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0 em Comportamento/ Destaque/ Saúde no dia 11.03.2020

O que fazer para não surtar nas redes sociais

Outro dia fiz um post no grupo do Papo Sobre Autoestima no Facebook dizendo que estava exausta. Recentemente eu entro em redes sociais que são mais para debates do que compartilhamento de imagens e o esforço para não surtar é grande. A sensação que eu tenho quando vejo minha timeline é que entrei em uma sala barulhenta, onde todo mundo está gritando e apontando os dedos para cara dos outros.

Eu amo redes sociais. Amo um textão. Amo usar para aprender. Mas mesmo tentando enganar os algoritmos, a impressão que me dá é que todos os assuntos estão inflamados. Do Big Brother à matéria do Fantástico, passando por política (que sempre está inflamada) e corona vírus.

Quis saber se mais gente estava com essa mesma sensação. E também quis saber o que as pessoas estavam fazendo para não surtar diante desse cenário.

Algumas das respostas que recebi foram bem interessantes. Quis trazer pra cá, caso alguém esteja à procura de não surtar, assim como eu.

Luna: “Hoje eu me mantenho atualizada, organizo minha opinião e não olho pro que os outros dizem. Só comento sobre coisas polêmicas pessoalmente, ou em um grupo de amigas que sei que terei opiniões bem embasadas e boas discussões, fora isso, escolho me ausentar.”

Karine: “O que eu to fazendo pra não surtar é falar de Love is Blind, The Circle, um pouco de BBB”

Taiza: “Eu de tempos em tempos deixo de lado. Depois, volto. Me faz bem porque eu sou bem viciada em redes sociais, então é importante dar uma descansada de vez em quando. Não parece mas a quantidade de informação (e de gente sem noção) cansa muito.”

Mayara: “Tem dias quero me desligo, é necessário se não minha ansiedade aumenta. Não acesso Instagram e Facebook e WhatsApp. Quem quiser falar comigo urgente liga.”

Ester: “ACHO que mais do que nunca aqueles princípios de moral x ética, mito da caverna, certo e errado, estão em pauta. E tem duas ondas: a onda da informação e dados, temos MUITAS informações sobre QUALQUER coisa. E a onda do palanque/arena virtual, onde TODOS temos voz. Redes sociais trouxe essa democracia da informação, da externalização, mas não acompanhou a nossa capacidade de adquirir responsabilidade e inteligencia (emocional, até) pra lidar com esse tanto de conteúdo. O @contente.vc fez um post hoje inteligentíssimo sobre a nossa capacidade de lidar com informações. NÃO DAMOS CONTA. É muita informação, é inteligencia artificial filtrando o que chega pra nós, é difícil pra caramba!”

Gabi: “Eu de verdade tenho tentado me informar o mínimo possível, então venho seguindo conteúdo mais leves, ver séries e filmes leves pra não me sobrecarregar. Foi a forma que eu encontrei, embora as vezes pense que não é a mais certa. Porém preciso pensar mais no que fazer do meu dia a dia pra mudar ainda que o micro do que acompanhar o macro e não conseguir gerenciar nada.”

Marina: “Tenho usado as redes cada vez menos e escolhido compartilhar mais das coisas que me fazem bem, do que as que me fazem mal. O mesmo para comentar, para ir atrás de notícias e tal. Sei que a informação é importante, mas não preciso estar informada a todo o tempo sobre tudo, acho que podemos nos dar esse “luxo” de vez em quando. Como se escolhêssemos mesmo nossas batalhas. Me sinto em conflito, mas ainda bem que cada vez menos, porque gostaria de produzir mais, mas ao mesmo tempo não fazer tudo por conteúdo. Tento manter um equilíbrio e tem dado certo por aqui…”

Luiza: “Eu, como jornalista, já fui uma pessoa totalmente sedenta por informações e todas as opiniões possíveis sobre alguma situação polêmica e entrar em parafuso considerando tudo. Desde as últimas eleições, eu decidi me preservar um pouco, mas como trabalho com isso, não posso me ausentar de nenhuma informação nem de redes sociais. E o que funcionou, para mim, foi: eu aceitar que 1) eu não tenho que ter opinião sobre tudo no mundo, até porque tem coisas que só admirar sua complexidade e camadas já mostram que ser categórica é burrice; 2) As pessoas expõem suas opiniões apenas por expor, na maioria das vezes, elas não querem debater, considerar ou repensar nada; então só nos gera um gasto de energia na gente que tem consideração por essas coisas, sabe, então infelizmente, ter pena dessa mesquinhez de pensamento e deixar pra lá tb tem me ajudado. Eu gosto de pensar que o mundo é isso mesmo porque a gente enquanto pessoa e sociedade é isso aí. É complexo, cabe o raso e o profundo e nós não podemos carregar o peso de todo esse caos sozinhas, sabe. Eu procuro agora sobre essas conversas, conversar mais pessoalmente que pela internet e com pessoas que eu tenho segurança de opinar, falar (nem sempre que tenham a mesma opinião que eu, mas que eu posso me expressar, sabe), e de vez em qd desligar mesmo botar um filme bem frufru, fazer alguma atividade bem aleatória como desenhar ou escrever. É isso, se não a gente surta mesmo.”

