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Relacionamento

4 em Autoestima/ Destaque/ Relacionamento no dia 12.06.2020

Team Solteira

Como diz bell hooks no texto Vivendo o Amor, “a arte de amar e a prática de amar começam com a nossa capacidade de nos conhece e afirmar.” Dito isso, Dia dos namorados e você pensou que eu vim aqui falar sobre ser solteira?

Também. Poderia lembrar aqui que existem muitas mulheres que gostam da vida de solteira, gostam de ser solteiras, de viver só. Não falo só, sem família ou amigos. É só, sem todas as questões de um relacionamento. Elas são mulheres fantásticas como todas as outras. Não são amarguradas ou decepcionadas como gostam de rotular. Mas não é sobre isso que eu queria falar.

Hoje é dia dos namorados. Eu to solteira, mas gostaria de falar do desejo de amar e ser amada.

ilustra: Marylou Faure

Eu desejo amar e ser amada novamente. Viver um relacionamento repleto de reciprocidade. Café da manhã e um pouco de malícia e sensualidade. Receber flores sem ter feito nada, assim, por pura espontaneidade. Quero, sim, andar de mãos dadas na beira da praia. Conversar por horas a fio, dedilhar minhas mãos no seu corpo nu e faze-lo arrepiar como sentindo frio. E sorrir das coisas mais banais. 

Já ouvi de homens e de mulheres que sou difícil demais, independente, inteligente, formada demais.

Me sinto numa entrevista de emprego onde meu currículo é sempre competente demais para o cargo simples de namorada. Ah, faltou indisponível, já ouvi também. Será que eu deveria ficar sentada na rede, lendo um livro, esperando o amor? Já falei para várias pessoas que desejo um relacionamento, sou solteira e tals. Acho que elas têm medo de me apresentar um amigo e eu acabe com o coitado do rapaz. 

Ah esqueci: tem gorda demais.

Porque já houveram os caras que queriam me transformar em seus projetos de antes e depois. Ou queriam algo escondido, assim que ninguém pode saber. Além disso, sou mãe. Todos os passos que dou, avaliados meticulosamente por uma sociedade que não perdoa uma mãe que deseja namorar. 

Mas não vim aqui tecer teses, vim aqui dizer estou no Team solteira porque ainda não encontrei o tal amor que todos dizem que quando parar de procurar, ele vai chegar.

Estou aqui, esperando. Acreditando na possibilidade de novamente amar em par. Não é fácil aguardar, como se fosse uma fila a qual você nem sabe qual é a sua posição. Mas enquanto aguardo, vou estudando, me conhecendo, vivendo, me afetando. Porque sigo acreditando que o amor é revolucionário.

2 em Autoestima/ Relacionamento no dia 05.03.2020

“Eu terminei meu relacionamento depois de ver Guilherme e Gabi no BBB”

Eu assisto BBB e amo. Mas esse foi além de puro entretenimento para mim. Acompanhei milhares de debates sobre o relacionamento entre Guilherme e Gabi era ou não abusivo. E enquanto eu acompanhava, foi me batendo uma angústia que me deixou anestesiada por dias, sem saber como botar em palavras. Até que finalmente eu consegui organizar minhas ideias. E quis vir aqui, mesmo que de forma anônima, falar um pouco sobre esse tipo de abuso que não segue os padrões do que reconhecemos como o relacionamento abusivo clássico. 

Por quê? Porque eu me vi na Gabi. E eu terminei um relacionamento justamente por causa disso.

Enquanto acompanhava as discussões sobre Guilherme e Gabi, consegui perceber com clareza o que estava acontecendo comigo. Há 2 anos, eu estava em um namoro considerado perfeito. Quem via de fora, achava que eu tinha tirado a sorte grande. “Que príncipe! Como ele te trata bem! Nossa, ele faz tudo por você, né?”

De fato, eu tenho muita coisa positiva para falar dele. Um homem educado, solícito, atento às necessidades das pessoas, respeitador (e não estou falando em relação à mim somente). O tipo de pessoa que a gente olha e consegue enxergar um coração enorme. E eu me sentia de fato muito sortuda por ter arrumado alguém assim. 

Até que veio nossa primeira briga. Briga boba, dessas que a rotina puxada traz nas nossas vidas. Aquela que não é culpa de ninguém, foi só um momento de explosão de duas pessoas que tiveram um dia cheio. Desentendimento, desses que acontecem em qualquer relacionamento. Seria uma briga trivial e facilmente esquecida, mas se transformou em um marco para mim pois, logo depois de aparentemente termos nos resolvido, ele pisou na bola em alguma coisa do trabalho. E veio colocar a culpa em mim. “Tá vendo? Você veio discutir comigo, a gente brigou e eu errei uma coisa importante aqui.” Pedi desculpas, afinal, realmente foi uma explosão minha – seguida de uma total falta de entendimento dele – que fez a briga escalonar.

ilustra: @mari.ilustra

Na época eu não tinha achado nada demais. Não via nenhum traço de relacionamento abusivo. Afinal, como uma pessoa tão legal podia ser abusiva?

