Semana passada, quando falei de As Vantagens de Ser Invisível (aliás, vi o filme e achei tão melhor que o livro!), acabei citando Precisamos Falar Sobre o Kevin. E notei que teve gente interessada em saber mais sobre esse livro.
Na verdade, eu já li há um tempão - logo assim que saiu o filme - mas só não falei dele por aqui pois o livro está com a minha mãe, no Rio, e eu queria fotografá-lo. Mas como eu ainda estou longe de terminar o livro que eu estou lendo atualmente e não queria deixar uma semana sem essa tag (minha queridinha! <3), resolvi deixar minha frescura de lado e falar dele mesmo assim.
A descrição do livro já te faz ter vontade de ler imediatamente: Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassino ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos.
Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem.
Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela não. Kevin é um menino entediado e cruel empenhado em aterrorizar babás e vizinhos. Eva tenta cumprir mecanicamente os ritos maternos, até que nasce uma filha realmente querida. A essa altura, as relações familiares já estão viciadas. Contudo, é à mãe que resta a tarefa de visitar o “sociopata inatingível” que ela gerou, numa casa de correção para menores. Orgulhoso da fama de bandido notório, ele não a recebe bem de início, mas ela insiste nos encontros quinzenais. Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável.
Eu AMEI Precisamos Falar Sobre o Kevin, foi um livro que me impressionou bastante, muito bem escrito e muito bem amarrado, é um terror psicológico instigante. O fato de ser escrito como cartas para o marido só deixa a história mais real. Em diversas horas eu senti tanta realidade que achei impossível que não existisse uma Eva e um Kevin de fato.
Lionel Shriver consegue criar uma personagem muito densa, muito humana e verdadeira até demais (ela descrevendo o que sente enquanto está grávida de Kevin é assustador até para quem não planeja ter filhos!). Ela é uma mulher meio fria, um tanto egoísta e o contraste de Eva com o marido é tão grande que é impossível não achá-la uma bruxa em vários momentos. Mesmo assim, quando você entra na mente de Eva através das cartas, é impossível não sentir raiva, medo, pena, compaixão. Como eu li em uma resenha no Skoob: “’algo’ incorporou em Shriver para escrever este livro. E “isso” vai ficar em você.” É bem por aí o que eu senti lendo Precisamos Falar Sobre o Kevin.
Aliás, o que falar de Kevin? Ele é um monstro, tudo indica que é um psicopata nato e, ao mesmo tempo, com traços tão parecidos com os de Eva que você chega a ficar na dúvida se o que ele fez é fruto da relação com sua mãe ou se ele já nasceu desse jeito.
Quem não estiver com muito tempo ou paciência para ler o livro, o filme deixa muito pouco a desejar. As atuações de Tilda Swinton, Ezra Miller e John C. Reilly são impecáveis, apesar de eu achar que no livro a relação entre mãe e filho é um pouco mais aprofundada.
Alguém mais leu? O que achou?
Beijos!
Carla










