1 em Autoestima/ Comportamento/ Saúde no dia 13.04.2020

Minha relação com a Bipolaridade (e uma mensagem de aprendizado e esperança)

Depois do seu primeiro texto aqui no blog, a Ednalva está usando esse nosso espaço novamente para dividir um pouco mais de suas experiências. Hoje ela fala sobre bipolaridade. Se você é bipolar, se foi diagnosticada recentemente ou se conhece alguém, vem ler. É um texto que nos faz enxergar sob outro prisma e que nos faz ver a situação com esperança. <3

Bom, esse texto vai ser tenso demais, porque mais uma vez vou usar esse recurso para escrever em detalhes coisas que vivi e nunca falei com ninguém. Então, vou usar esse espaço que as meninas me concederam para relatar toda a minha experiência com o Transtorno Afetivo Bipolar (mais conhecida como bipolaridade) e tudo o que envolveu o diagnóstico. Muitos alertas de gatilho antes de começar o texto. E muita força para quem se identificar. <3

Os primeiros sinais de alerta:

Mais de um ano antes do diagnóstico, conheci um homem no trabalho. Ficamos 5 meses entre o primeiro beijo e a primeira vez que transamos. Ele tinha uma namorada há 12 anos, mas nunca falava dela. E me deixei envolver de uma forma avassaladora.

Estávamos sempre juntos, inclusive nos finais de semana. Tinha a impressão e a ilusão que ele terminaria com ela e ficaríamos juntos. Após a 3 vez que transamos, ele terminou. Comigo.

Dois meses depois fui até o andar que ele ficava e vi uma aliança enorme no dedo dele. Se tratava de um cara metódico que jamais casaria da noite para o dia. Ou seja, em resumo, fui feita de despedida de solteiro sem ser avisada. Não estou dizendo que estava certa, mas realmente me envolvi. Aliás, eu senti um amor tão grande por ele, que acho que nunca vou saber se era a bipolaridade que me fez viver algo tão intenso.

Já tinha feito terapia por um tempo e o psicólogo falou da hipótese de Bipolaridade, mas saí da empresa, perdi o convênio e acabei não indo atrás.

Quando descobri o casamento fiquei devastada. Me lembro como hoje, eu chamando minha amiga, me trancando no banheiro da empresa para chorar copiosamente. Voltei para mesa e liguei para ele, que disse que nunca me prometeu nada. Mas contestei até que ele assumiu que omitiu que iria casar, porque sabia que eu não iria continuar com ele.

Pouco tempo depois que isso aconteceu, fui mandada embora com vários outros funcionários.

Quando os sintomas da bipolaridade pioraram: Insônia

Quando fui mandada embora, fiquei muito desanimada. Meus dias eram
limpar a casa, deitar e ficar colocando um DVD atrás do outro. Sem me dar conta que estava deprimida.

Alguns meses depois disso a insônia voltou. Mas ainda assim tinha uma energia sem fim. Mania da bipolaridade, só não fazia ideia disso.

Um dia, conversando com meu irmão, comentei sobre a insônia persistente e ele me mandou ir ao médico. Fui ao posto de saúde e um clínico geral me
receitou um antidepressivo. Resultado: fiquei mais desperta e acabei ficando 2 meses sem dormir.

Outros sintomas: Síndrome do Pânico e Mania. E nenhuma ideia do que acontecia na minha cabeça.

Estava no terceiro semestre da faculdade e me lembro de pouca coisa desse período. Uma amiga, hoje mãe da minha afilhada, ia e voltava da faculdade comigo, junto de uma outra “amiga”.

Um dia me perdi delas na hora da saída. Procurei em vários lugares e nada. Quando me dei conta, estava em completo desespero, sem conseguir sair do lugar, chorando copiosamente, sem conseguir explicar o que estava acontecendo. Liguei para minha irmã, que foi me buscar. Entrei no carro em completo silencio, não falamos a respeito e me lembro de sentir uma vergonha avassaladora.

