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24
mar
2016

#babynofuti: a gravidez por uma não grávida (uma reflexão da Jô)

#babynofuti, Lifestyle, Reflexões

Eu nunca dei bola para os momentos mais romantizados “da vida de uma mulher”. A verdade é que eu sempre fui um paradoxo. Em parte clichê, em parte antagonismo. Nunca quis um casamento napoleônico, uma grande festa de 15 anos, um marido de cinema ou muitos filhos. No entanto, tenho o coração romântico de uma adolescente ansiosa por viver grandes amores.

Sabe príncipe no cavalo branco? Sonho com isso! Como conheço o mundo em que vivo faço muita terapia pra desconstruir esses sonhos estereotipados. (deu para sacar o paradoxo? Acho que sim).

Assim, que nunca tive absolutamente nenhum sonho de engravidar, me vi vivendo a experiência de estar perto de uma grávida. Não tão perto fisicamente quanto eu gostaria, mas perto através dos aplicativos da vida moderna, além de viagens e outras coisas que passamos juntas durante esses meses. Eu que fui uma das primeiras a saber acompanhei de tabela esse período.

Eu descobri que pouco sei sobre gravidez, que pouco sei sobre bebês e que corajosa é a mulher que escolhe viver isso. Sim, a meu ver é uma escolha. Também aprendi que se o pai estiver tão envolvido quanto a mãe, as coisas tendem a ser bem melhores, mais suaves talvez.

Por mais distante que toda essa experiência de gravidez pudesse parecer pra mim, ver a Carla lidando com isso foi uma super referência. Se um dia eu optar por esse caminho eu quero me lembrar de tudo que eu vi nela, dos aprendizados bons e talvez ruins.

O que eu, como amiga, vi de mais especial? A calma e tranquilidade com que ela TENTOU levar tudo. Evitando criar expectativas, super estimar dramas vividos por tantas outras mulheres e fugir das coisas horríveis que algumas pessoas falam para as grávidas.

Sou tão mais dramática do que ela. Não me imaginaria passando tão bem por tantas coisas naturais. Ela tentou levar todos os aspectos da sua vida com normalidade e isso foi o que eu mais admirei. A gravidez da Cá me fez acreditar naquela máxima: gravidez não é doença e cada um pode levar esse processo da forma que acha que deve.

Nesse meio tempo, passamos uma semana na Europa. Apenas mais uma das diferentes viagens que ela fez durante a gestação e me vi preocupada com coisas que antes não passariam na minha cabeça. Ao mesmo tempo que eu queria que ela dormisse mais, não se cansasse tanto e coisas desse tipo, eu ficava impressionada com o quanto a vida dela seguia normal. Ela ia aprendendo a aceitar ajuda e as filas preferenciais e eu aprendendo que a gravidez não era o pesadelo que eu tinha em mente.

Tá, ao ler minha última frase vejo que não só não era o tipo de pessoa que romantizava a gravidez, como era do tipo que tinha pavor dela. Não só o medo de o corpo mudar, dos desejos piorarem (eu tenho desejos a vida toda, já que lido com a compulsão desde muito nova) e dos hormônios ficarem doidos. De uma forma geral, acho que eu tinha medo da mudança, medo de nunca mais ser a mesma pessoa, por dentro e por fora.

Por essas questões ver a gravidez da Carla foi tão importante pra mim. Tudo mudou na minha forma de ver. Ainda que durante nem tudo sejam flores, ainda que eu ache que os hormônios de nós duas caminhavam em direções opostas e ambas estavam meio impacientes (sorry amiga, sei que eu não estava fácil, mas você também não estava igual). Tudo foi aprendizado de tabela.

Arthur-e-Jo

Pessoas dizem que a melhor coisa é morar junto antes de casar, mas acho que incluo nessa lista a dica de que todo mundo tinha que acompanhar uma gravidez de perto antes de ter filhos. Pode ser tão elucidativo, vocês não têm ideia. Por tamanho aprendizado de minha parte, eu sempre incentivei que ela trouxesse essa naturalidade para os textos do #babynofuti, ainda que eles a tornassem diferente da maioria.

Algumas pessoas podem não ter entendido, afinal, a Carla não usou laçarotes em baixo do peito, 2o0 roupas de grávida, não fez ensaios fotográficos ou tirou fotos fazendo carinho na barriga todas as semanas. Ela não levantou a bandeira de qual parto era melhor (afinal, ela só queria o melhor para os dois, não importava a forma que ele viesse ao mundo!).Ela foi ela mesma, não cedeu a clichês ou pressões, ela tentou fazer tudo do jeitinho dela. Isso foi de se admirar, tem que ter personalidade para fugir do óbvio.

