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0 em Comportamento/ crônicas no dia 19.10.2018

Comprei uma bicicleta e ganhei muito mais do que esperava

Compramos uma bicicleta. Eu sei que foi na estação mais errada do ano, afinal, faltam uns 2 meses para a temperatura chegar perto do 0 e começar o período de neve, mas isso era algo que a gente ameaçava fazer há algum tempo e sempre desistia. Sem nenhum motivo aparente. Era o tipo de coisa supérflua, “um dia a gente compra”. E esse dia nunca chegava. Até que chegou.

Pegamos um modelo bem básico, nada muito caro ou cheio de novidades. Uma bicicleta que fosse boa o suficiente pra gente sair andando por aí. E compramos uma cadeirinha de criança, já que a cidade permite que esse seja um meio de transporte viável, queremos mais é que o Arthur aproveite com a gente. No mesmo dia eu aluguei uma dessas bicicletas que você paga o dia e vai trocando de meia em meia hora e resolvemos explorar. Atravessamos a ponte, fomos parar lá do outro lado de Manhattan e foi uma experiência deliciosa, típica sensação de felicidade quando você está fazendo algo novo pela primeira vez, sabem?

bicicleta-experiencia

Só que eu queria mais. Desde o dia que trouxemos a bicicleta para casa eu estava pensando na possibilidade de começar a usá-la para levá-lo na escola, que fica há 1,1 km de distância da minha casa e confesso que nem sempre me dá ânimo de andar esse tanto, ida e volta. Só que surgiu um medo. Não foi medinho, não. Medão mesmo. Medo de mãe.

Será que vou conseguir me equilibrar com ele? Será que vamos cair? Será que eu vou conseguir? Enquanto isso, meu marido – que foi a pessoa que estreou a bicicleta no domingo – me dizia as particularidades. “Cuidado que quando ele está na cadeirinha, ele fica muito mais pesado que a bicicleta, então você vai ter que segurar muito mais firme”. E lá tava eu, sofrendo por antecedência. É impressionante o quanto eu sofro antes mesmo de experimentar. Eu penso em tudo que pode dar errado e fico remoendo isso, penando. A minha sorte é que eu já passei da fase de deixar isso me parar, meu novo lema da vida é justamente aquele “tá com medo? vai com medo mesmo” (que tem funcionado para tudo, menos para borboletários, que eu nem me atrevo) e como não deixei que o receio me parasse, hoje eu decidi que seria o dia.

Assim como compramos a bicicleta no meio do outono, escolhi também o dia mais frio da semana para estrear a minha carona pra escola. #bemapropriado Mas eu sei que quando eu boto algo na cabeça, essa é a minha deixa para não dar pra trás. E fui.

Arthur estava empolgadíssimo com a experiência. Enquanto eu pedalava rumo à escola, ouvindo gritinhos empolgados típicos de uma criança que está saindo da rotina e fazendo algo muito empolgante pela primeira vez, eu me deixei contagiar. O vento estava gelado (afinal, as 8:30 da manhã a temperatura era de 3 graus), as minhas mãos ficaram um pouco duras por causa do frio, mas eu não estava sentindo nada disso. Comprei uma bicicleta e veio de brinde felicidade, liberdade, empolgação e aquele tipo de independência que eu senti muitos anos atrás, quando tiraram as minhas rodinhas. Por quê eu demorei tanto?

 

0 em Autoestima/ crônicas/ Destaque/ Relacionamento no dia 17.11.2017

A melhor amiga do namorado

Eu lembro exatamente do dia que peguei antipatia de você. Você já era amiga do meu namorado há tempos, antes mesmo de eu entrar na equação. Mas nunca esqueço aquelas palavras ditas por uma pessoa que nem minha amiga era, justamente naquele momento em que vocês soltaram gargalhadas cheias de cumplicidade depois de alguma piada interna: “nossa, vocês são tão parecidas uma com a outra, né?

Foram ditas daquele jeito enigmático, onde você não consegue julgar se aquela informação está chegando para constatar, elogiar, alertar ou simplesmente jogar lenha na fogueira. Até hoje não sei o objetivo daquela pessoa ao apontar nossas semelhanças, mas se for considerar a expressão corporal e clima que senti na hora – duas coisas tão subjetivas que nunca vou conseguir transcrever – continuo apostando que meu instinto tava certo. “Nossa, como ele foi arranjar uma namorada que é a cara da melhor amiga dele, né?”

Ignorando a existência de uma verdadeira amizade entre homem e mulher – adolescentes, na verdade, tínhamos 17! – passei a te ver como inimiga, competição, o “clone” que queria o que era meu e que ocuparia o meu lugar sem que meu namorado percebesse no primeiro momento que eu desse mole (impressionante as idiotices que a gente pensa quando a competição feminina aflora, né?). E o pior? Passei a te ver como uma versão melhorada de mim.

Nossos cabelos eram muito parecidos, mesma cor, mesmo movimento, mesmo comprimento, mas o seu era sempre mais brilhante e definido. Você não era tão alta quanto eu, mas era bem mais magra, e toda a sua naturalidade ao ficar de biquini nos churrascos da turma ou nos fins de semana na praia destoava com a minha insegurança de fazer o mesmo. Você tirava notas melhores, apresentava trabalhos mais bem elaborados, tinha uma desenvoltura para falar que eu não tinha. Em certos momentos a insegurança era tanta que eu tinha certeza que meu namorado ia acordar um dia e perguntar: “o que eu estou fazendo com você? Me confundi, eu queria ela, vocês são parecidas mas ela é bem melhor”.