Mas pode.

Uma outra cena marcante foi quando eu conversei com uma amiga minha – e amiga em comum do casal – sobre uma discussão que tivemos. Na verdade eu nem considerava uma discussão, e sim uma divergência. Sabe, quando duas pessoas não concordam sobre determinado assunto e terminam a conversa concordando em discordar? Pois é. Um belo dia, semanas depois desse episódio, estávamos todos no bar e essa amiga trouxe nossa conversa à tona em uma brincadeira. Na hora vi que ele ficou desconfortável, e não demorou muito para ele pedir a conta para irmos embora. No trajeto de volta para casa tivemos uma briga enorme, porque ele achava inadmissível que eu tivesse exposto nosso relacionamento para os outros. 

Ele nunca me proibiu de nada. Nunca me disse que não deveria usar alguma coisa. Nunca levantou a mão ou o tom de voz. Ameaças? Não que eu tenha percebido. Mas toda vez que um embate surgia, ou algo acontecia, a culpa era minha. Seja porque eu havia deixa-lo estressado, seja porque eu havia trazido um assunto delicado à tona em um momento que ele não podia pensar naquilo (sendo que eu nunca sabia que momento era esse), ou então porque eu só sabia reclamar.

Comecei a me ver como uma mulher chata, reclamona, que só via problemas. Saíamos cada vez menos com os amigos. Eu comecei a me retrair. E eu cheguei em um ponto de sentir medo de conversar sobre meu relacionamento com outras pessoas. Eu sentia que estava traindo sua confiança cada vez que eu pensava em me abrir com alguma amiga.

Quando vi uma imagem da Gabi que está circulando pelo Twitter, mostrando o quanto um relacionamento que te aprisiona pode acabar com você, eu me vi naquela imagem. E foi aí que deu o estalo.

Percebi que não dava mais para continuar ali, naquele relacionamento. Me sentindo culpada de tudo. Me afastando, vivendo cada vez mais calada e sem energia. Entendi que estava vivendo um relacionamento emocionalmente abusivo. E enquanto via a Gabi aos prantos, eu tomei uma decisão e terminei. 

Isso tem menos de uma semana. Ninguém entendeu nada. E essa é a primeira vez que to colocando as ideias no lugar, literalmente. Ainda não acredito que foi assistindo um reality show, naquele momento do meu dia que uso para relaxar, que minha vida deu uma guinada dessas. E confesso que ainda tenho dificuldade de encarar meu relacionamento como abusivo. Acho forte. Estamos vivendo em um tempo de extremos, onde todo mundo é santo ou é monstro. Eu ainda consigo ver todas as características positivas que me fizeram gostar dele em primeiro lugar. Não consigo considerá-lo um monstro.

Ao mesmo tempo consigo reconhecer o quanto eu me anulei, por total falta de entendimento dessas estruturas. Agora entendo também que ele só agia dessas formas porque eu permitia me colocar nesse lugar. E agora que eu entendi, poderia tentar novamente com essas novas informações? Talvez. Mas decidi que não quero. Foram 2 anos nesse esquema emocionalmente exaustivo. Nesse caminho, eu perdi toda a energia que eu sei que será necessária para fazê-lo entender. Escolhi reencontrar meu amor próprio que tinha sido deixado de lado, algo que eu espero, inclusive, que a Gabi ache também. 

E por quê resolvi escrever esse textão, mesmo que de forma anônima? Porque eu queria mostrar para quem está lendo que relacionamento abusivo não tem estereótipo. Queria mostrar que dá para cair em contextos abusivos dentro de um relacionamento. Que aquela pessoa que é tão legal pode, sim, apresentar traços abusivos na forma de se relacionar. 

Por mais que eu tenha optado em não permanecer no meu, ainda acredito que pessoas mudam. Prefiro acreditar que existe gente que quer aprender a enxergar a sua responsabilidade dentro dos relacionamentos. Homens que querem prender a enxergar os traços de machismo que estão ali, sutis mas poderosos. Quanto antes você entender esses sinais, e dependendo da disposição do/da seu/sua parceiro/parceira para repensar comportamentos, pode ser que existam esperanças. E esse relacionamento seja, enfim, saudável. 

3 em #paposobremulheres/ Autoestima/ Relacionamento no dia 04.03.2020

Carta aberta para a mulher dentro de mim que viveu 2 anos de relacionamento abusivo

Resolvi colocar no papel (ou melhor, na tela) mais detalhes sobre tudo o que vivi no meu primeiro namoro. Foi meu primeiro amor, mesmo sendo extremamente abusivo. E durou dos meus 16 até os 18 anos. Então, para quem está passando por isso ou passou recentemente, deixo aqui meu alerta de gatilho.