Você também tem se sentido assim? Quais as estratégias você usa para se manter sã?

1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 03.03.2020

Feliz ano novo, seja ele sabático ou não.

Eu gostaria de tirar o tal ano sabático. Pegar a mochila e ir andar pelo mundo. Quando mandasse mensagem, eu responderia: “estou rezando com as mulheres na Índia”. Tudo isso poderia ser possível se eu não tivesse uma filha de 11 anos e um trabalho, onde isso está fora de cogitação. 

No entanto, é possível alguns aprendizados aqui mesmo da zona norte do Rio de Janeiro. Mas antes, agora que Carnaval terminou: Feliz Ano Novo!!!

Imagem: Amy Shamblen

Voltando ao assunto, o que posso fazer sem pegar a mochila e ir para Bali?

Posso aprender a dizer não ao que me incomoda. Ao que não combina mais, ao que não tem a ver. A relacionamentos tóxicos ou que não te acrescentam nada. 

Amizades reais aguentam meus surtos e perguntam: “mana o que está acontecendo com você?” Um namorado de verdade não vai criticar meu jeito de ser. Uma família amorosa vai me apoiar em todos os momentos. 

Vou seguir me conhecendo. Aproveitar aquele vinho, cinema, teatro, até aquele chopp no final de tarde sozinha. Amigos e parceiros (as) não são pessoas para preencherem lacunas na minha agenda. O mesmo acontece com filhos, eles crescem e as demandas mudam.

Minha história é única e incomparável. Não a comparo com ninguém. Cada um vive sua história, que tem altos e baixos, sucessos e fracassos. Quando me comparo, esqueço de celebrar minhas virtudes e conquistas. Minha autoestima não pode estar calcada em me sentir melhor do que outro, repense isso. Tenho orgulho de você!

Os outros são espelhos de mim mesma. A forma como os interpreto diz mais sobre mim do que sobre eles. Então, procure se ver com mais complacência e ter mais complacência com os outros. É mais fácil quando vemos o outro como espelho de nós mesmos. O outro nos muda e nós mudamos o outro.

Por fim e não menos importante, vá ao encontro de quem é real e recíproco em sua vida. Pare de insistir em relações vazias e sem troca, sejam elas: familiares, amorosas ou fraternais. 

E, por fim, março, ano que se inicia. Faça diferente. Seja diferente. Você não perde nada em tentar.

Bebam água.
Abracem.
E sejam felizes.

1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 02.03.2020

Diversidade de corpos e ocupação de espaços

Meu carnaval de 2020 começou a mudar em 2019, quando o Rolê de Peso foi fundado. Somos um coletivo de gente gorda que tem o objetivo de normalizar os corpos diversos. Promovemos uma festa de tempos em tempos para termos um lugar seguro e livre de preconceitos, onde a diversidade é a regra e protagonista. Passei a ser mais ativa no rolê em junho / julho de 2019.

O outro cenário: a diversidade de corpos tem sido pauta em alguns espaços, festas, festivais e o carnaval é um deles.

EPISÓDIO 1: SARAU LIBERTÁRIO

Fomos convidados pra um evento – o Sarau Libertário, para falarmos sobre os corpos diversos no carnaval. Fomos bem coloridos e alegres, mas as cadeiras não nos suportavam. Eram cadeirinhas de plástico e começamos a incomodar e a chamar a atenção das pessoas ali, da melhor forma possível. Falávamos para pessoas do carnaval e dali saíram alguns convites. Aceitamos o do bloco Haja Amor – um bloco de música independente, feminista, LGBTQIA+ friendly, e gordoativista.

EPISÓDIO 2: ROLEZINHO SENSACIONAL

Outro debate que nos envolvemos (sem sermos convidados, mas abriram o microfone aí já viram, né!) foi um bate papo promovido pelo Festival Sensacional – um festival maravilhoso que acontece em BH. Dali também saíram vários convites, mas nos sentimos no direito de recusar alguns (por estarmos individualmente envolvidos com outros blocos ou por não concordarmos 100% com uma postura ou outra). Lá eu também conheci a Luiza – que tem o projeto das Tatuagens temporárias “Não é não!”. Foi um grande encontro.

EPISÓDIO 3: START NO CARNAVAL

Na semana anterior ao carnaval eu comecei a acompanhar quando possível a jornada de TRABALHO e luta da Maíra Rodrigues, trabalhadora sócia majoritária da empresa carnaval de BH! Há dois anos ela veio parar no meu feed mas só nos conhecemos em 2019. Ela é instrutora de fitdance e eu sou aluna dela!

EPISÓDIO 4: MAXMILHAS

Na quarta começou a minha odisséia nesse carnaval. A Maxmilhas fica em BH e convidou o Rolê de Peso para falar sobre gordofobia, corpos gordos e o carnaval. Foi incrível e cheio de significado. Estarmos num ambiente corporativo falando com pessoas muito diferentes de nós – estouramos um pouquinho a bolha!

