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padrão de beleza

0 em Autoestima/ Comportamento/ Saúde no dia 06.01.2020

A magreza da outra continua fazendo sentido para você?

Primeira semana do ano passou e o que mais se comenta nos sites, revistas e instagrams fofoca é o réveillon dos famosos. Quem ficou com quem, quem passou onde, como as mulheres se vestiram e, claro, o corpo delas.

Recentemente a atriz Bruna Marquezine foi uma das atrizes que mais ganharam destaque nesse ponto. O motivo? O corpo muito magro. Mas já deixo bem claro que o ponto desse post não é para falar sobre o corpo dela, não estou aqui para teorizar magrezas, perdas de peso ou etc. Não é pra comentar sobre o corpo de outra mulher.

instagram @brunamarquezine

O que me chamou atenção e vem me chamando há algum tempo são alguns comentários que antes eu não via nesse tipo de post.

Tem o povo que reforça a magreza no estilo antigo. Sabe, aquele que ainda associa magreza a beleza? “Linda e magra!”, “quero essa barriga pra mim!”, etc. Mas também reparei muita gente comentando que ela está magra demais. Não tenho nenhuma estatística disso, é mais uma percepção. Mas se há pouco tempo a gente só via comentários de gente que buscava aquele corpo que a famosa postava no instagram – não importa por qual via, o que gerava ansiedade, culpa e até mesmo transtornos alimentares – o fato é que me parece que ultimamente as pessoas vêm questionando a magreza das famosas. É em menor quantidade? Sim. Mas é algo que vem acontecendo.

Comentar no post da famosa sobre sua magreza demais não vai mudar nada nela. Mas será que muda em quem comenta?

Não quero ir para o viés simplista de que a pessoa que comentou algo do tipo está com inveja porque não tem um corpo parecido (argumento que você vê bastante por aí, inclusive). Mas me peguei pensando além. Será que quem comentou isso já achou isso anteriormente bonito e agora se questiona? Será que essa onda de corpos variados desfilando pelo instagram está mudando a percepção corporal de outras usuárias? Será que todos os questionamentos que estão sendo feitos sobre a viabilidade desses corpos muito magros estão surtindo algum efeito?

Eu acho que sim. As pessoas não começaram a pensar diferente de uma hora pra outra.

Quando apontamos que corpos como esses são atingidos à base de muita restrição, sofrimento e possibilidade de transtornos alimentares camuflados de “saúde”. Ao apontar tudo isso, não faço um julgamento baseado em achismos. São estudos, casos de pacientes que entram no meu consultório e nos consultórios de outras profissionais de saúde que se especializaram em transtornos alimentares.

Estamos há alguns anos batendo nessa tecla e, talvez, agora estejamos colhendo os frutos disso. Sou otimista, mas sei que ainda temos muito chão pra percorrer.

 Lancei no meu instagram essa ideia, algumas respostas bem interessantes apareceram:

Sim, ainda estamos dentro de uma bolha, eu sei. Mas sem dúvida ela está crescendo e as pessoas de dentro da nossa bolha são replicadoras do que falamos por aqui.

E assim seguimos o nosso caminho.

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 02.10.2019

Por quê você se incomoda quando suas escolhas são questionadas?

“Agora com essa onda de libertar os cachos, aceitar os crespos ou militar contra a gordofobia, parece até que eu não posso mais escolher alisar meu cabelo ou querer emagrecer”.

Esse raciocínio aparece quase TODO SANTO DIA nas nossas redes sociais. No grupo, por direct, as vezes até mesmo por e-mail. E a gente acaba repetindo sempre a mesma coisa: esse debate não é sobre você, é sobre o coletivo. Individualmente – e teóricamente – toda mulher pode ter o cabelo que quiser, no corpo que ela desejar.

No entanto, precisamos questionar essas escolhas que atendem a um único padrão de beleza e perfeição, por mais que a gente opte por elas. Elas nos são vendidas de maneira inofensiva, como gosto ou escolha pessoal. E isso é feito de forma tão natural que nem pensamos direito sobre, por isso gostamos de bater na tecla desse debate por busca de consciência. Ele é importante pra gente parar pra pensar.

ilustra: Nataly Menjivar

Numa sociedade miscigenada que investe tempo, dinheiro e saúde na busca por um único padrão de beleza eurocêntrico, esse debate de escolhas não é tão simples. O contexto coletivo faz pressão no individuo, que buscando ser aceito, pertencer ou até mesmo para conseguir oportunidades de trabalho, acata aquela pressão como certa sem questionar. E nem precisamos falar que, no caso, o indivíduo em questão é do sexo feminino, certo?

