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padrão de beleza

0 em Autoestima/ Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 09.07.2019

A barriga grande e o nascimento do juízo de valor

Arthur está em uma fase de comparações. É comparando que ele sabe o que está perto ou longe. O que é alto ou baixo. O que é grande ou pequeno. E isso acaba refletindo como ele se enxerga e enxerga as coisas ao seu redor.

É fofo demais de se ver, não nego. E por causa disso, deixo ele muito livre para falar sobre suas percepções. É nessas horas que ele fala coisas como: “mamãe, seu peito é grande” ou “meu pé é pequenininho”.

E é nessas horas também que ele diz: “que barriga grande a sua”.

É impressionante ver como isso incomoda os adultos. Não importa o peso na balança, o constrangimento fica explícito na cara das pessoas que ouvem essa frase de uma criança. As vezes nem foi a pessoa que recebeu a frase. Gente que tá perto, mas tem essa crença super construída dentro de si nem disfarça. E foi nessa situação que aconteceu uma conversa interessante, que me mostrou como acontece o início da associação de peso x beleza.

Vou transcrever o diálogo aqui sem tirar nem por, porque acho que é uma forma mais eficiente de fazer com que meu ponto seja entendido.

“Arthur acabou de dizer que a barriga de X é grande. Tá vendo como, mesmo sem nem ensinar, já tá na cabeça que é feio?”

“Mas que horas ele disse que é feio?”

“Ué, ele acabou de falar que X tinha a barriga grande. E isso é feio.”

“Mas isso é você que tá dizendo, não ele. Ele não acha nem feio nem bonito. Mas se você continuar repetindo isso perto dele, ele vai começar a achar que ter barriga grande é feio. E depois sou eu que vai ter que se virar para tirar isso da cabeça dele. Se é que eu vou conseguir. Então, por gentileza, bora prestar atenção nas mensagens que estamos passando perto dele.”

A conversa seguiu mais um pouco. Foi para lados preocupantes. Onde acabei me tocando que, por mais que eu tivesse tentando blindá-lo desse tipo de associação, a sociedade ainda poderia convencê-lo do contrário. Que em algum momento a mensagem de que pessoas gordas são feias poderia atingi-lo.

Mas eu estou fazendo minha parte. Quero muito que em algum momento, a gente volte para nossas impressões infantis e lembre que ser gordo é apenas uma constatação. Assim como ser magro, alto, baixo. Sem juízo de valor. Vamos continuar juntas.

3 em #paposobremulheres/ Autoestima/ Comportamento no dia 29.03.2018

Papo Sobre Mulheres: Pelo meu direito de ser feliz como eu sou

Viver sendo diferente do que a sociedade considera padrão é uma árdua tarefa. Todo momento alguém vai te lembrar dos motivos pelos quais você é diferente. Todo dia alguém vai te dizer que você não é suficiente. Lutar contra isso é uma batalha diária. Não é fácil encontrar o caminho da aceitação, mas quando conseguimos nos entender e ficar bem com nós mesmos, não existe nada mais libertador.

Eu praticamente não tenho nenhuma memória da minha vida em que eu não tenha sido uma menina gorda. Desde muito pequena eu tive que aprender o que é ser mulher em uma sociedade machista, mas se já não é fácil saber lidar com toda opressão que as mulheres sofrem, eu também aprendi muito cedo o que era o preconceito: a gordofobia.

Quando se torna difícil conseguir comprar uma simples roupa para trabalhar, como também pegar um transporte público, você se dá conta que o mundo em que vivemos não foi feito para as pessoas gordas. Consequentemente você está à margem, e vai ter que buscar um jeito de se adaptar.

stella-ravalhia

Não são as mulheres gordas que estão em destaque na TV, no cinema, nas revistas, nas passarelas, nos palcos. É no conceito de magreza que está depositado “segredo da felicidade” e a “beleza”. A mídia condena o tempo todo os corpos gordos, nos bombardeia com dietas malucas, com tratamentos estéticos caríssimos, com remédios que colocam nossa saúde em risco. Ser uma mulher gorda é muitas vezes considerado uma sentença de infelicidade eterna, o pior que pode te acontecer.

A gordofobia está até nos menores detalhes, no comentário de um parente quando fala a clássica frase que toda menina gorda já ouviu: você é tão bonita de rosto, pena que é gorda. Ou alguém que sem você perguntar absolutamente nada já vem te sugerir uma dieta da moda. Aquela vendedora da loja que diz “aqui não tem roupa para você”. Tem também aquele carinha que te curte, mas não assume para galera, porque pega mal namorar uma gorda.

Mas como lutar contra tudo isso? O que fazer para mudar essa situação? Nós precisamos nos empoderar, bater de frente com as verdades absolutas que nos foram impostas, entender que o padrão que impera, foi socialmente construído por uma sociedade que só valoriza o homem, os corpos das mulheres são reduzidos a meros objetos descartáveis. Nós não somos simplesmente gordas, isso não pode ser a única coisa que sabem sobre você, isso não pode te definir. Nós somos infinitas coisas mais. Muito mais.

Ter problema com autoestima não é exclusivo da mulheres gordas, todas as mulheres em algum momento da sua vida já se sentiram desconfortáveis em sua própria pele, afinal a pressão estética se faz presente desde o nosso primeiro dia de vida.