Em parte ela era “chata” por não aceitar ajuda, mas depois eu entendi. Ela aceitou quando se tornou necessário. Ela me pareceu apenas estar tentando manter a normalidade da sua vida. Depois que ele chegou, passei 24 horas com ela e o Bernardo quando o Arthur ainda não tinha nem 1 mês. De cara vi que a coisa não é mole, não mesmo. Achei bonito de se ver tal trabalho feito em equipe (mãe e pai juntos).

É engraçado fazer uma reflexão sobre esse momento estando de fora. Percebi que nunca romantizei a minha possível gravidez, mas romantizava a gravidez como um todo. Com essa experiência, passei a entender que cada um vê a vida como acha que deve, com as suas dificuldades e com seus ganhos. Não é porque todo mundo faz a coisa de um jeito que você tem que fazer também. Você só precisa ser você mesma, sempre.

De tudo que vivi nessa experiência de terceira pessoa, o fato mais curioso não diz tanto respeito à Carla. Não me sai da cabeça o sentimento mágico que senti na hora que o pequeno Arthur chegou no mundo. Eu não sabia que ao ver alguém que você ama tanto grávida você já passava a amar aquela nova vida instantaneamente.

Para minha surpresa - mesmo! - eu chorei muito quando ele nasceu. Eu, que nunca na vida sonhei com a maternidade e que nem estava na mesma cidade, soluçava com cada foto do parto. Com um vovô médico que estava na sala e foi me atualizando minuto a minuto, cada primeiro respiro foi um flash.

Não posso dizer que tudo isso me fez querer ser mãe, mas não posso dizer que não fez. Isso eu entrego para Deus , mas mexeu comigo. Era como se naquele segundo eu tivesse podido experimentar um pouquinho daquele sentimento mágico que é ver uma nova vida começar no mundo. Era tudo muito preenchido de amor.

A photo posted by futilidades (@futilidades) on

Chorei várias vezes naquele dia e eu vi que a vida tem muito mais a oferecer do que a gente pode planejar ou imaginar. Em todas as fases existem boas surpresas quando estamos abertas pra isso. Quem podia imaginar que eu experimentaria algo totalmente novo naquela noite? Eu não. Achava que receberia a notícia e ficaria feliz, mas foi tão além de tudo isso que me impressionei.

Esse é um texto egoísta, feito por alguém que viveu apenas a parte boa da coisa, mas que entendeu um pouco mais sobre amar o próximo a partir daquele dia. Talvez tenha quebrado paradigmas e “pré conceitos”.

Daquela sensação, me permiti ter a liberdade poética de imaginar a alegria que deve ser fazer uma grande festa de casamento para celebrar um grande amor, a satisfação que deve ser ter um filho saudável, a felicidade que deve dar fazê-lo feliz e outros “sonhos clichês” que inicialmente “não eram os meus”.

É sensacional ver que há magia em todos os tipos de sonhos. Eu vou seguir perseguindo os meus. Agora só vou parar mais vezes para admirar as realizações do outro. Por mais que os objetivos sejam diferentes, a mágica em viver pode ser igual.

Foi assim, nessa pegada tão reflexiva, que eu passei a achar a gravidez algo bem mais natural do que imaginava.

Beijos


( que na verdade é apenas mais uma tia babona)

8
mar
2016

O dia da mulher, a liberdade sexual e um desejo de igualdade!

Lifestyle, Reflexões, Relacionamento

Nos últimos anos tenho aprendido muito sobre “feminismo“. Antes achava que essa palavra significava um monte de radicalidades e crenças engessadas, mas com o tempo, os textos e as conversas aprendi que não se trata de nada disso. A luta pela igualdade de gêneros nos salários, cargos, direitos, até mesmo com relação ao próprio corpo também é uma luta minha, uma luta nossa. Brigar contra a normalidade do assédio ou contra pequenas atitudes machistas já enraizadas na sociedade tem sido o objetivo de muitas mulheres corajosas e hoje, mais uma vez as parabenizo por pensar e agir fora da caixa.

Como já sabemos, meu short não é uma autorização para você me chamar de gostosa, minha saia curta não quer dizer que eu quero fazer sexo com ninguém e o fato de eu transar com quem eu bem entender não faz de mim uma pessoa menos valorizada. Eu sou dona do meu corpo, do meu prazer e das minhas vontades.

