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racismo

2 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 19.02.2020

Ok, minorias importam pra você… Mas até que ponto?

Queria fazer uma pergunta delicada aqui no blog, mas antes preciso colocar um conceito em perspectiva. Quando falo em minorias, não falo de números absolutos, mas em ocupação de espaços de poder.

Considerando que ainda hoje em dia, o homem hétero branco é a maioria – ainda quase absoluta em alguns setores – de ocupação de espaço. Seja nos altos cargos na carreira, no poder público e privado. Eu queria saber de vocês aqui:

Quais de vocês já se relacionaram afetivamente com alguém que não atende ao requisito de homem hétero branco típico padrão?

Se você respondeu não, significa que você nunca se relacionou com homens negros. Ou com alguém que tenha alguma deficiência, ou até outras mulheres. Ou alguém com alguma questão que o/a transforme em uma minoria de ocupação de espaço.

Bom, esse post não tem a intenção de te julgar, mas sim de causar uma reflexão. Será que é coincidência? Provavelmente não.

ilustra: Mara Drozdova

Pergunto isso porque tenho visto algumas pessoas que INVALIDAM todo e qualquer debate sobre a importância de nos acostumarmos com pessoas diferentes ocupando espaços e dando a elas OPORTUNIDADE de chegar onde quiserem. E nesse caso, EM GERAL noto que são pessoas que falam que não têm preconceito. Mas percebo que elas JAMAIS se relacionariam com uma pessoa fora do esperado, em qualquer que seja a questão do padrão.

E que mal há nisso? Exemplifico. Noto gente que não convive com nenhuma pessoa negra dizer que não é uma questão de racismo, é uma questão social. Mas não há uma pessoa negra no mesmo nível social em seu convívio, então ela nem consegue saber se ela também passa por barreiras só pela cor da pele. Sem uma convivência real ou uma troca de ideias sem muros, não saberemos nunca o que o outro passa.

Sinto que o medo do que os outros irão achar causa um certo desconforto social. As vezes, para as pessoas serem quem são, é preciso ser compensado por algo só por não atender a um padrão. Pessoas que vivem a realidade de julgamento coletivo, de menos oportunidade, acabam tendo que se provar 20x mais. Já pensou ter que lidar o tempo todo com a dificuldade da sociedade aceitar o “diferente”? Cansativo.

A gente fala muito que não tem preconceito, mas o quanto a gente se cerca de gente diversa? O quanto estamos abertas a ouvir sobre outra perspectiva? Quanto espaço a gente abre pra enxergar os humanos todos com o mesmo valor? Essas perguntas levam a uma última, muito dolorida:

Nesse contexto a gente se questiona sobre nosso gosto, interesse e escolhas que parecem automáticas?

Minorias e seus debates não são todas iguais. Cada grupo fala da sua luta. Mas o que me preocupa é o que a maioria faz. Até onde nos propomos a ter empatia, a fazer a diferença ou mesmo a nos preocupar com o que os outros passam?

Quantos casinhos temos com pessoas que vivem em outras bolhas e recortes? Quantas amizades nutrimos com pontos de partida diferentes? Quanto de diversidade e de compreensão a gente procura ter na nossa vida?

Há muita coisa que só quem passa vive, mas quem tá perto aprende. Mas sem estar perto, é fácil dizer que não existe. Sem conviver acaba sendo muito fácil esquecer ou até não se importar, mas até se isentar é escolher.

Vejo muita gente invalidar ou invisibilizar essas lutas dizendo que somos todos humanos.

Somos, claro. Mas isso não nos faz menos capazes de enxergar as nuances e diferenças. Muito pelo contrário, isso faz com que lutemos por mais respeito coletivo. Não é porque nós tivemos oportunidades que devemos silenciar a luta de quem não teve. Não é porque um conseguiu conquistar tudo mesmo na adversidade que podemos romantizar a falta de oportunidade. Não é porque a outra pessoa é diferente de você que ela não pode ser parte da sua felicidade.

Então pare para refletir: Você se relaciona ou se relacionou afetivamente ou mesmo de forma próxima com pessoas que são minoria em ocupação de espaço de poder?

Eu posso dizer que sim e isso me fez aprender muito.

Agora, que fique claro: não sou boa samaritana ou salvadora por isso. Até porque eu mesma tive minhas questões com o sobrepeso das diferenças em algumas situações. Mas vivi, aprendi e aprendo com todas essas experiências que escolhi até aqui. Até mesmo enxergar o preconceito enraizado na sociedade de forma prática me ajudou a enxergar o mundo de uma forma mais consciente. E até hoje me pego caindo em certas questões que meu privilégio de mulher branca, hetero e com uma situação financeira legal me colocam.

Estamos inseridos nesses preconceitos. Querendo ou não, para lutar contra, precisaremos enxerga-los . É sistêmico, mas podemos fazer nossas escolhas conscientes do momento que nos abrimos a escutar.