EPISÓDIO 5: BLOCO HAJA AMOR

Na quinta foi a nossa participação no Haja Amor – ele não sai em cortejo, se apresenta parado no palco da praça México. Fomos convidados e homenageadas pela ala de dança ao som de Miss Beleza Universal. Abriram o microfone pra gente falar e havia sido um dia bosta. Eu tive uma crise de pânico por um episódio de assédio moral que passei no trabalho. Outra companheira do rolê teve o whatsapp clonado e sofreu um golpe. Mas era necessário, só o close não fazia sentido. São tempos sombrios e difíceis. O bloco foi interrompido antes do fim pela polícia. Outros blocos de luta também sofreram ação truculenta da polícia militar.

EPISÓDIO 5: BODY E MEIA ARRASTÃO!

Pus a bunda pra jogo, mas com um short na pochete, pois nem todo bloco é um Rolê de Peso e tive medo de não estar segura. Mas eu fui feliz com minha roupinha e não me senti mais triste ou menos livre e carnavalesca por ter saído de short no dia seguinte.

EPISÓDIO 6: A SOLIDÃO DAS MÃES E PAIS

Bloco das tias da Iza, com Lu e Raninha.

Outra coisa que experimentei esse ano foi fazer companhia para o marido da minha amiga, que estava com o bebê deles enquanto ela tocava no cortejo do Batiza. Ele estava só. Muita gente passou, mexeu com a Iza, o cumprimentou, mas ninguém quer ser tia no bloco. Ninguém quer beber menos ou andar mais afastada da bagunça pra ser apoio ou só companhia mesmo. Eu e mais duas amigas fomos as tias da Iza e companhias do Felipe. E foi ótimo!

EPISÓDIO 7: A MELHOR SEGUNDA-FEIRA DO ANO

Eu já falei da Maíra aí em cima. Ela é fundadora do bloco Daquele Jeito, que sai toda segunda-feira de carnaval. Ela havia me convidado há algum tempo para abrir o bloco, com uma fala sobre os corpos diversos. O carnaval de BH esteve ameaçado pela truculência, pela isenção de posicionamento, pela politicagem e pela burocracia. Juridicamente, o lado de cá perdeu, mas fomos para as ruas na força do ódio mesmo. Até segunda, tinha bloco que havia cancelado o cortejo sem saber se ia sair – e saiu! A advogada dos blocos é produtora do Daquele Jeito. A Laura foi ovacionada e merecia 100 vezes mais. Uma mulher peitando o poder público, pondo a cara na imprensa.. cheia de coragem… Olê olê olê olá, LaurAA LaurAA era o que se ouvia antes do bloco sair!

Eu aceitei o convite, mas ponderei que a militância daquele momento era o próprio carnaval de rua e a livre ocupação dos espaços públicos. Que estava tudo certo se declinassem o convite. Na concentração do cortejo a Maíra me perguntou se eu ainda estava disponível pois o convite não declinara. Eu estive disponível, tive medo, receio, pensei se a roupa estava boa e pensei na Anelise de 30 anos que chegou no carnaval de BH há 5 anos sem saber da existência da palavra gordofobia, que viu o carnaval passar e pensou que, quando emagrecesse, sairia de biquini! Ano passado eu superei uma parte – tirei a camiseta e saí com o sutiã do biquini. Segunda agora eu estava com hotpant de um biquini meu, um top de academia, meia arrastão.. como as mulheres magras que eu vi no carnaval de 2015. O cortejo cantou 3 músicas e eu fiz a primeira fala: Bom dia, democracia! Os meus registros estão picados, mas eu gostaria de dividir com vocês.. eu, meu barrigão, meu luquinho, minha história, a militância de tantos e o suporte de todas e todos que estão comigo nessa jornada. Obrigada Maíra, Lu, Rani, Margareth,… Só por estarem lá e me serem acolhida! Obrigada Ana Luiza, por ser a representatividade fora da bolha.. você foi fundamental pra esse carnaval. Obrigada, Camilla por dividir a paixão, a alegria e a luta!

EPISÓDIO 8: VIBES E TAL

Foi muita energia diferente na segunda. Não tive energia para outro bloco. Fiquei vendo os stories, conversando com as pessoas.. tentando entender o que era aquilo. Eu, mulher gorda, com muitas inseguranças, parando o carnaval dos outros pra falar de gordofobia e de machismo. Ainda não entendi, mas o episódio 8 foi sobre não sair de casa na terça. Eu precisava descansar, precisava por as ideias no lugar, precisava ouvir e também falar.

Eu vivi um milhão de coisas nesse carnaval, mas algumas certezas se renovaram mim:

  1. Meu corpo é político e não é piada
  2. O carnaval de BH é de luta e precisávamos lembrar disso
  3. Sozinha ninguém vai a lugar nenhum. Carreguei comigo todas as mulheres que eu já ouvi e me ajudaram a construir meus argumentos, as que me dedicam afeto e carinho pois eu preciso disso (canceriana, mores), as minhas companheiras amigas de luta e de vida.

Obrigada, Papo. Vocês todas estiveram comigo nessa odisseia!