Sempre que eu falo algo sobre sexo em alto e bom som (sem gritar, apenas sem baixar o tom de voz, como se fosse um segredo) costumo ver alguém arregalar os olhos e se espantar. Parece que uma mulher falar disso num restaurante, numa roda de bar ou mesmo na fila do elevador ainda pode ser visto com estranheza. Oi? Você não faz sexo? Todo mundo faz, ou pelo menos deveria. Eu não quero viver num mundo onde precisamos falar sobre isso sussurrando, escondidas ou com medo de julgamentos. Esse é um assunto como outro qualquer, pelo menos deveria ser. Eles podem, nós podemos. Falar disso com educação e naturalidade acabaria com muitos mitos que cercam essa parte íntima da nossa vida, transformar isso num tabu é muito perigoso.

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Sou tão boa pessoa quanto qualquer outra e vivo minha vida sexual em paz. Tento quebrar paradigmas e deixar para trás os resquícios de conceitos machistas que me rondaram por muitos anos. Não vou aceitar julgamentos externos, vou questionar e combater qualquer argumento com qual eu não concorde. Gosto da máxima: meu corpo, minhas regras.

Infelizmente a forma como eu e muitas outras fomos criadas foi defasada no quesito sexualidade. Sempre houve muita repressão velada nesse sentido. Para mim esse é um dos pontos em que mais vejo diferença entre a maneira de ver o mundo dos homens e das mulheres.

Claro que os hormônios são diferentes, biologicamente podem haver diferenças claras nos graus de necessidades mas todo mundo precisa explorar sua sexualidade, seus orgasmos e tudo mais que envolve a descoberta do próprio corpo. Não podemos absorver por osmose que os homens têm necessidades e nós não, todos somos humanos, todos temos desejos.

via GIPHY

Quando me livrei da pílula descobri todo uma nova relação com meu corpo e meus hormônios, por isso parei para pensar e questionar muitas coisas. Eu estava ali, lidando com o novo: a libido fora de contexto. Até então nunca tinha tido de conviver com ela, coisa que os rapazes passam a vida fazendo.

Nessa hora me dei conta que NUNCA ninguém conversou comigo sobre masturbação feminina. Ué? Por que isso não foi um assunto abordado na minha casa? Na escola? Na vida? Eu me lembro que meus pais conversaram com meu irmão sobre o assunto, comigo ninguém falou nada. Por que os homens são ensinados a lidar com esses estímulos e as mulheres não? Essa é uma das questões de diferenças de gênero que mais vejo trazer consequências práticas para a minha geração.

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Em 2014 eu comprei esse brinquedo alemão, de curiosidade, num sex shop em São Francisco

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A ideia era incrementar as preliminares e no fim ele virou mil e uma utilidades. Marca: OVO (tem tudo sobre ele online aqui)

Parece que não era muito simpático encorajar uma mulher a ter liberdade com o próprio corpo e com o próprio prazer. A primeira pessoa a me questionar sobre isso foi uma das minhas melhores amigas (beijo, Nina!) e eu não levei a sério o que ela estava falando. Eu tinha uma ótima vida sexual com meu namorado e eu tomava a pílula (que me deixava sem qualquer necessidade fora do contexto de nós dois). O que eu teria mesmo a entender sobre isso?

A vida muda, a realidade muda e hoje eu entendo totalmente o que ela queria me dizer: Quanto mais a mulher conhece seu próprio corpo, mais ela pode desfrutar de uma relação prazeirosa com seu parceiro.

Claro que nesse contexto de liberdade sexual é super importante falarmos da importância de focar na prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, que muitas vezes são mais perigosas para as mulheres. Com tanto tabu é normal que haja ignorância na mesma proporção. Eu notei isso quando eu mesma, uma mulher de 20 e tantos anos e com um alto grau de escolaridade, me peguei perguntando coisas “simples” para minha ginecologista.

Posso estar sendo otimista, mas vejo a possibilidade de todos evoluirmos nesse aspecto de liberdade. Se meus pais conseguiram evoluir muito em 10 anos por que a sociedade não pode?

Sempre me impressiono quando as pessoas ficam CHOCADAS quando eu coloco a naturalidade com a qual eu e meus pais tratamos da minha vida amorosa. Aqui em casa eles sabiam de aplicativo de relacionamento, sabiam com quem eu ia sair e estavam cientes de quando eu não iria dormir em casa. Alguns detalhes eram ditos, outros subentendidos, mas nada era julgado.

