0 em Autoconhecimento/ Comportamento no dia 22.08.2019

O que voluntariado tem a ver com privilégio?

Durante grande parte da minha vida me questionei sobre o que é um privilégio. Seria ter condições para frequentar uma escola particular? Passar horas estudando inglês britânico como atividade extra? Ter uma lancheira rosa da Barbie com lanchinhos gostosos para comer no recreio?

Ou só isso não seria um privilégio, e sim um combo de viver em um lar emocionalmente estável? Com pais que te amam incondicionalmente e te apoiam nas suas decisões? Que te colocam na cama quentinha para dormir e te dão um beijo na testa? 

O privilégio é um universo amplo, dá abertura para muitas perspectivas.

Para mim, privilégio é compreender em que posição na sociedade se está. E ter consciência e poder de ação para poder compartilhá-lo com os que não o possuem.

Privilégio para Nana, indiana de 35 anos, é poder aprender a fazer contas de matemática para vender milho na venda da esquina de uma cidade no interior da Índia. Ou é simplesmente poder sentar em uma privada limpa e usar papel higiênico. 

O que pode passar batido aos olhos privilegiados é, justamente, algo extraordinário na vida de um ser humano cheio de faltas. Daquelas faltas primárias: saúde, saneamento básico, comida de qualidade, educação, segurança. Esse papo dá pano para manga, mas antes de começar a falar sobre voluntariado precisava contextualizar sobre privilégio e o poder na mão de quem o possui.

Pensar nesta múltipla faceta do privilégio me fez acionar aquele botão geralmente esquecido: o botão da ação.

Esse botão é complexo. Não apenas porque ele entra na mesma reflexão abrangente sobre privilégios. Mas porque ele está conectado com a interpretação do que é amar, e se dedicar. Reorganizar privilégios, no qual a luta pela causa escolhida é maior que seu próprio conforto.

Dói. E é uma dor que não é nossa mas se torna nossa. Sentimos a dor como se nos pertencesse. Tem coisa mais bonita do que isso? De repente essa é a verdadeira beleza do caos.

Falei sobre privilégio e amor, agora, explico: essas são dois dos pilates mais importantes de quem escolhe viajar para voluntariar. O terceiro?  Preparação. Preparação emocional, financeira e sócio-cultural.

Devemos tratar o voluntariado com extrema responsabilidade.

Minha experiência começou nova, quando minha mãe fazia quimioterapia no hospital. Nessa época eu ia passando de quarto em quarto conversando com as pessoas. Eu queria escutá-las. Dar um abraço, uma força. Depois fui crescendo e agindo localmente. Ao invés de Ovo de Páscoa eu pedia para meu pai ir para as ruas de São Paulo comigo. Já participei de grupos nas madrugadas para cuidar de moradores em situação de rua. Entreguei flores para idosos. Dei aula de inglês em comunidades. Criei arrecadações, e depois de ler muito, me sentir preparada e uni as vontades de conhecer novas culturas e participar de uma missão humanitária fora do Brasil.

Em 2017 fui passar 1 mês na África do Sul, em uma comunidade nascida durante o Apartheid. Lá eu cozinhei para as crianças, brinquei com elas, cuidei de bebês. Pintei escola, cuidei de idosos, plantei hortas. O trabalho era de acordo com a urgência e com a necessidade. Os projetos em si são bastante desorganizados – etapa que precisamos de uma pitada de paciência. Estamos na cultura do outro. O comum para nossa realidade não é igual para uma comunidade de outro lugar.

Muitos pensam que voluntariado é fácil. Você vai lá com suplementos e pronto.

Mas como propor um novo pensamento a professora da escola? Como conscientizar pais alcoólatras? Temos que ter paciência para realizarmos atividades consistentes e realistas.

Pessoalmente acredito que a maior ferramenta é educar e criar ações que sejam autossuficientes. Infelizmente não podemos passar a vida lá, e voluntários são temporários. Uma horta por exemplo. Tem que incentivar o cuidado, como administrar, como colher. Como aproveitar ao máximo o vegetal? A fruta? Implementar ideias de receitas acessíveis e locais. Projetos que serão sustentáveis a longo prazo.

Por isso que eu reafirmo a necessidade do preparo. É necessário estudar antes de ir. A cultura, o clima, alimentação. São muitos fatores.

Depois desta missão, retornei no inverno do mesmo ano, por mais 3 meses. Queria viver mais de perto e implementar projetos duradouros.
De lá fui para outro grande desafio: um projeto de empoderamento feminino em uma comunidade da Índia.

Nesta parte entra outro requisito importante: o lado emocional. 
Quando se é privilegiado e você tem um contato forte com o outro lado da realidade humana, pode ser um choque. Dos fortes. É um paradoxo. Dá raiva, indignação, tristeza. Mas também dá felicidade e alívio. O poder da ação, de estar lá e fazer com suas próprias mãos a mudança do futuro.

Pode ser que você mude a vida de uma mulher ensinando matemática ou inglês. Ela vai mudar a vida da filha dela – que está no colo enquanto estuda. Me lembro de apresentar o documentário da australiana Taryn Brumfitt, disponível na Netflix, sobre a relação das mulheres com o corpo.
Quando foi falado sobre estrias na barriga, após a gravidez, por exemplo, elas levantavam seus Sáris e mostravam umas as outras: “olha, eu tenho aqui.” A outra sorrindo de alívio disso: “eu também!” Elas riram do que pensavam as pessoas sobre os corpos. Falamos sobre vergonha, sobre menstruação, sobre maternidade. Temas comuns em algumas culturas, em outras não.

Sentir que podemos melhorar vidas é uma das sensações mais lindas que já senti.

E não importa onde. Pode ser no seu bairro, na sua cidade, em outro estado ou em qualquer canto do mundo. Ajudar de forma ativa é sempre maravilhoso. É viver a história do outro e fazer de tudo para fazê-la mais leve e saudável. É sentir na pele. É entrega. É reorganizar prioridades. É também tirar a venda dos olhos acomodados. É enxergar beleza em detalhes cotidianos e nos libertar.

Se você tiver alguma dúvida sobre o processo de voluntariar no exterior, pode me procurar que ajudo com todo amor. Só se lembre que você não precisa viajar para começar, em todo lugar tem alguém que podemos ajudar.

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