O amor próprio é uma verdadeira jornada de autoconhecimento. Ele não aparece de um dia para o outro, é um processo interno e externo. É se respeitar, entender quem você realmente é, ter um olhar de carinho para si próprio, não desejar ser mais ninguém além de você mesma.

O feminismo me libertou de todas as amarras que a sociedade quis me colocar, me ensinou a me amar ainda mais, me direcionou a ajudar todas as mulheres que cruzarem meu caminho, me despertou a vontade de tentar fazer a diferença. Sabe aqueles comentários ali em cima que toda menina gorda provavelmente já escutou? Não tenha medo de respondê-los, aproveite esse momento e mostre que você é maior do que isso. Você não tem que ter vergonha de ser quem é, e sim a sociedade tem que ter vergonha de reproduzir tanto preconceito e intolerância.

Eu joguei fora todos os rótulos que me colocaram. Ninguém nunca mais poderá me dizer o que vestir, como falar, o que comer, como andar, o que pensar. A maior beleza está em se amar por inteiro e entender o que isso significa. Eu sou linda, e não vai ser seu olhar preconceituoso que vai me convencer de que eu não sou.

Precisamos ocupar todos espaços, estar em todos os lugares, inspirarmos umas as outras. Sei que ainda temos um longo caminho para percorrer, mas se estamos juntas, somos mais fortes. Ser feliz exatamente do jeito que somos já é um ato de revolução.

4 em Autoestima/ Comportamento/ Destaque no dia 20.02.2018

Problematizei teste do Facebook

Nem acredito que cheguei em um dia que estaria problematizando um teste de Facebook. Sabe, esses que todo mundo faz e compartilha, rindo de si mesma e que parecem tão inofensivos? Pois é, problematizei porque resolvi fazer também, como tantos outros que já fiz e não compartilhei porque eu quase nunca compartilho mesmo. Adoro fazer todos, inclusive ignoro solenemente a história de que ao aceitar fazer o teste, dou um monte de informações minhas para esses sites de graça.

Talvez esse teste esteja rolando agora na sua timeline também. Na minha, por exemplo, toda hora alguém diferente compartilha seu resultado de como seria seu rosto se você fosse uma artista de Hollywood. Resolvi clicar e brincar, afinal, por que não?

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Escolhi uma foto, cliquei em começar e esperei o resultado. Quando saiu, lá estava eu, muito parecida com a foto que eu postei no meu perfil, mas levemente diferente. A boca estava maior, os dentes mais brancos, o rosto mais simétrico, o maxilar mais definido, a maquiagem mais bem definida. Me achei tão mais bonita! Mas sei lá, essa foto que eu escolhi não é a que eu me acho mais bonita, vou escolher outra só para ver.

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Dessa vez as mudanças foram bem mais discretas, mesmo assim não foram poucas. A maquiagem melhorada, o rosto novamente mais magro, o nariz levemente arrebitado e a boca mais definida. Boto as fotos uma do lado da outra e penso no impulso: “putz, mas eu podia ser assim, né?”

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Como eu devo ter um pézinho no masoquismo, lá fui eu escolher a última. Peguei uma que eu realmente gosto do conjunto da obra, a luz tava bonita, maquiagem no lugar e eu me achei realmente bonita. Cliquei e esperei o resultado. Quando me vi, lá estava eu, com aquela maquiagem natural do tipo “acordei assim”, novamente com o maxilar mais definido, boca mais definida e um nariz retinho, perfeitamente esculpido, que me fez ficar na dúvida sobre o que eu acho do meu próprio nariz – sendo que eu nunca vi problemas no nariz que eu tenho agora! Ao contrário, eu amo ele!

Todas as fotos que eu escolhi estavam no meu perfil, e acho que como 99% da população, eu escolhi aquelas fotos justamente porque achei que estavam mostrando a minha imagem de forma mais favorável. Mesmo assim, preciso ser sincera aqui, eu caí direitinho no objetivo do teste e me achei muito mais bonita no resultado alterado no que nas fotos que eu já achava bonitas. O que quer dizer que de certa forma, aqui estou eu, presa em padrões que nem sabia que me ainda me afetavam.

Por um segundo questionei meu amor próprio e tudo que vemos discutindo aqui. Caramba, se eu me achei mais bonita com o nariz empinado, com o rosto mais magro, com os dentes mais brancos, será que eu devo fazer algo para mudar? Será que preciso marcar o dentista para começar amanhã o clareamento? Ligar para o meu pai e perguntar se da próxima vez que for para o Brasil, podemos cogitar dar uma ajeitada no nariz? Será que preciso emagrecer para afinar o rosto (porque o corpo não apareceu na foto, então ele não foi afetado)?

E foi aí que eu voltei pro mundo real e problematizei. Caramba, esse joguinho de bobo não tem NADA. Ao contrário, ele é mais um jeito da gente se olhar e se sentir insatisfeita. E o pior, as mudanças são tão sutis que por um segundo, a gente acha que a solução para ter o rosto de uma estrela de cinema está em pequenos procedimentos, fácil de fazer, rapidinho. Só que não.

Não é assim, até porque pode ter certeza que mesmo se você fizesse tudo para ter o rosto que viu no resultado do teste, tirasse uma foto e refizesse a brincadeira, o algoritmo padronizado iria achar mais defeitos e ia mudar mais coisas em você. Ou seja, o teste nada mais é do que a versão tecnológica do tal padrão mutável e sempre inalcançável que vivemos no nosso dia a dia.

E aí? Ainda acha que todo teste do Facebook é inofensivo?