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1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 25.10.2019

Desculpa se NY te quebrou

“Se você conseguir aqui, você consegue em lugar”. “Selva de pedras onde os sonhos são criados, não tem nada que você não possa fazer”. É óbvio que vir morar em uma cidade que tem em seu repertório frases de impacto completamente cativantes e reconhecidas como essas, faz a gente acreditar que é assim mesmo.

Até que um dia, levando Arthur para a escola, no mesmo caminho de sempre, me deparei com uma frase. Um stencil no chão que dizia “Desculpa se NY te quebrou”.

Me peguei respondendo mentalmente para a pintura “não tem problema, obrigada por se importar”. E comecei a pensar sobre isso.

Porque a verdade nua e crua de NY é que ela te quebra mesmo. É algo que, como turista, eu nunca acreditaria que pudesse ser verdade. Se alguém chegasse para mim há 10 anos e falasse isso, certeza que iria responder com um: “nossa, você tá sendo muito dura. NY é incrível, tenta enxergar pelo lado positivo”. Há 10 anos eu era essa pessoa meio alheia à realidade e com pouca experiência de escutar as pessoas. Aliás, se bobear, eu era essa pessoa há uns 5 anos.

Hoje vejo claramente que não importa onde você mora, seu status de imigração, a carreira que você escolheu (ou que você foi obrigada a escolher para pagar as contas). NY te quebra.

Pode ser pelo inverno rigoroso, que chega mas teima a ir embora. 7, 8 meses de casaco e roupas quentes. A depressão sazonal de inverno existe, e vai muito além do isolamento que o frio pode provocar. A explicação também é química. Os níveis de vitamina D, que pode ser adquirida naturalmente com alguns minutos diários de exposição direta ao sol, caem nessa época do ano, podendo inclusive, causar depressão.

Pode ser pelo distanciamento das pessoas. Todo mundo com pressa. Correndo, subindo, descendo, sem nem um contato visual. Cada um em seu espaço pessoal inabalável. Se você parar para reparar as pessoas no metrô (mas sem deixar que elas percebam que você está olhando, claro), você vê que o trem é a extensão da casa de todo mundo. Tem quem aproveite o transporte para botar os estudos em dia, ouvir música, se alongar. Tem quem use para desenhar, ler, ouvir música e cantar algo.

Até chorar.

Existe uma frase que diz que se você nunca chorou no meio da rua em NY, você não é um novaiorquino de verdade. Já li vários textos que tentam explicar o fenômeno. A explicação que mais fez sentido pra mim é que, muitas vezes, dividimos apartamentos pequenos, com paredes finas. Entrar no quarto para chorar sozinha nem sempre é uma opção. Isso quando você não mora em uma quitinete, onde a única opção de privacidade é o banheiro. Por mais louco que seja, na rua você tem mais privacidade do que dentro da sua própria casa.

Eu já chorei no meio da rua (isso quer dizer que posso me considerar novaiorquina? rs), e perceber que pude fazer isso livre de olhares de pena ou curiosidade foi libertador. Ao mesmo tempo, toda vez que vejo alguém chorando e não vejo ninguém tentando ajudar essa pessoa, sinto uma sensação de vazio. Como se todo mundo fosse frio, distante e sem coração.

Tá vendo as diferenças culturais cheias de nuance? Pois é.

Pode ser também pela expectativa que a gente cria sobre sucesso. Afinal, conseguindo aqui, conseguimos em qualquer lugar, certo? Nenhuma outra cidade do mundo tem essa obrigação de sucesso que NY tem. Se seguirmos essa lógica, não conseguindo resultados expressivos por aqui, isso quer dizer que fracassamos em todo o lugar. Por isso, entramos em uma espiral de autocobrança, de busca por resultados, de provar para nós mesmos que podemos ser bem sucedidos nessa cidade. Uma cidade LOTADA de oportunidades e, por isso mesmo, LOTADA de competição. E em um dado momento, a gente se desconecta do que realmente felicidade, sucesso e realização significam para nós.

NY nos quebra em mil pedacinhos. É verdade. Já me vi juntando meus caquinhos diversas vezes nesses 3 anos e meio (3 anos e meio? Meu Deus, passou muito rápido!). Mas também já me vi remontando esses caquinhos das formas mais diversas (obrigada, Leticia – minha terapeuta).

