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4 em #paposobremulheres/ Comportamento no dia 10.04.2019

Os desafios de ser mulher e agente penitenciário

Dezesseis horas de um domingo, eu ali de cócoras intercalando os soluços do choro e a risada nervosa. O varal no chão e a roupa toda enlameada. Depois de um dia inteiro pra por tudo em ordem, meu varal não deu conta, rompeu. O serviço, justo o que menos gosto de fazer, todo perdido. 

Há cinco anos casada, eu então com 23 anos, pela primeira vez me perguntava se minha vida se resumiria àquilo. Findo o ensino médio há mais de cinco anos, nem cogitava mais a possibilidade de voltar a estudar. Em uma cidade de 8 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte, casar e ter um trabalho no maior comercio local (um supermercado) era considerado o auge do sucesso de uma mulher.

Dias depois, numa conversa sobre insatisfação no trabalho, uma amiga mencionou sobre o concurso para Agente Penitenciário.

>>>>>> Veja também: Eu nunca me imaginei sendo policial civil. Vai ver eu não me conhecia tão bem. <<<<<<

De cara achei um descabimento. Eu nem sabia o que era um “Agente Penitenciário”. Fui pesquisar, fiquei encantada por as histórias de pessoas que mudaram suas vidas ao conseguirem entrar em um cargo público. Sobre a função, não existia muitas informações. E as que tinham falavam de morte, reféns, rebelião. Adivinhem a qual fato eu dei importância?

Sou de veneta. Fiz a inscrição. Baixei todo material da internet, sem saber se era atualizado, e imprimi umas 500 folhas. Em casa, não foi dada importância à nova “invenção”, não era muito provável que isso fosse pra frente. Cinco mil inscritas. Fiquei na 234ª posição. Quatro anos depois (pois é, demorou!) e mais quatro fases. Testes Físicos, Psicoteste, Investigação social e Curso de Formação. Fui nomeada.

Em 2013 saiu a convocação para o curso de formação. A família, tão carente de informação quanto eu, não colocava muita fé. Pedi demissão do trabalho e fui pra capital. Cheguei lá com uma blusinha de oncinha rosa. Exatamente da cor que minhas bochechas ficavam no decorrer das aulas quando alguém me perguntava o que estava fazendo ali. Nem eu mesma sabia.

Um mundo novo, cheio de leis, golpes de defesa pessoal, sprays de pimenta foi aberto a mim. E toda uma lição sobre o que são as cadeias.

Os problemas são estruturais. Dos Prédios? Também. Mas, principalmente da sociedade.

Doenças infectocontagiosas, doenças mentais. Analfabetismo, falta de ética. Lentidão do judiciário, inversão de valores da sociedade, machismo, crescimento do crime organizado. A maldade do ser humano. Se cada um desses problemas fossem atacados na fonte, nossas cadeias seriam menos habitadas. Mas não são. Todos esses fatores são amontoados atrás de grades.

E nós lá, no meio de tudo isso, de roupa preta e armados de muito jogo de cintura.

Ao agente penitenciário é dada missão de resguardar-lhes a integridade física e a obediência das leis. Além de todas as demais rotinas de conferência, alimentação, medicação, visitas sociais. 

A capacidade de dialogar é a maior arma do agente penitenciário. Um bom agente tem que saber falar. Seja com um familiar, com um preso, com um advogado, com um juiz, com um médico. Cada público desse tem uma demanda pro agente. A logística de uma cadeia é muito complexa. Impossível traduzir em um único texto. Uma ação básica, alimentação por exemplo, requer um rito próprio e ainda varia de unidade para unidade.

Em um determinado momento fui designada para trabalhar numa unidade feminina.

Sabe o presidio da série “The Orange is new Black”? pois é! Não tem nada a ver com aquilo.