Ter consciência desse contexto não obrigatoriamente vai fazer com que mudemos todas as nossas escolhas. Mas nos faz entender de uma vez por todas que a liberdade do outro não deveria nos incomodar.

Por quê será que um discurso que sempre foi oprimido é visto como uma ditadura?

O problema, a meu ver, é que não é fácil aceitar que hoje você se sente melhor de cabelo liso ou mais magra porque você foi criada recebendo mensagens que cabelo cacheado é feio. Ou que ser gorda é sinônimo de uma pessoa que não se cuida. A gente descobre que nossos pais podem ter reproduzido discursos racistas inconscientemente, que alguém que amamos ou que confiamos é gordofóbico, que tivemos amizades que nos influenciaram de maneira negativa.

Nós fomos educadas a procurar “defeitos” em nós mesmas. Qualquer coisa que fuja disso já é um ato revolucionário de se libertar da falta de amor próprio tão comum entre nós.

Por que a liberdade do outro incomoda?

A liberdade individual de alguém só causa incômodo quando revela algo de nosso ali. Se passamos a vida gastando nosso tempo e dinheiro em busca da magreza, enxergar que essa não é a única opção pode ser desafiador. Por isso, acredito que o outro ser livre só causa uma reação negativa na gente quando nos faz enxergar que estamos presos em alguma alguma crença limitante que, de tanto que foi repetida, virou verdade.

Vou dar um exemplo pessoal. Apesar de ter aberto mão de viver em função de um corpo magro, sigo escolhendo alisar o meu cabelo. Aos 19 anos eu me divorciei dos meus cachos por pura pressão estética. Já me reconheço assim, gosto do que vejo no espelho e da praticidade que eu estou acostumada a ter. E por mais que me questionem sobre essa escolha, entendo que o debate é sadio e não é sobre mim. Ele é sobre todas nós. Não existe “mais uma opressão” para eu voltar a ser cacheada.

A liberdade das cacheadas não me incomoda, por mais que eu alise. Muito pelo contrário. Justamente por isso eu acho a visibilidade delas fundamental.

Vejo claro como água como foi um gosto construído por uma falta de representatividade ao meu redor. Aprofundando as camadas desse debate enxergo que, mesmo sendo branca, o racismo estrutural é a raiz do preconceito com o cabelo crespo e cacheado, tantas vezes estigmatizado e chamado de “cabelo ruim”. Numa sociedade onde o padrão de beleza é a mulher branca, o cabelo da mulher negra não teria vez mesmo. Precisaria de “um jeitinho”.

Eu imagino que tudo seria diferente se tivesse crescido sob a influência dos movimentos de aceitação capilar. Talvez eu tivesse aprendido a cuidar do meu cabelo, a olhá-lo no espelho e gostar do que via refletido, e talvez minha história seria outra.

ilustra: Ambivalently Yours – “não se olhe através dos olhos de outras pessoas”.

Mas não foi. Hoje vejo que seria simplesmente uma questão de preferência pessoal se, socialmente, um cabelo cacheado e um cabelo liso valessem a mesma coisa. E entender isso me ajudou a enxergar a importância do debate coletivo, independente das minhas escolhas individuais.

Acho que agora que eu já me usei como exemplo, quero nos convidar para ir além. Essa discussão fica mais profunda e mais importante quando entendemos a importância do debate coletivo. Como bem pontuou Adhara Ferrari, que participa do nosso grupo:

Vejo que muita gente se incomoda com movimentos de aceitação por pura projeção pessoal. Isso é, quando não estamos seguras, confortáveis ou até mesmo conscientes dos motivos que nos levaram a certas escolhas, nos incomodamos quando vemos alguém seguindo outro caminho – e feliz com ele. Quando essa pessoa consegue exercer a sua liberdade desprendida de um padrão, ela pode se expressar da maneira que quiser. Ser livre assim nos incomoda quando estamos presos. Por isso, as vezes uma simples pergunta feita em relação à nossa escolha incomoda profundamente.