Tudo bem, NY, eu te desculpo.

0 em Autoconhecimento/ Destaque no dia 16.11.2018

Choro em público. Dessa vez, o meu.

Lembram que eu já fiz um post falando sobre meu receio como mãe de ter meu filho chorando em público e virar alvo de olhares? Pois é, dessa vez vim falar de outro choro em público. O meu.

Acabei de ver essa crônica que a Laura Peruchi fez em um vídeo e quando me vi, estava chorando (mas não em público dessa vez). O vídeo, aliás, é esse:

Dizem que você não pode se considerar um novaiorquino de verdade se nunca fez o batismo do choro em público. A primeira vez que eu ouvi falar sobre isso foi em uma matéria que li assim que me mudei. Depois descobri que existe um blog com dicas dos melhores lugares para chorar em público. Sim, gente, é nesse nível. Voltando à matéria, sei que a blogueira explicava que o motivo do choro em público acontecer era justamente porque geralmente o novaiorquino mora em lugares muito pequenos. Onde as paredes são finas e você praticamente escuta tudo o que acontece no ambiente ao lado. Onde você tem muito mais privacidade na rua do que dentro de casa.

Eu sei que parece uma maluquice. A primeira vez que eu ouvi falar nisso eu também achei. Eu tenho pavor de chorar em público, aliás, eu não gosto de chorar na frente de ninguém e ponto. E nunca precisei pensar nessa questão de privacidade porque eu sempre tive.

Até que um dia eu dormi mal, me estressei com o Arthur no café da manhã, briguei com filho, discuti com o marido e saí de casa prestes a explodir. E ainda não era nem 8:30 da manhã. Só sei que quando pisei na rua para levar o Arthur para a escolinha, não consegui me segurar e quando menos esperava, as lágrimas já estavam acumuladas no olho, a ponto de cair.

Meu primeiro impulso foi tentar bloquear. Minha primeira impressão foi achar que todo mundo estava olhando. E a verdade é que eu não estava preparada para cruzar com olhares curiosos. Olhares esses que nunca vão de fato perguntar se a gente precisa de alguma coisa, mas que estão curiosos para saber o que está acontecendo. Um olhar que eu conheço bem, porque é da minha cultura e as vezes eu até me pego fazendo quando cruzo com uma cena inusitada.

Depois de muito tentar olhar pra cima, prender a respiração, morder a língua ou qualquer outro truque para engolir o choro, a primeira lágrima caiu. Eu passei pela primeira pessoa, e ela estava olhando para o celular e nem notou que eu estava ali. Outra lágrima caiu e eu passei por uma mulher e seu filho, mas eles também não me notaram. Ela estava ocupada tentando pegar o brinquedo que o filho tinha derrubado no chão. choro-publico

ilustra: June Keser

A cada pessoa que eu passava e que não me olhava, mais lágrimas caiam. E não era de tristeza ou desamparo. Era de alívio. Ali, naquele caminho que eu faço praticamente todos os dias, eu entendi o que significa a privacidade de chorar em público.

Foi libertador conseguir extravasar a manhã complicada que eu estava tendo sem ter que me justificar para ninguém. Sem cruzar com os tais olhares curiosos. Apenas deixando fluir as lágrimas, e ficando mais calma com isso.

E não pensem que novaiorquino é gente sem empatia e que não ajuda o próximo. Tenho certeza que se eu tivesse caído ou tivesse acontecido alguma coisa comigo, boa parte dessas pessoas que cruzaram comigo teriam me ajudado. Mas ali, naquela situação, eu abençoei a falta de interesse dos moradores daqui nos problemas alheios.

Nunca pensei que conseguiria me sentir dentro de uma bolha no meio da rua.

Uma bolha transparente, sim, mas uma bolha que me protegia justamente do que eu mais temia: o choro em público.

Espero não precisar fazer uso dela mais vezes. Mas acho que essa experiência intensa serviu de lição para eu respeitar a privacidade alheia também.