0 em Autoestima no dia 28.11.2018

Mês da Consciência Negra: Superando o racismo e ocupando os ambientes

Em um dos eventos que estive nesse ano, fora do estado, percebi uma genuína surpresa de algumas pessoas depois que ouviram o meu relato sobre algumas situações de racismo que já passei. Logo após vinha a pergunta: “Mas você não mora em Salvador? Existe isso lá?”.

Bom, não é novidade para quase ninguém que essa cidade é a capital mais negra do país. Soma-se isso ao mito da democracia racial que ainda permeia no inconsciente coletivo brasileiro, e temos esse tipo de questionamento.

Todavia, a realidade é que existe sim racismo em Salvador. Talvez essa cidade seja um dos melhores locais para perceber as estruturações dele. É aqui que as separações econômico-sociais entre brancos e negros ficam evidentes: a classe média e alta é composta predominantemente por brancos e a baixa, por negros.

Pois bem, é agora – depois dessa introdução – que me apresento: Sou Lílian, negra e sempre vivi em ambientes de classe média (ou seja, brancos). E antes de tudo já adianto: não é fácil, não mesmo!

Ser negra de pele escura e crescer em ambientes brancos, especialmente as escolas, é contraditório. Você percebe desde cedo que não é igual aos seus colegas, que suas experiências naquele mesmo ambiente são diferentes. Mas demora um pouco para entender que é a sua negritude o motivo disso. Sabe por quê? Porque não há nenhum interesse, nem vontade de se falar em negritude nesses ambientes! Consegue perceber a ironia (no mínimo) de não se falar em cultura negra em um colégio em Salvador? Pois é!

– Ah, Lílian, a escola não tem como função falar racismo. Escola é para aprender matemática, português e geografia.

Bom, nem entrarei na importância de conhecer minhas origens. Ou qual foi a cor que produziu a riqueza pro país na maior parte de sua história. Vou me deter a exemplificar em como isso me afetou.

Apesar de não falarmos sobre negritude, aprendemos desde cedo que racismo é feio e errado. Mas aprendemos através da figura representada em filmes e novelas: uma pessoa malvada, cruel, que chama de macaco e joga banana. Lamentavelmente ainda existem pessoas que se encaixam nesse estereótipo. Mas provavelmente não será assim que se dará o contato de uma criança negra com o racismo.

Quando não entendia (ainda) que amar minhas tranças era uma forma de resistir

Quando não entendia (ainda) que amar minhas tranças era uma forma de resistir

Acontece através de um bilhete que lhe escolhe como a menina mais feia da turma.  No meu caso, eu e outra menina dividimos esse “troféu”. Não foi coincidência que éramos as únicas negras da turma. Acontece com piadas sobre o seu cabelo ou nariz. Acontece na dúvida sobre sua inteligência e – alguns anos depois – com a hipersexualização do seu corpo.

Ou seja, é um tanto mais sutil do que “apenas” ser chamada de macaca. Mas também é mais profundo, pois mina a nossa auto-imagem e autoestima desde crianças.

>>>>>> Veja também: Eu Sou <<<<<<

Tudo isso são manifestações de racismo. O total desconhecimento sobre a construção e imagem do negro no Brasil faz com que a gente demore pra perceber isso. Eu e muitas meninas demoramos pra entender que ter um cabelo diferente não nos faz pior. Que nossa pele não é difícil para elaborar maquiagens. Ou que não precisamos usar pregador de roupa no nariz para tentar afiná-lo.

Infelizmente nada do que citei acima é exclusivo de meninas que estudaram/ vivem em ambientes brancos, mas isso é: a sina de ser sempre a única. Talvez, seja uma das manifestações mais cruéis do racismo, a de você não se reconhecer em nada ao seu redor, ser diferente de todos e igual a ninguém… Eu, Lílian, cresci sem me reconhecer na minha escola, no meu bairro, no cinema. Nem nos programas infantis. O único lugar que tinha mais pessoas parecidas comigo era na minha família.

A saída relaxante ao cinema, festas ou qualquer outro evento mais luxuoso pode se tornar algo bem desconfortável, intimidador. Como se aquele ambiente não te pertencesse. Onde surge o conflito interno entre “eu mereço e posso estar nesse ambiente” com o “socorro, quero voltar pra casa”. Se você nunca reparou nessa “síndrome do negro único”, faça um teste. Observe quantos negros existem no seu escritório, e desses, quantos estão em posições de comando e quantos estão limpando o chão.

No fim, após respirar fundo e chorar escondida diversas vezes, o “eu mereço e posso estar nesse ambiente” vai vencendo.

Vamos ocupando os lugares que não foram criados para nós. Vamos encontrando outras negras e segurando as mãos umas das outras para derrubarmos as barreiras que foram impostas há séculos. E, o mais especial, vamos cuidando para as que estão vindo atrás de nós tenham um caminho menos doloroso.

>>>>>> Veja também: Eu, negra, na Alemanha <<<<<<

Por isso que hoje não aceitamos mais marcas que não coloquem modelos negras em seus portfólios, ou linhas de maquiagem que “esquecem” de ter tons para nós. Não se trata apenas de uma campanha ou uma base, e sim de abrirmos e ampliarmos os caminhos, de sermos vistas e respeitadas.

