Eu, Jô, toda a semana venho dividindo com as leitoras e leitores do blog as dicas e experiências do mochilão que fiz pela EUROPA no início do ano de 2008, mas essa semana resolvi apertar pause para darmos um pulinho em outro continente, o Africano.
Como nem eu e nem a Cah fomos ao Marrocos quem vai contar um pouco desse país e de outros destinos diferentes vai ser a minha amiga Thais!
Vamos passar a bola para a Thais?
Oi, pessoal.
Resolvi vir aqui porque curti muito a parte Trip Tips do f-utilidades, e resolvi ajudar a querida Jô a enriquecer o blog com mais cultura geral.
Antes de tudo, deixe eu me apresentar: meu nome é Thais, tenho 24 anos, trabalho em uma empresa de cosméticos (apesar de ser jornalista). Mas, antes de assumir a vida normal cotidiana, tive uma experiência sensacional: fui comissária de bordo de uma companhia aérea francesa, que me permitiu morar dois anos maravilhosos em Paris e curtir férias em lugares diferentes.
Vou escrever sobre três lugares especificamente: Marrocos, China e Tailândia.
Marrocos
O Marrocos tem quase 32 milhões de habitantes e se localiza na região do Magrebe (chamo carinhosamente de as barbas do Saara). Localizado no norte da África, possui o islã como religião oficial e possui um regime monárquico. A sua capital é Rabat, mas a maior cidade é Casablanca (“you must remember this…”). Entretanto, não visitei nenhuma das duas. Minha aventura foi mais interiorana.
Viajei com um grupo de seis pessoas (quatro garotas e dois rapazes, um deles, meu namorado). Entramos no Marrocos pelo porto de Tanger, após cruzar o estreito de Gibraltar. Pegamos um ferry na cidade de Tarifa, na Espanha (em 2008, custou 40 euros e levava 40min). De la, pegamos um taxi e fomos a estação de trem. Primeira dica: não confie em ninguém nesse momento. Perguntamos o preço do taxi até a estação e todos disseram que custaria seis euros. Ficamos animados de tão baratos. Seis euros eram 600 dirhams. Na verdade, o taxi não custaria mais do que 150 dirhams. Marroquinos(1), brasileiros(0).
Na estação, escolhemos o melhor trem: com ar condicionado e direto, ele realizaria 3h entre Tanger e Fez, uma das cidades mais antigas do pais. Segunda dica: trem direto não significa trem direto. Parece estranho, mas trem direto significa que você não troca em nenhuma estação. Mas ele para por todo o trajeto. Ao invés de três, levamos seis horas, parando em milhares de lugares. Terceira dica: leve seu lanche e sua água. No trem eles vendem, mas so quem compra são os turistas. Não vale a pena.
Eu já sei como é o inferno. Não tente fazer o mesmo que fizemos. Foi o dia mais quente das nossas vidas. O sol do verão africano aquecia tanto o trem que a refrigeração era apenas um jato de ar morno saindo das janelas, que não abrem. Ficar dentro de uma caixa de metal sem ar circulando enquanto ela aquece no sol nos fez passar muito mal. Por hora, íamos até as portas do trem, para sentirmos o vento, entretanto, não melhorava muito: o calor do ar era similar a um secador de cabelos ligado sobre você em uma tarde de verão.
Enfim, chegamos a Fez! Ficamos no hotel Batha, três estrelas. Mas não se engane, so ficamos la pois era o mesmo preço do albergue, mas tinha piscina. Além disso, o hotel é MUITO bem localizado, bem na entrada da Medina, mas em um ponto onde podemos ir de carro.
Logo em nosso primeiro passeio, pudemos entender porque mulheres sozinhas sofrem em viagens ao mundo árabe: no calor intenso e seco, shorts e camisetas são inevitáveis, o que desperta os olhares e as cantadas agressivas dos homens mais vulgares. Nem todos são assim, mas há aqueles bem ousados. Entretanto, quando acompanhada de um namorado, eles são extremamente respeituosos e não olham para você, assim como não falam diretamente com você. É cultural. Não se sinta ignorada ou menosprezada. Entenda que eles foram criados assim e tente encarar na boa.