Nos conhecemos porque eu estudava com a irmã mais nova dele. Certa vez, ela pegou tuberculose e alguém tinha que levar as lições e trabalhos no período que ela estivesse afastada, para que não repetisse de ano. A maioria das pessoas do colégio tinha medo de ir até lá e pegar a doença. Nunca tive medo dessas coisas e me dispus a ir.

Uma noite saí de lá um pouco tarde, e o irmão dela se ofereceu a me deixar em casa. Já estávamos paquerando e nessa noite ele me beijou. Nunca vou esquecer a sensação ao beijá-lo. Já tinha ficado com muitos caras, mas a atração física por ele era algo muito maior do que tinha experimentado até então. 

Duas semanas depois do primeiro beijo, perguntei se poderíamos ficar com outras pessoas e ele disse que estávamos namorando.

Informações sobre mim antes de nos conhecermos. Tinha um corpo padrão, zero problema de imagem e sempre fui muito comunicativa. Dei meu primeiro beijo aos 14 anos e depois disso sai ficando com quem queria. Aos quinze fiquei com um cara e fiz sexo oral nele, com outro e este fez sexo oral em mim, mas não passei disso.

Por quê eu dei essas informações? Porque o pesadelo começou a partir do momento que achava que poderia contar tudo para o namorado e isso não seria usado contra mim. 

Menos de um mês depois do início do namoro, cheguei na casa dele e o mesmo me disse que o cara que eu dei o primeiro beijo foi até a casa dele dizer que tirou minha virgindade. Só que, segundo ele, não acreditou e disse ser mentira, porque foi ele quem tinha tirado minha virgindade, mas nessa ocasião ainda não tinha acontecido. Fiquei muito, mas muito brava com esse cara que inventou esse absurdo (eu faria 17 anos no mês seguinte a esse episódio) pois para mim a virgindade era algo muito, muito importante. Como a grande maioria das mulheres da minha época, fui ensinada assim. Nunca falei com esse cara à respeito. Só muitos anos depois que comecei a questionar se isso não foi intriga do namorado, que estava jogando o famoso verde pra colher maduro. Mas era cega demais por ele para enxergar algo na época.

Um dia o namorado foi comigo visitar o túmulo do meu pai (que faleceu quando eu tinha 13 anos). Pediu para ficar sozinho uns minutos e, em seguida, falou que prometeu pra o meu pai que iria cuidar de mim.

Isso mexeu comigo de uma forma muito mais profunda do que imaginei.

O namorado nunca conviveu com minhas amigas. Nunca deixei de vê-las, mas perdi algumas festinhas e comemorações por causa do fato delas não gostarem dele, e vice-versa. 

Tínhamos 8 meses de namoro quando eu fui visitar o cara do sexo oral (que era meu amigo) junto com minha melhor amiga. Contei pra o namorado, que reagiu dizendo que tinha morrido a confiança que tinha em mim.

E que eu tinha que provar que merecia continuar o namoro.

ilustra: Joana Heck

Mandou que eu chamasse o cara em casa e, quando abrisse o portão, desse um tapa na cara dele. Inclusive, fui instruída a dar o tapa em um ponto X do portão da minha casa que o meu vizinho, amigo do meu namorado, pudesse ver. Eu liguei, e como o cara notou a minha agonia no telefone, veio correndo na sua hora do almoço. Quando expliquei chorando o que tinha que fazer, o meu amigo falou que eu poderia bater nele. Avisou que ele não me odiaria, nem pararia de falar comigo por conta disso, mas que o pedido em si era cruel e grosseiro. Pediu para eu analisar essa relação. Claro que só chorava e não bati nele.

Quando contei que não consegui para o namorado, ele já sabia. O vizinho já tinha contado. Eu fui torturada psicologicamente por muito tempo por conta disso. Eu tinha medo de falar com homens na rua e ele ficar sabendo.

Depois de um ano e um mês de namoro, teve minha formatura. Fui com ele escolher o vestido. Me convenci que era o que eu queria, mas nem me reconheço nele. Eu sempre amei exibir meu corpo e o vestido era todo fechado, só tinha uma fenda e transparência (dependendo da luz). Antes disso, no meu aniversário, ganhei dele uma camiseta e uma calça de tecido fino. Amei, mas hoje olho para trás e vejo o quanto ele escondia meu corpo sem que eu notasse.

Eis que com 1 ano e 2 meses de namoro, perdi a virgindade com ele. E o inferno tomou uma proporção abissal. 

O sexo com ele era incrível. Inclusive não senti dor quando perdi a virgindade e sempre sentia muito prazer. Brigávamos todos os dias e transávamos sem conversar. Quando não brigávamos, achava estranho. Sentia até aflição, como se o normal de uma relação fosse brigar todos os dias. 