Outro momento marcante foi um dia que saí super cedo de casa para ir à missa. No caminho, fui distribuindo livros e objetos meus para desconhecidos na rua, eufórica demais. Lembro vagamente de tomar o microfone de alguém no final da missa para cantar. Isso é muito confuso na
minha cabeça, só sei que em sã consciência jamais faria isso.

Mais um desses momentos foi na casa do meu irmão. Não sei qual foi a sequencia de fatos, mas me lembro muito bem de estar jogada no tapete da sala, chorando e gritando por ajuda, com minhas sobrinhas me olhando assustadas.

Meu irmão me tirou de lá para não deixar minhas sobrinhas ainda mais apavoradas, e me alertou que parecia que eu estava com algum tipo de distúrbio, e que precisava de ajuda.

Essa cena me atormentou por anos. Até que a terapia me fez entender que que eu não estava em mim, portanto, não poderia me culpar. Isso foi uma das coisas mais difíceis de ressignificar.

Teve uma crise que aconteceu logo depois de uma entrevista de emprego. Lembro de flashes desse dia. Assim que terminei a entrevista, fui invadida por uma certeza que seria aprovada. Cheguei numa praça, perto da empresa, tirei os sapatos e fiquei pisando na grama sentindo o sol. Eu tinha dinheiro pra ir pra casa, mas não sei dizer porque achei que não tinha como pagar a volta e saí pedindo dinheiro para muitas pessoas na rua. Passei no trabalho de um amigo que ficava no caminho, explicando que não me sentia bem e pedi para ele me levar em casa.

Um belo dia dei muitas das minhas roupas para uma mulher que mal conhecia. Peguei os dois filhos dela, levei no complexo empresarial onde trabalhei. Cheguei numa loja de brinquedo e pedi para a dona dar brinquedos como doações para elas. Na minha cabeça, ela daria brinquedos caros, mas claro que foi só uma lembrancinha. Desse dia me lembro de poucas coisas, mas a sensação da euforia consigo sentir até hoje. Como
resultado, saíram falando de mim na empresa que trabalhei.

Fui atrás de uma paixonite da época de colégio, casado e com 5 filhos, mas que na minha cabeça (totalmente desconectada da realidade) iria separar, ficaríamos juntos e eu o ajudaria a cuidar dos filhos dele.

Tudo o que sentia era muito intenso, cansativo e desconexo.

A pior crise de Síndrome do Pânico veio depois de algumas atitudes aleatórias. Entreguei meu casaco de lã para um morador de rua. Novamente achei que não tinha dinheiro para sair de onde estava. Convenci um taxista a me levar para algum lugar, que eu faria sexo oral nele. Ele me deixou em um shopping em SP e, no caminho, fiquei tentando convence-lo a irmos para um motel. Um completo desconhecido.

Entrei em pânico no shopping, comecei a chorar muito e fui levada a enfermaria. Lembro de relatar que andava tendo síndrome do pânico e pedi para chamar alguém da minha família. Essa enfermeira – muito despreparada – disse que eu não deveria incomodar as pessoas sempre que tivesse isso. Que eu deveria me controlar.

Só que não era simples como ela fazia parecer. E a sensação de desespero tomou conta de mim. Sentei-me no chão próximo à enfermaria e voltei a chorar. Eis que apareceu um casal, pegaram meu celular e ligaram para um dos meus irmãos, que foram me buscar. Quando chegamos em casa, lembro deles falando que eu precisava aceitar ajuda, mas na verdade nenhum de nós sabíamos o que estava acontecendo. Só sabíamos que nada do que eu andava fazendo tinha a ver com o que eu era de verdade.

A internação:

Lembro da minha irmã e do meu cunhado me falaram para entrar no carro. Obedeci, me levaram para a casa e comecei a chorar. Falaram que engatinhei, que eles foram me buscar pois estava vagando pelo bairro.