Os três dias em Fez foram enlouquecedores. Todos os dias levantávamos cedo e passávamos o dia perdidos nos corredores da Medina, que é patrimônio da Unesco. A Medina é uma cidade antiga e estreita, com ruas pequenas e sujas e muitas lojas e comercio. Para quem gosta de pechinchas, é o lugar ideal. Até a água passa por negociação. As vezes é um pouco sufocante. Não tenha medo de pedir o preço que você quer pagar e não abra mão dele. Em 90% das vezes, compramos tudo ao preço que queríamos. Ao sair da loja recusando as ofertas, os comerciantes vinham correndo atrás, baixando o preço desesperadamente. Sempre da certo!
Se você lembra da novela O Clone, não pode deixar de visitar o famoso cenário de passagens da novela: os tanques de tingir couro. Mas não dispense a folha de menta que lhe sera oferecida; como tudo é cobrado no Marrocos, não aceitei. O cheiro é insuportável, apesar do visual maravilhoso.
Em nosso ultimo dia, passamos por uma reviravolta: uma amiga nossa foi convidada para tomar um cha em uma terrase. Sem temer nada, ela aceitou e logo nosso grupo foi atrás. Entramos em uma loja de couros e bolsas e, no topo, sentamos em um tapete para beber cha de menta (vou explicar em breve) e fumar narguilé. Em pouco tempo, entendemos o propósito daquilo: nos vender um pacote de viagem para o deserto. Eu era a única desanimada com aquela proposta. Não queria que meu rim fosse vendido como carne de camelo. Mas, vencida, nem discuti. Fechamos um tour de três dias e duas noites com os negociantes astutos…
Naquela noite era aniversario do meu namorado e decidimos ir a um restaurante típico e caro, na frente do hotel. Para gringo ver… A decoração era maravilhosa, havia um grupo musical tocando as tradicionais musicas árabes (de novo, lembrando de O Clone). Negociamos inclusive o preço do jantar. Cada um escolheu o prato típico que lhe convinha: bolas de carne com ovo, frango com limão ou cuscuz marroquino. Para sobremesa, mais cha de menta e doces tradicionais. Uma noite de REI.
No dia seguinte, cedo, tivemos duas baixas. Meu namorado e uma amiga passaram mal o dia inteiro. Justo o dia em que pegamos uma van rumo ao sul. Passamos por um momento ultratenso ao entrar. Enquanto dois carros seguiam a van, nosso motorista se comunicava em árabe com uns motoqueiros. Começamos a achar que estávamos sendo seqüestrados. A van estacionou em uma esquina e o rapaz que nos vendeu o tour entro e cobrou nosso dinheiro. Pensamos: estamos sendo assaltados.
Mas isso é mentalidade de carioca acostumado. Era puro preconceito. Nosso motorista era muito legal e costumava trabalhar com turistas. Ele, na verdade, adorava apresentar seu amado Marrocos aos estrangeiros e nos contou muitas historias legais no caminho. Pena que dois de nos paravam a cada instante para vomitar.
Paramos em um restautante beira de estrada para almoçar, mas não tivemos coragem de comer. Não achem que era frescura… Se no melhor restaurante da cidade tivemos duas baixas, o que esperar daquele açougue no meio do nada? Os olhares dos caminhoneiros marroquinos e das crianças perdidas era enlouquecedor. Nunca tinham me olhado com tanta curiosidade na vida. Fiquei surpresa.
Seguimos rumo ao sul por paisagens sensacionais. Paramos em uma floresta e alimentamos macacos. Aos poucos, o verde ia dando lugar ao árido e sentíamos o deserto engolindo o clima tropical. Subimos e descemos montanhas até finalmente chegar ao Saara. E, de repente, no meio da estrada, a van entrou na areia. Ficamos muito curiosos com aquele caminho. Imagine uma estrada onde, dos dois lados, você so vê areia e dunas cor de ferrugem. De repente, seu carro sai da estrada e segue rumo às dunas.