9 em Comportamento/ Destaque/ Futi em NYC/ NYC no dia 09.11.2018

O verdadeiro luxo de morar em Nova York

Volta e meia, quando eu digo que moro em Nova York, eu recebo algum comentário meio deslumbrado com olhinhos brilhando do tipo “nossa, que luxo, né”. Eu conheço esse olhar. Muito bem até. Aliás, foi exatamente esse o olhar que eu fiz para o meu marido quando ele veio me contar que tinha surgido uma oportunidade de trabalho para ele interessante por aqui.

Já me imaginei vestindo roupas de Serena Van der Woodsen, vivendo uma vida no melhor estilo Carrie Bradshaw à la Sex and The City. Tipo esse meme:

luxo-nova-york

Só esqueci que essas duas personagens têm uma coisa em comum que são bem diferentes da minha realidade: elas não têm filhos. Mas relevem, quando a possibilidade surgiu eu ainda estava grávida. Não tinha ideia do que vinha pela frente. E não é sobre isso que eu vim falar.

 

A verdade é que eu não posso reclamar da minha vida no quesito luxo. Moro em um apartamento com a vista mais linda que eu terei na vida, em um bairro bem legal. Vivo uma vida super confortável. Sim, as tarefas se acumulam. Sim, NY é uma cidade cansativa. No frio, então, é triste. Mas em termos gerais, posso dizer que tem dias que eu realmente viro essa mulher do café na mão (ou melhor, chá), de casaco, echarpe e correndo para o metrô. Ah, sim, metrô. Porque quem criou esse meme provavelmente não tem ideia que é mais fácil você se atrasar pegando o taxi ahahah. Mas meu conceito de luxo mudou completamente.

>>>>>> Veja também: Uma Nova York desromantizada <<<<<<

Antes eu associava Nova York com luxo ao entrar em lojas onde o ítem mais barato deve custar uns 4 dígitos. Luxo era passear por bairros onde mulheres desfilam suas bolsas das marcas mais caras do mundo. Luxo era morar em um apartamento com escadas de incêndio aparentes – que são a cara de Manhattan. Luxo era andar pela neve ouvindo músicas de Natal. Patinar no gelo no Rockefeller Center. Tudo que eu considerava luxuoso tinha a ver com a romantização da cidade. Essa mesma que está aí desde sempre sendo retratada em filmes e séries. Ou então era sobre seu potencial de consumo.

Sim, confesso que continuo entrando em um clima todo especial em Dezembro. Músicas de Natal invadem todos os lugares e a cidade toda está enfeitada com luzes. Não consigo desassociar o clima da cidade e não me sentir em Milagre na Rua 34. A primeira neve do inverno é sempre mágica. Mas tirando isso, hoje o que eu acho luxuoso é outra coisa.

Para mim, hoje luxo é poder levar Arthur de bicicleta para a escola e me economizar meia hora andando. Luxo é pegar ele na escola e ir até um dos 4 parques que têm aqui perto para ele brincar mais um pouco. Luxo é um desses parques ter wi-fi e eu poder levar meu computador se precisar trabalhar de lá.

Falando em trabalhar e wi-fi, luxo é ter vários cafés para eu trabalhar. Afinal, tem dias que tem tantas coisas esperando para serem feitas em casa, que eu sei que vou me distrair. Luxo é eu poder sair de casa com meu computador. E saber que posso trabalhar até de um parque público sabendo que eu não serei assaltada. Realidade que nunca vi no Rio de Janeiro, infelizmente.

Luxo é eu poder educar meu filho em um ambiente com todos os tipos de famílias e crianças. Em uma cidade cheia de diversidade e que respeita a individualidade das pessoas. Luxo é eu perceber que a escola antiga do meu filho fechou dois meses antes do previsto e as professoras ficaram desesperadas porque não estavam se programando para serem despedidas mais cedo e todas – TODAS – já estão empregadas novamente. Apenas 3 meses depois.

Eu poderia seguir aqui falando de tantos outros luxos que meu dia a dia aqui me mostrou. Luxos que nada têm a ver com a imagem que as séries e filmes costumam nos passar. E hoje vejo que são privilégios muito mais duradouros e que me deixam muito mais feliz e preenchida do que uma bolsa ou um sapato (e olha que eu gosto de uma bolsa e um sapato). Aliás, falando em série, quem diria que hoje eu sou infinitamente mais apegada à Miranda do que qualquer outro personagem de Sex and The City.