marketing . Atletas paralímpicos sendo atletas paralímpicos estaria gerando tanto debate como este?
    Lembramos que esta campanha é para a valorização da Paraolimpíadas, vender ingressos, apoiar os atletas. Se a mídia der 10% de notícias como deu para as Olimpíadas, já será uma vitória. Assim como gostaria que a valorização dos esportes femininos fossem a mesma dos esportes masculinos.

  • RESPONDER
    Mary Fernandes
    25.08.2016 às 10:31

    Sabe aquele noticia que você lê, não acredita e reza pra não ser verdade? Gostaria mesmo de não ter que ver algo do tipo numa época onde a palavra EMPODERAMENTO é tão forte, quase lei. Onde está o empoderamento dos nossos atletas num ação como essa? Quando se perde um membro a maior dificuldade é a inclusão, voltar a fazer coisas que se fazia antes, logo uma pessoa com deficiência passa grande parte, se não toda a vida tentando se incluir , se “adequar”. Ai eu me pergunto ” arrancar” os membros de pessoas ” normais” para adequá-los ao mundo Paraolímpico não iria contra a luta de todas essas pessoas que sofrem diariamente com a árdua tarefa de batalhar pela inclusão? É no mínimo contraditório não? Eu não consigo acreditar que uma proposta dessa foi escrita, publicada e abraçada. Será que em momento algum as pessoas se questionaram em como uma pessoa com deficiência receberia isso tudo? Eu tenho certeza absoluta que a grande maioria se não todos não se sentirão representados desta forma, é simplesmente PHOTOSHOPAR a realidade mais uma vez, nadando contra a maré meu povo, é isso que eu vejo. Quero ver dormir com esse barulho, estou incrédula…

  • RESPONDER
    Flavia Simioli
    25.08.2016 às 11:15

    Texto maravilhoso. Concordo e ponto.

  • RESPONDER
    Ingrid B
    25.08.2016 às 19:47

    Texto muito lúcido. Parabéns.

  • RESPONDER
    Valquiria
    01.09.2016 às 10:46

    Perfeito!!! Disse tudo!!

  • Deixe uma resposta