1 em Autoestima no dia 03.04.2019

Buscando pertencer a você, me perdia de mim.

Era uma vez uma “boa menina”. Boa em português, boa em inglês, boa com os amigos, boa no almoço em família, boa em não falar demais, boa em não brincar na rua, boa em escrever… uma menina muito boa em tudo que lhe permitiram ser. Até certo momento da minha vida era assim que me via: adequadamente boa no que me cabia!

Mas um belo dia eu decidi questionar: quando eu comecei a ser “boa” assim e por que motivos?

Foi aí então que o conto de fadas passou a desmoronar, como uma cama de gatos, um fio que puxa o outro e todos os fios que são um só, embaraçados no destino de uma mulher negra.

Eu queria muito estar curada o suficiente para não chorar escrevendo esse texto, porque eu sei que ele não é só meu, não é só sobre mim e talvez eu devesse sorrir por entender que hoje eu sei o quão boa eu posso ser ao que me dispor fazer. Mas ainda dói.

Eu sempre estive entre as melhores da turma e isso não era acaso, eu sempre me esforcei e me orgulhei da minha intelectualidade. Meu passa tempo favorito era ler dicionários para encontrar palavras bonitas e incomuns o suficiente para fazer com que metade dos meus amigos não entendessem o que eu escrevia e também por isso me admirassem ainda mais. Eu me perdi entre o que era dom e o que eu fazia parecer que fosse, entre o que eu realmente gostava e o que só usava de compensação para as ausências afetivas.

Eu precisava do bom desempenho escolar para pertencer a um grupo. Afinal, você deve saber que a maioria dos grupos têm seus critérios de pertencimento. Nesse caso, ou você era bonita, ou era popular, ou tinha dinheiro, ou podia também trabalhar duro fazendo atividades que não eram suas, aprendendo a matéria para garantir que todos passassem, não só você e enfim oferecendo algo que o grupo pudesse se interessar.

Digamos que se houvesse um boletim de autoestima, minhas notas sempre estariam abaixo da média.

Eu fui crescendo e as chances foram aumentando, mas ainda assim, estar entre as opções amorosas nunca foi uma realidade próxima. Escolher de quem eu gostava então? Aí já era demais! Vamos esperar e ver quem me quer ou somente cultivar amores platônicos nos rabiscos dos meus diários coloridos.

Hoje eu entendo que a minha história é sobre ser preterida, é sobre compensação e silenciamento, entendo que eu não estava louca de paixão e que muitas vezes era só desespero, que eu não fui a melhor namorada em vão, que eu não cuidei meticulosamente das datas e dos presentes nos meses de aniversário só por ser carinhosa demais e que no fundo eu acreditava quando ele me dizia que sem ele eu não encontraria mais ninguém.

Eu precisei reconhecer minha nobreza para me sentir digna de algo mais nobre que a compensação, como o amor.

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1 Comentário

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    Renata
    04.04.2019 às 17:51

    Essas palavras tocaram bem fundo no meu coração! Identificação plena.

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