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7 em Autoestima/ Deu o Que Falar no dia 04.12.2018

Gordofobia no discurso da Carolina Dieckmann? Sim, temos.

No último sábado, a atriz Carolina Dieckmann participou do programa Altas Horas e acabou dando o que falar. O momento que fez com que toda uma discussão sobre gordofobia acontecesse foi quando a atriz começou a falar sobre a cerimônia do seu segundo casamento. Ali, ela diz ter se casado “obesa” pois casou-se grávida de 6 meses e 20kg acima do seu peso. Serginho Groismann tentou aliviar a tensão que surgiu na plateia dizendo que ela não precisava emagrecer, mas a atriz não entendeu a deixa e terminou falando “mulheres sempre querem emagrecer”. 

Carolina, tenho certeza absoluta que de obesa você não tinha nada. Talvez a sua magreza evidente faz com que você se sinta assim ao ganhar qualquer número de peso. Isso não é obesidade. Além disso, gorda não é sentimento, não vamos esquecer.

>>>>>> Veja também: Pare de dizer que você se sente gorda. Gordura não é sentimento <<<<<<

“Obesas”, da forma pejorativa que você falou, são pessoas que sofrem preconceito por conta da sua forma física. Pessoas que são excluídas socialmente por isso, que não cabem em certas cadeiras, cujo cinto de segurança em um avião não fecha, que não conseguem emprego, que são marginalizadas em atendimentos em serviços de saúde. Você não estava e nunca esteve obesa. 

Mas não é isso que vim aqui discutir. Na verdade, logo depois surgiu uma discussão se houve ou não gordofobia no discurso dela. “Ah, mas ela estava falando dela mesma, não estava falando mal de outros corpos”, foi o argumento princial. 

Não importa para quem ela estava falando isso, a questão é que o discurso dela foi sim, gordofóbico. Vou contar os pontos que me chamaram atenção. 

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“Aquele vestido de noiva….a pessoa branca, gorda, de branco….piorou tudo.” E emenda na frase “Tiago, você precisa me dar a chance de ser uma noiva gata”.

Nessa frase ela explicitamente mostra algo muito comum enraizado. A ideia de que a beleza está na magreza, que estando fora desse padrão não se pode ser bonita.

Lá no grupo do #paposobreautoestima no facebook algumas meninas disseram se sentiram feias por serem ou estarem gordas. Sabe por que elas se sentem assim? E-X-A-T-A-M-E-N-T-E por isso. Como a magreza é associada à beleza, qualquer coisa fora disso se torna feio ou errado.

A Carolina Dieckmann só repete isso pois ela também foi ensinada dessa forma, assim como todas nós. Ela também é vítima desse sistema cruel que faz as mulheres acreditarem nisso. Tão vítima que ela não se deu conta de como sua fala foi problemática. Mesmo com a plateia não reagindo. Mesmo quando o próprio Serginho foi tentar melhorar o clima dizendo que ela não estava gorda. Ela tanto não se deu conta que continuou a falar e a reforçar aquilo que havia começado.

Isso é muito comum em discursos onde não temos lugar de fala. Aquilo não nos dói da mesma forma que dói em quem sofre o preconceito.

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“Magra….porque toda noiva tenta emagrecer”

Taí um hábito que foi socialmente construído e ferra a cabeça de boa parte das noivas. Mas por que toda noiva tenta emagrecer? Casar gorda é fracasso? A ideia de que pessoas gordas são fracassadas está enraizada na nossa sociedade. Há alguns meses eu fiz um texto sobre essa ideia que “não podemos correr o risco de sermos gordas” onde mostro a raiz gordofóbica e o pavor de engordar que assola o mundo que vivemos. E é exatamente essa ideia que permeia o raciocínio de que precisamos sempre estar emagrecendo. 

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“Porque ainda quero esse sonho de noiva, emagrecer pra ficar gata, passar por essa tensão de tentar caber no vestido”

Essa fala é toda problemática porque claramente mostra o pensamento repleto de gordofobia de uma pessoa que nunca foi gorda, muito menos obesa. A pressão para emagrecer que é comum entre as noivas não é um sonho. A tensão para caber no vestido não é essa romantização que a Carolina faz parecer. Ao contrário, é um cenário de horror recheado de gordofobia.

Vemos noivas que não se permitem experimentar os doces e o bolo do próprio casamento para não engordarem. Vemos mulheres tomando remédios tarja preta para conseguirem emagrecer. Vemos noivas que não conseguem aproveitar a própria festa porque estão fracas depois de meses de dieta super restritiva.  Tudo isso por causa dessa ideia de que tem que caber no vestido de noiva, porque noiva tem que casar magra. 