>>>>>> Leia também: Presos que menstruam, de Nana Queiroz <<<<<<

As internas, como denominamos, gostam de contar suas histórias. Umas entram no crime por amor, outras estavam no lugar errado na hora errada, outras fizeram justiça com as próprias mãos. Tem presa que mandou matar o marido e contou, sorrindo, como preparou o café da manhã no dia que antecedeu o fato. Teve outra que contou como matou a amante do marido dela, com três tiros, na porta de casa. Pow, Pow, Pow. Ela repetia triunfante. Tem estelionatária, assaltante, traficante. Tem interna que foi presa porque não pagou pensão alimentícia, e tem também gente que não fez nada. Não é incomum que as famílias não as procure. E a solidão passa a piorar o que já é ruim. Tem sim uma energia pesada, tem também muita injustiça.

A vaidade, com ajuda da criatividade, dribla a escassez.

São trancinhas, penteados com retalhos, shorts que viram lenços, pasta de dente que vira máscara facial. Os relacionamentos amorosos entre elas, também são mais comuns que nas unidades masculinas. O que, por muitas vezes, geram outros problemas como brigas por ciúmes. Numa cela com várias pessoas – muitas delas sem qualquer limitação moral, ética ou religiosa – até uma piscada de olho pode gerar um problema gigantesco.

A gravidez é outro ponto marcante. Muitas chegam à unidade sem sequer ter feito uma consulta de pré natal. Os exames são providenciados e não é incomum os bebês virem ao mundo já custodiados por nós. Essa é sempre uma experiência que me afeta. A isso não acostumo. Fora a tensão que é a hora do parto, cadeia-maternidade-cadeia entre uma contração e outra.

De início me perguntavam como meu ex-marido me deixava ser agente penitenciário. Nunca soube responder porque nunca achei que fosse competência dele decidir isso.

Mas não nego que ser é uma profissão que lida diretamente com o machismo. Dentro de casa ou dentro da cadeia.

Certa vez, eu, na posição de chefe de equipe, preparei-me pra receber a visita de inspeção de uma juíza. Um capitão da polícia veio antes, pra garantir a segurança. Eu, à frente da equipe, o cumprimentei. Ele apertou a minha mão e passou direto para o único homem – entre várias mulheres – e disse que queria falar com o responsável. Meu colega disse que ele podia falar comigo mesmo. Meio sem graça fui mostrar a unidade.

A sós, ele perguntou meu nome. Respondi: Tamara. Ele: posso te chamar de Tá?. Eu: não, meu nome é Tamara. Ele: posso te chamar de Mara? É que eu sou ruim com nomes. Eu: meu nome é Tamara, e você pode me chamar de Sra Agente.

Em outra ocasião, jogaram pedras no prédio. Fomos fazer uma ronda externa, eu e uma colega ficamos localizadas na lateral da unidade, passaram dois rapazes e ficaram soltando piadinhas. Eu, fardada, com uma espingarda na mão, quase maior que eu, e ainda assim o cara não teve receio de me importunar. É claro que ele teve que pedir desculpas, mas fiquei tão incrédula que não tive reação, e um colega teve que intervir.

O fato mais engraçado é quando me perguntam a profissão.

Quando digo “agente penitenciário”, tem gente que diz: Mas, você não parece uma. Como parece uma agente? Gosto de perguntar. Uma pessoa grossa, corrupta, que não sabe falar? Desarrumada? Minhas colegas são vaidosas, femininas, sabem conversar. A pessoa fica meio sem graça e tenta remendar. “Não é isso…é que você parece ser boa.” E quem disse que agente penitenciário precisa ser ruim? Combater o mal iminente da melhor forma possível, impedir ou adiar um conflito, por meio de atitudes sábias, ou deixar um conflito mais curto pela habilidade e força, não é ser ruim. É ser bom, que é também diferente de ser bonzinho.

Tem gente que diz que não seria agente penitenciário por dinheiro nenhum do mundo. Nunca sei se a pessoa quer dizer que não quer ou que não conseguiria. Sou feliz por estar conseguindo. Nesse ambiente aprendi a me posicionar, a dizer não, a me impor, consegui minha independência e conheci pessoas maravilhosas. Amigas e amigos que levo pra vida, que são exemplos de seres humanos. Pessoas inteligentes, inspiradoras, que cumprem, com muito pouco, com a missão que lhes foi dada.