Até que meu namoro terminou por outros motivos que nada tiveram a ver com você e aconteceu justamente o que eu temi durante todos esses anos que te considerei meu clone ameaçador: vocês ficaram. Pelo o que eu fiquei sabendo, uma vez. Talvez aquele momento que os amigos confundem os sentimentos. “Com certeza ele fez isso porque ainda não te superou”, minhas amigas me disseram. Acreditei porque era muito conveniente. Acreditei porque fantasiar que você foi o plano B me fez ficar por cima pela primeira vez desde que passei a te encarar como ameaça.

Os anos passaram e outro dia vi uma foto sua no perfil de uma amiga. Fui te fuxicar, a curiosidade falou mais alto. Vi fotos da sua família, do seu filho recém nascido, do sorriso gigante dos pais de primeira viagem, dos amigos cultivados no colégio que estavam todos no seu chá de bebê. Descobri que você e meu ex continuaram tão amigos que ele virou padrinho do seu filho. Aquela cumplicidade que eu enxergava em vocês antes der te sido envenenada continuou, mesmo depois de tantos anos, mesmo depois de 3 anos onde eu tentei afastá-los um do outro. Pela primeira vez consegui te enxergar como você realmente é, e sempre pareceu ser.

ilustra: Marylou Faure (@maryloufaure)

Ah, insegurança, o que você não faz com uma pessoa… Vendo suas fotos eu só queria voltar no tempo, para o exato momento que eu resolvi ouvir aquela mensagem sobre a gente da forma errada e responder: “você acha? Que elogio, porque ela é mesmo um mulherão da porra”.

Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.
2 em Autoestima/ Comportamento/ crônicas no dia 03.11.2017

O dia do motorista nota 4.97

Eu jurava que não era uma pessoa que reparava na nota dos motoristas de Uber. Claro que se for uma nota muito baixa, talvez isso me faça desistir da viagem. Nesse dia a nota que apareceu me chamou a atenção por outro motivo: 4.97.

Nunca tinha aparecido para mim um motorista com nota tão alta. A maioria fica oscilando entre 4,7 e 4,8. Enquanto o carro não chegava, fiquei imaginando o que Joney tinha para receber uma média tão alta. Será que ele era daqueles tipos super simpáticos? Bom de papo? Será que ele oferecia água com e sem gás, Coca e Mate para quem quiser escolher? Chocolate Lindt?

Entrei no carro e finalmente conheci Joney. Aquelas figuras que sabem arrumar conversa até com quem não sabe falar ainda. Eu bem admiro esse tipo de gente, afinal, se tem algo que eu tenho dificuldade na vida, é puxar assunto com desconhecidos ou pessoas que não tenho tanta intimidade assim. Para Joney isso não parecia em um problema ou um empecilho para estabelecer uma comunicação. Acabamos engatilhando uma conversa, em uma viagem bem agradável.

O motivo do 4.97 chegou apenas no final. Quando estava quase saindo, ele pegou seu celular, abriu o aplicativo do Uber e falou: “adorei nossa conversa, você é muito legal, olha aqui, to te dando 5 estrelas”. Ele nem precisaria ter feito isso para garantir suas 5 estrelas, mas esse percurso está na minha cabeça por dias porque foi muito Black Mirror.

Por um lado admirei a motivação de Joney para garantir suas 5 estrelas. Ele precisa de uma nota alta para ter um diferencial no aplicativo, para não ter gente desistindo de pegar seu carro. Não tive dúvidas que ele sabe pegar deixas nas conversas para continuar com outros assuntos, além de ser simpático e um tanto quanto carismático, além de bom motorista, claro. Ter mostrado a nota que ele me deu foi a cereja do bolo de uma estratégia muito bem bolada.

Mas isso me fez pensar sobre a minha nota. Parcos 4.74. Não sei se motoristas cancelam viagens com passageiros que têm nota abaixo disso da mesma forma que o Uber corta quem tem nota abaixo de 4,7, mas não é das melhoras notas. Poxa, eu costumo entrar no carro, dar bom dia/boa tarde/boa noite, agradeço a corrida no final, sou educada mas não costumo puxar conversa. O que to fazendo de errado? O que será que pensam de mim quando eu chamo um carro pelo aplicativo? Será que, assim como Joney, eu deveria estar me esforçando para aumentar minha nota? Será que eu deveria ser mais simpática? Será que eu deveria arrumar assunto(sendo que isso não é natural para mim?)? Será que se existisse um sistema de notas como no 1o. episódio da 3a. temporada de Black Mirror, eu também seria uma pessoa com nota mais ou menos?

Sou totalmente a favor de ser sempre nossa melhor versão, trabalhar nossos pontos fracos e superar nossas dificuldades, mas defendo isso para que a gente se sinta melhor conosco.  Mudar para agradar os outros ou passar uma impressão de alguém que você não é na maior parte do tempo? Não, obrigada. Prefiro continuar sendo educada e mais fechada e deixar a popularidade para o Joney.