Inclusive meu pai é muito melhor conselheiro do que a minha mãe. As vezes evito conversar certas coisas com ele nos mínimos detalhes, mas temos uma relação MUITO aberta. Pra ela por sua vez, não precisa de nenhum grau de omissão. Eles se complementam. Eu vejo um enorme exercício de não julgamento, aceitação e acolhimento na minha casa. Vou querer fazer o mesmo se um dia eu tiver filhos.

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Essa aprovação permitiu que eu passasse a lidar de uma forma muito mais segura com tudo isso. No entanto, acreditem: sempre que eu menciono que contei tal coisa para o meu pai ou que ele me disse algo a respeito as pessoas fazem um minuto de silêncio e uma cara de choque. Quase sempre. Em contrapartida, meu pai tem o maior orgulho de ser moderninho.

Quando me pego nessa situação tão confiante e confortável envolvendo um assunto que antes era tabu pra mim, fico com vontade de desejar isso para todas as mulheres nesse dia 8 de março. Se as coisas evoluíram na base da conversa na minha casa, podem evoluir na sua também.

Precisamos incentivar que as mulheres manifestem suas essências, precisamos acolher a todas elas incentivando que elas se permitam o auto conhecimento em qualquer aspecto da sua vida.

Já disse e repito, todo pai de menina, marido, namorado e afins precisa ser um aliado da luta feminista, o discurso “He for She” da Emma Watson na ONU está ai para provar mais uma vez que isso faz toda diferença.

Feliz dia das mulheres para todas nós, vamos aproveitar essa data para lembrar que a luta pelos direitos iguais ainda não chegou ao fim, mas juntas vamos conseguir conquistar não só salários, cargos e reconhecimentos iguais, mas também a liberdade de podermos falar e explorar nossa sexualidade sem julgamentos! Precisamos nos acolher, não nos julgar.

Beijos

Se você gostou curta, compartilhe e ajude a gente a tentar quebrar um pouquinho desses tabus! :)
7
mar
2016

Crônicas da Jô: as garotas de Paris

crônicas, Lifestyle, Paris

Era 2011 e eu estava em Paris, sozinha. Nas costas, um namoro recém terminado, com gostinho de que não havia acabado ainda. Tudo doía. Que audácia a minha viajar sozinha naquele contexto! Nunca esqueço de um dia crítico onde em plena Cidade Luz eu voltei para meu hotel chorando no taxi. Definitivmente eu não estava bem lá, não sei como era possível mas naquela hora nem Paris era uma boa ideia.

Sentir meu coração partir poucos dias antes do embarque (poucos = a menos de uma semana), a ficha começou a cair durante uma ligação para a Airfrance, quando criei coragem e cancelei a passagem dele. Ali, naquele segundo, o sonho romântico de ir com um grande amor para Paris morria, pela primeira de muitas vezes.

Nenhum lugar do mundo seria bom para aquela garota de 24 anos. Garota. Vocês leram bem. Naquela época eu definitivamente não era uma mulher. Eu já tinha força, muita coragem, mas não era mesmo a pessoa que sou hoje.

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2011 no jardim de Tuileries

Parece que várias versões de mim já foram à Paris. Passear por essas versões é revisitar um passado que mostra tantas mudanças, ainda que de forma não linear.

Em 2002 embarcou a filha de 15 anos, com a melhor amiga e a mãe. Essa versão só queria comprar e não tinha paciência para tantos museus. Gostava de castelos, não queria ver estátuas. Essa menina, coitada, não aproveitou nada da boa gastronomia. Não posso culpar aquela mãe, ela bem tentou fazer com que comêssemos outra coisa além de macarrão à bolonhesa, mas não obteve êxito.

2002

2002 no alto da torre

A segunda vez em Paris foi a vez da estudante com espírito aventureiro. Foi preciso um super estudo de mapas, planejar caminhos no Google Maps (já estávamos em 2008) e entender bem como seria a logística daqueles dias. Uma parte da viagem teria a companhia das amigas, a outra parte eu ficaria sozinha.

Aquela garota de 21 anos se perdendo de mochila foi um dos meus maiores orgulhos. Essa versão queria ver todos os quadros que havia estudado na faculdade, não parou um segundo, explorou tudo que pôde e ela foi a única que teve a oportunidade de viver um romance parisiense que ok, durou um dia e meio, mas foi inesquecível. Digno de um filme como “Antes do Amanhecer” e que fez frases como “we will always have Paris” pudessem ser escritas (ou lidas) em emails tardios.

