2 em Autoconhecimento no dia 15.03.2019

Silenciar para não desanimar

Dá uma vontade de desanimar. Uma vontade de fechar as janelas, tirar tudo da tomada e me esconder debaixo do cobertor. Deslogar de todas as redes sociais, porque sei que em menos de 5 minutos, irei me deparar com as piores notícias. Vou ver mortes, vou ver ódio, vou ver lamentos, injustiça. Vou ter minha energia sugada por uma tela de computador.

É difícil não desanimar, eu sei. Quantas vezes eu já não cogitei sair de Facebook, dar um tempo do instagram, silenciar quase todos os meus grupos do Whatsapp. Até mesmo os que só existem para compartilhar bobagens. É muita informação pra pouca pessoa. 

Silenciar para não desanimar. 

O recolhimento é preciso. Como diz minha amiga em um texto que está mexendo comigo até agora e me inspirou a escrever esse: “Não paramos mais pra conversar. Olho no olho. Pior que isso, não nos calamos mais. Não silenciamos para deixar as coisas se assentarem. Estamos doentes e dependentes. Precisamos o tempo todo gritar, esbravejar, opinar. Eis-me aqui.”

Também estou aqui, usando esse espaço para desabafar depois de dois dias mais caladinha, aprendendo a me silenciar.

Tendo a romantizar o passado. Como as pessoas faziam para se livrar de suas angustias? Escreviam em diarios? Conversavam por horas com seus amigos no telefone? Se encontravam mais? Será que era melhor?

Venho para o presente e me convenço que não.

Hoje, enquanto estou aqui, sentada na frente do computador escrevendo esse texto, estou conversando com essa amiga que escreveu o texto que eu indiquei acima. Eu no Rio de Janeiro, ela em Nova York. Estamos nos dando a mão virtualmente e nos fazendo lembrar que a internet também tem esse poder de união.

Estou também dando um puxão de orelha em outra amiga, que também está longe. E sei que em algumas horas, estarei fazendo FaceTime com meu filho, matando um pouco das saudades. Até mesmo a hashtag sobre a morte da Marielle, que fez 1 ano ontem, mostrando tanta gente disposta a manter o legado de coisas boas que a vereadora fez em vida, deu um quentinho no coração. 

Mas saber quando silenciar me parece cada vez mais necessário.

Essa semana, justamente no dia que aconteceu a tragedia em Suzano, as principais redes sociais que usamos estavam intermitentes. Muita gente não conseguiu postar nada, não dava pra mandar audio nem imagens. E sinceramente, foi um presente. Não só porque ficou tudo centralizado na televisão, mas também porque fez com que a gente controlasse um pouco a necessidade de estar sempre falando sobre tudo que acontece. 

Não quero mais me envergonhar porque não sei a última notícia horrorosa que saiu no jornal. Preciso parar de querer saber tudo que acontece, dar uma pausa na setinha de refresh, ou de arrastar a tela do celular pra baixo para pedir conteúdo novo. Quero me dar ao direito de não precisar expor minha opinião sobre tudo o que acontece só para não parecer (pra muita gente que nem me conhece direito) que eu não me importo. É muito fácil se deixar contagiar pelo desanimo, é muito fácil achar que tá tudo perdido. E é muito fácil ficar com medo de se alienar.

“Nossa, onde você estava? Em um iglu no Alaska sem internet?”

Quero parar de achar que essa frase é um sinal de alienação. Quero responder: “não, mas estava lendo um livro/brincando com meu filho/saindo com meus amigos/fazendo qualquer coisa que não fosse olhar para uma tela de computador”. Quero silenciar sem me sentir culpada por isso. E usar a energia que vai me sobrar por estar cuidando de mim para fazer a diferença nas áreas que eu tenho alcance. Quer vir comigo?

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2 Comentários

  • RESPONDER
    Lis
    17.03.2019 às 17:24

    Carla, eu venho de uma vida de muita falação e anos de silêncio. Entendi que meu silêncio era preciso, era saudável pra mim e para minha vida. Ter sido a vida toda alguém vista como falante e comunicativa, me colocava sempre em posição de falar muito. Me recolhi, sumi, me guardei e silenciei. O estranhamento dos outros sobre meu novo posicionamento na vida (no meu caso) só me fez ver que se a pessoa não sabe do meu sumiço é porquê não estava aqui perto para ajudar também. Ressignifiquei o silêncio e sigo nesse aprendizado do momento presente, do silêncio que enlouquece e cura ao mesmo tempo.

    • RESPONDER
      Carla Paredes
      18.03.2019 às 14:27

      Que bacana essa sua reflexão! Faz todo sentido, Lis. Adorei o que vc escreveu. Beijos!

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