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puerperio

0 em Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 15.08.2018

Calma, respira

Quer um saquinho de vômito? Não pra vomitar (mas se quiser, também serve), te ofereci ele só pra você fazer uma respiração ritmada para botar os ponteiros no lugar novamente, por mais que você saiba que eles não ficarão muito tempo ajustados.

Sei bem o que você está passando e sei que tá dificil achar seu lugar no mundo novamente. Você é mãe, mas você é tão mais. Só que infelizmente você não vai conseguir enxergar isso agora, a não ser que você tenha achado na maternidade a sua vocação de vida (o que eu imagino que não tenha sido seu caso se você está aqui lendo esse texto). E tá tudo bem não ser, viu? Isso não quer dizer que você ame menos essa pessoinha que está aí nos seus braços.

Sei exatamente a sensação frustrante que acontece quando, ali no meio do turbilhão, você tem vislumbres de quem você era antes da maternidade, e de repente se vê nutrindo a esperança que você vai conseguir voltar a ser a mesma pessoa de antes. E aí vem o bebê, em toda a sua imprevisibilidade e te puxa para o aqui e agora, te lembrando que aquele seu eu não tem como aparecer agora para te confortar. Por mais que você consiga momentos de respiro, parece que queremos sempre mais, que não foi o suficiente. Ninguém prepara a gente para essa luta interna que travamos conosco. E ela é dolorosa, parece um band aid que quanto mais a gente demora para tirar e aceitar, mais difícil e dolorido fica.

BEBE-MATERNIDADE

Quisera eu conseguir chegar pra você e falar: calma, vai passar, quando você menos esperar tudo vai se ajustar. Aliás, nem espere de mim um “vai passar” porque só eu sei o quanto isso só me deu mais ansiedade.

Quisera eu dizer pra você que quanto mais cedo você entender toda a mudança na sua vida, mais fácil fica para curtir as belezas da maternidade. De fato é isso que acontece mesmo, mas eu sei que essa chavinha nem sempre vira no meio do furacão. E as vezes, na pressão de tentar fazer as coisas ficarem mais claras, é aí que ela emperra de vez.

Não consigo te dar nenhuma dica porque no meu caso demorou MUITO. 1 ano e meio pra ser exata. Nessa época, com um filho de 2 meses, eu estava angustiada e um tanto perdida. Não tinha ideia quem eu era, cheguei até a fazer uma tatuagem no lugar mais visível de todos (todas as minhas outras são escondidas porque meu maior medo era cansar de olhar todo dia para elas), justamente porque foi a forma que eu encontrei de tentar me achar no meio daquela sensação esquisita de não saber quem eu era mais. Sentia um misto de felicidade com tédio, amadurecimento com injustiça. Ah, e culpa, claro. Afinal, aos olhos dos outros era um absurdo eu estar me sentindo assim. E foi com os olhos dos outros que eu me enxerguei por um tempo, e isso só deixou minha luta ainda mais lenta e dolorida.

Quando tudo estava entrando nos eixos, lá fui eu me mudar de país para viver a maternidade da forma mais intensa por dia: mãe que fica em casa. Não foi intencional, claro, foi apenas uma decisão tomada com toda a consciência do mundo mas que mesmo assim não me impediu de sentir tudo aquilo que eu tinha sentido anteriormente. A perda do tempo, da liberdade, da própria identidade – que por mais que eu lutasse para não perdê-la, me fazia gastar um tempo e energia absurdos para conseguir isso. E essa fase foi bem mais demorada para passar.

Hoje não tenho vergonha de admitir que passei a lutar contra mim exatamente no momento que o Arthur entrou na escolinha e eu pude arrumar tempo para botar minhas ideias no lugar. Foi ali, tendo um tempo para mim e podendo dedicar um verdadeiro tempo de qualidade para ele que eu consegui mensurar e descobrir as delícias da maternidade. Aquela que todo mundo falava e eu me achava estranhíssima por não conseguir enxergar.

Queria te dar um conselho mais certeiro, mas a verdade é que eu não consigo.

Pode ser que você passe a aceitar a maternidade de forma mais leve quando seu filho passar a interagir mais contigo. Pode ser que você só descubra que realmente gosta de ser mãe quando conseguir ter um tempo para você. Pode até ser que você conclua que ser mãe não é algo que você genuinamente goste (e mais uma vez, não gostar de ser mãe nada tem a ver com não amar seus filhos). Mas enquanto essa resposta não vem, só posso te dizer: respira.