Depois de seis quilômetros assim, chegamos ao albergue de onde sairia a caravana (os dromedários e o acampamento). Resolvi ficar no hotel com os dois doentes e nos separamos em dois trios. O albergue era de barro e não tinha energia elétrica. O gerador so funcionava de 18h as 22h, sendo desligado em seguida. Nosso quarto tinha uma microjanelinha travada e duas enormes camas de casal. O calor do barro que passara o dia inteiro aquecido era insuportável. Mesmo de noite, o deserto era quente e sugava toda minha água. Estendi uma canga no quintal e deitei os doentes, trazendo copos de água (quente, pois o reservatório ficava o dia inteiro no sol) e jogava neles, em uma tentativa desesperada de refresca-los. Os cozinheiros prepararam arroz e frutas cozidas para eles e me preparam um prato típico cheio de carne. A carne tinha um gosto muito diferente da que eu conheço, portanto ofereci tudo ao gato do hotel, comendo apenas arroz.

O cha de menta é a principal bebida no Marrocos. Oferecido a todos, ele faz parte de um jeito cultural muito estranho aos brasileiros de resfriamento: segundo os marroquinos, no auge do calor, devemos beber ou tomar banho quente, para resfriar o corpo. Não sei se essa teoria é valida la devido ao calor (sou jornalista e não bióloga), mas não funcionava pra gente. Passei a noite levantando a cada meia hora para umedecer meu pijama e minha cama. No dia seguinte, acordei com febre e dor de garganta. O trio voltou do passeio no Saara e estava desesperado por banho, mas a água quente deixou todos moles e cansados…
Mais um dia na van. Nosso guia nos levou a um lugar sensacional, chamado Gorge de Dadès. Trata-se de uma falha na montanha, onde corre um rio com água gelada (é a neve que desce do topo). Uma brisa gelada corria, enquanto os marroquinos faziam piquenique. Achamos o lugar lindo e extremamente agradável.

De partida, nosso guia resolveu parar em uma piscina. Chegamos a uma espécie de parque aquático marroquino. Nossa surpresa foi descobrir que não havia nenhum estrangeiro (era o segundo dia que não víamos ninguém do ocidente) e que as mulheres todas descansavam com seus véus na sombra, enquanto os homens nadavam animados. Desistimos da idéia de mergulhar. Quatro mulheres de biquíni? Cadeia na certa!
Chegamos a um hotel com ar condicionado (como fez falta) e passamos a noite la. Minha febre piorou e eu apaguei antes das 21h.
No dia seguinte, tocamos para Merzouga e Ouarzazate. Visitamos um famoso estúdio de cinema, onde filmaram Lawrence da Arábia, Cruzada, Cleópatra, Alexandre e centenas de filmes que se passam no deserto ou em Jerusalém. Foi sensacional!
No final da tarde, alcançamos Marrakesh, nosso destino final. Nos separamos do nosso guia e da van maldita (eu não mencionei antes, mas o ar condicionado não funcionava).

A primeira impressão foi: quem deixou o secador de cabelos ligado? O vento seco e quente era bastante incomodo. Encontramos o nosso Riad (uma espécie de acomodação árabe) e partimos para a praça principal. Dois amigos resolveram beber suco de laranja, das mil barracas que oferecem.
Naquela noite, jantamos e fomos dormir. O cansaço era geral do calor e decidimos aproveitar o dia seguinte. O café da manha na terrase era sensacional, com a vista de toda a cidade. Mal começamos a nos aventurar, os dois aventureiros da laranja começaram a passar mal e voltaram para o hotel. De seis, cinco passaram mal. Leve Floratil. Você com certeza vai precisar.
Marrakesh é mais cosmopolita. Há Zara, Pizza Hut, Mc Donalds e mulheres sem véu. Estávamos tão exaustos que não aproveitamos a cidade tanto quanto queríamos: não tínhamos condições de aproveitar os bons restaurantes ou de passar o dia andando no calor. A exaustão era terrível, mesmo para jovens entre 21 e 23 anos. Apesar disso, gostamos muito do clima das pessoas, animadas e simpáticas.
Dica: não abrace ou beije seu namorado em publico: não tenho certeza, mas acho que é crime. Foi assim que me senti ao abraçar o meu. Fui vaiada!! Total falta de respeito da minha parte… Que vergonha!
Foram sete dias de aventuras no pais, mas a dica mais importante é: evite o Marrocos no verão. Minha amiga que foi no inverno aproveitou mais e até visitou as montanhas nevadas.
Até a próxima!