Acho que agora que eu já me usei como exemplo, quero nos convidar para ir além. Essa discussão fica mais profunda e mais importante quando entendemos a importância do debate coletivo:

Será que quando alguém que te pergunta por quê você se gosta mais magra, ou de cabelos alisados, é de fato um julgamento? Será que quando você houve uma influenciadora pregar o amor próprio, isso é uma imposição?

Eu prefiro encarar tudo como um convite para nos fazer enxergar a estrutura que estamos inseridas. Assim fica mais fácil para achar o equilíbrio. Com um olhar mais flexível e menos julgador nós poderemos nos conhecer melhor, com isso ficaremos mais seguras de quem nós somos e o que o outro pensa sobre nós acaba perdendo a força.

Enquanto o mundo só enxergar beleza em um tipo de corpo o conceito de gosto vai seguir atendendo à demanda do outro, em busca de aceitação e pertencimento externo. Quando deveríamos estar investindo na nossa autoestima, na nossa autoaceitação, só que isso não é fácil.

Se você come de forma leve e se exercita porque realmente gosta e se conecta com esse estilo de vida, as escolhas diferentes do outro não vão te incomodar. Se você alisa o cabelo, mas reconhece o contexto, vai ser mais do que normal você incentivar o debate da aceitação capilar. Ter consciência das próprias decisões de forma coletiva traz uma segurança, nos fortalece e assim, a gente não se incomoda quando temos nossas escolhas questionadas. Nesse contexto, conseguimos ser mais flexíveis e fica mais fácil entendermos que questionar os padrões não é nos questionar.

0 em Autoestima/ Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 09.07.2019

A barriga grande e o nascimento do juízo de valor

Arthur está em uma fase de comparações. É comparando que ele sabe o que está perto ou longe. O que é alto ou baixo. O que é grande ou pequeno. E isso acaba refletindo como ele se enxerga e enxerga as coisas ao seu redor.

É fofo demais de se ver, não nego. E por causa disso, deixo ele muito livre para falar sobre suas percepções. É nessas horas que ele fala coisas como: “mamãe, seu peito é grande” ou “meu pé é pequenininho”.

E é nessas horas também que ele diz: “que barriga grande a sua”.

É impressionante ver como isso incomoda os adultos. Não importa o peso na balança, o constrangimento fica explícito na cara das pessoas que ouvem essa frase de uma criança. As vezes nem foi a pessoa que recebeu a frase. Gente que tá perto, mas tem essa crença super construída dentro de si nem disfarça. E foi nessa situação que aconteceu uma conversa interessante, que me mostrou como acontece o início da associação de peso x beleza.

Vou transcrever o diálogo aqui sem tirar nem por, porque acho que é uma forma mais eficiente de fazer com que meu ponto seja entendido.

“Arthur acabou de dizer que a barriga de X é grande. Tá vendo como, mesmo sem nem ensinar, já tá na cabeça que é feio?”

“Mas que horas ele disse que é feio?”

“Ué, ele acabou de falar que X tinha a barriga grande. E isso é feio.”

“Mas isso é você que tá dizendo, não ele. Ele não acha nem feio nem bonito. Mas se você continuar repetindo isso perto dele, ele vai começar a achar que ter barriga grande é feio. E depois sou eu que vai ter que se virar para tirar isso da cabeça dele. Se é que eu vou conseguir. Então, por gentileza, bora prestar atenção nas mensagens que estamos passando perto dele.”

A conversa seguiu mais um pouco. Foi para lados preocupantes. Onde acabei me tocando que, por mais que eu tivesse tentando blindá-lo desse tipo de associação, a sociedade ainda poderia convencê-lo do contrário. Que em algum momento a mensagem de que pessoas gordas são feias poderia atingi-lo.

Mas eu estou fazendo minha parte. Quero muito que em algum momento, a gente volte para nossas impressões infantis e lembre que ser gordo é apenas uma constatação. Assim como ser magro, alto, baixo. Sem juízo de valor. Vamos continuar juntas.