Já falamos por aqui sobre a visita da Sabrina Sato ao nosso QG, tentamos resumir em poucas palavras tudo que aconteceu, mas foi dificil! A Sabrina foi uma visita que virou um show a parte, quem viesse no dia seguinte teria um desafio enorme pela frente, prender nossa atenção tanto quanto ela fez… Um desafio cumprido com sucesso por uma pessoa muito importante para a moda nacional, Paulo Borges.
Se você não conhece o Paulo, idealizador do calendário de moda nacional, pode colocar no Google e navegar por todos os seus feitos nos últimos 30 anos. Ele criou o SPFW e o Fashion Rio, trouxe a cultura dos desfiles para o país e começou com sucesso o nosso calendário oficial. Hoje o SPFW está entre as semanas de moda mais importantes do mundo.
Ele falou um pouco do mercado, do trabalho dele durante a semana de moda, da informalidade do setor, da democratização da moda. Mais uma vez, achamos uma pena não poder mostrar toda a conversa e os assuntos se desenvolvendo por aqui, mas é muito bom já ter um pedacinho do que foi essa conversa.
Bom né? Fora tudo isso, ele conversou muito sobre algo que sempre batemos na tecla, principalmente nos DQF de toda segunda: os preços da moda nacional e como os impostos, as taxas, os custos e todas as outras variáveis dificultam mesmo o crescimento do setor, deixando ele muito engessado e incapaz de trabalhar preços melhores.
No meio da conversa, ele soltou uma frase que resumiu tudo que a gente gastou palavras e mais palavras pra falar: o pior sócio que as nossas empresas têm é o governo, além de não fazer NADA para AJUDAR, ainda leva 30% do que a gente ganha. Hoje em dia, como empresárias, não poderíamos concordar mais. Altos custos, altos impostos, muita burocracia e nenhuma, nenhuma ajuda, de nenhum lado.
O Paulo associou a quebra de tantas empresas à mudança do setor - que era bastante informal - e teve que se formalizar. Ele também passou por um ponto muito delicado, a antecedência das compras de matéria prima sem nenhum adiantamento do “cliente multimarca” para a marca, que vende no atacado. Eu já acompanhei isso de perto e é muito delicado. Você faz uma aposta de tecido, paga, faz a venda nas feiras ou pelos representantes, recebe o pedido, mas o pagamento só costuma vir uns 90 dias depois. Então, as marcas têm que pagar tudo antes, sem saber como vai ser. Nesse quadro, se uma multimarca cancela o pedido, pode prejudicar muito uma marca, da mesma forma que uma marca que não entrega o pedido, pode prejudicar muito a multimarca. Haja crédito para fazer a coisa funcionar de forma redonda nesse esquema. Somando essas apostas aos impostos fica quase impossível não fazer uma precificação alta. São muitas as coisas que têm que mudar por aqui para podermos andar para frente, termos uma indústria sem prejuízo e que consiga praticar preços mais competitivos.
Outra questão que achamos importante na conversa foi a visão da moda como cultura. É um assunto polêmico, muita gente acha que essa categoria não deveria ser encarada como cultura por achar que se trata de mera futilidade, mas nós defendemos que ela seja vista como identidade cultural. Tantas outras coisas têm incentivo do governo por serem em prol da cultura, porque não incluir a moda nessa conta? Não concordamos com a história da Lei Rouanet para um estilista apenas, como aconteceu com a história do Pedro Lourenço, mas por que uma exposição de arte é tão mais importante que uma semana de moda? O trabalho dos estilistas também é uma forma de arte, de expressão, e vai bem além de uma indústria enorme, que por sinal, é uma das maiores empregadoras das mulheres brasileiras no mercado de trabalho.
Queríamos lembrar com precisão de tudo que rolou lá, mas já achamos de bom tamanho espalhar por aqui que Paulo Borges nos surpreendeu de diversas formas. Ele pareceu ser uma pessoa muito realista, pé no chão e, mesmo assim, apaixonada, dedicada e determinada!
Seguimos pensando numa forma de ajudar a moda nacional. Sabemos que não vale ser simplista e falar “compre mais por aqui”, tem que ir muito além, temos que encontrar uma forma de alimentar toda a cadeia de produção, consumindo desde tecido à aviamentos brasileiros. É uma tarefa difícil, ainda mais com a China crescendo mais e mais e com preços impossíveis de competir, mas não custa nada alertar sobre a situação e tentar fazer algo para que esse quadro mude!