Pretendo sair, ando lendo sobre pessoas que mudam suas vidas através dos estudos. E quero descobrir novos desafios. Mas sempre serei orgulhosa pela profissão que abriu o leque de possibilidades que tenho hoje.

3 em feminismo/ Reflexões no dia 04.10.2018

Somos mulheres, não somos enfeites e nem precisamos nos adequar ao padrão de feminilidade

A gente sabe que a aparência física das mulheres costuma ser uma faca de dois gumes. É a primeira coisa que todos usam para nos elogiar, e também a primeira a ser escolhida na hora de fazer uma crítica. Ou seja: está sempre no foco, antes de qualquer outra coisa. Reparou?

Sim. Nossa “apresentação” é fundamental e deus me livre ser feia. É o pior dos castigos. Isso é histórico, vem de muito tempo e é ensinado desde a infância por gerações e gerações. Ser bonita significa muito.

Mas ser bonita significa o que? Em geral significa chegar o mais perto possível de algo como o padrão Gisele Bundchen de feminilidade. Mulheres magras (mas com peito e bunda, claro), brancas, jovens, cabelo longo que se remexe todo no vento, atitudes delicadas, riso solto, sempre feliz, voz suave, pele lisinha, roupas glamourosas, salto, maquiagem (nem muita nem pouca, tem que parecer “natural”, e não vulgar), perfumada em todos os lugares possíveis (e quando eu falo todos os lugares, sim, até lá embaixo).

Então toca a mulherada toda sair correndo atrás desse padrão. Alisa, pinta cabelo, faz pé e mão. Passa creme, corretivo. Faz botox, bota peito. Depila perna, axila, ppk e muito mais. Dá-lhe academia. Compra roupa, compra sapato, compra sutiã push-up, compra cinta. Não perde o controle, é feio, sorria minha filha. 

Aí eu penso: Não posso ter cabelo curto, pelo no sovaco, meter uma chinela, sair de cara lavada, usar calcinha confortável, comer bolo de chocolate, ficar puta da vida? Porque quando eu faço isso me dizem que sou FEIA, suja e inadequada. Isso que estou falando não é um julgamento em relação a mulher nenhuma. Você pode ser qualquer tipo de mulher e você tem esse direito. E todos os tipos são ok.

Só que tem algumas coisas importantes dentro desse cenário que apresentei aí em cima, que precisam ser ditas.

  1. Quem inventou essa aparência padrão feminina foi a sociedade, que é patriarcal. Quem enfiou nas nossas cabeças essa necessidade enorme de ser linda, FEMININA, suave, como se existíssemos para sair bonita na foto e apenas para isso, foi essa mesma sociedade. Sim, a imensa maioria dos homens vai gostar mais de você se você for o mais próxima possível de Gisele. Pausa para um plot twist: os que realmente valem a pena não se preocupam com isso.
  2. Como estamos contaminadas por esse padrão, todas nós, julgamos outras mulheres baseadas nele. Nós mesmas. Temos que lutar contra isso! Se a gente quiser ser respeitada do jeito que a gente é, temos que respeitar as outras mulheres do jeito que elas são, não importa que jeito seja esse. Eu, Juliana, NÃO ACEITO ver qualquer pessoa criticando a aparência de uma mulher, tanto faz qual seja essa aparência. Isso é problema dela. E é só aparência.
  3. Ser bonita ou feia não deveria ser tão importante. Eu mesma aprendi a me desapegar desses conceitos. E se eu for feia? E se alguém me achar feia? Não tô nem aí. Feia e bonita são conceitos rasos, externos, bobos, que não dizem nada sobre alguém. Eu não estou aqui para embelezar o mundo. Pense nisso. Você é muito maior que sua aparência física.
  4. Mulher tem cheiro de mulher. Ppk tem cheiro de ppk. Celulite e estrias são comuns no corpo feminino. A gente transpira. A gente faz xixi e cocô. A gente nem sempre tem uma personalidade delicada. Se um cara não gosta do que faz parte da constituição da fêmea da espécie, as chances do problema estar com ele são infinitamente maiores do que estar com você. 
  5. As bonitas que me desculpem, mas beleza não é fundamental, já diz o velho ditado que eu acabei de inventar nesse minuto. Seja linda, seja feia, tanto faz. O importante é fazer a sua diferença no mundo, o que quer que isso signifique pra VOCÊ e pra mais ninguém.
1 em Comportamento/ Convidadas/ Destaque/ Mayara Oksman no dia 08.03.2017

