3 em Comportamento/ crônicas no dia 14.07.2016

Ela não vai voltar

Oi Fabi,

Você não pode imaginar a saia justa na qual você me deixou naquele verão. Eu voltei pra casa querendo curtir minhas férias com você, nossas amigas e minha família. Eu queria passar aqueles meses sem faculdade rindo, brincando, vendo filme e comendo pipoca. O telefone tocou, eu fiquei muda e passei as férias sem conseguir expressar direito o que eu senti. Foi um misto de indignação, revolta e tristeza. Que egoísmo o meu, tudo que eu queria eram os anuais dois meses no interior, curtindo minhas amigas.

Por um tempo fiquei pensando que eu era a pior pessoa do mundo, anos depois eu compreendo que não havia nada demais em ter desejado tudo isso, era minha forma de amar o que a gente sempre teve. No dia do telefonema eu senti dor, te achei uma egoísta que preferia não pensar nos outros além de si mesma. Eu senti raiva do mundo naquele dia, na semana seguinte eu parecia melhor, mas a verdade é que eu continuava sem saber o que falar ou fazer.

Meu mundo está se desfazendo e você é a única pessoa que entenderia.

Em algumas noites antes de dormir só passava uma pergunta na minha cabeça: o que passou na cabeça da Fabiana? Por que dessa vez ela não me ligou pra gente conversar? Por que ela não fugiu lá pra casa como de costume? Por que ela preferiu sumir sem avisar? Se você soubesse a raiva que eu senti por você não ter me deixado te ajudar, de você não ter me contado a verdade, de você nunca ter me ouvido quando eu falava sobre procurar ajuda.

Quando eu fico mais calma eu lembro que você tentou, hoje eu tento aceitar que se você escolheu ir embora era porque você não viu outra saída. Tantas vezes eu pude ser os ouvidos que você precisava, agora você era o silêncio que eu não queria.

 

Como explicar pro namorado que ficou pra trás que era sua hora de ir? Como falar com seu irmão mais novo que suas brigas não tiveram nada a ver com a sua decisão? Como não fazer seus pais morrerem de culpa por você ter preferido ir embora? Até hoje nossa turma tenta responder algumas das questões que você deixou em aberto, mas tudo o que temos são especulações.

Sabe, eu deletei o que aconteceu naqueles primeiros dias. Deletei de tal maneira que fiquei esperando por anos os seus cartões postais, seus e-mails, um sms. Imaginava você na Disney, na Califórnia, quem sabe num mochilão na Europa ou estudando alguma coisa muito culta em Londres. Preferia acreditar que você voltou pra São Paulo, ou na pior das hipóteses, fantasiava que você estava me odiando e por isso não mandava nenhuma notícia, mas a verdade é que todos esses desejos sem sentido eram apenas desculpas para não aceitar o fato de que você escolheu seguir seu caminho.

Eu que sempre falei que precisávamos respeitar as escolhas dos outros, preferi agir como uma criança que não entendeu o que aconteceu. Me reservei o direito de ficar indignada porque você não se despediu de mim, depois me senti culpada por não ter podido te convencer a ficar, hoje eu te peço desculpas porque não consegui te ajudar. Eu nunca vou saber o que passou pela sua cabeça naquela noite, mas eu só queria que você soubesse que eu gostaria de ter feito alguma coisa.

Nesses últimos anos fui perdendo a vontade de mudar o caminho para não passar na frente da sua casa. Em algum momento, não sei te dizer precisamente quando, se tornou gostoso lembrar da infância que passamos brincando no jardim, das primeiras conversas sobre meninos na escada e das tardes de verão que passávamos vendo filmes no ar condicionado.

Como eu queria ter podido te ajudar mais, mas acredito que eu fiz o melhor que pude. Olhando em retrospecto acho que eu e as meninas fomos boa parte do que te fez sorrir enquanto vivia naquela cidadezinha tão pequena pra você, tão grande para as outras pessoas. Eu sei que você tentou me ouvir, procurar ajuda, mas não é fácil enfrentar a realidade de que a gente tem um problema grave e precisa da ajuda de bons profissionais. Confiar neles antes mesmo dos nossos instintos é uma entrega que não é fácil de se fazer, principalmente quando não se tem o apoio necessário. Mesmo assim, eu queria ter conseguido te mostrar que uma boa terapia ou um bom psiquiatra poderiam ter sido o porto seguro que você precisava durante as tempestades.

Eu sei que não carrego culpa alguma, sei que dei meu melhor e que suavizei muitas coisas pra você, mas me dói saber que você teve que fugir às pressas, de cabeça quente. Me dói pensar que não importa quantas vezes você tenha sido pessimista, eu continuava tentando te trazer para o meu mundo encantado. Éramos paradoxais, mas éramos amigas.

Desde aquele fatídico ano de 2003, eu só peço que você esteja em um lugar especial. Cheio de amor, cura e aprendizado, desfrutando de sentimentos que você não conseguia ter por aqui.

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Hoje eu aceito a verdade, não finjo mais que um dia você vai me ligar e vamos juntas ver um novo filme no cinema. Agora eu consigo me lembrar daquele dia e finalmente eu sinto paz, misturada com saudade. A dor o tempo leva, a saudade fica pra sempre, assim como o aprendizado, que transcende qualquer crença religiosa ou julgamento moral.

Agora eu entendo que eu não poderia ter feito nada de diferente, mas sempre incentivo pessoas que têm alguém como você por perto a fazerem o máximo que puderem, porque por mais que eu viva em paz com a minha consciência, eu daria o mundo pra poder ter feito mais para você desistir de nos deixar.

Seria incrível compartilhar de perto com você a felicidade que eu estou sentido hoje, mas já que não terei sua presença física no meu casamento, prefiro pensar que você está aí, assistindo tudo de camarote e sentindo todo o amor que estamos mandando para você.

Beijos com muitas saudades

Aline

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Joana Cannabrava

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Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.

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3 Comentários

  • RESPONDER
    Carina Alves
    14.07.2016 às 17:24

    ótima crônica com minhas séries favoritas, ameeei!

  • RESPONDER
    Daniela
    14.07.2016 às 22:30

    Jô, vi seu snap falando da crônica e vim aqui ler. Que texto lindo e emocionante! “A dor o tempo leva, a saudade fica pra sempre” é um pensamento tão verdadeiro. Parabéns pela crônica!

  • RESPONDER
    Jackeline
    16.07.2016 às 8:40

    Que saudade da Cristina Yang <3

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