1 em Sem categoria no dia 09.05.2019

Balbúrdia nas universidades. Vindas de quem mesmo?

Balbúrdia. Segundo o dicionário Aurélio, substantivo feminino. Desordem. Tumulto. Trapalhada. Confusão. Recentemente, após uma leitura rápida no noticiário, constatei que balbúrdia se tornou sinônimo de universidade pública. E justificativa para os cortes orçamentários em instituições de ensino federais e estaduais.

Sob qual argumento? Quais interesses ocultam tais medidas? E por que agora?

Antes de tentar responder tais perguntas, preciso me apresentar. Sou jornalista e estudante de pós-graduação em Comunicação Social pela UERJ. A graduação foi realizada em uma universidade particular, à noite, após oito horas de trabalho diário em uma grande empresa de telecomunicações.

A decisão por uma segunda formação veio acompanhada de muitos sonhos e expectativas. Totalmente em desacordo com o mercado jornalístico atual, onde as demissões somam-se à precarização do trabalho. Ainda assim, mantive o foco em tentar um mestrado na área. E, depois de dois anos, consegui.

Não é fácil adentrar o universo acadêmico. Ainda mais para quem que, como eu, não fez parte de iniciação científica. Nem estava familiarizada com as rotinas e autores da área. E, como acontece em grande parte dos casos, fica mais difícil ainda para quem tem boletos e contas para pagar no final do mês.

Ainda assim, apostei no caminho acadêmico. Condicionando-o à existência de uma bolsa-auxílio para a pesquisa. Somente assim eu conseguiria estar presente às aulas de mestrado. Realizar as atividades de pesquisa de campo. Comparecer a eventos científicos e produzir textos que contribuiriam com meu crescimento profissional.

Quando, afinal, fui selecionada por um programa de pós-graduação na Universidade Federal Fluminense, eu carregava nas costas um peso corporal e psicológico maior do que podia aguentar. Mas tinha muitas esperanças.

Eu seria irresponsável em dizer que a pós-graduação não teve seu preço na minha vida pessoal e profissional. Mas, quando olho para meu percurso, o saldo foi extremamente positivo. Em que outro lugar eu conseguiria encontrar projetos incríveis e professores e companheiros maravilhosos? muitos deles mobilizados em pensar e modificar o mundo?

Balbúrdia? Vi pouca ou nenhuma.

As vozes quase sempre se exaltavam quando se falava em cortes de verbas. Em falta de pagamento de energia ou fechamento dos restaurantes universitários (única refeição de muitos alunos cotistas e oriundos de outros Estados). Ou diminuição do incentivo à pesquisa e paralisação de obras absolutamente fundamentais ao funcionamento da universidade.

Estive em muito campus da UFF, UFRJ e UERJ como palestrante, aluna externa e pesquisadora. Em nenhum espaço visitado ao longo de dois anos fui confrontada com alunos nus. Não que isso fosse me causar espanto. Aprendemos, nas ciências humanas, que o corpo é instrumento fundamental de expressão, ou, como dizem por aí “ nosso corpo, nossas regras”.

Assim funciona a universidade pública, em tudo de bom e ruim que pode ter: ambiente de muitas discussões, debates e confrontos, onde nada está posto, nem mesmo os recursos, materiais e imateriais. Tudo é debatido, ao extremo.

Tumulto, Confusão, Desordem? Alguma. Como em qualquer espaço coletivo onde se produz conhecimento. Muito trabalho e responsabilidade também.

E tal cenário, para mim, só se tornou ainda mais claro quando, no doutorado, entrei na UERJ. O ano era 2016 e na instância estadual, o governo decretava a suspensão do repasse de verbas à universidade, bloqueando o pagamento de funcionários e fornecedores. Nesse viés, bolsa de auxílio era algo que não havia. Restaurante universitário, luz elétrica, elevadores e segurança, também não.

Mas a universidade, dentro dos limites do impossível, continuou funcionando. Seja por doações de professores, funcionários e alunos, no compartilhamento de informações, na ocupação do restaurante por alunos que, mediante doações, garantiam as refeições diárias. Seja nas colaborações de alimentos, transportes e livros e a na realização de aulas em outros espaços como centros culturais e até mesmo a casa dos professores, quando era necessário.

Balbúrdia? Não. Contingenciamento e resistência.

Para mim, que tinha minha permanência no doutorado vinculada a ter bolsa ou conseguir um emprego externo, o que felizmente acabou acontecendo – era sobrevivência. Se não tivesse conseguido trabalhar em uma instituição privada por um ano, eu seria mais uma aluna obrigada a desistir do doutorado. Felizmente, alguns meses depois de ser demitida, eu consegui uma bolsa de pesquisa, de trinta e seis meses, o tempo que faltava para terminar o curso. E estou nela até hoje.

A bolsa é generosa em comparação com o salário mínimo federal e a quantidade de brasileiros contemplados nessa faixa salarial, quase metade da população nacional (PNAD, 2016). Ainda assim, é difícil manter-se em dia com os eventos científicos, pesquisas de campo, leituras e demais compromissos – como o estágio docência, obrigatório no doutorado. Sem esquecer das contas familiares, do transporte e da alimentação.  Como conciliar?

Enquanto tentamos em vão equilibrar vida profissional e pessoal. Sobrevivendo às críticas de grande parte da população que trata os pós-graduandos como “estudantes profissionais” e vagabundos, vem a notícia do corte de verbas em instituições de educação básica e superior.

Na prática, o governo chama de contingenciamento (DECRETO Nº 9.741/2019) a interrupção do repasse de verbas de custeio à universidades e institutos federais. O que, de modo bem resumido, afeta as obras, compra de equipamentos, merenda escolar para alunos de baixa renda e também despesas básicas como luz e gás.

Penso no ano de 2016 e uma imagem me vem à cabeça: as cestas básicas espalhadas pelo hall de entrada da UERJ. Organizadas por professores e alunos para auxílio dos profissionais de limpeza, segurança e ascensoristas, os maiores afetados pelo contingenciamento do governo do Estado do Rio de Janeiro.

Balbúrdia? Tumulto? Sim! Realizados pelo governo federal e estadual, com o objetivo de eliminar a educação pública no país através do estrangulamento financeiro.

Enquanto escrevo esse texto, a revista Isto É acaba de publicar uma reportagem informando que o mesmo Ministério que realizou os cortes em instituições públicas de educação, acelerou o processo para credenciamento de instituições privadas de ensino. Ao que parece, devemos rever nossos conceitos de tumulto, desordem e balbúrdia. E associá-los a agentes públicos que, sob uma cortina de fumaça midiática, impedem o exercício de cidadania garantido em Constituição. Até quando resistiremos, nós, os desordeiros, tentando fazer ciência e educação ao custo de nossas próprias vidas pessoais e profissionais? Essa é uma pergunta que eu deixo para reflexão de vocês.

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1 Comentário

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    debora aline de almeida
    10.05.2019 às 9:20

    Balburdia?! Ah esse governo =/

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