Às mulheres da minha vida

Eu tenho uma avó que foi dona de casa, criou quatro filhos e não tinha sua voz ouvida pelo marido. Minha mãe, talvez pelo que viu em casa, sonhava em criar asas, voar e construir a vida dela completamente diferente. Minhas três irmãs são muito diferentes entre si, mas cada uma delas é uma sobrevivente e lutadora de formas diferentes. Minhas tias, como eu amo minhas tias! Nada iguais entre si, mas sempre cuidando de mim como se eu fosse filha delas. Perdi uma delas para uma brava luta contra o câncer há onze anos e essa é a maior perda da minha vida, de longe. Minha prima postiça é uma das mulheres mais doces, queridas e pacientes (friso essa qualidade) que eu conheço no mundo. Minhas sobrinhas são minhas princesas, desde pequenas me mostrando, cada uma do seu jeitinho, que o futuro pode sim ser um lugar bem legal.

Tenho algumas boas amigas, daquelas que eu chamo de irmãs de coração. Cada uma delas tem uma história diferente, por óbvio, mas todas me enchem de orgulho todos os dias. Uma delas acabou de sair de uma parceria de trabalho abusiva. Ela foi e continua sendo forte nesse longo processo de compreender o que estava acontecendo e ver que ela não precisava daquilo para ser feliz. Uma outra amiga, assim como minha irmã, teve uma adolescência vida loka e não se arrepende nem um pouco: ela é quem ela é e hoje só se considera foda porque passou por coisas que muita gente não passou. Tenho amigas que viram noite em plantão para ajudar outras pessoas e fazem isso com sorrisos nos rostos. Outra amiga minha luta todos os dias para mostrar no trabalho que é capaz (senão mais) de fazer o que os advogados do escritório fazem. Amigas que voaram para longe para batalharem em outra língua e viver a vida que sempre sonharam. Diversas amigas passaram por cantadas agressivas na balada, foram criticadas por usarem as roupas que queriam. Criticadas porque queriam ser CEO e não donas de casa. Criticadas por quererem ser donas de casa e não CEO.

Duas das minhas amigas, conhecidas de vocês, são fortes, independentes e sem medo algum de ser feliz do jeito que elas bem entenderem. Uma delas me mostrou que eu não sou louca: que ser mãe não é não um conto de fadas. Ambas me ensinam demais sobre autoestima, sobre me aceitar, sobre me amar do jeito que sou. Acho que vocês sabem de quem eu to falando. :)

Tenho orgulho de ter trabalhado e trabalhar com mulheres incríveis. Mulheres casadas, solteiras, com ou sem filhos, que todos os dias saem de casa, chegam no escritório e batalham incansavelmente pelo que acreditam ser correto. Nem sempre o dia termina como esperado e mesmo assim elas não descem do salto (no sentido figurativo, porque quando dá dez da noite todo mundo já desencanou do sapato).

Todas elas têm histórias diferentes. Todas elas passaram por algum tipo de dificuldade. Todas já devem ter sofrido preconceito por serem simplesmente mulheres. Todas precisam provar para o mundo que são capazes, assim como os homens. Todas elas já foram silenciadas em algum momento da vida e nem todas puderam fazer algo para que isso não acontecesse. Todas elas são as pessoas mais fortes que eu conheço no mundo. E tenho certeza que você, mulher, que está lendo isso agora, é tão foda quanto todas as mulheres da minha vida.