Existem olhares de pena que se traduzidos falariam: meu Deus, o que aconteceu com você? Também poderia ser: nossa, ela era tão mais bonita loira, ele era tão melhor de cabelo curto. Como você pôde cortar aquele cabelo? Por que engordou tanto? Por que ele tirou a barba? Por que ela parou de alisar o cabelo? Nossa, como ela conseguiu chegar a isso? Por que ela terminou? Por que ela está sozinha? Por que ela fez isso com ela mesma? Quem já quebrou padrões sabe do que eu estou falando.
São tantas as variações possíveis de imposição de padrão de beleza e comportamento e são tantas críticas que quando você opta por quebrar essa expectativa, que haja coragem de sobra para encarar os olhares.
Mesmo eu me achando sexy, feliz e bem resolvida com meu corpo fora dos padrões, tem hora que não é mole ser diferente. É difícil viver tendo que explicar, criar desculpas e se justificar por não ser como os outros querem ou esperam. Eu cansei. Cansei de mim, cansei dos outros. Por mais que eu escreva com frequência sobre a minha boa relação de aceitação com meu corpo, com minha autoestima, eu também tenho minhas questões delicadas e meus dias difíceis, nessas exceções moram as questões mais sensíveis.
A ditadura da beleza é tão punk que quando eu vejo estou me justificando pelo atraso em fazer a sobrancelha. Quantas vezes eu me expliquei por estar sem tempo de fazer a raiz do meu cabelo? Várias. Quem está errada? Eu mesma. E sabem do pior? Também não me choco ao ouvir a amiga explicar que não pode ir para a praia comigo por não ter tido tempo para se depilar naquela semana. Deveria me chocar, mas não, isso não acontece. Somos todas reféns em algum grau.
Uma das coisas que eu mais odeio, mas ODEIO mesmo, é quando me pego me justificando do porquê eu engordei tantos quilos ou do porquê escolhi fazer algo diferente do que todo mundo espera. Fico com preguiça de mim. Fazendo uma autoanálise, percebi que como ninguém se salva de críticas - sejam ela veladas ou não - eu provavelmente enraizei em mim que preciso me justificar, já que eu peso mais do que deveria.
Engraçado que tudo isso ficou muito claro quando minha vida amorosa ganhou força, como se não bastasse eu ter que explicar porquê de ter engordado, ainda tenho que desenhar os motivos de eu fazer mais sucesso do que muita garota dentro dos padrões. Não tem justificativa que não a autoestima pro “meu mel” (como já me falaram), mas ninguém tem nada a ver com isso. Sou só mais um exemplo de que tudo é possível quando estamos de bem com a gente.
Quando me pego nesse ciclo vejo que eu sou tão vítima quando predadora, porque na hora que busco justificativas, ainda que de uma forma inconsciente, estou alimentando essa indústria da busca pelos padrões. Esses que em tantos casos custam a saúde (mental e/ou física) de tantas pessoas.
Não, eu não quero ter que explicar. Me achou “gordinha”? Ótimo, não posso fazer nada, você está no seu direto, já eu estou no meu de te desprezar por isso. Tá me achando “piriguete”? Ok, e o que achar isso de mim vai acrescentar na sua vida? Não entende porque eu, tão fora dos padrões, consigo ficar com todas as pessoas que eu gostaria? Bem, não sou eu quem vai tentar te fazer entender isso.
Se eu comer uma coisa bem engordativa e gostosa não quero colocar uma legenda de culpa ou escrever que “hoje pode”. Eu é que sei quando pode. Se eu viajar de férias não quero ter vergonha de voltar mais cheinha e me explicar por isso. Não quero me justificar por ter resolvido dormir com alguém, só eu sei dos motivos que me levaram a ter vontade. É, eu cansei!
Que sociedade é essa que me faz ter tanto medo do julgamento? Se não for a balança vai ser o nariz, se não for o nariz vai ser o jeitão, se não for o jeitão vai ser um texto que um dia falou algo equivocado. Não existe unanimidade, não existe ser de um jeito específico para ser aceita. Não existe saída, ou você vive com uma máscara muito diferente de quem você realmente é, ou vai ser feliz e estar sujeita a críticas.
Muitas vezes a doença não está no outro, está na gente mesmo, que se preenche de preconceito quando vê uma menina magra com um cara gordinho. Pode ser qualquer coisa, um cara gostoso com uma menina cheinha, um loiro de olhos azuis com uma mulher negra, um cabelo cacheado que você acha ruim, ou qualquer outro tipo de preconceito visual existente. O julgamento é o começo do erro.
Só sei que eu não quero mais ter que enumerar motivos para ser como eu sou. Claro que muitas vezes explicações são válidas aqui no blog, elas criam pautas, contexto e nos aproximam, mas eu gosto quando isso acontece de forma natural, quando faz sentido para todos.
Já aprendi o segredo do sucesso há algum tempo: autoestima, autoconhecimento e autoaceitação. Se vivo e vibro tudo isso por que ainda me pego tendo que me explicar?
Eu quero “perder” meu tempo com quem me percebe além da casca. Magra ou não, quero passar meu tempo com pessoas que gostem do que eu sou, não do que eu mostro.
Mudar padrões é algo muito difícil, mas cá estou eu de novo dando a cara para tentar. Eu não quero ser como ninguém, eu só quero ser eu mesma, sem precisar ficar na defensiva por isso.
Beijos
Jô