Um tempo depois chegou o SAMU, levantei e fui com eles, como se nada tivesse acontecendo. Passei pela minha mãe, que estava chorando muito, e disse: “Mãe, não chora, vou ali e já volto.” Ela chorou mais ainda, por ficar tão claro que eu não fazia ideia do quanto fora de mim estava.

Chegamos no hospital e fui para a psiquiatria de um hospital em SP. Enquanto aguardávamos se teria um quarto para que fosse internada, vi monstros na parede. Por sorte, um quarto ficou disponível e fiquei 26 dias internada. Destes, 15 eu não lembro de quase nada. Alguns fatos me marcaram muito:

  • Achava que minha casa estava sendo reformada pelo Luciano Huck e estava internada para que fizessem essa surpresa.
  • Via a avenida do Hospital como se tivessem carrinhos hot wheels.
  • Eu achava que tinha uma sala do Harry Potter onde ficava guardada a bota de um dos personagens.
  • Via o Vin Diesel e o meu primeiro namorado abusivo como se fossem os seguranças.
  • Me lembro de pegar um shampoo, me sentar no meio do corredor e “tomar banho” porque me sentia suja. Achava que estava de lingerie mas falaram que estava nua.
  • Lembro de me amarrarem na cama, enfermeiras pedirem para deixar aplicar a injeção. Os seguranças e enfermeiras me seguravam e aplicavam à força na perna. A dor é algo inesquecível.
  • Meu irmão falando que enquanto eu visse o Vin Diesel, eu não poderia ir para a casa. Respondia: “Mas eu vi”. Hoje lembro dessas coisas e rio.

As coisas boas da internação:

  • Minha família e amigos se revezavam, não fiquei um dia sequer sem visitas, sendo que muitos pacientes da psiquiatria não recebem nenhuma visita.
  • Fui diagnosticada nessa única internação. O que certamente fez toda a diferença em como lido com a Bipolaridade hoje.
  • Sempre vou falar que o Hospital Campo Limpo – que tanto falam mal – salvou a minha vida.

Pós internação:

Passei um mês tomando 15 tipos de remédios diferentes. No começo vivia dopada, não conseguia ficar acordada mais que 30 minutos, mas segui tudo à risca. Aproximadamente 3 meses depois, já não tomava mais a maioria deles.

Faço tratamento há 10 anos. Nunca neguei o diagnóstico e nem deixei de tomar as medicações. O medo de perder a sanidade é infinitamente maior que os desconfortos por efeitos colaterais.

Hoje lido muito melhor com as minhas crises. Consigo identificar quando algo está fora dos eixos e procurar psiquiatra e psicóloga. A bipolaridade não toma mais conta de mim.

As pessoas só sabem que eu sou neuroatípica se eu contar. Vivo uma vida absolutamente normal.

Por não falar muito à respeito, fiquei anos me culpando pelos comportamentos que tinha nas crises. Sendo que muitas vezes nem lembrava, mesmo quando alguém me contava.

Para quem é bipolar ou convive com alguém com bipolaridade:

  • Fazendo tratamento dá para diminuir drasticamente as crises. Quando elas aparecem, não é na intensidade que poderíamos ter sem medicações e terapia.
  • Aceitem o diagnóstico. O encarem qualquer doença que precisa de remédios para a vida toda, mas que seguindo o tratamento tudo fica bem.
  • Faça terapia, fale todos os seus medos, culpas e traumas não só referente as crises, mas sobre toda a sua vida. Conforme for se entendendo. Tudo fica melhor.

Querido bipolar, é absolutamente normal se perguntar o que é sua personalidade e o que é a bipolaridade. A terapia ajuda muito a chegar nessas respostas. Acredite que dá para ter uma vida sem o inferno das oscilações de humor.

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1 Comentário

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    Janeisa
    09.05.2020 às 15:17

    Parabéns pela coragem de expor uma doença mental tão estigmatizada e com tantos preconceitos hipócritas. Fico feliz em saber que você teve ajuda e muito amor de seus familiares. Precisamos falar sobre isso para mudar essa realidade e para que outras pessoas não passem o que você passou. Boa sorte e felicidades!

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