Durante o sexo, ele sempre deixava um chupão em algum lugar (e eu acabava deixando nele também). Na época não percebia o quanto isso era uma falta de respeito e uma forma dele marcar território no meu corpo.

Sete dias depois que perdi a virgindade, tivemos uma briga feia. Ele terminou comigo no dia, mas chegou na minha casa na tarde seguinte e me mandou entrar no carro (que cheirava à motel e tinha aqueles kits de sabonetes a mostra para que eu visse). Confessou que me traiu com a uma mulher do trabalho, para que não voltássemos mais. 

Ele sempre colocava a culpa em mim, inclusive da traição. 

Só que eu acreditei que tinha sido culpa do quão magoado ele estava comigo. Escrevendo isso que percebi: o esquema da traição já devia rolar muito antes de transarmos – e deve ter rolado muito tempo depois. Só sei que isso me destruiu profundamente. Uma traição declarada depois de 7 dias que transamos pela primeira vez.

Tudo só foi piorando. E a agressão saiu do psicológico para o físico. Ele pedia para contar como foi o sexo oral com o cara. Como recebi sexo oral do outro. E terminava a conversa me batendo com murros, chutes na costela e dizia que só fazia isso porque eu tinha errado.Ele deixava poucos hematomas porque sabia o que fazer para que não ficassem evidentes. 

Teve um dia que ele me jogou do carro no meio da rua, em frente a casa de uma colega de colégio. Ela contou para as minhas amigas, que na época não se conformavam por eu aceitar aquilo. 

Quando cai no meio da rua – o que poderia ter terminado em tragédia – corri feito louca atrás do carro, chorando, implorando para que ele voltasse. 

Aliás, me humilhar e implorar para ele não terminar comigo depois de ser agredida psicológica e/ou fisicamente era algo que eu fazia o TEMPO TODO.

Até porque, segundo ele, se terminássemos nunca mais arrumaria ninguém. Afinal, não era mais virgem. 

Eu e minhas amigas éramos todas muito novas e sem experiência alguma. Só fomos conversar a respeito depois que fui pedir ajuda para que elas me ajudassem a não reatar o namoro. Há 23 anos, nem se falava em relacionamento abusivo na época.

Um dia, o namorado de uma colega de colégio contou para as minhas amigas que ele me traia muito onde estudava. Lógico que não acreditei, e ainda fiquei com ainda mais raiva desse cara.

Um dia ele foi me buscar dizendo que me levaria para o trabalho. Assim que virei a esquina de casa, pediu para que eu tirasse os óculos e me deu um murro no meio da rua. O motivo? Tinha passado a noite bebendo com uns caras do bairro e um deles contou que sempre dei em cima dele, mesmo sendo casado. 

Detalhe: esse cara casado era meu amigo de colégio e sempre brincava que se não fosse casado, poderíamos namorar. E eu nunca nem cheguei a cogitar isso.

Essa tortura física durou 10 meses. Somente no ano passado reconheci que a tortura psicológica começou MUITO antes disso, antes até de completarmos 1 mês de namoro.

Minha irmã um dia vendo o quanto eu sofria com aquela relação que todos percebiam que me fazia muito mais mal que bem, disse: Não é porque você perdeu a virgindade com ele, que vocês têm que ficar juntos para sempre. 

Pouco tempo depois dessa conversa, fui terminar. Ele deu uma gargalhada, sem acreditar que eu finalmente tomaria essa atitude. Mas tomei. E sofri durante muitos anos. Sofri quando ele começou a namorar, 3 meses depois. Sofri quando noivou. Sofri depois, quando se casou. Chego a sentir a dor que essas notícias me causaram enquanto escrevo, mas bem menos.

O objetivo desse texto é desabafar coisas que até agora não tinha falado para ninguém. Talvez por medo de encarar o que sinto quando mexo nisso. Mas hoje é menos difícil porque, com a terapia, aprendi a me perdoar por ter permitido todo esse terror.

Nove anos depois do término, ele me pediu perdão e posso garantir que não me ajudou em nada. Somente no ano passado comecei o real processo de cura, porque até 2019, sonhar com a gente se encontrando e como se ainda o amasse do fundo da alma era algo comum e perturbador. 

A terapia está me salvando e ajudando a transformar feridas em cicatrizes.

Se você leu até aqui faço uns pedidos:

  • Se está vivendo algo parecido, não sofra sozinha. Não se culpe e peça ajuda para sair dessa relação. Não espere essa pessoa melhorar, porque isso não vai acontecer. 
  • por favor, encontre uma terapeuta para falar a respeito. Se não fosse a Gi (minha terapeuta maravilhosa) não estaria nem perto de revisitar essa história sem me acabar de chorar.