5 em Comportamento/ Reflexões no dia 16.02.2016

Qual o limite de julgar pela internet?

Semana passada eu me peguei bem chocada com o caso da família que se fantasiou de personagens do filme Aladdin e botaram o filho adotado - e negro - de Abu, o macaquinho amigo do protagonista. Apesar de ter achado que foi de uma ingenuidade sem tamanho não pensarem que imediatamente associariam negros e macacos (afinal, infelizmente, alguns negros tem essa história para contar), também me chamou atenção - e me deixou enojada - a atitude da pessoa que resolveu infernizar a vida dessa família que inicialmente só queria curtir o carnaval.

Sei que existem questões super importantes sobre o racismo que foram levantadas por essa história, inclusive li essa carta aberta que explica muito as coisas graves que envolvem essa confusão. Qualquer dia quero chamar alguém que entende bem do assunto pra falar disso por aqui, mas hoje queria focar nesse outro ponto delicado da história .

Por mais que o pai estivesse errado - sim, ele estava e admitiu na resposta à carta anterior - que direito as pessoas tinham de invadir loucamente a vida dessa família?

O que está acontecendo com o mundo? Eu também queria saber, Regina George…

Que direito o indivíduo que divulgou tinha de tirar a foto, espalhar na internet e expor 2 adultos e 1 criança - sem o consentimento - para que elas fossem julgadas livremente? Como já disse, acho que a discussão sobre racismo em cima desse assunto é importante - e acho que os pais deviam usar esse episódio para aprender mais sobre isso e educar o pequeno Mateus a lidar com esse mundo cão - mas a gente sabe que a internet é o lugar onde habita o pior tipo de juiz, aquele que não quer saber todos os fatos para dar sua sentença. Entre elas vi várias gravíssimas como, por exemplo, pessoas que defendiam que eles perdessem a guarda do filho!

Apesar de eu achar esse caso mais grave, afinal a família não teve controle sobre sua exposição virtual, trabalhando com internet e convivendo com pessoas que são populares e influentes nesse meio, já cansei de ouvir histórias de gente que foi apedrejada por algum deslize e que acabou se transformando em algo muito maior. As pessoas vinham com as pedras na mão e a justificativa para o apedrejamento era simples (e super repetida por aí como argumento principal): “a pessoa está se mostrando na internet, pediu para ser julgada”. Será mesmo?

Não vou ser hipócrita, julgar é inerente do ser humano. É algo tão natural que muitas vezes fazemos isso sem perceber, e não é à toa que realities como o BBB fazem tanto sucesso. Julgar desconhecidos nos dá uma sensação boa de poder e de superioridade e gostar de sentir isso não nos faz ruins, mas qual é esse limite? A diferença é que antes os nossos julgamentos atingiam poucas pessoas e dificilmente prejudicava o julgado, mas hoje um simples texto no Facebook pode chegar a milhares de indivíduos, muitos que não te conhecem mas que viram nas suas palavras uma oportunidade para expor suas opiniões e de repente, uma marolinha vira um tsunami.

Já vi coisas maravilhosas acontecerem porque as palavras de um atingiram milhares. Vi marcas e estabelecimentos perdendo clientes porque pisaram na bola com uma pessoa, vi mulheres se unindo para defender uma participante de reality show menor de idade que foi assediada virtualmente por homens sem noção, vi revistas mudando seu posicionamento para se adequar às discussões virtuais. O próprio caso do Alladin teve um desfecho interessante apesar do desgaste que causou à família, já que permitiu que as pessoas certas conseguissem debater de forma lúcida, educada e sem um pingo de julgamento a questão do racismo nesse caso.

Mas até onde estamos certos de usar a internet para falarmos e fazermos coisas que provavelmente não faríamos fora do mundo virtual? Será que tantos dedos seriam apontados para todas as direções? Será que tantas pessoas seriam expostas desnecessariamente? Será que existiriam tantos justiceiros?

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Em tempos de problematizações recorrentes em um ambiente onde qualquer um pode ter voz (o que é uma coisa boa), eu acho que empatia é fundamental. Todos somos passíveis de erros, o que quer dizer que todos nós estamos suscetíveis a julgamentos alheios, de pessoas que nunca nos viram e não têm a mínima noção da nossa história mas vão invalidar todas as coisas boas que já fizemos por causa de um único deslize que pode nem ter sido intencional. Acho que antes de sairmos despejando nossos julgamentos (intolerância, racismo, machismo ou qualquer outra coisa ruim) disfarçados de opinião, é sempre válido fazer o exercício e antes de escrever a primeira palavrinha, se perguntar “eu gostaria de ouvir isso se tivesse no lugar dessa pessoa?”, “eu conheço realmente os fatos para poder falar desse jeito?”, “eu posso me arrepender de ter falado isso tudo caso eu descubra que julguei errado?”.

Não é fácil, eu sei porque eu tento e nem sempre consigo, mas acho que já ajuda bastante para que certos limites sejam estabelecidos, né?