Ser a única negra em locais brancos é difícil, ainda que seja em Salvador. Há um preço a se pagar em ser pioneira, mas pagamos e continuamos. E por terem aberto e ampliado os caminhos, agradeço desde minha avó à Oprah Winfrey. De Sueli Carneiro a MC Sophia e tantas outras negras famosas e anônimas que respiraram fundo e ocuparam espaços.

Ubuntu!

2 em Comportamento no dia 21.11.2018

Semana da Consciência negra: o seu melhor amigo é uma pessoa boa. Mas é racista.

Começarei a escrever esse texto com algumas informações. O Brasil é o segundo país com a maior população negra do mundo (atrás apenas da Nigéria). No entanto, apenas 12,8% dos negros estão dentro de universidades – sim, depois das cotas.

Por outro lado, 64% da população carcerária é negra. O feminicídio branco, desde a edição da lei que tipifica o crime, diminuiu algumas porcentagens, enquanto o feminicídio negro aumentou (e continua aumentando). Homens negros e jovens são os que mais morrem dentro desse país que chamamos de Brasil (a taxa é de 71%).

Perceberam os números? Apesar deles, perdi a conta (e as estatísticas) de pessoas que dizem: “Fulano é ótima pessoa, marido exemplar, alguém que conheci a minha vida inteira, sabe? Ele não é racista”.

Esse tipo de frase é apenas problemática porque a resposta a ela é muito difícil de se ouvir. As pessoas, em geral, tendem a ver as coisas em apenas dois tons; ou alguém é completamente mau ou bom com todo o coração. É difícil explicar que alguém pode ser gentil com você e, ainda sim, ser um agressor para o outro.

Igualmente difícil é explicar que o racismo é uma agressão.

Outro dia vi uma reportagem de uma mulher gritando obscenidades racistas para um homem negro. Isso, certamente, é racista. Agredir verbal e fisicamente é racismo. Mas não é só isso.

Também é racista aquela novela que não tem um único negro em seu elenco. É racista o olhar desconfiado que um preto recebe sempre que entra em um elevador. A porta que se tranca é racista. As perguntas despretensiosas (e incomuns) são racistas.

O movimento negro nos Estados Unidos passou por muitas fases, líderes e presidentes. O começo da jornada focou (e não poderia ter sido diferente) na identidade. Foi a explosão do movimento black power, caracterizado pela libertação do cabelo black.

A questão aqui é só uma: esse movimento não serviu para dizer aos brancos que nós existíamos – no fundo, no fundo, ele nasceu para mostrar aos pretos que não há nada de errado em ser preto. Para que pudéssemos demarcar nosso espaço entre a branquitude, precisávamos, antes de tudo, nos reconhecer como negritude.

foto: Nicholas Bui

foto: Nicholas Bui

A cultura negra é alvo. Sempre foi.

Não estamos na mira apenas quando você cospe na nossa pele – estamos sendo alvejados cada vez que uma criança negra deixa de brincar com uma boneca preta porque elas não são produzidas. Toda vez que uma adolescente preta deixa de explorar a maquiagem porque não há base específica para o seu tom de pele.

>>>>> Veja também: vamos falar de feminismo interseccional? <<<<<<

Sempre que uma mulher preta é preterida – passa de melhor amiga engraçada para a amiga bonita (para o outro)-, e acaba se tornando a última a beijar, namorar ou casar. Você sabe por que eu estou dizendo tudo isso? Porque o racismo é um tique. Se você abrir o olho, você verá racismo. Em. Todo. O. Lugar.

Na televisão, na rua, na rádio… Até no dicionário. Eu posso sentar e apontar o racismo em tantas coisas quanto você me pedir, e nunca vou acabar. O racismo está no olho de quem vê mas principalmente na cortina de quem não vê. Está lá fora e é tão doloroso, tão pungente, que muitas pessoas preferem parar de notar.

Você sabe por que estou te dizendo tudo isso?

Porque é enervante e absolutamente decepcionante que você não reconheça o racismo naqueles que você ama.

Se você não está disposta a ver, também não estará disposta a ajudar essas pessoas a enxergarem, a adquirirem o tique. Elas vão continuar a reproduzir o que elas têm (o que elas conhecem, racismo) e você vai continuar ignorando as reproduções sob o pretexto da bondade dos corações.

privilegio-branco

O ciclo continuará por conta do seu amor – o mesmo amor que deveria ser transformador, será apenas reprodutor. Reprodutor de racismos. Ei, o racismo não é uma doença. Nadinha.

Se eu fosse tentar definir o racismo em uma metáfora, o chamaria de máscara de proteção. A doença não aparece quando você usa (o racismo). Aparece apenas quando você é pedante o suficiente para dizer que não é (racista), e não veste (o racismo).

Com a máscara, percebemos o problema. Percebendo que o meu melhor amigo branco é racista, eu me informo, o informo, e espalho a solução, que é essencialmente antirracista. Sem a máscara, há mortes. O chão permanece inteiro manchado de preto.