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“Coisa de mulher que quer sempre emagrecer”

Temos que PARAR COM ISSO de que “toda mulher quer emagrecer”! ”Toda mulher quer perder aqueles 2 quilinhos”. NÃO! Esse senso comum precisa ser extinto! Muita gente que atendo diariamente no meu consultório chega com a demanda de querer emagrecer, e na maioria das vezes, chegamos a conclusão de que essa demanda nem é delas. Muitas descobrem que levam essa crença enraizada, mesmo não acreditando realmente nela. 

>>>>>> Veja também: Qual o peso a palavra magra tem na sua vida? <<<<<<

Somos todas vítimas dessa sociedade? Sim, somos. Somos todas vítimas desse padrão? Também somos. Mas não podemos sair falando qualquer coisa por aí. Ainda mais você sendo famosa e tendo um discurso de longo alcance, em um programa de televisão de tv aberta.

Temos que prestar mais atenção à toda discussão que tem sido feita de forma bastante saudável sobre inclusão, representatividade e gordofobia. Para quebrar preconceitos e unir as pessoas, independente do seu formato de corpo, cor, orientação sexual, religiosa ou o que quer que seja. Acho que isso faltou à Carolina. Soou como um discurso total de peixe fora d’água.

2 em casamento/ Comportamento no dia 03.10.2018

As noivas que não comiam macarrons – ou a gordofobia no mercado de casamentos

Quando comecei a trabalhar com casamentos, os macarrons – deliciosos doces de amêndoas de confeitaria francesa – eram o último grito da moda casamenteira.

Meu coraçãozinho de jovem empreendedora não resistia ao encanto daqueles disquinhos coloridos – porém caros e difíceis de achar – e vez ou outra eu me permitia ao luxo de encomendar alguns para servir às minhas clientes do cerimonial, afinal, toda noiva estava apaixonada por macarrons nessa época.

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Realmente faziam sucesso: elas queriam tirar fotos, saber onde encomendar, quanto custavam, como servir. Mas para a minha surpresa, poucas delas chegavam a prová-los. Ou quando provavam, logo se autocriticavam por aquilo que consideravam uma pequena transgressão.“Preciso caber no vestido”, “Se eu não perder peso vou adiar o casamento”, “Não estou comendo nada” eram algumas das frases que eu ouvia constantemente no meu escritório.

>>>>> Veja também: Não faça loucuras para caber em um vestido de noiva <<<<<

Quando a Carla postou um texto sobre emagrecer para caber no vestido de noiva, os relatos me doeram. Por mais que eu saiba que essa pressão estética é fruto de uma construção que permeia toda a sociedade e não só o mercado de casamentos, eu não poderia ficar calada sobre a responsabilidade dos profissionais dessa área na manutenção dessa cobrança que vêm adoecendo várias mulheres em um momento que deveria ser de alegria.

E de fato, os casos mais comentados de pressão estética e gordofobia no mercado de casamentos estão relacionados à escolha do vestido. Frequentemente, as visitas aos estilistas ou lojas de vestidos se tornam uma longa sessão de comentários sobre o corpo da noiva. “Quantos quilos você deseja perder até o grande dia?”, “Você não pode usar esse modelo porque vai ficar vulgar no seu corpo”, “Vamos esconder essa gordurinha debaixo do braço” “Vou criar um vestido com corselet que vai remodelar todo o seu corpo” foram alguns dos comentários que presenciei ao acompanhar minhas clientes. Diante disso eu sempre precisava reafirmar o que parecia óbvio: É o estilista que deve criar um vestido para o corpo que você tem e não você que deve criar um corpo para se adaptar ao vestido do estilista.

Tenho consciência de que algumas noivas chegam ao profissional com muitas questões sobre o próprio corpo, mas não isso não autoriza comentários sobre emagrecimento ou ganho de peso sobre determinado corpo ser ideal para “arrasar” no altar ou o comentário mais cruel de todos: “Não se preocupe, toda noiva emagrece durante os preparativos”.

Essa frase é repetida cotidianamente e sem muito pudor por fornecedores de todas as frentes: estilistas, fotógrafos, maquiadoras, cerimonialistas, confeiteiras como uma espécie de alento. Além de não ser uma afirmação real, não consigo compreender de que maneira um emagrecimento por ansiedade deva ser comentado, celebrado e até mesmo romantizado por aqueles que foram contratados para cooperar com a tranquilidade de um casal.

Tudo isso, agravado pela ausência de representação de corpos de outros tamanhos nas revistas, desfiles e até mesmo nos portfólios dos profissionais. Mulheres gordas casam, são produzidas, fotografadas e filmadas, mas eu não tive a oportunidade de ver uma noiva gorda como capa do portfólio de nenhum dos muitos profissionais que visitei ao longo de seis anos de profissão.

Mas o que eu mais preciso dizer é: O casamento não é sobre o corpo da noiva.