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Em 2008 imitando nossa foto de 2002

Se em 2008 o coração era livre, em 2011 era pesado. A garota do início do texto foi sofrer em Paris achando que seria melhor do que sofrer em casa, coitada, ledo engano. Não que Paris tenha sido um arrependimento, nunca será, mas certamente o erro de “timing” foi claro. O melhor lugar para sofrer é em casa, do lado de quem você ama.

Talvez a versão mais parecida comigo, mais ainda bem diferente, seja aquela mulher que embarcou aos 25 anos de idade para estudar um mês na sua cidade preferida. A Joana de 2012 nada tinha em comum com a versão sofrida de 2011 e isso era um fato inquestionável.

Se em 2011 tudo era coração, em 2012 tudo era a profissão. O curso, os estudos, os museus, as exposições de moda, os restaurantes e passeios que mereceriam virar posts. O blog era o amor verdadeiro em questão. Nessa versão eu ganhei um dos melhores presentes que a cidade me deu: uma semana com a minha mãe, agora duas adultas bebendo juntas no bar, aproveitando as melhores comidas e se divertindo caminhando pelas ruas do “Rive Gauche”. O apê alugado em Saint Germain nos arrancou boas risadas, sorrisos e me deixou preparada para as semanas seguintes, em que mais uma vez me veria completamente sozinha na cidade.

2012

2012 no Jardin du Luxembourg

Nunca fiquei tanto tempo sozinha antes, também nunca depois. E antes disso tudo, estar sozinha nunca havia sido tão gostoso. Depois dessa me tornei entusiasta da minha própria companhia. Passei a frequentar restaurantes legais, parques, museus e muitos outros programas. Essa versão de mim dormia cedo de tão cansada dos estudos, mas tudo valeu. Ali a solidão foi um presente, nada de dor.

Engraçado se permitir voltar no tempo, rever suas histórias, seu comportamento em um café ou mesmo sentada num gramado. Eu não sabia ainda que aquelas garotas nunca mais voltariam à Paris. Acho que eu teria feito uma despedida mais apropriada se soubesse.

Em 2015, aos 28 anos tudo mudou. O mundo virou, a autoestima ganhou o jogo e assim, uma versão mais mulher, mais decidida, menos clichê e nada medrosa se apoderou do próprio corpo. Foi nesse contexto que eu visitei Paris levando minha melhor versão de mim pela primeira vez e para realizar um sonho de anos: passar meu aniversário lá, com alguém que jamais poderia se transformar num amor do passado, com alguém que dividiria cada alegria ao meu lado. Foi assim que com 28 anos de idade embarquei com a Carla (e o Arthur na barriga) para viver a primeira visita dessa versão, que voltou com 29 anos e mais uma vez mudada.

 

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Dessa vez já tinha toda certeza do que gostava, do que não gostava, do que queria ver e do que não queria fazer. Teve semana de moda, refeições fantásticas, risadas, passeios, sorrisos, momentos sozinha (agora toda viagem tem que ter isso) e momentos de celebração. Daquela vez, Paris não era apenas uma boa ideia, era a ideia perfeita.

 

Uma foto publicada por futilidades (@futilidades) em

É engraçado perceber ao longo de diferentes experiências como eu mudei. Dos 15 para os (quase) 30 tudo mudou e nada mudou. Algumas coisas são imutáveis, por exemplo, o amor por Tarte Tatin, a paixão pela Place de Vosges, a alegria de passear no Marais no domingo depois de vir de MontMartre e as infindáveis caminhadas por Saint Germain, seus jardins e seus segredos. Todas as versões (até a mais triste delas) viveram um amor pleno pelos detalhes.

Joana-Cannabrava-detalhe-2

Engraçado ver como evoluímos e nos tornamos diferentes, estranho notar que não somos mais as mesmas, mas ao mesmo tempo carregamos algumas coisas que nunca mudam. Lendo um livro que falava de uma experiência de um café em Paris me transportei para essa reflexão. Ali, vi que às vezes podemos escolher um lugar, aniversários, carnavais ou experiências marcantes para entendermos que nunca mais seremos os mesmos, talvez nunca mais venhamos a ser quem somos hoje. Amanhã novas experiências virão e nós precisaremos ter a sabedoria de evoluir, crescer, soltar o que precisa ir e acolher o que precisa ficar.

Hoje eu não sei quando vou voltar, não sei quem eu vou ser até lá, mas apenas espero ser ainda melhor, ainda mais dona de mim.

Joana Cannabrava
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