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0 em Autoestima no dia 20.11.2018

Semana da Consciência Negra: Eu Sou

Há 60 anos apenas 15% das mulheres negras eram alfabetizadas. Hoje, as mulheres negras são mais alfabetizadas que os homens negros, mas ainda sim, equiparado à homens em geral, alcançam menos oportunidades de expressão, mesmo quando estudam. Isso se chama apagamento de identidade, pois a construção de expressividade em uma mulher negra está sempre entrelaçada a um estado de luto transformado em luta.

Stuart Hall, estudioso sobre identidade cultural, diz que a identidade surge não tanto da plenitude de entender o que já está dentro de nós como indivíduos, mas de “uma falta de inteireza que é preenchida a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros”.

Ora…quão oportuno é ser Negro nessa sociedade?

Sociedade que faz com nossas memórias nos alertem para as vidas objetificadas de quem descendemos? De como fomos suprimidos de qualquer forma de humanidade e expressividade?

>>>>>> Veja também: Ninguém nasce racista <<<<<<

Esses dias uma colega levantou um questionamento sobre se referir a pessoas negras como pretos ou negros.  “Preto é minha cor, negro é o que eu sou”, eu disse a ela. Ela entendeu. E eu, agora, entendi a minha consciência do ser negra.

Trecho do poema Futuro do Pretérito, do livro Lembranças Ancestrais de Carolina de Souza

Trecho do poema Futuro do Pretérito, do livro Lembranças Ancestrais de Carolina de Souza

Sou negra, me olho no espelho. Sou negra, olha para os meus avôs, pretinhos. Sou negra, mas parece que eu sou a única aqui nessa sala de aula. Sou negra, faz trancinha no meu cabelo pra ficar mais fácil de cuidar. Sou negra, por isso eu tenho que ser uma das melhores alunas da turma. Sou negra, tenho que ser forte, sentimento é coisa de menininhas. Sou negra, isso me livra de ter atendente em cima de mim nas lojas, elas já acham que eu nem vou comprar. Sou negra, eu tenho que me condicionar e ir atrás dos que considero amigos, ninguém vai vir atrás de mim. Sou negra, vou em um lugar chique, vou amarrar meu cabelo.

Também sou negra e estudei em escola particular. Sou negra e estudei na universidade federal. Não precisei trabalhar para me sustentar durante a faculdade. Tive algumas oportunidades de participar de congressos e eventos estudantis. Já fui na praia dez vezes. Frequento bares e restaurantes classe média alta nos aniversários dos amigos.

Sou negra, e te dei um monte de motivos para você reconhecer.

Eu preciso sempre me reconhecer e sempre avaliar se não estou a reproduzir algo que não devo, não sou. Eu sou uma negra cercada de privilégios e de privilegiados. Eu moro em uma cidade onde 57% se declara negro mas não vejo essa porcentagem nos lugares da minha rotina.

Trecho do poema Futuro do Pretérito, do livro Lembranças Ancestrais de Carolina de Souza

Trecho do poema Futuro do Pretérito, do livro Lembranças Ancestrais de Carolina de Souza

Sou negra quando percebi que não bastava mais ser e estar, eu precisava falar sobre isso. Aí estava a construção da minha identidade. O mundo tá chato, é muito mimimi, e por isso eu falo. Sempre foi chato pra mim por causa da minha cor, e eu não quero mais que seja.

Eu não quero ter que provar o meu valor o tempo todo.

Eu gostaria que o fato de uma atriz e cantora negra ganhar uma competição em um programa de tv não precisasse ter tão óbvios os adjetivos de raça ligados diretamente à superação. Gostaria que não precisasse explicar o que é ser racista exemplificando um presidente eleito.

Eu não quero que as pessoas virem pra mim e comecem a falar automaticamente da Djamila Ribeiro. Ou do discurso da Viola Davis como se fosse uma necessidade de validação da empatia de lugar de fala. Eu já sei disso tudo. Posso não saber com palavras bonitas, mas eu sei, sou negra.

Recentemente recebi um feedback muito bom de um processo seletivo, mas que finaliza me dizendo que “(…) ainda assim, entendemos que você poderia buscar informações e se posicionar sobre questões relacionadas à diversidade (gênero, etnia, classe, regionalismo e etc)”. Um respiro. Um colega não-negro neste processo seletivo receberia um feedback desse?

Eu não quero estar lutando sempre!

É óbvio que os meus privilégios me dão oportunidades onde a construção da minha identidade queira refutar os adjetivos de superação, mas por mais privilégios que eu tenha, sou cobrada para que eu esteja sempre atenta.

Praticamente todo negro brasileiro perpassa sua história em algum ponto na periferia. Idealmente, quero assumir quem somos, sem considerar sempre o resumo de uma identidade racial a uma periferia. Ou procurar um estigma, a tribo menos privilegiada. No entanto, é só quando trazemos estas discussões para uma concepção social, de interação com o interno (indivíduo) e externo, é que há a construção de um ser e estar no mundo, onde a pessoa não apenas sobrevive, mas vive e está presente na estrutura dessa sociedade. Uma dualidade, não?

O ser, o sou negra, não é constituído apenas do imediatismo das mazelas modernas, da discriminação, mas também de toda uma trajetória histórica que é de luta. Principalmente de não perda de uma identidade, de busca para que na contemporaneidade possamos ser sujeitos da nossa própria história. O lugar onde moramos, as pessoas que convivemos, as oportunidades que temos molda quem nós somos, em um processo de aproximação e distanciamento de contexto, “adjetivos”, do que nos rodeia, mas de quem queremos ser. Não sou só adjetivos. Quero ser substantivo. Minha causa é para que todos nós sejamos.