Não é nem mesmo sobre a figura da noiva; é um evento que faz parte de uma tradição maior que o mercado de casamentos, que envolve um casal que tem uma história e compartilha uma série de significados e promessas diante das pessoas mais importantes das vidas deles.

Reconhecer isso e conduzir a noiva de volta a esse contexto não apenas é um gesto de empatia, mas algo que pode fazer o trabalho do fornecedor brilhar no mercado.

Já não trabalho como cerimonialista, mas sigo na torcida por casamentos com mais macarrons e menos julgamentos.

2 em Autoestima/ Camilla Estima/ Saúde no dia 06.09.2018

“Não posso correr o risco de ser gorda”

Sei que a frase do título é impactante, mas é assim que pensa a pessoa gordofóbica. E não to falando em gordofobia com preconceito explícito, não.

Nos últimos dias, durante consultas com alguns pacientes onde a tônica sempre acabava no medo de engordar ou de tornar-se gordo, tive alguns insights que fiquei com vontade de dividir aqui no Futi. Quando, já estava enumerando os motivos que fui reunindo nessas consultas que me dessem uma ideia do que a sociedade acha das pessoas gordas.

As respostas foram das mais diversas, mas ao mesmo tempo bem homogêneas:

– gordos são fracassados
– gordos não têm força de vontade
– gordos são acomodados
– gordos não prezam pela sua saúde
– gordos não tem apreço pelo seu corpo
– gordos são gordos porque querem
– gordos são desleixados
– gordos são sem vergonha
– gordos não têm foco
– gordos não querem mudar seu comportamento

E aí,  já que a sociedade pensa isso dos gordos e muitas pessoas – com todos os tipos de peso – foram criadas em cima dessas verdades gordofóbicas, qual a linha de raciocínio mais comum? “Eu não posso correr o risco de que pensem isso de mim, pois se eu for gorda eu entro nesse pacote todo e tudo que eu não quero é ser incluída nesse grupo.” Para evitar esse risco, recebo no meu consultório regularmente pessoas que morrem de medo – e alguns casos, até mesmo pavor – de engordar, e por causa disso entram em uma espiral de dietas. Qualquer uma que seja.

A revista está dizendo que celebridade X emagreceu 20 quilos fazendo a dieta da água? Experimentam. A musa fitness do instagram está dizendo que passou a tomar um chá desintoxicante que fez ela desinchar e emagrecer 5 quilos em 3 dias? Opa, no dia seguinte o chá está na casa delas. Um site disse que a nova dieta que promete fazer você emagrecer sem riscos de efeito sanfona anunciou uma nova forma de se alimentar? Por quê não tentar, né?

Por conta dessa ótica, a perda de peso passa a ser considerada uma conquista justamente porque na cabeça de muita gente, emagrecer – 100g que seja – significa se afastar da ideia de ser vista como alguém preguiçoso, desinteressado, relaxado, sem força de vontade, perdedor, doente.

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Agora pensando friamente, de tudo acima que listamos sobre pessoas gordas, isso efetivamente acontece? Quando saiu a matéria de capa da Tess Holiday na Cosmopolitan – revista internacional de impacto global – a própria revista publicou uma matéria sobre a repercussão de sua capa e começa com uma frase espetacular: “ninguém está mais ciente do seu corpo do que uma pessoa gorda”. É isso.

Não, não estamos fazendo apologia à obesidade, não estamos glamourizando a obesidade (que sinceramente, nunca entendo quando tentam usar esse argumento), tampouco estamos pedindo para as pessoas serem gordas. Com esse papo, estou tentando estimular a EMPATIA com as pessoas, especialmente com as gordas que tanto sofrem esse bando de estigma e preconceito que fiz questão de enumerar no começo do texto.

Vira e mexe quando falamos isso vem a galera da higienização do corpo gordo: “Ah, mas estão doentes!” “Ah, mas achando essa gorda na capa, estamos propaganda doença”. E aí eu penso, caramba, se eles por acaso estiverem doentes, seria mais um motivo que deveria me fazer acolhê-los, não? De que adianta apontar o dedo a alguém doente? E mais, se a Tess Holiday está doente na capa da Cosmopolitan, ela não teria direito ao espaço por isso? Pessoas doentes devem ser marginalizadas? Que tipo de pensamento é esse, gente?

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Enquanto não falarmos abertamente sobre gordofobia e ela não incomodar as pessoas, inclusive a você que está lendo esse texto e se identificou de alguma forma com ele, o mundo vai continuar do jeito que está.

Temos que ter EMPATIA e temos que ACOLHER as pessoas, qualquer que seja o seu corpo, peso ou aparência. Estando elas saudáveis ou não. Isso não é propagação de doença e sim de RESPEITO.