Essa semana me peguei lendo um daqueles clichês que atribuem à Fernando Pessoa. Nunca sei o que é dele ou não, mas tenho certeza que essa frase está certa.
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.“
Percepção de valor é algo muito particular. Eu posso ter visto valor em algo e a outra pessoa não, mas quando um grande encontro acontece, ainda que nada seja dito, dá para sentir que algo importante ocorreu. Esse tal “valor das coisas” pode ser percebido quando elas de fato mexem com a gente e para isso não é preciso explicação, só é preciso sentir.
O tempo que elas duram não dita as marcas que ficam em nossas vidas. Algumas pessoas ficam meses ou até mesmo anos no nosso caminho e não criam um legado, não nos ajudam a crescer.
Por sua vez outras pessoas precisam apenas de horas para provocar mudanças eternas, as vezes uma palavra, um arrepio, uma conversa ou um beijo roubado nos tiram tanto da zona de conforto que nos obriga a alterar a forma de ver a vida. Pode parecer loucura para os céticos, mas acredito piamente que tem gente que precisa de menos de um dia pra virar nossa vida do avesso. Claro que nem por isso acho que essa pessoa precisa estar ali no longo prazo, muito pelo contrario. Quanto maior o agente transformador, mais insustentável é cultivar uma relação duradoura.
Confesso que já precisei fazer as pazes com meu coração para entender que existem pessoas que precisam passar, provocar a mudança e sair. Que elas nos transformam, mas não cabem nas nossas vidas. Que o papel delas era “apenas” esse, concluído então com sucesso. É o vento que traz as alegrias do tempo de mudança, como quando os dias frios de inverno terminam e dão espaço às primeiras flores da primavera.
Não há explicação racional que justifique isso. Só os que vieram com termômetro aguçado para a sensibilidade perceberão a tempo a nuance de algo tão efêmero, mas que deixa marcas. Com o tempo acho que me peguei “mais esperta” e conseguindo entender o quando histórias curtas começam, permitindo assim que eu desfrute plenamente do tempo presente que ali passou.
Eu encontro nisso minha minha percepção pessoal de “carpe diem“. Um desafio difícil, porém mágico quando obtemos êxito. Quando sei que aquilo tem horas contadas no relógio, escolho aproveitar cada segundo como se fosse o último. As vezes é um momento de uma viagem, outras vezes é um cara que cruzou seu caminho e tem hora que é um simples momento de conexão pessoal. Adoro viver aquilo plenamente. Entendendo que nada mais será igual.
As vezes acredito que só existe o hoje e por isso o tempo que as coisas vão durar começa a ter um “que” de irrelevante. O que interessa é o quanto cada história mexe conosco.
Isso pode acontecer com um cara, uma melhor amiga ou qualquer pessoa que ajudou ou ajuda a transformar a sua vida. Não precisa ser uma relação duradoura, não precisa ser vigente, ela só tem que provocar uma mudança, se tornar inesquecível ou mesmo incomparável.

No meu caso, nas poucas vezes em que isso aconteceu ocasionou-se um processo profundo, dolorido e prazeroso ao mesmo tempo. Algumas horas já foram capazes de me mudar pra sempre. No entanto quando se trata de um relacionamento amoroso existe um perigo eminente nisso, o de superestimar todo o acontecimento e idealizar coisas que não são reais. Seja a pessoa, a relação ou a situação. Certas coisas são válidas apenas por um curto prazo de tempo.
Muitas vezes com medo de sentir falta da pessoa romantizamos tudo para florear as memórias e nos manter conectados com aquela situação, criando um elo de ligação para nunca mais esquecer. Dai fica o pulo do gato: entender e aceitar a importância que esses rompantes têm na nossa vida e seguir em frente. Não se prender mais do que deve nesse elo criado por você. É um risco vigente pra paixões “platônicas”. Estamos em 2016 e ninguém aqui quer viver grandes romances no mundo das ideias certo?
Na minha vida quem passou como um furacão não trouxe uma sensação de paz necessária para se viver feliz a longo prazo. Por isso acredito que certas pessoas vem com um prazo de validade curto, ainda que sejam muito importantes. Eu não sustentaria certos sentimentos e sensações a longo prazo. Têm certas coisas que foram feitas para serem lembradas e não revividas.
Furacões passam, desconstroem tudo e se vão. Eles provocam mudanças, mas não ficam para ver o cenário se reconstruir melhor.
Eu já vivi histórias que não deixaram pedra sobre pedra no meu caminho, daquelas que te fazem parar de dormir, comer ou te desconcentram nas horas mais inoportunas. É uma delicia viver isso, mas também dói. É paradoxal. É intenso, delicioso, porém desconfortável depois de um tempo. Pode ser curto, porém importante e inesquecível.
Desconstruída por uma causa efêmera, ou melhor, por um caso efêmero, já resolvi mudar o itinerário do meu caminho. Foram 8 dias de história e mais de um ano de mudanças. Me lembrei então do clichê, o valor que vejo não está no tempo que as coisas duraram na minha história, mas na intensidade com que elas aconteceram, no aprendizado que ficou, no que descobri sobre mim mesma nesse processo.
Aprendi que para o novo vir o antigo precisa ir. Por isso não adianta idealizar, criar um príncipe encantado imaginário e nem insistir no que não consegue acontecer. Certas coisas são curtas porque elas têm que ser, elas deixam um legado, mas não tem um desfecho de comédia romântica. Acredito muito que só o que tiver muita força para ficar vai permanecer na minha vida.
Aceitar o que foi importante é o primeiro passo para deixar o passado ir embora sem dor. Pra mim foi difícil abrir mão do sonho de “dar certo” com algumas (poucas) pessoas, mas foi igualmente libertador entender que cada uma delas teve sua real relevância na minha história e não é o tempo que passamos juntos que define isso.
Beijo
Jô