Beijos

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5 Comentários

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    Janaína Arruda
    16.02.2016 às 11:00

    Confesso que não vi problema algum na fantasia da família, e muito menos acho que o pai errou. Era uma família fantasiada junta dentro de um contexto de uma história! Se a criança fosse branca, será que alguém daria a mínima por ela estar fantasiada de macaquinho? Hoje as pessoas se apressam muito a julgar, condenar e fazer o inferno na vida das pessoas. Recentemente li uma matéria na Veja, onde uma mulher foi confundida com uma suposta sequestradora de crianças para rituais satânicos - suposta porque ela nunca existiu, foram boatos de facebook - que foi linchada, torturada e morta por uma multidão ensandecida… Aconteceu em 2014, caso não conheçam ainda, procurem a história e se sintam como eu, desiludida com o rumo que o ser humano está tomando. Bjks

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    Wal
    16.02.2016 às 12:59

    Vou copiar aqui um post que escrevi no facebook:

    “Confesso que quando vi a foto da família fantasiada com as personagens de Aladdin só vi isso: uma família fantasiada. Daí que ontem me peguei em uma discussão acalorada com um amigo sobre o quão inapropriado foi fantasiar o filho, negro, de macaco. Ele quase nunca é tão incisivo em suas posições, mas ontem bateu o pé. Em certo ponto perguntei se já o tinham chamado de macaco e, ao ver a tristeza em seus olhos quando respondeu que sim, compreendi tudo. Eu sou negra, já sofri preconceito, mas nunca fui chamada de macaca. Não sei o que é ser agredida e diminuída com essa simples palavra. Foi então que compreendi que, enquanto macaco não for apenas um animal e não uma violência, não vou poder fantasiar meu filho negro assim. Enquanto o mundo ideal do discurso de Morgan Freeman for apenas um mundo ideal, terei que rechaçar quaisquer atitudes que possam ser interpretadas como racismo. Terei que ser exagerada (sim, achei exagerada a polêmica), porque, do contrário, no mundo real, posso deixar passar e minimizar o que não pode, nem deve ser minimizado. Vou ficar torcendo para um “Whole new world”, no qual eu seja eu, você seja você e um dia da consciência negra não seja mais necessário. Mas para que esse dia chegue, vai ter mimimi e chatice. Porque eu sou negra. E me recuso a voltar para a senzala.
    PS: Foram necessários muitos Malcom-Xs, Martins Luthers Kings, Rosas Parks e tantos outros para que Morgan Freeman pudesse ser um simples ator e emitir sua opinião. E eu não vou desmerecer isso. Ninguém deveria”.

    Acrescento que ninguém tem o direito de infernizar a vida do pai do menino, nem da Fabíola (a da manicure…), nem de tantas outras pessoas que erram, simplesmente porque todos erram. Acho justo ter uma opinião e se posicionar, mas nunca agredir o outro. Parece que para ser apedrejado você só precisar tropeçar. Ou nem isso, vide o exemplo de Cristo. Enfim, falta bom senso, educação e limites. Tudo tem limites.

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    Bianca
    16.02.2016 às 17:42

    Uma coisa que eu li no texto que me intrigou: “Apesar de eu achar esse caso mais grave, afinal a família não teve controle sobre sua exposição virtual” … É isso mesmo que eu entendi?! Ainda temos que tomar cuidado com as nossas atitudes perante o pensamento alheio!? Sério? Cara… Ou eu sou direta demais e f*da-se o mundo ou estou mais pra anomalia da Terra porque não é possível que em tempos como esses ainda temos que tomar atitudes pensando em terceiros. Tem gente que já tem uma dificuldade enorme só em pensar em tomar alguma atitude, e ainda tem que pensar no que o outro vai falar!?

    Quando eu vi sobre o que estavam falando eu vi a seguinte foto: o pai com a criança nos ombros junto com a mãe fantasiados e uma foto do lado de uma criança branca vestida de macaquinho, e embaixo perguntando “Porque um não pode e o outro pode?” Caaaaraaaa… PQP!!! AINDA!?
    Eu ainda achei muito nobre a atitude do pai de explicar a situação e por cima de tudo assumir um erro que não era dele, porque se fosse eu já teria mandando meio mundo tomar naquele buraco limpo por fora e sujo por dentro e xingado a humanidade inteira de hipócrita, FDP e por dai pra baixo kkkkkkk’

    Ai eu pergunto (independente da idade e cor da criança), e se o pequeno quisesse, eu digo QUISESSE, se vestir de Abu! Qual o c*ralho do problema!? NINGUÉM TEM NADA A VER COM ISSO! Quem pagou a po**a da fantasia foram os pais!!! Mania de gente que ACHA que caga cheiroso!

    Eu vou com a menina do comentário acima: Tudo tem limites!

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      Carla
      16.02.2016 às 18:15

      Oi, Bianca! Acho que se fosse apenas julgamentos alheios em pensamento era tranquilo, era tacar o foda-se mesmo e ser feliz. O problema é quando você vai curtir seu Carnaval com sua família e quando chega em casa descobre que está no olho do furacão sendo xingado por milhares de desconhecidos, sendo chamado de racista, recebendo ameaças de morte e ouvindo que a guarda do seu filho precisava ser revista (isso porque eles estão tentando adotar outra criança, imagina se esse rebuliço todo prejudica o processo que já é super difícil???).

      Nao gostaria de me ver no centro de uma polêmica dessas proporções por um erro que eu nem sabia que estava cometendo e acho um absurdo ter que me podar na vida real também (porque eu já me podo bastante na vida virtual e nem sempre eu gosto disso) porque posso estar fazendo algo que alguém ache que tem que filmar/tirar foto/compartilhar seu meu consentimento ou conhecimento! Por isso que acho que a pessoa que postou a foto julgando a família passou e muito dos limites!

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    May
    17.02.2016 às 15:16

    Obrigada, Cá, por conseguir falar tudo que eu mantive entalado na minha garganta! Acho horrível que em pleno 2016 os negros (os gays, os muçulmanos, etc, etc) ainda sofram preconceito. E a internet consegue piorar tudo. Se eu tivesse visto a família no bloco, pensaria “puts, acho que o pai nem se tocou, escolha de fantasia um pouco infeliz”, mas NUNCA tiraria uma foto para dar de mão beijada pros juízes do Facebook.

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